Corpo

Poemas neste tema

Almandrade

Almandrade

IV

O umbigo transborda
o éter
alva, lisa
sem marca
de cansaço
epiderme de mulher
o mar do nome
doce, leve
peixe
a dança refresca
o belo namora
a boca e as pernas.

915
Regina Souza Vieira

Regina Souza Vieira

A Abóbora Menina

Tão gentil
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa

acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.

1 039
Agostina Akemi Sasaoka

Agostina Akemi Sasaoka

Gênese

O
sol caiu
umbigo adentro.
Sob a teia partida,
a mosca pendente.
Do outro lado do espelho
corpos,
suor,
lágrimas...
Ante a bactéria faminta,
um trilho de sêmen seco.
Havia um sono
que boiava entre a poeira,
entre as estrelas,
entre pernas de gesso.
Na garganta da noite:
cama desfeita,
perfeita,
silêncio fetal.

839
Jazzim

Jazzim

Poema I

Surge
de dentro teu perfume

aninha-se em minhas veias
nadando até tornar-se coração,
rim, aorta, fígado, pulmão

Todo o oxigênio tem fórmula
de teu corpo colado ao meu

química instantânea do desejo

753
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Rosa, a mulata, desperta

Rosa, a mulata, desperta
Com os morcegos, à hora
Em que a Lua, nódoa, incerta
E sem vulto, no céu aflora.

E Vénus, mito propício
Que em seu destino decide,
Convoca as filhas do Vício
Ao culto a que ela preside.

1 984
Madi

Madi

Tempo de Umidade

Tempo de Umidade

Há um leite que transborda morno,
suficiente e consistente em mim
Meu leite é farto
Não seco e nem disfarço
o tempo de umidade
Todo dia, em tempo integral,
meu leite escorre
E de umas manhãs para cá
a fonte deu para doer

850
Cândido Rolim

Cândido Rolim

Resíduos

a lágrima é um ápice
a réstia um âmbito

a morte é um ritmo
o corpo uma oferenda

o beijo é uma núpcia
efêmera

919
Tatiana Ramminger

Tatiana Ramminger

Só o olhar do outro

Só o olhar do outro

Só o olhar do outro
para delinear
este meu corpo tão sem limites
tão esparramado...
Preso na inconstância do fogo
Descendo cachoeiras
Brotando da terra
Perdido no infinito do céu...

1 259
Tatiana Ramminger

Tatiana Ramminger

Espera

Espera

Aqui estou
de corpo e asas feridas
pernas e alma abertas
para você

1 371
Sá Júnior

Sá Júnior

Partes

As asas partem
sem as partes do
seu corpo/pássaro.
Voam debruçadas
no flerte do ar.

O corpo/pássaro
sem as suas partes
não vai no vôo:
apenas voa...

934
Rogério F. P.

Rogério F. P.

Não sei o que incomoda

Não sei o que incomoda
aquela bela jovem que chora.
Estará agora perdida a
bailarina louca de outrora?

Comercializaste teu amor,
bacante insaciável,
agora pende sobre a sua cabeça
a triste sombra da morte.

E, enquanto seu corpo repousa,
eis que a criatura que em
seu sangue esta envolta
se alimenta dessa tua carne escrota!

827
Orlando Neves

Orlando Neves

1954

Este rosto de hoje,
assim triste, assim magro,
é a memória.
Estas mãos de hoje,
assim vãs, asssssim frias,
são o silêncio.
Esta boca de hoje,
assim branca, assim breve,
é a ausência.
Este olhar de hoje,
assim ágil, assim mudo,
é o cansaço.
Este corpo de hoje,
assim remoto, assim seco,
é apenas um grito
de socorro.

989
Ona Gaia

Ona Gaia

A chuva cai

A chuva cai
conforme o clima
as nuvens dançam
ao sabor do vento
e o corpo esquenta
ao calor do toque.

795
Noel de Arriaga

Noel de Arriaga

Circuito Fechado

Já regressei da viagem
Que me deixou no peito
Estranha tatuagem.

Marcada a ferro e fogo,
Mal que ma destinaram
Eu aceitei-a logo.

É glorioso sentir
A carne trespassada
Sem Missão a cumprir.

Sofrer só por sofrer,
Negando a covardia
Dum pretexto qualquer.

992
Natalício Barroso

Natalício Barroso

Bilhete

Eis que te ofereço meu coração como uma
flor
e espero que as tuas mão
que são as minhas mãos
saibam pegá-lo como quem pega
um pássaro cheio de pétalas
ou um simples ninho
que ainda não desfolhou.

Este é o meu coração de homem e de poeta
e a haste, de onde o tirei, sangrou.

1 111
Mônica Banderas

Mônica Banderas

Terra e Eva

Tanto útero, tantas mágoas.

A mulher tem 70 de água.

792
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Mãos

As mãos não falam
por si,
mas pelos gestos;

mãos que trabalham,
tecem sonhos,
acariciam,
se perdem na volúpia
de construir caminhos.

As mãos não falam
por si
e Porfírio assim o sabe;
suas mãos falam da seca
que enrustece a vida,

aridez de sentimentos
a povoar o mundo

Suas mãos desenham gestos,
perdidas na aridez do mundo.

942
Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

O Violino

Entregue a sutil carícia
Da curva do queixo
Mal finge
Que freme mesmo
É ao balé febril
Das pontas dos dedos.
( Talhado em nobre madeira,
O filho de Eros,
É dado ao gozo animal
Ao humano sexo... )

1 063
Sérgio Mattos

Sérgio Mattos

A Ilusão Pertenceu-m

A ilusão pertenceu-me em sonhos
e com vontade de herói entrelacei-me
entre as armas de tão bela batalha...
E a incandescente espada perdeu-se
entre espasmos, enquanto
a ilusão flutuava no espaço
e eu agitava o lençol manchado...

726
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

A parte e o todo

Seres-células,
ser homem-esperma,
ser mulher-óvulo,
engenheiros-mãos constroem,
lixeiros-intestinos eliminam
lixo-excremento,
comunicações-sinápticas
anunciam guerras-alérgicas,
artistas-cancerígenos.

INDIVÍDUO = TODO
TODO = INDIVÍDUO

850
Manuel Lima

Manuel Lima

São Meus Estes Rios

São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.

A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.

Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.

1 584
Marco Antônio de Souza

Marco Antônio de Souza

A Cara Limpa do Cara-Pintada

Após dezenove de agosto,

nada de pelos no rosto;

vou tirar a barba fora,

como quem manda embora

malfadada companheira

que passou a vida inteira,

a esconder - que maldade-

a sempre cara verdade...

954
Mário Hélio

Mário Hélio

5 - V (Cais sombrio)

eu te reparo nos olhos:
possuem um brilho intensamente mágico
e trágico
eu amo tua pele, cada traço,
cab:elos do mais fino fio
que desfio impulsivamente
tragicomicamente
em toda a extensão do teu ser
porque és maior do que a imaginação.

837
Luiz Pimenta

Luiz Pimenta

Pequenas Explosões

Pequenas Explosões

Meu coração é uma bomba relógio.
Escuta só!
Oh!
Viu?

Ele é um relógio porque bate.
É uma bomba porque é capaz de expressões.
Como esta.

Porto Alegre, março de 85

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