Literatura e Palavras
Poemas neste tema
Fontoura Xavier
O Epigrama
O epigrama é uma centelha
Do espírito do Diabo,
Faísca como um pirilampo: e, ao cabo,
Se assemelha
A uma abelha,
Por ter ferrão no rabo.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.66. Poema integrante da série Clowns
Do espírito do Diabo,
Faísca como um pirilampo: e, ao cabo,
Se assemelha
A uma abelha,
Por ter ferrão no rabo.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.66. Poema integrante da série Clowns
1 235
Nelson Ascher
Voz
Ninguém jamais
regeu tão extra-
(pois sem rivais)
vagante orquestra
como a que destra-
vando os umbrais
com chave-mestra
— cordas vocais —
propõe que além da
canção, com elas,
a mente aprenda
(mais do que vê-las
sem qualquer venda)
a ouvir estrelas.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 47
regeu tão extra-
(pois sem rivais)
vagante orquestra
como a que destra-
vando os umbrais
com chave-mestra
— cordas vocais —
propõe que além da
canção, com elas,
a mente aprenda
(mais do que vê-las
sem qualquer venda)
a ouvir estrelas.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 47
1 012
Eudoro Augusto
A Prática do Léxico
A linguagem tolera o livre trânsito
da palavra prisioneiro.
Nenhum poder de exceção sustenta
a palavra tirano.
Publicado no livro Dia sim dia não (1978).
In: ALVIM, Francisco. Poesias reunidas, 1968/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. p.167. (Claro enigma
da palavra prisioneiro.
Nenhum poder de exceção sustenta
a palavra tirano.
Publicado no livro Dia sim dia não (1978).
In: ALVIM, Francisco. Poesias reunidas, 1968/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. p.167. (Claro enigma
958
Augusto Massi
Natureza-Morta
Revelar
em frases curtas
a fúria das frutas
Revelar
o que a ordem oculta
formas em perpétua luta
Revelar
matéria própria à pintura
infância das fraturas
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
em frases curtas
a fúria das frutas
Revelar
o que a ordem oculta
formas em perpétua luta
Revelar
matéria própria à pintura
infância das fraturas
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 322
Olga Savary
David
Não sendo bicho nem deus
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.
Rio, dezembro de 1974
In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.
Rio, dezembro de 1974
In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
1 886
Paulo Bomfim
XXIII [A linguagem do eterno
A linguagem do eterno
Principia no efêmero.
Em nosso mar
A intuição é pérola.
Poema integrante da série Prelúdios de Inverno.
In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955
Principia no efêmero.
Em nosso mar
A intuição é pérola.
Poema integrante da série Prelúdios de Inverno.
In: BOMFIM, Paulo. Sinfonia branca. São Paulo: Martins, 1955
1 452
Zuca Sardan
Mal Comparando
Se poesia fosse táxi
já arrancava
com o leitor pagando
bandeira dois.
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
já arrancava
com o leitor pagando
bandeira dois.
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
1 402
Paulo Leminski
de ouvido
di vi
di do
entre
o
ver
&
o
vidro
du vi do
di do
entre
o
ver
&
o
vidro
du vi do
3 135
Paulo Leminski
KAWÁSU
"Kawásu" é "sapo", em japonês.
Imagino ter relação original com
"kawa", "rio". O batráquio é o animal
totêmico do haikai, desde aquele
memorável momento em que Mestre
Bashô flagrou que, quando um sapo
"tobikômu" ("salta-entra") no velho
tanque, o som da água.
Imagino ter relação original com
"kawa", "rio". O batráquio é o animal
totêmico do haikai, desde aquele
memorável momento em que Mestre
Bashô flagrou que, quando um sapo
"tobikômu" ("salta-entra") no velho
tanque, o som da água.
1 766
Paulo Leminski
sim
sim
eu quis a prosa
essa deusa
só diz besteiras
fala das coisas
como se novas
não quis a prosa
apenas a idéia
uma idéia de prosa
em esperma de trova
um gozo
uma gosma
uma poesia porosa
eu quis a prosa
essa deusa
só diz besteiras
fala das coisas
como se novas
não quis a prosa
apenas a idéia
uma idéia de prosa
em esperma de trova
um gozo
uma gosma
uma poesia porosa
1 893
Paulo Leminski
um bom poema
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
4 729
Paulo Leminski
manchete
CHUTES DE POETA
NÃO LEVAM PERIGO À META
NÃO LEVAM PERIGO À META
2 241
Paulo Leminski
cansei da frase polida
cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas
3 661
Paulo Leminski
Nada me demove
nada me demove
ainda vou ser
o pai dos irmãos Karamazov
ainda vou ser
o pai dos irmãos Karamazov
1 570
Vladimir Maiakovski
DE V INTERNACIONAL
(tradução: Augusto de Campos)
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.
3 909
Vladimir Maiakovski
ESCÁRNIOS
(tradução: Augusto de Campos e Boris Schnaiderman)
Desatarei a fantasia em cauda de pavão num ciclo de matizes, entregarei a alma ao poder do enxame das rimas imprevistas.
Ânsia de ouvir de novo como me calarão das colunas das revistas esses que sob a árvore nutriz es-
cavam com seus focinhos as raízes.
Desatarei a fantasia em cauda de pavão num ciclo de matizes, entregarei a alma ao poder do enxame das rimas imprevistas.
Ânsia de ouvir de novo como me calarão das colunas das revistas esses que sob a árvore nutriz es-
cavam com seus focinhos as raízes.
2 027
Felipe Vianna
INVEJA
Poesia de uma nota só
Para a inveja.
Dó!
18/11/1997
Para a inveja.
Dó!
18/11/1997
757
Felipe Vianna
AMOR EM VERSO
Quando te conheci
Criamos nosso beijo,
Nosso som.
Flor do belo
Numa noite de verão
Que há de cruzar os mares, ares,
Décadas e milênios
Imortalizado nesse verso
Pois a pena é mais forte que a bala
E mais fiel que a pedra.
Criamos nosso beijo,
Nosso som.
Flor do belo
Numa noite de verão
Que há de cruzar os mares, ares,
Décadas e milênios
Imortalizado nesse verso
Pois a pena é mais forte que a bala
E mais fiel que a pedra.
759
Márcia Cristina Silva
Viagem vital
Às vezes
é preciso
destravar as portas
abrir todas as janelas
soltar o cinto da insegurança
e decolar...
Para assistir à Terra
de luneta
Comer pipoca
sentada na lua
Escorregar pelas pontas das estrelas
Dançar no ventre das nuvens
Sonhar em outros planetas
Às vezes
é preciso
ficar só
com um papel e uma caneta!
é preciso
destravar as portas
abrir todas as janelas
soltar o cinto da insegurança
e decolar...
Para assistir à Terra
de luneta
Comer pipoca
sentada na lua
Escorregar pelas pontas das estrelas
Dançar no ventre das nuvens
Sonhar em outros planetas
Às vezes
é preciso
ficar só
com um papel e uma caneta!
1 047
Fátima Andersen
Não sei
Não sei de mim
se daquilo que parece ser
me perdi.
Deixei que a vida me vivesse e,
perdendo-me da vida,
a vida perdeu-se.
E menti muito,
para ser melhor
poeta.
se daquilo que parece ser
me perdi.
Deixei que a vida me vivesse e,
perdendo-me da vida,
a vida perdeu-se.
E menti muito,
para ser melhor
poeta.
915
Flora Figueiredo
A pedidos
Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.
1 338
Myriam Fraga
Possessão
O poema me tocou
Com sua graça,
Com suas patas de pluma,
com seu hálito
De brisa perfumada.
O poema fez de mim
O seu cavalo;
Um arrepio no dorso,
Um calafrio,
Uma dança de espelhos
E de espadas.
De repente, sem aviso,
O poema como um raio,
- Eleobá, pomba gira!
Me tocou com sua graça
Com sua graça,
Com suas patas de pluma,
com seu hálito
De brisa perfumada.
O poema fez de mim
O seu cavalo;
Um arrepio no dorso,
Um calafrio,
Uma dança de espelhos
E de espadas.
De repente, sem aviso,
O poema como um raio,
- Eleobá, pomba gira!
Me tocou com sua graça
1 700
José Carlos Ferreira
O sexo sem risco
O sexo sem
risco não:
sem rabisco não há poema
nem nuvens cúmulus-nimbus no céu.
Traçados, medidos os modos
de agir, de gozo,
restam regra e exceção.
A frestra, a nesga, a execração.
Problema em sexo:
não.
Não
tem esse jeito agressivo de se escrever, ininterrupto, enérgico.
Pois sexo n érgico quero.
risco não:
sem rabisco não há poema
nem nuvens cúmulus-nimbus no céu.
Traçados, medidos os modos
de agir, de gozo,
restam regra e exceção.
A frestra, a nesga, a execração.
Problema em sexo:
não.
Não
tem esse jeito agressivo de se escrever, ininterrupto, enérgico.
Pois sexo n érgico quero.
720
Fernando Fabião
Em Louvor do Silêncio
Em louvor
do silencio
Lembro os peixes mudos percorrendo o sono
Um fruto que cai grave
No corpo da terra
Lembro o aroma das glicínias
O murmúrio dos mortos povoando as casas
Os versos obscuros onde habita a delicadeza do amor.
É nos estilhaços do mundo
Que o indizível se escreve
Invade as folhas, as mãos pousadas na orla do mar.
do silencio
Lembro os peixes mudos percorrendo o sono
Um fruto que cai grave
No corpo da terra
Lembro o aroma das glicínias
O murmúrio dos mortos povoando as casas
Os versos obscuros onde habita a delicadeza do amor.
É nos estilhaços do mundo
Que o indizível se escreve
Invade as folhas, as mãos pousadas na orla do mar.
885
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