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Poemas neste tema

Luiz Nogueira Barros

Luiz Nogueira Barros

O fantasma e o vento

Pétalas sem cor
e sem perfume
da rosa
morta no ventre
da fantasia.

E no jardim
d’inesperado outono
ao sabor do vento
que passa leve
com passos de brisa
e sobre o chão
revolve os restos
do que foi sonho
há solidão.

E o vento diz
que ali um dia
houve uma rosa
que era a primeira,
tão grande e bela
mas só o projeto
que conheceu
no curto tempo
da duração
de ser botão.

E que ainda assim,
no tal jardim há o fantasma
de certo homem
que tenta em vão
compor com as pétalas
da rosa morta
o que foi sonho
de abrir-se ao mundo.

E que sempre fala
com a insistência
dos tresloucados
da morte inglória
do tal botão.
E em seus delírios
nas noites claras
chora a dor
da fantasia
que o enganou.

724
Luciano Matheus Tamiozzo

Luciano Matheus Tamiozzo

Já Falei

Já falei tanto de amor,
De sonhos e palavras,
Já falei tanto de lágrimas,
Tritezas e sons.

Já falei de mim,
De ti e de nós,
Já falei de pensamentos
Luzes e sóis.

Já falei sobre tudo,
Mas o mais importante
Ainda não falei.

Pois as palavras
Para isto não achei.

957
Leão Moysés Zagury

Leão Moysés Zagury

Em relação aos pronomes

Ao escrever poemas pronominais
perdi algumas letras.
Escrevendo para você
perdi ...

Perda, sentimento revolto
num mar tempestuoso,
onde nosso orgulho navega.

Pronomes: possessões irreais
ilusões passageiras.
Ah! como é belo
verter lirismo
perante o impossível sonho.

Sempre alguma coisa
corroendo a alma,
na passagem do tempo.

Serão marcas mercadológicas
o motivo?
Nunca se conhece.

Sonhos impossíveis
calando, ferindo sensibilidades,
provocando despertar que se
vai por aí.

Nunca se conhecem
as facetas dos pronomes
ainda usados em vender
peças,roupas,casas,aviões etc.

Não conhecemos a extensão
da força prononominal,
nas frases,versos,
enfim no infinito
universo gramatical
impessoal, sempre duro.

Os versos vão sendo
terminados, enquanto
os pronomes nos saúdam
procurando...

Pronomes.
Fim!

828
Luís Inácio Araújo

Luís Inácio Araújo

A Palo Seco

Meu poema armado
com lacônicas palavras
(contundente arpejo)
canta-se assim torto
como não convém
e maneja facas
lâminas secas
pra te dizer certas coisas
que te fariam sangrar:
profundamente.

673
Luis Germano Graal

Luis Germano Graal

Se de Repente

Se de repente
Subitamente
A qualquer instante
A qualquer momento
De repente e não mais que de repente
A gente
Ressuscitar

Se tudo o que aconteceu
Foi
Pantonima
Truque
Magia
Função de circo?

Se das cinzas
Se dos restos incendiados
Desta nave
Renascer
Aquela ave
Que antigamente renascia?

Se a gente parar de fazer perguntas
E procurar respostas?
Se as palavras
Pularem dos livros e das petições
Deixando todas as páginas
Em branco?

Se as folhas de papel
Retornarem
Às árvores originais?

Se as árvores originas
Voltarem
Aos elementos que foram antes?

Se o próprio antes retornar
Voltar
Ao que tinha sido ainda antes?

791
Tarcísio Meira César

Tarcísio Meira César

Miniteoria do poema

Farto da linguagem
de antes, que exercia,
despiu-se da imagem
que, oca, construía.

Artificial, externa,
mais morta que viva,
fê-la mais interna
árdua, convulsiva.

Com a dor morando
- tanto como o amor -
penas vai portando,
como o espaço a cor.

Sem medo da rima,
sem medo do verso,
mesmo que a obra-prima
saia pelo inverso.

Que o poema seja
novo, mas eterno
(sem a moda andeja),
nobre como o inverno.

922
Luis Germano Graal

Luis Germano Graal

Ao Primeiro Dia

Ao primeiro dia
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da graça do Senhor
Partimos
Era mal de manhãzinha
Partimos
Pouco a pouco
A costa foi-se
Desanuviando
As caras ficaram cada vez menores
Menores
Menores
Os poucos que nos trouxeram
Gritaram pragas
Rogaram mal dizeres
Mas logo, logo, não ouvíamos o que diziam

Às tantas horas
E tantos minutos
Do primeiro dia
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da graça do Senhor
Debaixo do astro iniciante a esquentar
Partimos
No princípio todos faziam silêncio
Todos faziam silêncio
Todos faziam silêncio
Aos poucos
Fomos nos olhando
Uns aos outros
Aos poucos
Fomos nos reconhecendo
Aos poucos
Uns aos outros
Como nos espelhos
Não sabemos quem terá sido
O primeiro
A pronunciar a primeira palavra
Logo estávamos todos a trocar palavras
Umas indo
Outras voltando
Pelo convés da nau
Víamos as palavrinhas
Nesse vaivém
Vai e vêm
Pelo ar
Como coisa atrás de coisa
Nossas cabeças estão cheias
E muito cheias
De palavras
E num belo minuto
Quando menos esperamos
Algumas delas se juntam
A algumas outras
E se prestamos
Atenção
Notamos uma frase
Se construindo
Outra frase se juntando
Daqui a pouco temos versos
E estrofes
Completas
Logo mais um poema inteiro
E como nas cabeças
De todos outros nós
Outras palavras se juntam
Pra formar novas outras frases
Que se juntam
Pra formar novas outras estrofes
Nós trocamos entre nós
Os poemas que nascemos
E ficamos mais antigos
Todos nós mais antigos
De todos nós todos

Assim é
Que poucos minutos
Após as tantas horas
Da manhã do primeiro dia
Do primeiro ano do Senhor
Um sábado
Véspera de domingo
Como todos os outros sábados
Sexta após sexta-feira
Sempre que nasce um sábado
No tempo
Para durar exatas e poucas
Vinte e quatro horas
Como todos os dias também duram
A cada semana que passa
Cada ano
Os séculos passam
E um sábado continua pregado
Ao domingo
Nunca depois
Sempre antes
Senão vira segunda feira
Que não tem graça nenhuma.

Assim foi que neste sábado
Dia primeiro
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da desgraça do Senhor
Nós partimos
E nos reconhecemos
E nos presenteamos
E ficamos mais amigos uns dos outros
Nós.

963
Lígia Diniz

Lígia Diniz

Enquanto

Por me dares sempre teu riso
Por me dares sempre teus olhos
Por me dares sempre tua boca,
E tomares a minha, sempre.

Por me embebedares com palavras
E por deixar-me te dopar com as minhas
Por beberes minhas frases,
Minha falas, meus sons.

Por me sentir em teus braços
Por me sentires em teus braços
Por meus braços te sentirem

Por ser em ti sem mim
Por não seres meu, por não ser tua,
Quero sempre ser pois tenho medo.

770
Lígia Diniz

Lígia Diniz

Depois (de pensar em você)

Sempre, de tudo, fica um pouco
Te roubo de ti sem perceberes
Te roubo de mim sem perceber
Urges, dirias.
Mas eu, também eu, te necessito.

Fica um pouco de tudo sempre
Das tuas palavras
E do teu silêncio.
Da tua fala morna
Do teu silêncio de cristal
(porque, soprando, quebra-se).

Um pouco de tudo sempre fica
Não importa a que conclusão chegamos
E nem que chegamos, se chegamos.
Sempre fica o caminho.
O caminho eu guardo sem notar
Te roubo o caminho?

De tudo sempre de pouco fazemos muito
Dos teus beijos, das tuas mãos
Das minhas mãos e das palavras
Sempre das palavras, nosso engano
E correção.

753
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Esconderijo

Hiding

A palavra-chave
sempre se esconde
atrás da porta.

The key-word
is always hidden
behind the door.

1 531
Lígia Diniz

Lígia Diniz

Eu Sei

Qual é o teu nome?
O nome de verdade
não esse que ouço te chamarem
Qual a palavra que posso dizer
E te ver te virar para me responder?
Aquela palavra que nunca ouviste
E quando disser
Tu já tenhas ouvido mil vezes?

Qual é o teu nome?

Quais as letras, os sons?
Quais as palavras?
Por que não respondes?
Eu sei: tu nem sabes
Não é estranho entender
Que um dia eu vou saber
(sem que tu saibas)
qual é o teu nome?
Eu sei.

869
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Acontecimento do Soneto

À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.

1 268
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

O Demolidor

El Demoledor

O amor não é um arquiteto.
Igual às térmites, destrói
a mais sólida construção
das paredes até o teto.

Dando razão à sem-razão,
o amor não respeita o intelecto.
Igual a um rato, surge e rói
o pão abstrato e o sol concreto.

O amor? Dois e dois não são quatro.
Caminho certo em concha errada,
coisa torta no colchão reto.

Amor! colinas sucessivas,
obelisco, língua que lambe,
pergunta feita ao Paracleto!

El amor no es un arquitecto.
Igual que las termitas, destruye
la más sólida construcción
de las paredes hasta el techo.

Dando razón a la sinrazón,
el amor no respeta el intelecto.
Corno un ratón, aparece y roe
el pan abstracto y el sol concreto.

El amor? Dos y dos no son cuatro.
Camino cierto en concha errada,
cosa torcida en el colchón derecho.

Amor! colinas sucesivas,
obelisco, lengua que lame.
pregunta hecha al Paracleto!

1 398
Lígia Andrade

Lígia Andrade

Silêncio

O silêncio brota
Flui
escorre em cada canto
Da casa
Exala um perfume triste
De abandono
De algo que passou
Não volta mais
O irremediável
Silêncio
Faca de dois gumes
Cicatriza e ao mesmo tempo fere
E nós
Aproximados na mesma freqüência morna
Mais nos afastamos
Por falta de palavras...

902
João Manuel Simões

João Manuel Simões

O Primeiro Dia da Criação

Cicatriz na epiderme
macia do silêncio,
ei-la que surge, nítida,
iluminada e frágil,
na geometria exata
do tempo feito espaço,
com gládio nas trevas,
como insígnia de fogo.

Haste de flor de som
sem memória plausível,
gesto puro de flâmula,
alarme sobre claustros
ou mero grito agreste
violando a morte obscena,
ei-la que desabrocha.

No Princípio era o caos,
(Era o cais, eram cães, eram Cains?)
E a palavra boiava,
ambígua, sobre as águas.

685
Jomard Muniz de Britto

Jomard Muniz de Britto

Ó Cidade Poeira!

Ó cidade poeira, origem e meta
da palavra POEMAÇÃO.
Prosa de todas as províncias do mundo.
De Paris e Argélia para Casa Forte sem Luzilá.
De New York para Aflitos renarcisados.
Da China para o Palácio do Campo das Princesas.
Mais ainda o pó da POETICIDADE.
O pó nosso de todo dia pelas ASAS DA AMÉRICA
fervendo na poeira da frevocracia.
O pó também da freguesia do ó, aqui pra vocês...
Pó não é mais nem menos do que a palavra dita
maldita inaudita: pó. Possível. Impossível.
Fatal e feliz dicção monossilábica.
Poesia no corpo a corpo
do pó nosso de cada noite.
Desejos e assombrações a dor tecendo
entre damas da madrugada
o tigre de bengala Tomás Seixas
do Marco Zero adiante atormentando-se.

837
José Maria Nascimento

José Maria Nascimento

A Casa de Palha

A coberta da casa tinha
o verde das palhas.
A colheita da lenha
ao rebentar da madrugada.

O macio lençol de linho
ao calor dos raios solares.
A festa de um novo teto
em um Domingo de Páscoa.

Latas de leite Ninho vazias:
raros tanques de guerra,
fertilizavam as alegrias
dos meus Natais passados.

Nenhuma só moeda queimava
as minhas pequeninas mãos.
Até o presente era uma irmandade
com o futuro sempre fertilizado.

A chama do tempo de leve
tudo foi consumindo tudo.
Levou os meus carneiros
e as verduras do quintal.

O ara da noite se misturou
com cinzas: é sufocante!
Ó misteriosa e amada natureza,
como monótona ficou a existência!

1 413
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Leitura

Eu li em teus olhos as palavras
Que teus lábios não ousaram pronunciar

Eu vi em teu corpo o amor
que teus braços temeram aceitar

Eu senti no arrepio de minha pele
O arrepio de tua alma

Eu provei em tuas mãos o desejo
Que nossos corpos não conseguem dissimular.

789
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Falta

Está faltando uma poesia,
quem sabe uma palavra mágica,
ou talvez um gesto de ternura,
que tenha a força de um feitiço ou encantamento
que num momento, ou por um momento,
nos abra os corações e nos torne irmãos.

809
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

O Autor

João GOULART de Souza GOMES (01/05/65), nascido em Salvador, Bahia, é bacharel em Administração de Empresas, industriário, lida com comunicação empresarial. Presidente e fundador do Grupo Cultural Pórtico, tem promovido a publicação de inúmeros títulos de novos autores.
Como poeta, publicou os livros ANDA LUZ, TODO DESEJO, SOB A PELE e FRACTAIS, além de ter participado de dezenove antologias literárias, sendo quatro internacionais (EUA, Itália, Coréia do Sul e Espanha). Possui dezenove prêmios literários.
Lança, em março, A GREVE GERAL, peça teatral e MAIS FRACTAIS, hai-kais em diskete (Power Point). Os trabalhos apresentados abaixo fazem parte do seu novo livro de poesias CRIAÇÃO, ainda INÉDITO!

804
Capinan

Capinan

Canção de Minha Descoberta

Eis-me resignado.
Fugi de tudo que fui
e pelo caminho de minha renúncia
venho buscar bandeiras novas.

Agora persigo a palavra nova
por eles que esperam com o coração amargo
e o grito dentro do coração.

Não poderei aceitar o silêncio
e ficar em paz com a morte dos desgraçados
caídos sem voz em nossa porta.

As crianças minhas morreram todas,
Possuo cada vontade, cada medo, cada ternura morta
e vou surgindo novo entre lenços brancos
agitados de dor pela mão dos homens.

1 186
José Blanc de Portugal

José Blanc de Portugal

Dia de Todos-os-Santos

Supõe que morri
(Aos mortos se escreve também algumas vezes).
Não sou de cá.
O que me dizem estranho
E ouço o que não há.
Assim, talvez, como estrangeiro,
Encontres palavras que me interessem,
Saibas dar-me o que me tarda...
coisas perdidas que procuro
e talvez se possam dar
aos que partiram e esqueceram
e, por isso,
se lhes oferece o resto de tudo
sem mesmo se saber
que alguma coisa é dada.

Supõe que morri e diz
todas as verdades que se dão aos mortos
o que se confessa a quem não ouve
e espera resposta de ninguém ...

Dizem que os deuses morreram:
Sou da raça deles
à espera de Deus.

1 885
Capinan

Capinan

Aprendizagem

(I)
Como entre homem e ave sobrevive imagem
busquei em mim, e éramos parecidos
mas, quando edifiquei, achei-me
pois cada espécie está em seu ato.

O homem é um ato homem. o pássaro, um ato pássaro.

(II)
Das coisas mais simples minha textura tornou-se
tanto da iniciação a severidade do que sei
(o homem faz a bala, a bala mata o homem
derruba-se o cavalo, cai o rei).

Na premissa de noites custosas
aprendi meu rosto, os olhos e mais sentidos,
não nascendo a vida em episódios
mas em ciclos, em fases, dolorosos ciclos de noite.

A vida é consciência de seu exercício
e até saber-se mais homem que ave
é preciso sensibilidade como peixes
e o vínculo da prática à própria imagem.

(III)
Agora que me sei não pássaro
mas homem ato, guardando vínculos
sou um gesto particular dos atos
do homem geral em geral ofício.

Sou assim compreendido de outros.
O que eu seria outro ser não fôra,
embora juntos na inteireza do todo,
diversos de carne, fôssemos a classe;

ato classe, homem ato, homem classe.
E pela classe minha palavra seria repugnância,
coragem de permanecer e dizer,
fosse poesia ou pornografia.

1 261
J.Cardia

J.Cardia

Busco musgos

Busco musgos
nos bosques noturnos.
Olvidei o Carnaval. Não sei.
Louca fantasia
esta de poeta
no mero confete
da palavra.
Bailam serpentinas.
Desatino.

806