Consciência e autoconhecimento

Poemas neste tema

Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Clarisa Méndez

vulgo A Raíz

Sempre há saída para tudo, menos para o que somos.

771
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Jimeno Jiménez

vulgo O Desequipado

Aqui jaz
aquele que viveu carente de si mesmo,
esqueceu-se de comprar um cão.

684
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Indalecio Xunto, vulgo O Total

Chamavam-me de Deus porque eu não tinha forma, era gordo, pensei que Deus me havia feito gordo por ter me escolhido.

739
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio do vigário Trústegui

vulgo O Sabichão

Antes eu queria ser eu,
agora ser me dá na mesma.

685
Vasko Popa

Vasko Popa

No suspiro

Pelas estradas da profundeza da alma
Pelas estradas azul-celeste
A erva-daninha viaja
As estradas se perdem
Sob os pés
Enxames de pregos violentam
As plantações cansadas
As lavouras desaparecem
Do campo
Lábios invisíveis
Apagaram o campo
A dimensão triunfa
Encantada pelas palmas de suas mãos lisas
Cinzalisas
718
Vasko Popa

Vasko Popa

- No Final

Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais
O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também
Onde estou agora
Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira
Será que me ouves
Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós
598
Mario Wirz

Mario Wirz

Autorretrato

Dos muitos
que eu sou
desconheço
todos eles
só de boato
conheço eu
este aqui
aquele ali
de passagem
eu permaneço
por mim
na busca
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Selbstbild
Von den vielen
die ich bin
sind alle
mir unbekannt
nur vom Hörensagen
kenne ich
den einen
die andere
flüchtig
bleibe ich
mir
auf der Spur
.
.
.
761
Walter de la Mare

Walter de la Mare

Napoleon

'WHAT is the world, O soldiers?
.......It is I:
I, this incessant snow,
This northern sky;
Soldiers, this solitude
Through which we go
.......Is I.'


Walter de la Mare


.
.
.
628
Walter de la Mare

Walter de la Mare

Napoleão

O que é o mundo, ah! soldados?
.......Sou eu:
Eu, esta neve inextinguível,
Este norte, este céu;
Soldados, esta saudade
Que nos cerca como túnel
.......Sou eu.
(tradução de Ricardo Domeneck)
549
Chico Doido de Caicó

Chico Doido de Caicó

Sou doido por mulher

Sou doido por mulher
Sou doido por cachaça
Sou doido pra gastar dinheiro
Sou doido por uma bunda
Sou doido por Caicó
Sou doido pelo mar
Sou doido por violão e lua cheia
Sou doido por uma conversa de bar
Sou doido por arribaçã
E sou doido propriamente dito
1 182
Pedro Oom

Pedro Oom

As virtudes dialogais

Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.
1 437
Donizete Galvão

Donizete Galvão

Fachada

Logo vai terminar o prazo
para o homem construir sua fachada.
Ele continua em andaimes.
Provisório.
Exibe máscaras cambiantes.
Sua face inconclusa,
sustentada por ferragens,
parece esconder que,
em todos esses anos de obra,
ergueram-se inúteis plataformas
para edificar um escombro.
1 487
Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
1 721
Sukrato

Sukrato

Não me lavem o rosto

Não me lavem os olhos!
Não; já disse não!
Deixai-me ver,
sentir, viver tudo em mim
mas não me lavem os olhos!

Deixai-me crer por mim
aceitar a realidade
mas não me barrem a caminhada
não me lavem os olhos!

Deixai-me sofrer realidade
ao sonhar fraternidade
mas... por favor...
não me lavem os olhos!
707
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Máquina

Máquina de signos
Gnosis de si mesmo
Nós cegos de nomes
Rota de desígnios
Ou máquina do sono
Que revira o corpo
Tudo gira em torno
Do nada onde somos

1990


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 312
Alice Ruiz

Alice Ruiz

na esquina da consolação

na esquina da consolação
com a paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mãe
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia


In: RUIZ, Alice. Vice-versos. São Paulo: Brasiliense, 1988. (Cantadas literárias
2 093
Carlos Vogt

Carlos Vogt

Dramaturgia

Não me sinto bem
no papel
vivido por você


In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
991
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Plano de Vôo

Deixar de encarar nossos sentimentos
como fraquezas,
cheios de defesas e sigilos,
incomodados e culpados por senti-los,
para que nossos planos emocionais
aflorem em níveis
cada vez mais pessoais
... e transferíveis.


In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. São Paulo: Edicon, 1991. v.1, p.5
1 078
Augusto Massi

Augusto Massi

Nudez

Despido de tudo
pronto a aceitar
a própria nudez
no quarto escuro

O espelho em branco
— mar amniótico —
projeta nos flancos
uma luz uterina

Homem em estado bruto
na metade da vida
homem sem atributos
— nudez como medida


In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 220
Paulo Leminski

Paulo Leminski

apagar-me

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme


Publicado no livro Não Fosse Isso e Era Menos. Não Fosse Tanto e Era Quase (1980).

In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 198
1 839
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Era um anjo

Era um anjo
omisso

Foi insubmisso
sem ter dito não

Sem anseio para o vôo
nem loucura para o plano
era um anjo vago

Que não optou

Entre o ser azul
celeste e a doce
lei da gravidade

Era um anjo
omisso
ou
de asas machucadas


In: ARRUDA, Eunice. Gabriel. Il. Alice Bay Laurel. São Paulo: Massao Ohno, 1990
1 058
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

To Elizabeth

Would'st thou be loved? — then let thy heart
From its present pathway part not —
Be every thing which now thou art
And nothing which thou art not:

So with the world thy gentle ways,
And unassuming beauty
Shall be a constant theme of praise,
And love — a duty.

1 147
Paulo Leminski

Paulo Leminski

de ouvido

di vi
di do
entre
o
ver
&
o
vidro
du vi do

3 135
Paulo Leminski

Paulo Leminski

ver

ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor

só doer
não é dor
delícia
de experimentador

1 770