Cultura
Poemas neste tema
Gerardo Mello Mourão
Jà vou atravessando a província formosa e a Musa
Jà vou atravessando a província formosa e a Musa
é contígua aos países longínquos:
o prisioneiro é aquele que era livre
o morto o que era vivo
entre o cão e o cano linheiro da espingarda o caçador
alinha o olho sagaz
e a narceja selvagem tomba do azul do céu a asa pendida
de seu fio de sangue — e sempre
por um fio de sangue
Eleutheria
Ariadne convulsa a liberdade encontra
o caminho da morte
— poeta solus poeta tantum —
só o poeta pranteia
sua bela narceja derrubada
na paisagem lacustre:
maldito seja o estampido maldita
seja a mão que afaga o gatilho e a pupila
que endurece à pontaria
maldita seja quando o tiro
quebra as asas aflitas e ao peso
da descarga de chumbo a flor alada
se rebenta no chão e cai
come corpo morto cade
Já peregrinei essas províncias formosas
vi a lua romena sobre os Kárpatos
e as colinas dos Kárpatos onde
os monjes serenos de Sinaia e o pátio
de seu mosteiro sobre
vales e colinas da Transilvânia montada
em sua cítara de nuvens — vi a lua
e a branca mão de Artemis sempre virgem
caçadora de estrelas
fere a noite
no firmamento azul a seta sagrada e pulsa
o coração da luz:
ali quem sabe, Apolo,
para teu rastro um rastro
pois tu mesmo
foras talvez apenas
o buscador de teu próprio rastro
pousam primeiro os olhos no caminho
e ali onde pousaram
pisam os pés nas pupilas onde
ao chão da relva virgem se sugere
o rastro que virá:
e assim andei a Dácia e a Trácia
e o Ponto Euxino e na montanha búlgara
à chama crepitante desse rastro
arderam calcanhares — e o vento
desmanchou em cinza a pulcra perna varonil:
não já sobre teu pé — sobre teu rastro
se lança o corpo divino
as estrelas desabrochavam da terra, Jonathan,
e os firmamentos caíam dentro de um
oceano de jardins:
pois consultei as rosas de outono da Bulgária
e os cravos de Istambul e naveguei
o Bósforo o Mar Negro e o Mar de Mármara
esse Ponto Euxino onde Ovídio
Publius Ovidius Naso poeta fuit — e velejei
as costas da Dardânia onde foi Troia onde
Heitor domava os cavalos e onde
a corda de tua lira regia a lança
do mais doce dos homens
— do guerreiro puro —
Naveguei o Adriático e o Tirreno
o Egeu e o Mar da Jônia e o Atlântico e o Pacífico
e as ilhas e as antilhas
e o mar do Caribe e o Mar do Norte e o Mar
Mediterrâneo e o meio das terras
e as terras ignotas e as terras filiorum dei
e cavalguei o lombo do Ontário o São Lourenço
e o Amazonas e o São Francisco e o Mississipi
e o Paraguai e o Paraná e o Prata
e as cataratas e os outros lagos e os outros rios
o Danúbio e o Tibre o Jaguaribe e o Sena
e o Pó e a ribeira do Arno por onde
caminhava o poeta e o Reno e o Meno por onde
cantava o demente divino e o Tejo de onde
celebrava Camões as caravelas rumo
aos mares nunca dantes navegados e às ilhas
nunca depois reencontradas onde
as ninfas se entregavam aos guerreiros
enumero os caminhos — e seus nomes celebram
a viagem aos tempos matinais
pois navego
a matina dos tempos onde apenas
o som da lira e os cabelos de Melpômene vestiam
a glória fálica de teu corpo nu
na escritura do chão a memória de meus pés
das serras do Ceará Grande e Mel Redondo
às serras de mel do Himeto — pois pisei
a água e o solo
e não pisei a flor o anjo a oliva
nem os filhos dos homens e odiei
os lugares do ódio e os lugares do sangue
sobre o chão dos algozes me cravei de espinhos
e busco
os caminhos do amor
Esta é a memória de meus pés por onde
a liberdade peregrina
— por onde
as columbas arrulham a paz por onde
os adolescentes colhem
as belas raparigas que adormecem nuas
— por onde
corre o vinho alegre
e os homens
e os deuses
bebem no mesmo copo à saúde dos pássaros
das colinas dos lagos e das árvores
das cidades das ruas — à saúde
dos circunstantes e dos transeuntes:
Até breve, Apolo.
é contígua aos países longínquos:
o prisioneiro é aquele que era livre
o morto o que era vivo
entre o cão e o cano linheiro da espingarda o caçador
alinha o olho sagaz
e a narceja selvagem tomba do azul do céu a asa pendida
de seu fio de sangue — e sempre
por um fio de sangue
Eleutheria
Ariadne convulsa a liberdade encontra
o caminho da morte
— poeta solus poeta tantum —
só o poeta pranteia
sua bela narceja derrubada
na paisagem lacustre:
maldito seja o estampido maldita
seja a mão que afaga o gatilho e a pupila
que endurece à pontaria
maldita seja quando o tiro
quebra as asas aflitas e ao peso
da descarga de chumbo a flor alada
se rebenta no chão e cai
come corpo morto cade
Já peregrinei essas províncias formosas
vi a lua romena sobre os Kárpatos
e as colinas dos Kárpatos onde
os monjes serenos de Sinaia e o pátio
de seu mosteiro sobre
vales e colinas da Transilvânia montada
em sua cítara de nuvens — vi a lua
e a branca mão de Artemis sempre virgem
caçadora de estrelas
fere a noite
no firmamento azul a seta sagrada e pulsa
o coração da luz:
ali quem sabe, Apolo,
para teu rastro um rastro
pois tu mesmo
foras talvez apenas
o buscador de teu próprio rastro
pousam primeiro os olhos no caminho
e ali onde pousaram
pisam os pés nas pupilas onde
ao chão da relva virgem se sugere
o rastro que virá:
e assim andei a Dácia e a Trácia
e o Ponto Euxino e na montanha búlgara
à chama crepitante desse rastro
arderam calcanhares — e o vento
desmanchou em cinza a pulcra perna varonil:
não já sobre teu pé — sobre teu rastro
se lança o corpo divino
as estrelas desabrochavam da terra, Jonathan,
e os firmamentos caíam dentro de um
oceano de jardins:
pois consultei as rosas de outono da Bulgária
e os cravos de Istambul e naveguei
o Bósforo o Mar Negro e o Mar de Mármara
esse Ponto Euxino onde Ovídio
Publius Ovidius Naso poeta fuit — e velejei
as costas da Dardânia onde foi Troia onde
Heitor domava os cavalos e onde
a corda de tua lira regia a lança
do mais doce dos homens
— do guerreiro puro —
Naveguei o Adriático e o Tirreno
o Egeu e o Mar da Jônia e o Atlântico e o Pacífico
e as ilhas e as antilhas
e o mar do Caribe e o Mar do Norte e o Mar
Mediterrâneo e o meio das terras
e as terras ignotas e as terras filiorum dei
e cavalguei o lombo do Ontário o São Lourenço
e o Amazonas e o São Francisco e o Mississipi
e o Paraguai e o Paraná e o Prata
e as cataratas e os outros lagos e os outros rios
o Danúbio e o Tibre o Jaguaribe e o Sena
e o Pó e a ribeira do Arno por onde
caminhava o poeta e o Reno e o Meno por onde
cantava o demente divino e o Tejo de onde
celebrava Camões as caravelas rumo
aos mares nunca dantes navegados e às ilhas
nunca depois reencontradas onde
as ninfas se entregavam aos guerreiros
enumero os caminhos — e seus nomes celebram
a viagem aos tempos matinais
pois navego
a matina dos tempos onde apenas
o som da lira e os cabelos de Melpômene vestiam
a glória fálica de teu corpo nu
na escritura do chão a memória de meus pés
das serras do Ceará Grande e Mel Redondo
às serras de mel do Himeto — pois pisei
a água e o solo
e não pisei a flor o anjo a oliva
nem os filhos dos homens e odiei
os lugares do ódio e os lugares do sangue
sobre o chão dos algozes me cravei de espinhos
e busco
os caminhos do amor
Esta é a memória de meus pés por onde
a liberdade peregrina
— por onde
as columbas arrulham a paz por onde
os adolescentes colhem
as belas raparigas que adormecem nuas
— por onde
corre o vinho alegre
e os homens
e os deuses
bebem no mesmo copo à saúde dos pássaros
das colinas dos lagos e das árvores
das cidades das ruas — à saúde
dos circunstantes e dos transeuntes:
Até breve, Apolo.
926
Gerardo Mello Mourão
Pois tengo el ángel, Efrain, e uma noite
Pois tengo el ángel, Efrain, e uma noite
arribei a Los Angeles y siempre
arriban los poetas a los angeles
quando sabem o adeus:
adeus Carole
addío Mona Lisa
farewell to Chelsea
adeus addío adiú
e Beth e Jéssica
e vou levando o aroma de teus musgos
— "Cest mon parfum — et ma beauté
embriaga a narina dos deuses"
e Apolo e os Querubins e Querubina
conhecem este cheiro — e um dia
ao Macho da Sibila rescendeu no terreiro
um cheiro de bocetas em flor
Mas Melpômene
a outras rosas e outras violetas
trescala ao longe:
boa noite, Melpômene Mourão — e digo boa noite
pela fala do falus falueiro
E ela ia abrindo os lábios
e a cada sopro de seus lábios
uma rosa nascia e onde
suas mãos tocavam — uma rosa nascia
e outras coisas vi nascerem
à mão dos taumaturgos:
à de Balboa aqui um mar
sangrou sua aguazul à ponta de uma espada
cresceu na concha de sua
mão marinheira à reza cosmogônica
em nome de Castela — e o mundo
lhe lavou os joelhos por onde
as três quartas partes do planeta
se crearam nas águas sob os céus
de um deus no Panamá:
e às vezes sobre as águas, Godo,
os rastros duram — e onde
pisava sua bota — da pisada
surgia a fonte dos oceanos —
pois vou a Delphos pelo Panamá
de Guatemala venho por Managua
e por Tegucigalpa e Costa Rica
e acrescentei, Apolo.
um furo novo à flauta em que soprei
essa canção a Antonieta Ovalle em La Antigua
e os guerreiros pararam nas ruas de Caracas quando
cheguei cantando o Cavaleiro e a liberdade e quando
de joelhos no chão de Bogotá
cantei o pranto fúnebre das serras da Colômbia o pranto
por Camilo
como cantam
as serranas morenas de redondos peitos
em Santa Cruz de La Sierra e na serra
de São Gonçalo dos Mourões e nas colinas Lyda
nas colinas Danai das serras de Atinaia aquela noite
por teus amantes mortos
Eleutheria
entre as vinhas do mar e a cordilheira
— caminhos dos Hyperbóreos —
e assobiamos na praia, Clodomir, chamando o vento
o vento de pescar a vingança e o amor — vento
de assobio en surdina em Puerto Limón de Costa Rica,
marinheiro do Aracati na esquina à lua
de Aracaju:
Eleu
Eleu
Eleu
theria.
arribei a Los Angeles y siempre
arriban los poetas a los angeles
quando sabem o adeus:
adeus Carole
addío Mona Lisa
farewell to Chelsea
adeus addío adiú
e Beth e Jéssica
e vou levando o aroma de teus musgos
— "Cest mon parfum — et ma beauté
embriaga a narina dos deuses"
e Apolo e os Querubins e Querubina
conhecem este cheiro — e um dia
ao Macho da Sibila rescendeu no terreiro
um cheiro de bocetas em flor
Mas Melpômene
a outras rosas e outras violetas
trescala ao longe:
boa noite, Melpômene Mourão — e digo boa noite
pela fala do falus falueiro
E ela ia abrindo os lábios
e a cada sopro de seus lábios
uma rosa nascia e onde
suas mãos tocavam — uma rosa nascia
e outras coisas vi nascerem
à mão dos taumaturgos:
à de Balboa aqui um mar
sangrou sua aguazul à ponta de uma espada
cresceu na concha de sua
mão marinheira à reza cosmogônica
em nome de Castela — e o mundo
lhe lavou os joelhos por onde
as três quartas partes do planeta
se crearam nas águas sob os céus
de um deus no Panamá:
e às vezes sobre as águas, Godo,
os rastros duram — e onde
pisava sua bota — da pisada
surgia a fonte dos oceanos —
pois vou a Delphos pelo Panamá
de Guatemala venho por Managua
e por Tegucigalpa e Costa Rica
e acrescentei, Apolo.
um furo novo à flauta em que soprei
essa canção a Antonieta Ovalle em La Antigua
e os guerreiros pararam nas ruas de Caracas quando
cheguei cantando o Cavaleiro e a liberdade e quando
de joelhos no chão de Bogotá
cantei o pranto fúnebre das serras da Colômbia o pranto
por Camilo
como cantam
as serranas morenas de redondos peitos
em Santa Cruz de La Sierra e na serra
de São Gonçalo dos Mourões e nas colinas Lyda
nas colinas Danai das serras de Atinaia aquela noite
por teus amantes mortos
Eleutheria
entre as vinhas do mar e a cordilheira
— caminhos dos Hyperbóreos —
e assobiamos na praia, Clodomir, chamando o vento
o vento de pescar a vingança e o amor — vento
de assobio en surdina em Puerto Limón de Costa Rica,
marinheiro do Aracati na esquina à lua
de Aracaju:
Eleu
Eleu
Eleu
theria.
939
Gerardo Mello Mourão
Nascia o gerifalte sobre os ombros
Nascia o gerifalte sobre os ombros
na testa brotavam o louro e a madressilva
a cintura gerava o boldrié de Orion
e a flecha e o arco inteiravam as mãos
o cavalo baio decorria das coxas e das ancas
e nos olhos levantava-se a estrela:
Phaeton! Phaeton!
A caça caça o caçador
A sombra assusta o corpo
mas Apolo
não teme seu fantasma
e o cavalo baio
galopa seu galope
junto ao gerifalte à flecha à estrela
Phaeton! Phaeton!
Pois me nutrias quando
a mão celeste ordenhava as estrelas
apojadas de azul
poeta sum
a boca cheia
dos gomos luminosos
e da Vega da Lira e de Cassiopéia
por isso — Fratello Sole, digo,
Sorella Luna
doce incesto noturno
tu Pythia, tu Phebéia, tu Delphinia
Artemis Artemísia
quia nocte quasi dies
in diebus diabola
Bêbados de estrelas
rolávamos sobre as constelações
no lagar capitoso
Phaeton! Phaeton
Incestuosa —
de nós mesmos nascíamos
e éramos naquele tempo nossa própria fábula
e a mesma flama nos torneia agora
o corpo fulgurante no coração da lenda
Pois quem te lembra nua
empinado el culo quando
ardiam nos lençóis as sarças peludas —
eras a mera lenda
e em tua virilha lendária
fabulava o odor
do pênis mitológico —
Phaeton! Phaeton!
Os cavalos nitrian no pântano, dos astros
e seus cascos
golpeavam os planetas — a espuma
dos meteoros no focinho:
os que Zeus derruba das alturas
deixam no firmamento a Via-Láctea
Phaeton! Phaeton!
teu rastro
Pyrie eleison.
Sob plátanos brancos de uma ilha sepulcral
oficiava ao crepúsculo tua beleza, amor
Phanes Phanus Phalena
Phales Phalerus Phales
Phalanthus Phaletusa
Phaeton Phalanthus Phalus
De falernos
na cavalgada embriagada conhecemos
as veias da manhã e os ossos da noite
pois transpusemos
a aurora e seu crepúsculo
e do tempo regido ao casco dos cavalos falernos
apeei-me à fronteira
da eternidade
Atymnios —
da heroica louvação insaciado
Bebi o vinho do tempo —
e a eternidade
é minha embriaguez
pois não existo mais senão
no coração da lenda — e sou
eu mesmo a minha própria lenda
Phaeton
heroicis laudibus non satiatus
non satiatus
insaciável
inefável
inconsolável
pontífice e histrião
mordia os rins do planeta
e fincando as rosetas das esporas chibateava o lombo
da galáxia
com meu cometa coruscante
Phaeton!
Phaeton!
um trevo nos calcanhares
o rastro dos pés inapagável
dizia norte e sul e leste e oeste
com a rosa-dos-ventos sob os tornozelos
ego poeta
vou caminhando como o som caminha
desde
por
para
até
ubi unde quo qua
et usque quousque
quam diu.
na testa brotavam o louro e a madressilva
a cintura gerava o boldrié de Orion
e a flecha e o arco inteiravam as mãos
o cavalo baio decorria das coxas e das ancas
e nos olhos levantava-se a estrela:
Phaeton! Phaeton!
A caça caça o caçador
A sombra assusta o corpo
mas Apolo
não teme seu fantasma
e o cavalo baio
galopa seu galope
junto ao gerifalte à flecha à estrela
Phaeton! Phaeton!
Pois me nutrias quando
a mão celeste ordenhava as estrelas
apojadas de azul
poeta sum
a boca cheia
dos gomos luminosos
e da Vega da Lira e de Cassiopéia
por isso — Fratello Sole, digo,
Sorella Luna
doce incesto noturno
tu Pythia, tu Phebéia, tu Delphinia
Artemis Artemísia
quia nocte quasi dies
in diebus diabola
Bêbados de estrelas
rolávamos sobre as constelações
no lagar capitoso
Phaeton! Phaeton
Incestuosa —
de nós mesmos nascíamos
e éramos naquele tempo nossa própria fábula
e a mesma flama nos torneia agora
o corpo fulgurante no coração da lenda
Pois quem te lembra nua
empinado el culo quando
ardiam nos lençóis as sarças peludas —
eras a mera lenda
e em tua virilha lendária
fabulava o odor
do pênis mitológico —
Phaeton! Phaeton!
Os cavalos nitrian no pântano, dos astros
e seus cascos
golpeavam os planetas — a espuma
dos meteoros no focinho:
os que Zeus derruba das alturas
deixam no firmamento a Via-Láctea
Phaeton! Phaeton!
teu rastro
Pyrie eleison.
Sob plátanos brancos de uma ilha sepulcral
oficiava ao crepúsculo tua beleza, amor
Phanes Phanus Phalena
Phales Phalerus Phales
Phalanthus Phaletusa
Phaeton Phalanthus Phalus
De falernos
na cavalgada embriagada conhecemos
as veias da manhã e os ossos da noite
pois transpusemos
a aurora e seu crepúsculo
e do tempo regido ao casco dos cavalos falernos
apeei-me à fronteira
da eternidade
Atymnios —
da heroica louvação insaciado
Bebi o vinho do tempo —
e a eternidade
é minha embriaguez
pois não existo mais senão
no coração da lenda — e sou
eu mesmo a minha própria lenda
Phaeton
heroicis laudibus non satiatus
non satiatus
insaciável
inefável
inconsolável
pontífice e histrião
mordia os rins do planeta
e fincando as rosetas das esporas chibateava o lombo
da galáxia
com meu cometa coruscante
Phaeton!
Phaeton!
um trevo nos calcanhares
o rastro dos pés inapagável
dizia norte e sul e leste e oeste
com a rosa-dos-ventos sob os tornozelos
ego poeta
vou caminhando como o som caminha
desde
por
para
até
ubi unde quo qua
et usque quousque
quam diu.
1 075
Gerardo Mello Mourão
Nasci tocando viola
Nasci tocando viola
sou Mourão das Ipueiras,
dos Mello do pé-da-serra
reinador destas ribeiras
tanto canto em minha terra
como em terras estrangeiras
As cordas desta viola
são meus pés e minha mão:
no galope a beira-mar
nos oito pés em quadrão;
em martelo e gemedeira
em gabinete e mourão.
Devoto fiel de Apolo
cantador de profissão,
vou cantar o deus da lira
de minha religião
quero contar sua vida
fazer sua louvação.
E tanto o canto em sextilhas
como em versos espondeus,
que era Apoio sobre a terra
Deus e homem e homem-deus
pois a fêmea que o pariu
pariu do sêmen de Zeus
Quando Jesus veio ao mundo
nessa noite do Natal,
Maria, pra dar a luz
só encontrou um curral —
me ajoelho e peço a bênção
e faço o pelo-sinal.
Pois canto a história de Apolo
falho de Zeus e de Leto,
foi seu berço uma palmeira
e o céu de Delos seu teto:
mamou nos peitos de Temis
nectar puro e mel do Himeto.
Só Delos teve coragem
de oferecer o seu chão,
pois Hera, mulher de Zeus,
prometia maldição
a quem ajudasse o parto
na terrível solidão
Foi ali aos nove dias
que o Deus Apolo nasceu
Artemis, sua irmã gêmea,
antes dele apareceu,
vestido de linho e ouro
a doce lira tangeu
Pela folhinha dos gregos
faço a conta e não me engano,
foi dia sete de Bysios
que nasceu o deus humano:
fevereiro — entre oito e nove —
do calendário romano.
Até então era Delos
uma ilha flutuante,
quando nela um deus nasceu,
Poseidon, no mesmo instante,
firmou-a no chão com quatro
colunas de diamante.
Apenas nascido Apolo
os cisnes em revoada
sete vezes deram volta
sobre a ilha abençoada
e cantaram glória aos deuses
e paz à terra sagrada.
Mas Hera, mulher de Zeus,
contra a mãe de Apolo
irada ferida pelo ciúme
pela paixão desvairada:
contratou uma serpente
traiçoeira e envenenada:
Era a serpente Python
com cabeça de dragão:
contra Leto, mãe de Apolo,
sem a menor compaixão,
dia e noite ela movia
terrível perseguição.
Era Apolo deus e homem
em todo o seu esplendor,
e como homem — valente,
e como Deus — vingador:
pela honra da mãe armou-se
com seu ódio e seu amor.
Atrás da serpente pérfida
percorreu terras sem conta,
disposto a lavar em sangue
a miserável afronta,
nas cordas do arco de prata
a flecha certeira pronta.
Pelas bandas do Parnaso
foi a serpente ferida,
levou três flechas no lombo
mais inda saíu com vida,
no lugar santo de Delfos
escondeu-se espavorida.
E alí ao lado do oráculo,
da gruta sagrada à porta,
um rugido pavoroso
racha a terra e os ares corta:
com sua flecha certeira,
Apolo deixou-a morta.
É três, é quatro, é cinco, é seis,
é sete, é oito, é nove, é dez,
pegou o couro da cobra
cortou de frente e viés
e com ele fez o assento
da cadeira de três pés.
Era a trípode sagrada
o trono da profetisa,
no umbigo do mundo o céu
e a terra fazem divisa,
e a voz dos deuses se escuta
na boca da Pythonisa.
Pois o deus tomou à cobra
pele e nome por botim:
Apoio Pythio o chamaram
e eu também o chamo assim:
da história do mundo sabe
o começo, o meio e o fim.
E para purificar-se
do sangue dessa serpente,
com Artemis foi a Creta
lavou-se nágua corrente,
Karmanor lhe aspergiu
o corpo e a alma inocente.
Montou um delfim no mar,
veio a Delfos no outro dia,
arrebatou ao deus Pã
a arte da profecia
e pela boca da Pythia
seus oráculos dizia.
Afoito, ao bosque dos deuses
veio um gigante malvado,
quis violar sua mãe
e Apolo ficou irado:
chamou Artemis, a irmã,
e o pacto foi combinado.
Saíram os dois divinos
no arco a flecha certeira,
alvejaram o bandido
oculto numa touceira
e o corpo com duas flechas
rolou pela ribanceira.
Um dia o sileno Mársias
desconheceu seu lugar
e a pura lira de Apolo
pretendia superar
soprando a flauta de Atena
que o ensinara a soprar.
Os deuses e as musas foram
o tribunal julgador
do desafio insensato
feito ao divino cantor
e decretaram a Apolo
a palma de vencedor.
Para glória da poesia,
para dar uma lição,
Febo Apolo esfolou Mársias
e arrancou-lhe o coração,
que o desrespeito a um poeta
nunca pode ter perdão.
De outra feita ele tocava
contra Pã numa função,
Midas prefere o pastor,
e ao dar esta opinião,
duas orelhas de burro
lhe crescem por punição.
Há cantadores famosos
nas feiras do Cariri,
Jacó Alves Passarinho
de Mutamba, Aracatí,
há Romano de Mãe dÁgua,
Sinfrônio do Jabotí,
Azulão em Pernambuco
e Inácio da Catingueira,
Serrador, Cego Aderaldo
e mais Anselmo Vieira
que foi o melhor de todos
por ser filho da lpueira.
Na viola e na rabeca
eu também sou cantador,
mas somos pobres mortais,
eu, Anselmo ou Serrador,
não vamos desafiar
Apolo, Nosso Senhor.
A todos os que ofenderem
o poeta e sua glória,
sejam reis ou coronéis,
dos potentados a escória,
deixaremos pendurados
nos postes podres da história.
Mas canto é Apolo formoso
suas batalhas de amor,
com musas, ninfas e deusas
e raparigas em flor,
nem escaparam mancebos
de seu leito sedutor.
Passou nos peitos Cirene,
Coronis, Ária e Thalía,
Naiades, Graças, Driopes
e a mãe de Dorus, Phytía,
Urânia, Clítia e Kimene
e as nove Musas que havia.
Recusou-lhe a pura Dafne
seu lírio de castidade,
transformada num loureiro
Pasifae — na flor da idade,
as verdes folhas consagra
na doce dor da saudade.
Jacyntho, o belo mancebo
era seu lúdico amor,
quando morto cai na relva
pelo Zéfiro traidor,
inconsolável Apolo
o transforma numa flor,
Pois o amor, a flor e a morte
são obra de sua mão,
são água do mesmo rio,
são fonte do coração,
por onde o sopro de Apolo
rege a humana ordenação.
Seu espírito divino,
mais sábio que Salomão,
sabia a ferida e o bálsamo,
a doçura da canção,
pois era senhor da vida,
da morte e ressurreição.
Para remédio das almas,
fundou a Pythia divina,
para remédio do corpo
inventou a medicina,
foi o pai de Asclépio, médico,
mestre em sua disciplina.
E quando o raio de Zeus
fulminou este seu filho,
na corda tensa do arco
mostrou das setas o brilho,
matou todos os Ciclopes
como quem mata um novilho.
Expulso por Zeus do Olimpo,
foi ser pastor de carneiros,
pastoreava cantando
os rebanhos campineiros
e era o cordeiro de Deus
entre fontes e loureiros.
Exilado sobre a terra,
filho de Deus humanado,
sua canção governava
o bosque, as flores, o prado,
o mar, as fontes, os rios,
por todo o povo estimado.
Os deuses então sentiram
de seu prestígio temor,
voltou por isso ao Olimpo,
sou Mourão das Ipueiras,
dos Mello do pé-da-serra
reinador destas ribeiras
tanto canto em minha terra
como em terras estrangeiras
As cordas desta viola
são meus pés e minha mão:
no galope a beira-mar
nos oito pés em quadrão;
em martelo e gemedeira
em gabinete e mourão.
Devoto fiel de Apolo
cantador de profissão,
vou cantar o deus da lira
de minha religião
quero contar sua vida
fazer sua louvação.
E tanto o canto em sextilhas
como em versos espondeus,
que era Apoio sobre a terra
Deus e homem e homem-deus
pois a fêmea que o pariu
pariu do sêmen de Zeus
Quando Jesus veio ao mundo
nessa noite do Natal,
Maria, pra dar a luz
só encontrou um curral —
me ajoelho e peço a bênção
e faço o pelo-sinal.
Pois canto a história de Apolo
falho de Zeus e de Leto,
foi seu berço uma palmeira
e o céu de Delos seu teto:
mamou nos peitos de Temis
nectar puro e mel do Himeto.
Só Delos teve coragem
de oferecer o seu chão,
pois Hera, mulher de Zeus,
prometia maldição
a quem ajudasse o parto
na terrível solidão
Foi ali aos nove dias
que o Deus Apolo nasceu
Artemis, sua irmã gêmea,
antes dele apareceu,
vestido de linho e ouro
a doce lira tangeu
Pela folhinha dos gregos
faço a conta e não me engano,
foi dia sete de Bysios
que nasceu o deus humano:
fevereiro — entre oito e nove —
do calendário romano.
Até então era Delos
uma ilha flutuante,
quando nela um deus nasceu,
Poseidon, no mesmo instante,
firmou-a no chão com quatro
colunas de diamante.
Apenas nascido Apolo
os cisnes em revoada
sete vezes deram volta
sobre a ilha abençoada
e cantaram glória aos deuses
e paz à terra sagrada.
Mas Hera, mulher de Zeus,
contra a mãe de Apolo
irada ferida pelo ciúme
pela paixão desvairada:
contratou uma serpente
traiçoeira e envenenada:
Era a serpente Python
com cabeça de dragão:
contra Leto, mãe de Apolo,
sem a menor compaixão,
dia e noite ela movia
terrível perseguição.
Era Apolo deus e homem
em todo o seu esplendor,
e como homem — valente,
e como Deus — vingador:
pela honra da mãe armou-se
com seu ódio e seu amor.
Atrás da serpente pérfida
percorreu terras sem conta,
disposto a lavar em sangue
a miserável afronta,
nas cordas do arco de prata
a flecha certeira pronta.
Pelas bandas do Parnaso
foi a serpente ferida,
levou três flechas no lombo
mais inda saíu com vida,
no lugar santo de Delfos
escondeu-se espavorida.
E alí ao lado do oráculo,
da gruta sagrada à porta,
um rugido pavoroso
racha a terra e os ares corta:
com sua flecha certeira,
Apolo deixou-a morta.
É três, é quatro, é cinco, é seis,
é sete, é oito, é nove, é dez,
pegou o couro da cobra
cortou de frente e viés
e com ele fez o assento
da cadeira de três pés.
Era a trípode sagrada
o trono da profetisa,
no umbigo do mundo o céu
e a terra fazem divisa,
e a voz dos deuses se escuta
na boca da Pythonisa.
Pois o deus tomou à cobra
pele e nome por botim:
Apoio Pythio o chamaram
e eu também o chamo assim:
da história do mundo sabe
o começo, o meio e o fim.
E para purificar-se
do sangue dessa serpente,
com Artemis foi a Creta
lavou-se nágua corrente,
Karmanor lhe aspergiu
o corpo e a alma inocente.
Montou um delfim no mar,
veio a Delfos no outro dia,
arrebatou ao deus Pã
a arte da profecia
e pela boca da Pythia
seus oráculos dizia.
Afoito, ao bosque dos deuses
veio um gigante malvado,
quis violar sua mãe
e Apolo ficou irado:
chamou Artemis, a irmã,
e o pacto foi combinado.
Saíram os dois divinos
no arco a flecha certeira,
alvejaram o bandido
oculto numa touceira
e o corpo com duas flechas
rolou pela ribanceira.
Um dia o sileno Mársias
desconheceu seu lugar
e a pura lira de Apolo
pretendia superar
soprando a flauta de Atena
que o ensinara a soprar.
Os deuses e as musas foram
o tribunal julgador
do desafio insensato
feito ao divino cantor
e decretaram a Apolo
a palma de vencedor.
Para glória da poesia,
para dar uma lição,
Febo Apolo esfolou Mársias
e arrancou-lhe o coração,
que o desrespeito a um poeta
nunca pode ter perdão.
De outra feita ele tocava
contra Pã numa função,
Midas prefere o pastor,
e ao dar esta opinião,
duas orelhas de burro
lhe crescem por punição.
Há cantadores famosos
nas feiras do Cariri,
Jacó Alves Passarinho
de Mutamba, Aracatí,
há Romano de Mãe dÁgua,
Sinfrônio do Jabotí,
Azulão em Pernambuco
e Inácio da Catingueira,
Serrador, Cego Aderaldo
e mais Anselmo Vieira
que foi o melhor de todos
por ser filho da lpueira.
Na viola e na rabeca
eu também sou cantador,
mas somos pobres mortais,
eu, Anselmo ou Serrador,
não vamos desafiar
Apolo, Nosso Senhor.
A todos os que ofenderem
o poeta e sua glória,
sejam reis ou coronéis,
dos potentados a escória,
deixaremos pendurados
nos postes podres da história.
Mas canto é Apolo formoso
suas batalhas de amor,
com musas, ninfas e deusas
e raparigas em flor,
nem escaparam mancebos
de seu leito sedutor.
Passou nos peitos Cirene,
Coronis, Ária e Thalía,
Naiades, Graças, Driopes
e a mãe de Dorus, Phytía,
Urânia, Clítia e Kimene
e as nove Musas que havia.
Recusou-lhe a pura Dafne
seu lírio de castidade,
transformada num loureiro
Pasifae — na flor da idade,
as verdes folhas consagra
na doce dor da saudade.
Jacyntho, o belo mancebo
era seu lúdico amor,
quando morto cai na relva
pelo Zéfiro traidor,
inconsolável Apolo
o transforma numa flor,
Pois o amor, a flor e a morte
são obra de sua mão,
são água do mesmo rio,
são fonte do coração,
por onde o sopro de Apolo
rege a humana ordenação.
Seu espírito divino,
mais sábio que Salomão,
sabia a ferida e o bálsamo,
a doçura da canção,
pois era senhor da vida,
da morte e ressurreição.
Para remédio das almas,
fundou a Pythia divina,
para remédio do corpo
inventou a medicina,
foi o pai de Asclépio, médico,
mestre em sua disciplina.
E quando o raio de Zeus
fulminou este seu filho,
na corda tensa do arco
mostrou das setas o brilho,
matou todos os Ciclopes
como quem mata um novilho.
Expulso por Zeus do Olimpo,
foi ser pastor de carneiros,
pastoreava cantando
os rebanhos campineiros
e era o cordeiro de Deus
entre fontes e loureiros.
Exilado sobre a terra,
filho de Deus humanado,
sua canção governava
o bosque, as flores, o prado,
o mar, as fontes, os rios,
por todo o povo estimado.
Os deuses então sentiram
de seu prestígio temor,
voltou por isso ao Olimpo,
1 176
Gerardo Mello Mourão
Eram três mil violas a bordo
Eram três mil violas a bordo
quando chegaram:
três mil violas e ainda poucas
para chorar saudades de Portugal e poucas
para o canto que me espuma no sangue
porque mi corazón de trovar non se quita
herdei todas as violas
são minhas as violas
são minhas as guitarras, os violões
a harmônica de Gesú Mello, a rabeca de Josa e a flauta
e o berimbau que Pedro Simão tocava nos dentes em Ipueiras
são minhas as violas: no formal de partilha me tocaram
três mil violas da maruja e me tocaram
as saudades e as penas de amor e o desafio
e a gemedeira
do bojo delas
e a louvação dos valentes;
e três mil violas não bastam
para o canto dos machos à janela das fêmeas
no pais dos Mourões:
!que poucas
para a endeixa de amor que ao teu ouvido
mi corazón
de trovar non se quita!
quando chegaram:
três mil violas e ainda poucas
para chorar saudades de Portugal e poucas
para o canto que me espuma no sangue
porque mi corazón de trovar non se quita
herdei todas as violas
são minhas as violas
são minhas as guitarras, os violões
a harmônica de Gesú Mello, a rabeca de Josa e a flauta
e o berimbau que Pedro Simão tocava nos dentes em Ipueiras
são minhas as violas: no formal de partilha me tocaram
três mil violas da maruja e me tocaram
as saudades e as penas de amor e o desafio
e a gemedeira
do bojo delas
e a louvação dos valentes;
e três mil violas não bastam
para o canto dos machos à janela das fêmeas
no pais dos Mourões:
!que poucas
para a endeixa de amor que ao teu ouvido
mi corazón
de trovar non se quita!
687
Gerardo Mello Mourão
Tu me pediste notícias da Grécia:
Tu me pediste notícias da Grécia:
de Lisboa
por Goa e Madragoa e Itamaracá
me fui partindo e, pois, já tenho
algumas notícias da Grécia e escrevo
entre a mulher da bela cintura
dos olhos verdes
e o mar:
por mar chegadas, por mar envio
as notícias da Grécia;
redijo em alto mar entre
a madrugada jônia e a madrugada
de Maragogí — sudeste
do país dos Mourões.
E eras uma vez:
da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo
vinhas e ao vinho o pé arisco —
de corda em corda a pisar na cítara
e em teu andar
notícias recentes da Grécia:
muitos corpos foram assados e o cheiro
da cútis das vítimas de fina raça
subiu das brasas e a fumaça
odorífera e a labareda e as libações
embriagavam os belos mancebos vindimados;
e era uma vez
Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro
e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia
corda a corda
das notícias da Grécia:
aguardo informes: — aplacara a
hecatombe o deus irado ou, vagabundo
passeia Apolo pelos bosques
de aljava a tiracolo?
Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália
talvez Ilíria;
respirei quanto pude a violeta divina
vem o vento dos montes e à essência
das rosas maceradas
amadurecem-me as narinas sábias:
tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro
dos navegantes.
E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira
e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam
a imagem de São Gonçalo
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e na manhã seguinte a divina creatura
era de novo achada ao pé da mesma palmeira
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e no terceiro dia — fugira durante a noite —
voltou à sua palmeira
e Dona Úrsula Mourão, mais os homens
e as outras mulheres e as crianças
foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada
e em duas medidas de sua sombra
riscaram um retângulo
e ergueram uma capela e onde
era seu tronco é hoje o altar
de São Gonçalo dos Mourões
e estas
são noticias da Grécia:
respirei fundo a violeta divina
de Tênedos a Delfos e guardei
a palmeira nos olhos e o templo na serra;
e era uma vez
na ilha flutuante uma palmeira
uma palmeira em Delos e ali
soprou Apoio a flauta e desde então se fez
estável a ilha
imóvel Delos por pisá-la um Deus:
e era macho e belo e tangia também
uma cítara de ouro e do arco de prata
a flecha disputava ao relâmpago
alvo e risco no céu; e sobre a pele
da serpente na trípode sagrada
uma virgem fundou o lábio imaculado
de conceber o oráculo: o divino pênis
aquecido na boca a sacra Pítia
da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido
a palavra profética: —
‘E AEYOEPÍA
e é na boca das virgens e no ventre das ninfas
e semente fecunda
e à sua volta — e à sua cítara
as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses
e os rapazes aprendiam o poder dos deuses
e os adolescentes mortos
tornavam à vida e a vida era fundada
à sua volta e à sua cítara;
e era fundada a morte à volta
de seu arco de prata — e os outros deuses
o expulsaram do Olimpo —
estas são noticias da Grécia:
de erguer-se o canto, toda voz se apaga
e as ilhas cessam de flutuar e os deuses
invejavam os carneiros e os pastores
tangidos pelos montes da Tessália
à lira de ouro. E ao seu acorde
em pétala e aroma a bem-amada abria
o coração do heliotrópio e o rosto
do adolescente — amor alheio à vida e à morte —
nas folhas do jacinto doloria
e à mera melodia iam surgindo
o loureiro, a romã, o girassol e o mirto
e o zimbro e o lotus
e o galo e o gavião e o cisne
e a cigarra e o grifo
e era a palmeira e à sombra dela
a invenção do santo e as ladainhas
de Dona Úrsula Mourão;
estas são, amor, as notícias da Grécia
e eu recebi no mar:
ao sul a palmeira de Delos e ao norte
as palmeiras — Camaragibe e Ibiapaba, País dos Mourões —
lá onde a vida
aguça a seta nas aljavas de prata
e a morte
se canta à lua-cheia na viola na cítara
de Apolo adolescente.
Tenho notícias da Grécia, algumas:
noticias para a tua cintura pequena e os calcanhares
o chão dos deuses exilados
e lembranças de um deus: no exílio,
de seu canto se sustentava e ao canto
— sustento dos deuses e perigo dos deuses —
floresciam os homens e o rei Midas foi punido
e em sua própria frauta soprou Mársyas
sua própria morte; e ao canto
— ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! —
por auroras e noites perigosas
tenho notícias da Grécia — algumas —
da corte de Admeto na Tessália
da cor das águas ao redor das Cícladas
das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos,
do vôo do gavião no ar da tarde
do poeta caldeu na noite de Poséidon
dessa relva curvada à brisa do Parnaso
Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção
e uma taberna e o vinho
e a inocência e o espanto de Hiacinto
e o zéfiro da morte em meus cabelos.
Ao terror da delícia os olhos brilham
pisa a planta dos pés a palmilha de pedra
rastro incandescente de um deus:
quem sou eu que te trago
as noticias da Grécia — algumas —?
o doce filho
da raça dos Mourões — país de para lá
da linha do Equador onde o pecado
não é e os homens
são machos e as mulheres
fêmeas — onde
à sombra das palmeiras e em seus troncos
aparecem os deuses e seus santos.
Vem, formosa mulher, camélia pálida,
que banharam de luz as alvoradas
na concha de tuas mãos a água verde
flauta diáfana de água à pétala
do lábio estremecia
e desmanchada ao canto — ao canto
a água sugeria de novo o gomo verde
a flauta diáfana de água
ao milagre dos dedos e do sopro:
bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia
e eras jônica e coríntia, às vezes dórica
em teus quadris eólios tua concha
à relva eólia
à pétala do lábio estremecia e era
a melodia de tuas flautas escondidas:
começara
no golfo de teus olhos a viagem
ao verde mar por onde
a lua esverdeara a lua
de mel dos cabelos
de Helena à espuma
do desvairado amor:
e estas são notícias da Grécia e um deus
tangia cítaras e ovelhas e os homens
jurados à beleza
domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra
orvalhada de sangue dos guerreiros — um deus
anunciava
a vida e a morte por amor do amor
e anunciava a vida e a morte e os machos
do país dos Mourões.
pois o Major Galdino, meu avô,
cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes
e ao fim da tarde e ao nascer da manhã
no alto do pé de tamarindo
pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela
ou galo-de-campina de cabeça de púrpura
ou juriti arrulhadora:
e da copa das cajaranas de ouro
o outro galo-de-campina — a outra juriti —
vinha aprender
a banda de laranja a talhada de melão o arroz
a água do pequeno alguidar de barro e o canto
solitário entre as varetas de bambu — e logo
eram duas gargantas a cantar e era
aos ouvidos do risonho Major
um canto novo — e tu,
pássara chamadora,
ao furo de meu punhal na taquara
a flauta pura ao céu
azul irás sorvendo
soprada em sopro novo a velha
canção que cantavam as pássara
de Lisboa
por Goa e Madragoa e Itamaracá
me fui partindo e, pois, já tenho
algumas notícias da Grécia e escrevo
entre a mulher da bela cintura
dos olhos verdes
e o mar:
por mar chegadas, por mar envio
as notícias da Grécia;
redijo em alto mar entre
a madrugada jônia e a madrugada
de Maragogí — sudeste
do país dos Mourões.
E eras uma vez:
da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo
vinhas e ao vinho o pé arisco —
de corda em corda a pisar na cítara
e em teu andar
notícias recentes da Grécia:
muitos corpos foram assados e o cheiro
da cútis das vítimas de fina raça
subiu das brasas e a fumaça
odorífera e a labareda e as libações
embriagavam os belos mancebos vindimados;
e era uma vez
Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro
e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia
corda a corda
das notícias da Grécia:
aguardo informes: — aplacara a
hecatombe o deus irado ou, vagabundo
passeia Apolo pelos bosques
de aljava a tiracolo?
Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália
talvez Ilíria;
respirei quanto pude a violeta divina
vem o vento dos montes e à essência
das rosas maceradas
amadurecem-me as narinas sábias:
tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro
dos navegantes.
E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira
e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam
a imagem de São Gonçalo
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e na manhã seguinte a divina creatura
era de novo achada ao pé da mesma palmeira
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e no terceiro dia — fugira durante a noite —
voltou à sua palmeira
e Dona Úrsula Mourão, mais os homens
e as outras mulheres e as crianças
foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada
e em duas medidas de sua sombra
riscaram um retângulo
e ergueram uma capela e onde
era seu tronco é hoje o altar
de São Gonçalo dos Mourões
e estas
são noticias da Grécia:
respirei fundo a violeta divina
de Tênedos a Delfos e guardei
a palmeira nos olhos e o templo na serra;
e era uma vez
na ilha flutuante uma palmeira
uma palmeira em Delos e ali
soprou Apoio a flauta e desde então se fez
estável a ilha
imóvel Delos por pisá-la um Deus:
e era macho e belo e tangia também
uma cítara de ouro e do arco de prata
a flecha disputava ao relâmpago
alvo e risco no céu; e sobre a pele
da serpente na trípode sagrada
uma virgem fundou o lábio imaculado
de conceber o oráculo: o divino pênis
aquecido na boca a sacra Pítia
da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido
a palavra profética: —
‘E AEYOEPÍA
e é na boca das virgens e no ventre das ninfas
e semente fecunda
e à sua volta — e à sua cítara
as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses
e os rapazes aprendiam o poder dos deuses
e os adolescentes mortos
tornavam à vida e a vida era fundada
à sua volta e à sua cítara;
e era fundada a morte à volta
de seu arco de prata — e os outros deuses
o expulsaram do Olimpo —
estas são noticias da Grécia:
de erguer-se o canto, toda voz se apaga
e as ilhas cessam de flutuar e os deuses
invejavam os carneiros e os pastores
tangidos pelos montes da Tessália
à lira de ouro. E ao seu acorde
em pétala e aroma a bem-amada abria
o coração do heliotrópio e o rosto
do adolescente — amor alheio à vida e à morte —
nas folhas do jacinto doloria
e à mera melodia iam surgindo
o loureiro, a romã, o girassol e o mirto
e o zimbro e o lotus
e o galo e o gavião e o cisne
e a cigarra e o grifo
e era a palmeira e à sombra dela
a invenção do santo e as ladainhas
de Dona Úrsula Mourão;
estas são, amor, as notícias da Grécia
e eu recebi no mar:
ao sul a palmeira de Delos e ao norte
as palmeiras — Camaragibe e Ibiapaba, País dos Mourões —
lá onde a vida
aguça a seta nas aljavas de prata
e a morte
se canta à lua-cheia na viola na cítara
de Apolo adolescente.
Tenho notícias da Grécia, algumas:
noticias para a tua cintura pequena e os calcanhares
o chão dos deuses exilados
e lembranças de um deus: no exílio,
de seu canto se sustentava e ao canto
— sustento dos deuses e perigo dos deuses —
floresciam os homens e o rei Midas foi punido
e em sua própria frauta soprou Mársyas
sua própria morte; e ao canto
— ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! —
por auroras e noites perigosas
tenho notícias da Grécia — algumas —
da corte de Admeto na Tessália
da cor das águas ao redor das Cícladas
das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos,
do vôo do gavião no ar da tarde
do poeta caldeu na noite de Poséidon
dessa relva curvada à brisa do Parnaso
Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção
e uma taberna e o vinho
e a inocência e o espanto de Hiacinto
e o zéfiro da morte em meus cabelos.
Ao terror da delícia os olhos brilham
pisa a planta dos pés a palmilha de pedra
rastro incandescente de um deus:
quem sou eu que te trago
as noticias da Grécia — algumas —?
o doce filho
da raça dos Mourões — país de para lá
da linha do Equador onde o pecado
não é e os homens
são machos e as mulheres
fêmeas — onde
à sombra das palmeiras e em seus troncos
aparecem os deuses e seus santos.
Vem, formosa mulher, camélia pálida,
que banharam de luz as alvoradas
na concha de tuas mãos a água verde
flauta diáfana de água à pétala
do lábio estremecia
e desmanchada ao canto — ao canto
a água sugeria de novo o gomo verde
a flauta diáfana de água
ao milagre dos dedos e do sopro:
bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia
e eras jônica e coríntia, às vezes dórica
em teus quadris eólios tua concha
à relva eólia
à pétala do lábio estremecia e era
a melodia de tuas flautas escondidas:
começara
no golfo de teus olhos a viagem
ao verde mar por onde
a lua esverdeara a lua
de mel dos cabelos
de Helena à espuma
do desvairado amor:
e estas são notícias da Grécia e um deus
tangia cítaras e ovelhas e os homens
jurados à beleza
domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra
orvalhada de sangue dos guerreiros — um deus
anunciava
a vida e a morte por amor do amor
e anunciava a vida e a morte e os machos
do país dos Mourões.
pois o Major Galdino, meu avô,
cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes
e ao fim da tarde e ao nascer da manhã
no alto do pé de tamarindo
pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela
ou galo-de-campina de cabeça de púrpura
ou juriti arrulhadora:
e da copa das cajaranas de ouro
o outro galo-de-campina — a outra juriti —
vinha aprender
a banda de laranja a talhada de melão o arroz
a água do pequeno alguidar de barro e o canto
solitário entre as varetas de bambu — e logo
eram duas gargantas a cantar e era
aos ouvidos do risonho Major
um canto novo — e tu,
pássara chamadora,
ao furo de meu punhal na taquara
a flauta pura ao céu
azul irás sorvendo
soprada em sopro novo a velha
canção que cantavam as pássara
1 066
Maria Lucia Miranda Afonso
Bonsai
Bonsai
Enfaixei meu desejo como os pés das chinesas antigas.
Desde pequenino, envolto nas tiras apertadas de mistério.
De madrugada, eu ouvia os ossos trincando,
sentia o dorso do desejo se arquear, buscando ser no espaço mínimo.
Ao tentar andar, tropeçava. Correr? nem pensar.
Desejava asas com seus delicados pés curvos,
miniaturas de pássaros,
pequenas estruturas circulares.
Como uma árvore bonsai, que desde cedo moldam,
contendo-lhe o caule, podando-lhe as raízes,
meu desejo está plantado em um vaso ornamental,
belo e exótico,
cheio de significados e insólitas metáforas,
como os pés das chinesas antigas...
Enfaixei meu desejo como os pés das chinesas antigas.
Desde pequenino, envolto nas tiras apertadas de mistério.
De madrugada, eu ouvia os ossos trincando,
sentia o dorso do desejo se arquear, buscando ser no espaço mínimo.
Ao tentar andar, tropeçava. Correr? nem pensar.
Desejava asas com seus delicados pés curvos,
miniaturas de pássaros,
pequenas estruturas circulares.
Como uma árvore bonsai, que desde cedo moldam,
contendo-lhe o caule, podando-lhe as raízes,
meu desejo está plantado em um vaso ornamental,
belo e exótico,
cheio de significados e insólitas metáforas,
como os pés das chinesas antigas...
1 250
Mirella Márcia
Quinto Soneto
O primeiro véu foi densa névoa, Narciso,
E foi preciso com um sopro eu rasgar.
O segundo véu foi só a mágoa, água
Para navegar. Outro ainda irá restar?
Um terceiro véu vem do luar, amor, ou
Dessa garça que eu toco ao te tocar? Ou
Do piano, cujo som ouvi no ar? Será
Que forças eu terei p’ra atravessar? Pois há
De mim a mim um véu maior que todo o mar,
Mas vou ao lar! És maravilha, dos amores
Minha ilha por visitar! És Tordesilha
Me cortando sem cessar e ainda a filha,
Rima que não cesso de aleitar com este mito
Que me ensina a sina, forma prima de amar.
E foi preciso com um sopro eu rasgar.
O segundo véu foi só a mágoa, água
Para navegar. Outro ainda irá restar?
Um terceiro véu vem do luar, amor, ou
Dessa garça que eu toco ao te tocar? Ou
Do piano, cujo som ouvi no ar? Será
Que forças eu terei p’ra atravessar? Pois há
De mim a mim um véu maior que todo o mar,
Mas vou ao lar! És maravilha, dos amores
Minha ilha por visitar! És Tordesilha
Me cortando sem cessar e ainda a filha,
Rima que não cesso de aleitar com este mito
Que me ensina a sina, forma prima de amar.
839
Carlos Anísio Melhor
Elegia para Hart Crane
Escuro é o espaço em que vivemos,
Onde as formas não conseguem penetrar
Ocultamente a noite dos sentidos
Não revela o esforço de se amar.
Desolado em seu ermo ninguém penetrará
O estreito círculo de Poucas sensações
Pois a Ninfa é muda, esquecida a Palavra
Com que Hermes nos faz ressuscitar.
Nem as imagens agora perdidas
Nem o sonho caindo das que ficam
No alto: desejos surdos ao cais do Nunca Mais
Podem a exata forma revelar.
Os que amaram os dias já passados
E nesse escuro poço buscam o devenir,
Fugitivos do Aqui e do Agora,
O porto é navegar.
Luz somente à superfície o sol
E, jacentes, abandonados fomos sob o mar,
Entre Véus de coral — Palavra Oculta
Nos beija os lábios, esquecidos de beijar.
Todo o fundo do mar é tão cruel
Como o esquecido lugar de nossa origem
Somente um filho consegue retornar
Ao seio da mãe que simboliza o Mar.
Onde as formas não conseguem penetrar
Ocultamente a noite dos sentidos
Não revela o esforço de se amar.
Desolado em seu ermo ninguém penetrará
O estreito círculo de Poucas sensações
Pois a Ninfa é muda, esquecida a Palavra
Com que Hermes nos faz ressuscitar.
Nem as imagens agora perdidas
Nem o sonho caindo das que ficam
No alto: desejos surdos ao cais do Nunca Mais
Podem a exata forma revelar.
Os que amaram os dias já passados
E nesse escuro poço buscam o devenir,
Fugitivos do Aqui e do Agora,
O porto é navegar.
Luz somente à superfície o sol
E, jacentes, abandonados fomos sob o mar,
Entre Véus de coral — Palavra Oculta
Nos beija os lábios, esquecidos de beijar.
Todo o fundo do mar é tão cruel
Como o esquecido lugar de nossa origem
Somente um filho consegue retornar
Ao seio da mãe que simboliza o Mar.
846
Martônio de Vasconcelos
Ocarina: O Som do Barro
A Virgílio Maia,
poeta singular, amigo plural
Doce barro das terras nordestinas,
Ressoando este som que não se apaga,
na leveza da argila e das resinas,
Som da noite e de festa, som que afaga.
É o acorde da noite que termina
Com os dedos tocando agalopado;
É o som da araponga, é um trinado,
É a doçura da voz de uma menina.
Este barro que canta e que extasia
E que é clave de sol, é nostalgia,
É prisão de um pássaro canoro.
Ocarina: dos ventos, dos anuns:
Se te ouvi uma tarde em Garanhuns,
Sei dos grãos do teu lírico sonoro!
poeta singular, amigo plural
Doce barro das terras nordestinas,
Ressoando este som que não se apaga,
na leveza da argila e das resinas,
Som da noite e de festa, som que afaga.
É o acorde da noite que termina
Com os dedos tocando agalopado;
É o som da araponga, é um trinado,
É a doçura da voz de uma menina.
Este barro que canta e que extasia
E que é clave de sol, é nostalgia,
É prisão de um pássaro canoro.
Ocarina: dos ventos, dos anuns:
Se te ouvi uma tarde em Garanhuns,
Sei dos grãos do teu lírico sonoro!
867
Márcio de Sousa Andrade
Outro Navio Negreiro
Embala o poema a bala da tragédia
testemunho supremo
murmúrio de vozes miúdas.
— Canta Castro Alves,
o lamento profundo
da lembrança covarde
filhos do acaso e da realidade.
Homens do mar, homens da terra
ocultos da vida
nos cultos desgraçados...
Apagaram as luzes da cidade
e dos campos sob antenas de TV.
Nos morros, nos alagados, nos becos
(os quilombos)
tremulam pálidas bandeiras
de onde virão outros palmares.
— Venha poeta!
mãos dadas, cantos unidos,
trompa certa e plena
a cantar para o grande povo
esses,
filhos da usura
perdidos na noite
comendo esperanças
pelos olhos,
chorando necessidades...
E as páginas da história
confessam a podre missão
estandarte macabro e sinistro
carregando o pranto de todos.
Deus,
Que águas navegamos
que turfas marés navegamos
que a brisa beija e balança
e morremos todos sem qualquer
esperança.
testemunho supremo
murmúrio de vozes miúdas.
— Canta Castro Alves,
o lamento profundo
da lembrança covarde
filhos do acaso e da realidade.
Homens do mar, homens da terra
ocultos da vida
nos cultos desgraçados...
Apagaram as luzes da cidade
e dos campos sob antenas de TV.
Nos morros, nos alagados, nos becos
(os quilombos)
tremulam pálidas bandeiras
de onde virão outros palmares.
— Venha poeta!
mãos dadas, cantos unidos,
trompa certa e plena
a cantar para o grande povo
esses,
filhos da usura
perdidos na noite
comendo esperanças
pelos olhos,
chorando necessidades...
E as páginas da história
confessam a podre missão
estandarte macabro e sinistro
carregando o pranto de todos.
Deus,
Que águas navegamos
que turfas marés navegamos
que a brisa beija e balança
e morremos todos sem qualquer
esperança.
896
Mário Hélio
Nota biográfica:
Mário Hélio nasceu em Sapé (PB) no dia 16 de abril de 1965. Publicou: Livrório/Opuszero, separata da Revista Arrecifes, do Conselho Municipal de Cultura da Prefeitura do Recife. Em 1984, ganhou o primeiro lugar no Concurso Nacional de Poesia Carlos Pena Filho, promovido pelo Bar Savoy, com "As Oito Fauces do Poema", e, em 1990, venceu o concurso de moonografia "O Recife na Poesia de João Cabral". É jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Desde 1984 escreve no Jornal do Commercio, do Recife. Em 1993, é Mestre em História pela Universidade Federal de Pernambuco, com dissertação sobre a obra de Gilberto Freyre. É atualmente editor de literatura do Jornal do Commercio, editor do Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco e professor de História Antiga na Universidade Federal de Pernambuco.
958
Leandro Nogueira Monteiro
Terra Brazileira
Ó água doce! Quanto do teu açúcar
É cana do meu Brazil.
Por te explorarmos, quantos índios morreram,
Quantos bandeirantes não faleceram.
Quantos hectares foram devastados
Para que fosse nossa, oh harpa?
E valeu a pena? Tudo vale a pena
Pra terra não ser pequena.
Quem quer ter mais tesouros
Tem que conseguir mais oiro.
Deus à terra o verde e o amarelo deu
E nella é que inspirou-se o véu.
Paródia de "Mar Portuguez", de Fernando Pessoa
[Obs.: Gostaria de ressaltar que os "erros" como "brazileira", "Brazil", "oiro"
e "nella", são propositais, em busca de maior verossimilhança.]
É cana do meu Brazil.
Por te explorarmos, quantos índios morreram,
Quantos bandeirantes não faleceram.
Quantos hectares foram devastados
Para que fosse nossa, oh harpa?
E valeu a pena? Tudo vale a pena
Pra terra não ser pequena.
Quem quer ter mais tesouros
Tem que conseguir mais oiro.
Deus à terra o verde e o amarelo deu
E nella é que inspirou-se o véu.
Paródia de "Mar Portuguez", de Fernando Pessoa
[Obs.: Gostaria de ressaltar que os "erros" como "brazileira", "Brazil", "oiro"
e "nella", são propositais, em busca de maior verossimilhança.]
897
Luiz Nogueira Barros
Do partir e do voltar
Partir. Voltar.
Outra vez partir
e outra vez voltar,
compõem somente
um quadro natural
do tentar-viver.
Se mais, talvez,
estranha sinfonia
de aflitos pés
buscando o tom da vida
com riscos de não ouvi-lo.
E assim,
para uma existência machucada
o sonho pode acabar numa única saída:
esquecer roteiros e apagar paisagens...
Outra vez partir
e outra vez voltar,
compõem somente
um quadro natural
do tentar-viver.
Se mais, talvez,
estranha sinfonia
de aflitos pés
buscando o tom da vida
com riscos de não ouvi-lo.
E assim,
para uma existência machucada
o sonho pode acabar numa única saída:
esquecer roteiros e apagar paisagens...
855
Léo Schlafman
Bilac
Quase um século após sua morte, a publicação das
obras reunidas serve de estímulo para reavaliar o
poeta que, objeto de entusiasmo popular na sua
época, tornou-se o alvo preferido dos modernistas
Obra reunida - Olavo Bilac - Organização de Alexei Bueno
Nova Aguilar, 1.078 páginas R$ 67
Oitenta anos separam a morte de Olavo Bilac da publicação ônibus de seus livros. É quase um século - mas século de grandes transformações estéticas e políticas. O poeta, que nasceu durante a Guerra do Paraguai e morreu, com a belle époque, no fim da Grande Guerra, reapresenta-se ao público em plena guerra da Chechênia, depois do desmoronamento do império soviético. Mas nunca deixou de ser publicado avulsamente, e lido, analisado nas escolas, e de tal forma que muitos de seus versos hoje fazem parte da memória popular, como "Ora (direis) ouvir estrelas!" ou "Última flor do Lácio, inculta e bela, / És a um tempo, esplendor e sepultura".
Sempre foi transcrito com fartura nas antologias, entronizado na liderança do movimento parnasiano, criticado e defendido, depois da morte como em vida. Mas, como disse T. S. Eliot, de tempos em tempos, em cada 100 anos mais ou menos, é desejável que algum crítico apareça para rever o passado e dispor os poetas e os poemas em nova ordem.
Segundo Eliot, nenhum poeta nem qualquer outro tipo de artista tem seu significado completo sozinho. Sua apreciação é a apreciação da relação com os poetas e artistas mortos. Não se pode avaliá-lo isoladamente. Quando nova obra de arte é criada, algo novo ocorre com todas as obras que a precederam.
O ciclo a que Bilac pertenceu chocou-se de frente com o fogo de barragem da Semana de Arte Moderna. De fato, quatro anos depois da morte dele, em 1918, os modernistas, em 1922, que, na fórmula de Ivan Junqueira, não sabiam bem o que queriam, embora soubessem perfeitamente o que não queriam, escolheram-no como alvo de predileção, abalaram-lhe o prestígio, e tudo "porque sua poesia não interessava em absoluto ao projeto modernista, e não porque o julgassem mau poeta".
O verso livre já destronara soneto, alexandrino e rimas em outras plagas, mas hoje se sabe, com o distanciamento crítico que só o tempo proporciona, que nenhum verso é livre para o homem que deseja fazer bom trabalho. Grande quantidade de prosa de má qualidade tem sido escrita, desde então, com o nome de verso. E vice-versa. Apenas um mau poeta poderia considerar o verso livre libertação da forma.
No entanto, a clivagem entre parnasianismo e modernismo enraizou-se para sempre. Basta comparar a exaltação militar de Bilac, na campanha pelo alistamento obrigatório, com o pacifismo de Clã do jabuti, de Mário de Andrade, dez anos depois, para constatar o abismo que a revolução modernista cavou entre as duas gerações. O abismo teve várias conseqüências. Gonçalves Dias, Castro Alves e Olavo Bilac foram os últimos na literatura brasileira a despertar ao mesmo tempo entusiasmo culto e popular. Implantou-se entre o grande público e as artes, incluindo a poesia, um mal-entendido, uma dissociação, até hoje não suficientemente esclarecida.
Num banquete monstro de que foi alvo, em 1907, Bilac lembrou que quarenta anos antes não havia propriamente homens de letras no Brasil. "Havia estadistas, parlamentares, professores, diplomatas, homens da sociedade ou homens ricos, que, de quando em quando, invadiam por momentos o bairro literário..." Na fase seguinte, poetas e escritores que desejavam ser apenas poetas e escritores cometeram o erro de mostrar desdém pela consideração que a sociedade lhes recusava. A geração de Bilac, e ele principalmente, transformaram o que era então passatempo em profissão, culto, sacerdócio. "Viemos trabalhar cá em baixo, no seio do formigueiro humano."
Hoje em dia não há banquetes monstros para poetas. O formigueiro humano sequer gosta da poesia que lê, alegando que não a entende. Já Bilac, da estréia ao crepúsculo, revelou-se antes simples do que complicado, e isto talvez seja uma das causas da extrema receptividade que tiveram e ainda têm seus versos. José Veríssimo criticava em Bilac a falta de extensão e profundeza, mas reconhecia feição descritiva, pompa, o brilho novo de sua forma, feitos para agradar, dando sempre "impressão de acabado, de perfeito". Machado de Assis, em A nova geração, definiu a poesia parnasiana como uma inclinação nova nos espíritos, sem se utilizar ainda da expressão parnasiana. O parnasianismo renegou o romantismo, e exaltou uma arte fria ("Serás para mim uma deusa, / (...) inviolável e fria", escreveu Bilac), impassível, intelectualizada, contra o transe, a participação e a emotividade - em suma, a hipertrofia do eu. Em Profissão de fé Bilac pregou o trabalho formal, o culto ao estilo: "Torce, aprimora, alteia, lima / A frase; e enfim, / No verso de ouro engasta a rima, / Como um rubim." Queria que a estrofe, cristalina, "Dobrada ao jeito / Do ourives, saia da oficina / Sem um defeito".
No correr da história literária, os parnasianos da primeira hora, como Alberto Oliveira, Raimundo Correia e Bilac (a "trindade parnasiana") têm sido identificados como românticos retardatários. Filiavam-se ao parnasse francês (Gautier, Bainville, Lisle, Baudelaire e Hérédia). Bocage superou Camões na veneração parnasiana brasileira. As obras bem escritas são eternas. Aboliu-se o mistério na poesia. Evitavam-se recursos musicais, como aliterações, homofonias, ecos, expressões de poder encantatório. Repudiava-se o contexto medieval e se proclamava a superioridade da vida, da saúde, da sensualidade, da objetividade, do conhecimento do mal e do homem, sobre a morte, a doença, a melancolia, o sentimentalismo, a objetividade, a inocência e Deus (João Pacheco, em O realismo).
Mas a impassibilidade parnasiana não se manifestou totalmente nos poetas brasileiros, sempre atormentados pela incontinência da sensibilidade nacional, o brilho da paisagem, a exigência do sensualismo. O próprio Bilac, citado por Pacheco, mais de uma vez reclamou, em versos, da asfixia imposta pela escola, demasiadamente atada à prisão da lógica: "O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava: / A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve..." Manuel Bandeira, em Poemeto erótico, mostrou que isto não acontecia sempre: "Teu corpo claro e perfeito, / Teu corpo de maravilha, / Quero possuí-lo no leito / Estreito da redondilha." Pode-se, portanto, como fez Bandeira, e Bilac tantas vezes, tirar proveito das limitações da forma, quando se quer. Mário de Andrade, em O empalhador de passarinho, disse, a propósito de Bilac: "A escultura das palavras também tem suas belezas. A solaridade, a luz crua, a nitidez das sombras curtas de certos verbalismos enfunados, pelo próprio afastamento em que estão da verdadeira poesia, têm seu sabor especial, pecaminoso."
Ao estrear, aos 23 anos, com Poesias, Bilac já estava perfeitamente enquadrado no rigor da forma, e com a sensualidade à flor da pele. Na adolescência, encharcou-se dos ecos da Guerra do Paraguai ("Todo esse espetáculo de heroísmo dominando a vida nacional, e por muitos anos alimentando a altivez do povo"). O Rio de sua maturidade era estranho burgo colonial, com quase três quartos de negros. A casa onde nasceu, na Rua da Vala, atual Uruguaiana, pertencia à área que melhor exprimia a fealdade e sujeira da capital. Perto estava a Rua do Ouvidor, com seu singular comércio francês. Conforme descreveu Ledo Ivo, o que dominava o centro urbano era o comércio atacadista de aspecto sinistro. Quando um tílburi corria pelos calçamentos irregulares, os pedestres se colavam às paredes. Passava-se manteiga da Dinamarca no pão de trigo inglês, bebia-se cerveja alemã, comiam-se queijos flamengos na Confeitaria Pascoal, usavam-se os esgotos da City e andava-se em bonde da Botanical Garden. Os cidadãos inconformados reclamavam das loucuras do prefeito Pereira Passos.
Um ano antes da publicação de Poesias (1888) Bilac n
obras reunidas serve de estímulo para reavaliar o
poeta que, objeto de entusiasmo popular na sua
época, tornou-se o alvo preferido dos modernistas
Obra reunida - Olavo Bilac - Organização de Alexei Bueno
Nova Aguilar, 1.078 páginas R$ 67
Oitenta anos separam a morte de Olavo Bilac da publicação ônibus de seus livros. É quase um século - mas século de grandes transformações estéticas e políticas. O poeta, que nasceu durante a Guerra do Paraguai e morreu, com a belle époque, no fim da Grande Guerra, reapresenta-se ao público em plena guerra da Chechênia, depois do desmoronamento do império soviético. Mas nunca deixou de ser publicado avulsamente, e lido, analisado nas escolas, e de tal forma que muitos de seus versos hoje fazem parte da memória popular, como "Ora (direis) ouvir estrelas!" ou "Última flor do Lácio, inculta e bela, / És a um tempo, esplendor e sepultura".
Sempre foi transcrito com fartura nas antologias, entronizado na liderança do movimento parnasiano, criticado e defendido, depois da morte como em vida. Mas, como disse T. S. Eliot, de tempos em tempos, em cada 100 anos mais ou menos, é desejável que algum crítico apareça para rever o passado e dispor os poetas e os poemas em nova ordem.
Segundo Eliot, nenhum poeta nem qualquer outro tipo de artista tem seu significado completo sozinho. Sua apreciação é a apreciação da relação com os poetas e artistas mortos. Não se pode avaliá-lo isoladamente. Quando nova obra de arte é criada, algo novo ocorre com todas as obras que a precederam.
O ciclo a que Bilac pertenceu chocou-se de frente com o fogo de barragem da Semana de Arte Moderna. De fato, quatro anos depois da morte dele, em 1918, os modernistas, em 1922, que, na fórmula de Ivan Junqueira, não sabiam bem o que queriam, embora soubessem perfeitamente o que não queriam, escolheram-no como alvo de predileção, abalaram-lhe o prestígio, e tudo "porque sua poesia não interessava em absoluto ao projeto modernista, e não porque o julgassem mau poeta".
O verso livre já destronara soneto, alexandrino e rimas em outras plagas, mas hoje se sabe, com o distanciamento crítico que só o tempo proporciona, que nenhum verso é livre para o homem que deseja fazer bom trabalho. Grande quantidade de prosa de má qualidade tem sido escrita, desde então, com o nome de verso. E vice-versa. Apenas um mau poeta poderia considerar o verso livre libertação da forma.
No entanto, a clivagem entre parnasianismo e modernismo enraizou-se para sempre. Basta comparar a exaltação militar de Bilac, na campanha pelo alistamento obrigatório, com o pacifismo de Clã do jabuti, de Mário de Andrade, dez anos depois, para constatar o abismo que a revolução modernista cavou entre as duas gerações. O abismo teve várias conseqüências. Gonçalves Dias, Castro Alves e Olavo Bilac foram os últimos na literatura brasileira a despertar ao mesmo tempo entusiasmo culto e popular. Implantou-se entre o grande público e as artes, incluindo a poesia, um mal-entendido, uma dissociação, até hoje não suficientemente esclarecida.
Num banquete monstro de que foi alvo, em 1907, Bilac lembrou que quarenta anos antes não havia propriamente homens de letras no Brasil. "Havia estadistas, parlamentares, professores, diplomatas, homens da sociedade ou homens ricos, que, de quando em quando, invadiam por momentos o bairro literário..." Na fase seguinte, poetas e escritores que desejavam ser apenas poetas e escritores cometeram o erro de mostrar desdém pela consideração que a sociedade lhes recusava. A geração de Bilac, e ele principalmente, transformaram o que era então passatempo em profissão, culto, sacerdócio. "Viemos trabalhar cá em baixo, no seio do formigueiro humano."
Hoje em dia não há banquetes monstros para poetas. O formigueiro humano sequer gosta da poesia que lê, alegando que não a entende. Já Bilac, da estréia ao crepúsculo, revelou-se antes simples do que complicado, e isto talvez seja uma das causas da extrema receptividade que tiveram e ainda têm seus versos. José Veríssimo criticava em Bilac a falta de extensão e profundeza, mas reconhecia feição descritiva, pompa, o brilho novo de sua forma, feitos para agradar, dando sempre "impressão de acabado, de perfeito". Machado de Assis, em A nova geração, definiu a poesia parnasiana como uma inclinação nova nos espíritos, sem se utilizar ainda da expressão parnasiana. O parnasianismo renegou o romantismo, e exaltou uma arte fria ("Serás para mim uma deusa, / (...) inviolável e fria", escreveu Bilac), impassível, intelectualizada, contra o transe, a participação e a emotividade - em suma, a hipertrofia do eu. Em Profissão de fé Bilac pregou o trabalho formal, o culto ao estilo: "Torce, aprimora, alteia, lima / A frase; e enfim, / No verso de ouro engasta a rima, / Como um rubim." Queria que a estrofe, cristalina, "Dobrada ao jeito / Do ourives, saia da oficina / Sem um defeito".
No correr da história literária, os parnasianos da primeira hora, como Alberto Oliveira, Raimundo Correia e Bilac (a "trindade parnasiana") têm sido identificados como românticos retardatários. Filiavam-se ao parnasse francês (Gautier, Bainville, Lisle, Baudelaire e Hérédia). Bocage superou Camões na veneração parnasiana brasileira. As obras bem escritas são eternas. Aboliu-se o mistério na poesia. Evitavam-se recursos musicais, como aliterações, homofonias, ecos, expressões de poder encantatório. Repudiava-se o contexto medieval e se proclamava a superioridade da vida, da saúde, da sensualidade, da objetividade, do conhecimento do mal e do homem, sobre a morte, a doença, a melancolia, o sentimentalismo, a objetividade, a inocência e Deus (João Pacheco, em O realismo).
Mas a impassibilidade parnasiana não se manifestou totalmente nos poetas brasileiros, sempre atormentados pela incontinência da sensibilidade nacional, o brilho da paisagem, a exigência do sensualismo. O próprio Bilac, citado por Pacheco, mais de uma vez reclamou, em versos, da asfixia imposta pela escola, demasiadamente atada à prisão da lógica: "O pensamento ferve, e é um turbilhão de lava: / A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve..." Manuel Bandeira, em Poemeto erótico, mostrou que isto não acontecia sempre: "Teu corpo claro e perfeito, / Teu corpo de maravilha, / Quero possuí-lo no leito / Estreito da redondilha." Pode-se, portanto, como fez Bandeira, e Bilac tantas vezes, tirar proveito das limitações da forma, quando se quer. Mário de Andrade, em O empalhador de passarinho, disse, a propósito de Bilac: "A escultura das palavras também tem suas belezas. A solaridade, a luz crua, a nitidez das sombras curtas de certos verbalismos enfunados, pelo próprio afastamento em que estão da verdadeira poesia, têm seu sabor especial, pecaminoso."
Ao estrear, aos 23 anos, com Poesias, Bilac já estava perfeitamente enquadrado no rigor da forma, e com a sensualidade à flor da pele. Na adolescência, encharcou-se dos ecos da Guerra do Paraguai ("Todo esse espetáculo de heroísmo dominando a vida nacional, e por muitos anos alimentando a altivez do povo"). O Rio de sua maturidade era estranho burgo colonial, com quase três quartos de negros. A casa onde nasceu, na Rua da Vala, atual Uruguaiana, pertencia à área que melhor exprimia a fealdade e sujeira da capital. Perto estava a Rua do Ouvidor, com seu singular comércio francês. Conforme descreveu Ledo Ivo, o que dominava o centro urbano era o comércio atacadista de aspecto sinistro. Quando um tílburi corria pelos calçamentos irregulares, os pedestres se colavam às paredes. Passava-se manteiga da Dinamarca no pão de trigo inglês, bebia-se cerveja alemã, comiam-se queijos flamengos na Confeitaria Pascoal, usavam-se os esgotos da City e andava-se em bonde da Botanical Garden. Os cidadãos inconformados reclamavam das loucuras do prefeito Pereira Passos.
Um ano antes da publicação de Poesias (1888) Bilac n
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Lígia Diniz
Querer
Há certas coisas que não cabem em uma linha
Não cabem em uma estrofe
Não cabem em um poema,
em mil poemas.
Não cabem em uma idéia
Não cabem em uma alma,
em um corpo, em mil corpos
Há certas coisas que se chamam,
sem se chamar - não cabem em um nome -
Se chamam fogo.
Não cabem em uma estrofe
Não cabem em um poema,
em mil poemas.
Não cabem em uma idéia
Não cabem em uma alma,
em um corpo, em mil corpos
Há certas coisas que se chamam,
sem se chamar - não cabem em um nome -
Se chamam fogo.
986
José Eustáquio da Silva
Quem sou?
Meu nome é José Eustáquio da Silva (Taquinho), natural de Bela Vista de Minas-MG, pequena cidade da zona da mata mineira, situada a 100 Km da capital Belo Horizonte.
Há aproximadamente 15 anos me identifiquei com a literatura, e hoje a tenho como minha melhor companheira.
Minhas primeiras ( e únicas ) investidas no ramo das letras, deram-se em meados da década de 80, onde atrevi-me a inscrever meus incautos e pueris poemas em alguns concursos literários da escola na qual estudei (sou formado em Metalurgia ).
Também nesta época, atiçado por alguns amigos, andei musicalizando alguns poemas, fazendo-os participar de alguns (bons) festivais de música da minha cidade, chegando, inclusive, talvez mais por insistência do que competência, a ganhar alguns prêmios.
Hoje, prismando-me em uma cosmovisão bem diferente, talvez menos inteligente e menos inocente , daquela de alguns anos atrás, sigo observando tudo, como se fosse tudo tão estranho e buscando um novo significado para o que, para muitos, parece óbvio.
Há aproximadamente 15 anos me identifiquei com a literatura, e hoje a tenho como minha melhor companheira.
Minhas primeiras ( e únicas ) investidas no ramo das letras, deram-se em meados da década de 80, onde atrevi-me a inscrever meus incautos e pueris poemas em alguns concursos literários da escola na qual estudei (sou formado em Metalurgia ).
Também nesta época, atiçado por alguns amigos, andei musicalizando alguns poemas, fazendo-os participar de alguns (bons) festivais de música da minha cidade, chegando, inclusive, talvez mais por insistência do que competência, a ganhar alguns prêmios.
Hoje, prismando-me em uma cosmovisão bem diferente, talvez menos inteligente e menos inocente , daquela de alguns anos atrás, sigo observando tudo, como se fosse tudo tão estranho e buscando um novo significado para o que, para muitos, parece óbvio.
1 057
Jorge Pieiro
Os Abismos Horizontais de Sérgio Campos
Tempo e maturidade são fatores essenciais para consolidar as relações viscerais entre a poesia e o poeta. Convém esclarecer que essa afirmativa anula a concepção comum de tempo, enquanto representação dos movimentos do Universo. Concebido assim, sem as prisões estabelecidas pelo homem e seus métodos, mas como parcela íntima e individual, o tempo do poeta contraria a inevitável degeneração funcional e orgânica do ser humano. Dessa forma, permite elastecer a mirada dos horizontes e aprofundar a contemplação das esferas de vivência interior; já a maturidade, provável conseqüência dos escrutínios da vida, toma-se motivo condutor da experiência poética, estendida entre a realidade e o imaginário.
Com as cicatrizes marcando um rosto, um poeta busca luz ao beber o sol e as constelações, para assim delimitar suas pedras, suas veredas, suas margens e suas amplidões. É privilégio apenas de verdadeiros poetas estabelecer os contornos do infinito e do ínfimo pelo jogo e artifício das palavras com as quais lida.
Sem os alardes vazios de tantos poetas nacionais, apregoadores de falsas grandezas, um poeta buscou a eternidade nas palavras e, com elas, compôs um mundo manual, épico, abissal. Como se houvesse cumprido o rastro da sua luz, legou-nos espetáculos de aurora e crepúsculos um mundo sensível, belo e generoso de poesia. Embora já ausente o principal protagonista, a singularidade do poeta carioca Sérgio Campos (l941-1994), leva-me a reverenciar sua poesia pela leitura reunida de seus dez anos de escrutínio de palavras.
Mar Anterior (Mundo Manual Edições, 1994) foi a celebração e o registro apurado de sua poesia publicada. Selecionados e revistos, a obra reúne poemas desde A Casa do Elementos (CE), 1984, Passando por Bichos (B), 1985, Ciclo Amatório (CA), 1986, Montanhecer (M), 1987, Nativa Idade (NI), O Lobo e o Pastor (LP) e As Iras do Dia (ID), todos de 1990, Móbiles de Sal (MS), 1991, A Cúpula e o Rumor (CR), 1992, até Leitura de Cinzas (LC), 1993.
Mar Anterior é uma obra poética em dinâmico refluxo, que possibilita reconhecer a variedade de estratagemas no possível sal marinho de suas entranhas. Exala uma maresia provocada, não pelo agito das ondas de um tempo infelizmente contemporâneo ao que resta de valor sob a superfície desse nosso caosmos de todo dia, mas surgido de uma complacência com os valores arcaicos da mitologia pulsante na inconsciência de nossos cicios de sol e lua.
A um poeta que afirmou ter se fixado nas formas clássicas de poesia, também a ele foi exigida a absoluta modernidade de seu dassicismo, sob a ameaça de não ser compreendido pelos seus pares, e, principalmente, pelas castas dos cartesianos e positivistas de tocaia. Mas isso não importa tanto, pois para quem fazer uma arte arcaica assustou mais aos outros poetas que ao poder, cabe-me estender os olhos às suas poéticas como quem vai assumir uma postura irremediavelmente solene, livre porém dos artifícios burocráticos.
A ausência desses efeitos de repartição pública é reflexo, talvez, das declarações do poeta em várias situações e ocasiões, ao enunciar que a sua estética era basicamente a da repetição. Não escreveu Campos poemas semelhantes, mas os reescreveu elevando a escritura à enésima potência. Quis cumprir a teoria da repetição ao recriar as próprias versões de sua simplicidade harmônica. A prova precisa se dá nesses versos do soneto Apenas o que Dou não é Perdido (LP): "pois o que sei e fiz trouxe da ausência / e refazer é meu melhor inventa" (p. 51).
Em sua curta trajetória poética de 10 anos Sérgio Campos não foi apenas um transcriador dos mitos greco-latinos, mas um venturoso perseguidor da consciência, um viajante na idealidade imaginária que seguiu a trajetória da busca, como Odisseu, em seu Tecido de abismos (ID): sigo em busca de um ouro em que tudo se oculta (p. 36).
Mar Anterior é uma peça solene. Reúne poemas que se reafirmam formalmente em sonetos, odes ou formulações livres, enfeitados, contudo, dentro de uma perspectiva épica moderníssima, o que possibilita vislumbrar origens fragmentárias em suas extensões. A obra, com seus entes, espaços, vazios e suas plenitudes reunidos de forma sucinta, porém bastante impetuosa, sugere a intenção de Campos em construir sua poesia como se construísse abismos horizontais. A profundidade não é vertical; a perpendicularidade dos limites é que revela a sua própria extensão...
Fazendo um paralelo com as construções poéticas greco-latinas, premiadas pelo tempo e pela ousadia, ou com as procriações barrocas, Mar Anterior deixa-se revelar como um exemplar iceberg poético, onde as ruínas dos estilos aparentes ascendem do nível comum dos mortais, deixando submersas as raízes de sua profusão, para mesclar-se com as exigidas fagulhas da poesia mais contemporânea. Ora, não são das ruínas, ou dos encantados ossos que se constrói uma urbe perdida ou um ancestral?
Os poemas mais curtos de Sérgio Campos, na realidade pequenos tentáculos de um abismo mais extenso, são os que considero mais clássicos. Como constituem elos de um enunciado maior, (in)visível, sugerem a figura dos submersos icebergs. Veja-se o exemplo nessa Encantação dos Fios (MS): — "Ó Adriane / o que não se escreve para a beleza / resta sempre inacabada" (p. 31), ou em Lumina (CR): "Entre o que sucede / e intermedia / está a velocidade da flexa / contra a corrente // entre o significado e Delfos o âmbar da profecia // "Mas de inocência e perigo / a manhã faz seus ninhos" (p. 90).
Note-se que o caminho mitológico, nesses exemplos, são fragmentos de erudição diante da grandeza metafórica das nuanças do cotidiano, da incompletude eterna da beleza à possibilidade maniqueísta de como a manhã faz seus ninhos...
do sótão ao porão
Como não poderia deixar de figurar entre os elementos essenciais de uma poética, Sérgio Campos também definiu e deixou florescer elementos simbólicos em sua obra. Exemplo mais evidente dá-se com as construções em tomo da palavra ou do lugar-asilo, a casa. Com efeitos extremamente valiosos, Campos ativa sua motivação e atenção às notas de Gaston Bachelard, eminente fenomenólogo, em sua Poética do Espaço.
Nos poemas dedicados à casa, ruminações dos espaços íntimos, Campos imprimiu com precisão e sutileza a sua previdente solidão, por meio de um texto figurativo, sem ilusões. A exemplo de um eremita que devaneou com a audição de melodias provençais, o poeta revelou o segredo de suas imensidões marginais: acendeu a vela no porão e permitiu a luz do sótão... ou seja, revelou-se.
Em Ruínas Horizontais (MS), o poeta refletiu: "a casa / é seus arredores" (p. 11); "raptos de aromas / de crianças no quintal" (p. 13); "a casa / é seus crepúsculos" (p. 14); "a casa / é suas ruínas" (p. 16); "a casa / é seu corpo e viagem" (p. 17).
Numa evidente busca do passado, o poeta reviveu a ancestralidade de seu espaço e foi consumido por sua gênese. Pois a casa foi / é ainda "alvenaria de acasos", "vômito das clarabóias", "espantalho de rendas no colo das tias", e tantas outras dimensões sintagmáticas, que convergem para uma única compreensão da vida: "toda ruína é humana". A essência do cotidiano, que engole a memória e desatina a lembrança, é a própria fórmula da maravilha poética de Sérgio Campos.
As Ilhas da Casa (CR) projetam-se mais graves quanto às conclusões do poeta sobre seus arredores. Preso à sua sombra, o poeta admite que "memórias são sucessões / de espelhos aprisionados" (p. 94) para, em seguida, declarar de viva voz o seu desejo de regresso ao hiato que o separa do passado. Tendo, ora as visões de todas as janelas e corredores, ora de seus espaços imaginários, o poeta quer " — Deixar as portas abertas / para paixões circulares" (p. 97).
Com essas imagens e as visões das extremidades cíclicas do espaço, Campos reformulou as divagações de Gaston Bachelard, a respeito da poética e da solidão. Coube a ele revelar aq
Com as cicatrizes marcando um rosto, um poeta busca luz ao beber o sol e as constelações, para assim delimitar suas pedras, suas veredas, suas margens e suas amplidões. É privilégio apenas de verdadeiros poetas estabelecer os contornos do infinito e do ínfimo pelo jogo e artifício das palavras com as quais lida.
Sem os alardes vazios de tantos poetas nacionais, apregoadores de falsas grandezas, um poeta buscou a eternidade nas palavras e, com elas, compôs um mundo manual, épico, abissal. Como se houvesse cumprido o rastro da sua luz, legou-nos espetáculos de aurora e crepúsculos um mundo sensível, belo e generoso de poesia. Embora já ausente o principal protagonista, a singularidade do poeta carioca Sérgio Campos (l941-1994), leva-me a reverenciar sua poesia pela leitura reunida de seus dez anos de escrutínio de palavras.
Mar Anterior (Mundo Manual Edições, 1994) foi a celebração e o registro apurado de sua poesia publicada. Selecionados e revistos, a obra reúne poemas desde A Casa do Elementos (CE), 1984, Passando por Bichos (B), 1985, Ciclo Amatório (CA), 1986, Montanhecer (M), 1987, Nativa Idade (NI), O Lobo e o Pastor (LP) e As Iras do Dia (ID), todos de 1990, Móbiles de Sal (MS), 1991, A Cúpula e o Rumor (CR), 1992, até Leitura de Cinzas (LC), 1993.
Mar Anterior é uma obra poética em dinâmico refluxo, que possibilita reconhecer a variedade de estratagemas no possível sal marinho de suas entranhas. Exala uma maresia provocada, não pelo agito das ondas de um tempo infelizmente contemporâneo ao que resta de valor sob a superfície desse nosso caosmos de todo dia, mas surgido de uma complacência com os valores arcaicos da mitologia pulsante na inconsciência de nossos cicios de sol e lua.
A um poeta que afirmou ter se fixado nas formas clássicas de poesia, também a ele foi exigida a absoluta modernidade de seu dassicismo, sob a ameaça de não ser compreendido pelos seus pares, e, principalmente, pelas castas dos cartesianos e positivistas de tocaia. Mas isso não importa tanto, pois para quem fazer uma arte arcaica assustou mais aos outros poetas que ao poder, cabe-me estender os olhos às suas poéticas como quem vai assumir uma postura irremediavelmente solene, livre porém dos artifícios burocráticos.
A ausência desses efeitos de repartição pública é reflexo, talvez, das declarações do poeta em várias situações e ocasiões, ao enunciar que a sua estética era basicamente a da repetição. Não escreveu Campos poemas semelhantes, mas os reescreveu elevando a escritura à enésima potência. Quis cumprir a teoria da repetição ao recriar as próprias versões de sua simplicidade harmônica. A prova precisa se dá nesses versos do soneto Apenas o que Dou não é Perdido (LP): "pois o que sei e fiz trouxe da ausência / e refazer é meu melhor inventa" (p. 51).
Em sua curta trajetória poética de 10 anos Sérgio Campos não foi apenas um transcriador dos mitos greco-latinos, mas um venturoso perseguidor da consciência, um viajante na idealidade imaginária que seguiu a trajetória da busca, como Odisseu, em seu Tecido de abismos (ID): sigo em busca de um ouro em que tudo se oculta (p. 36).
Mar Anterior é uma peça solene. Reúne poemas que se reafirmam formalmente em sonetos, odes ou formulações livres, enfeitados, contudo, dentro de uma perspectiva épica moderníssima, o que possibilita vislumbrar origens fragmentárias em suas extensões. A obra, com seus entes, espaços, vazios e suas plenitudes reunidos de forma sucinta, porém bastante impetuosa, sugere a intenção de Campos em construir sua poesia como se construísse abismos horizontais. A profundidade não é vertical; a perpendicularidade dos limites é que revela a sua própria extensão...
Fazendo um paralelo com as construções poéticas greco-latinas, premiadas pelo tempo e pela ousadia, ou com as procriações barrocas, Mar Anterior deixa-se revelar como um exemplar iceberg poético, onde as ruínas dos estilos aparentes ascendem do nível comum dos mortais, deixando submersas as raízes de sua profusão, para mesclar-se com as exigidas fagulhas da poesia mais contemporânea. Ora, não são das ruínas, ou dos encantados ossos que se constrói uma urbe perdida ou um ancestral?
Os poemas mais curtos de Sérgio Campos, na realidade pequenos tentáculos de um abismo mais extenso, são os que considero mais clássicos. Como constituem elos de um enunciado maior, (in)visível, sugerem a figura dos submersos icebergs. Veja-se o exemplo nessa Encantação dos Fios (MS): — "Ó Adriane / o que não se escreve para a beleza / resta sempre inacabada" (p. 31), ou em Lumina (CR): "Entre o que sucede / e intermedia / está a velocidade da flexa / contra a corrente // entre o significado e Delfos o âmbar da profecia // "Mas de inocência e perigo / a manhã faz seus ninhos" (p. 90).
Note-se que o caminho mitológico, nesses exemplos, são fragmentos de erudição diante da grandeza metafórica das nuanças do cotidiano, da incompletude eterna da beleza à possibilidade maniqueísta de como a manhã faz seus ninhos...
do sótão ao porão
Como não poderia deixar de figurar entre os elementos essenciais de uma poética, Sérgio Campos também definiu e deixou florescer elementos simbólicos em sua obra. Exemplo mais evidente dá-se com as construções em tomo da palavra ou do lugar-asilo, a casa. Com efeitos extremamente valiosos, Campos ativa sua motivação e atenção às notas de Gaston Bachelard, eminente fenomenólogo, em sua Poética do Espaço.
Nos poemas dedicados à casa, ruminações dos espaços íntimos, Campos imprimiu com precisão e sutileza a sua previdente solidão, por meio de um texto figurativo, sem ilusões. A exemplo de um eremita que devaneou com a audição de melodias provençais, o poeta revelou o segredo de suas imensidões marginais: acendeu a vela no porão e permitiu a luz do sótão... ou seja, revelou-se.
Em Ruínas Horizontais (MS), o poeta refletiu: "a casa / é seus arredores" (p. 11); "raptos de aromas / de crianças no quintal" (p. 13); "a casa / é seus crepúsculos" (p. 14); "a casa / é suas ruínas" (p. 16); "a casa / é seu corpo e viagem" (p. 17).
Numa evidente busca do passado, o poeta reviveu a ancestralidade de seu espaço e foi consumido por sua gênese. Pois a casa foi / é ainda "alvenaria de acasos", "vômito das clarabóias", "espantalho de rendas no colo das tias", e tantas outras dimensões sintagmáticas, que convergem para uma única compreensão da vida: "toda ruína é humana". A essência do cotidiano, que engole a memória e desatina a lembrança, é a própria fórmula da maravilha poética de Sérgio Campos.
As Ilhas da Casa (CR) projetam-se mais graves quanto às conclusões do poeta sobre seus arredores. Preso à sua sombra, o poeta admite que "memórias são sucessões / de espelhos aprisionados" (p. 94) para, em seguida, declarar de viva voz o seu desejo de regresso ao hiato que o separa do passado. Tendo, ora as visões de todas as janelas e corredores, ora de seus espaços imaginários, o poeta quer " — Deixar as portas abertas / para paixões circulares" (p. 97).
Com essas imagens e as visões das extremidades cíclicas do espaço, Campos reformulou as divagações de Gaston Bachelard, a respeito da poética e da solidão. Coube a ele revelar aq
1 093
Jerônimo Rodrigues de Castro
Soneto
Clície ao Sol que os seus íntimos amores
ingrato desdenhou com aspereza,
amou firme, apurando a sua fineza
no terrível crisol de seus rigores.
Endimião, que os mais finos primores
de amor gozou da nítida Princesa
do etéreo firmamento, a sua beleza
amou também, rendido a seus favores.
A Lua a Endimião buscou constante,
Clície buscou ao Sol, com a evidência
de seguir-lhe o seu curso rutilante.
Assim fica bem clara a conseqüência,
que Clícle mostrou que era mais amante,
que ao Sol amou sem ter correspondência.
ingrato desdenhou com aspereza,
amou firme, apurando a sua fineza
no terrível crisol de seus rigores.
Endimião, que os mais finos primores
de amor gozou da nítida Princesa
do etéreo firmamento, a sua beleza
amou também, rendido a seus favores.
A Lua a Endimião buscou constante,
Clície buscou ao Sol, com a evidência
de seguir-lhe o seu curso rutilante.
Assim fica bem clara a conseqüência,
que Clícle mostrou que era mais amante,
que ao Sol amou sem ter correspondência.
876
João Ferry
Valença do Piauí
200 anos! Como está velhinha!
mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com um diadema de fita,
Tendo no peito uma rosa,
Sobre o seu vestido novo,
Que te faz tão graciosa
Ao doce olhar do teu povo.
200 anos de deslumbramentos!
Mas que lutas meu Deus, quantos tormentos,
Para vencer a estrada caprichosa
Conquistando esta data gloriosa
Que hoje feliz com inusitado brilho
Mostra o progresso conquistado e forte,
Recebido do amor de cada filho
A quem tiveste confiada a sorte.
200 anos! Como está velhinha!
Mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com o seu vestido de chita
Fazendo inveja aos rapazes,
Que te querem namorar,
Mas que ainda não são capazes
De contigo se casar.
Minha querida e imortal Valença!
Hoje teus filhos com alegria imensa,
Glorificando o teu bicentenário,
Fazem de ti um talismã lendário,
Que lhes dará todo um porvir brilhante
Na tua gloriosa trajetória
Para que num futuro bem distante
Maiores loiros tenha a tua história!
mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com um diadema de fita,
Tendo no peito uma rosa,
Sobre o seu vestido novo,
Que te faz tão graciosa
Ao doce olhar do teu povo.
200 anos de deslumbramentos!
Mas que lutas meu Deus, quantos tormentos,
Para vencer a estrada caprichosa
Conquistando esta data gloriosa
Que hoje feliz com inusitado brilho
Mostra o progresso conquistado e forte,
Recebido do amor de cada filho
A quem tiveste confiada a sorte.
200 anos! Como está velhinha!
Mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com o seu vestido de chita
Fazendo inveja aos rapazes,
Que te querem namorar,
Mas que ainda não são capazes
De contigo se casar.
Minha querida e imortal Valença!
Hoje teus filhos com alegria imensa,
Glorificando o teu bicentenário,
Fazem de ti um talismã lendário,
Que lhes dará todo um porvir brilhante
Na tua gloriosa trajetória
Para que num futuro bem distante
Maiores loiros tenha a tua história!
1 244
Ivan Junqueira
Palimpsesto
A Antônio Carlos Secchin
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
1 450
José da Cunha Cardoso
Soneto
Essa nobre matrona, que impelida
De um generoso amor, fez a memória
Do seu ilustre nome tão notória,
Quanto no mundo todo esclarecida,
Os golpes não temeu do matricida
(Exemplo digno de imortal história)
Antes ambicionou do filho a glória
Dando por preço dela a própria vida.
Agripina, que a vida assim despreza,
Segura as adoções da eternidade
Nesta de amor materno alta fineza.
Que é duas vezes mãe nos persuade;
Porque lhe dá no sangue a natureza,
E com sangue lhe compra a majestade.
De um generoso amor, fez a memória
Do seu ilustre nome tão notória,
Quanto no mundo todo esclarecida,
Os golpes não temeu do matricida
(Exemplo digno de imortal história)
Antes ambicionou do filho a glória
Dando por preço dela a própria vida.
Agripina, que a vida assim despreza,
Segura as adoções da eternidade
Nesta de amor materno alta fineza.
Que é duas vezes mãe nos persuade;
Porque lhe dá no sangue a natureza,
E com sangue lhe compra a majestade.
868
Inácio Raposo
Tântalos
Não pode ter de certo os olhos sempre enxutos
Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:
Sedento — vê debalde um córrego infinito;
Faminto — vê debalde os floridos produtos!...
Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,
Leve talvez pareça um bárbaro delito!...
Foge sempre a torrente ao mísero precito
E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!
Há Tântalos também na vida transitória:
Querem estes a lympha e os pomos do talento,
E morrem no hospital para viver na história.
Desditosos que são... no malogrado intento!...
Longe de haverem ganho os loiros da vitória,
Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!
Quem sofre qual, no Erebo, o Tântalo maldito:
Sedento — vê debalde um córrego infinito;
Faminto — vê debalde os floridos produtos!...
Ante um castigo tal, que apiedava os brutos,
Leve talvez pareça um bárbaro delito!...
Foge sempre a torrente ao mísero precito
E, se tenta comer, escapam-se-lhe os frutos!
Há Tântalos também na vida transitória:
Querem estes a lympha e os pomos do talento,
E morrem no hospital para viver na história.
Desditosos que são... no malogrado intento!...
Longe de haverem ganho os loiros da vitória,
Encontram no sepulcro o eterno esquecimento!
937
Myriam Fraga
Trajetória
Eu,
Que decepei a cabeça
De Holofernes
E apascentava os leões
Com vinhos de Marsala.
Eu,
Que dormi com Pizarro
Numa tenda encarnada,
Sacerdotisa do jaguar
E da serpente emplumada.
Eu,
Maria, a Sanguinária,
Isabel, a Católica,
Rainha destronada
Inocente e assassina.
Hoje masco chicletes
Perfumados a menta,
Estrela absoluta
Dos filmes de pornô.
Que decepei a cabeça
De Holofernes
E apascentava os leões
Com vinhos de Marsala.
Eu,
Que dormi com Pizarro
Numa tenda encarnada,
Sacerdotisa do jaguar
E da serpente emplumada.
Eu,
Maria, a Sanguinária,
Isabel, a Católica,
Rainha destronada
Inocente e assassina.
Hoje masco chicletes
Perfumados a menta,
Estrela absoluta
Dos filmes de pornô.
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