Morte e Luto
Poemas neste tema
Ieda Estergilda
Apresentação
Como viva, aos vivos me apresento:
visível aos olhos, sensível ao tato.
Todos concordam, é a viva
diferente só dos animais, plantas e pedras
a quem chamo seres de outras espécies.
A quem falo? Ao vivo.
Quem me responde igual? O vivo.
Qualquer som ou movimento revelam
minha condição
até a morte me denunciará:
era a viva.
visível aos olhos, sensível ao tato.
Todos concordam, é a viva
diferente só dos animais, plantas e pedras
a quem chamo seres de outras espécies.
A quem falo? Ao vivo.
Quem me responde igual? O vivo.
Qualquer som ou movimento revelam
minha condição
até a morte me denunciará:
era a viva.
841
Cândido Rolim
Resíduos
a lágrima é um ápice
a réstia um âmbito
a morte é um ritmo
o corpo uma oferenda
o beijo é uma núpcia
efêmera
a réstia um âmbito
a morte é um ritmo
o corpo uma oferenda
o beijo é uma núpcia
efêmera
919
Cid Teixeira de Abreu
Réquiem para Graça
enquanto o coveiro
cava e
escava
de sete palmos a
nava
navega em rodas da saudade
simples tua opção
para uma cadeira de rodas
marejar meus olhos
a terra não comerá minhas lembranças
— minha namorada tu serás
cava e
escava
de sete palmos a
nava
navega em rodas da saudade
simples tua opção
para uma cadeira de rodas
marejar meus olhos
a terra não comerá minhas lembranças
— minha namorada tu serás
884
Bocage
Arrimado às duas portas
Arrimado às duas portas
Pingue boticário estava,
E brandamente acenou
A um doutor que passava.
Mal que chega o bom Galeno,
Diz o outro com ar jocundo:
"Unamo-nos, meu doutor,
E demos cabo do Mundo!"
Pingue boticário estava,
E brandamente acenou
A um doutor que passava.
Mal que chega o bom Galeno,
Diz o outro com ar jocundo:
"Unamo-nos, meu doutor,
E demos cabo do Mundo!"
1 699
Bocage
Certo enfermo, homem sisudo,
Certo enfermo, homem sisudo,
Deixou por condescendência
Chamar um doutor, que tinha
Entre os mais a preferência.
Manda-lhe o fofo Esculápio
Que bote a língua de fora,
E envia dez garatujas
À botica sem demora.
"Com isto (diz ao doente)
A sepultura lhe tapo".
Replica o pobre a tremer:
"Aposto que não escapo".
Deixou por condescendência
Chamar um doutor, que tinha
Entre os mais a preferência.
Manda-lhe o fofo Esculápio
Que bote a língua de fora,
E envia dez garatujas
À botica sem demora.
"Com isto (diz ao doente)
A sepultura lhe tapo".
Replica o pobre a tremer:
"Aposto que não escapo".
1 469
Araújo Filho
A um Desesperado
Não te apresses. Espera, que o teu dia
chegará. É fatal. Não falha nunca.
— No livro do Destino, a tua lauda
escrita está, clara e precisa...
Clara,
embora ninguém veja, mas se sabe
que a mão de Deus não erra no que escreve,
e na barca que leva a outras paragens
o teu lugar está vazio.
chegará. É fatal. Não falha nunca.
— No livro do Destino, a tua lauda
escrita está, clara e precisa...
Clara,
embora ninguém veja, mas se sabe
que a mão de Deus não erra no que escreve,
e na barca que leva a outras paragens
o teu lugar está vazio.
691
Adriana Abdenur
Passarinho
Miro,
atiro,
acerto.
Chego
correndo
mais perto.
Pequena docura
caida no mato --
tamanha tragedia
em tao breve ato.
atiro,
acerto.
Chego
correndo
mais perto.
Pequena docura
caida no mato --
tamanha tragedia
em tao breve ato.
926
Vivaldo Beldade
A Morte da Arvore
Leio nos teus ramos desnudados
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
1 007
Carlos Augusto Viana
Os Corredores da Memória - I
1
quantos roçados de pranto
regados
prosseguem
no rosto
sobreviventes raizes
soturnos
percorremos
os silentes corredores da memória
2
cal e sofrimento
recompõem
o território em ruinas
no tecido da linguagem
estampam-se
palavras e paisagens
3
serpenteia-se
a procissão
dos mortos
não trazem
chamas
cânticos ou incensos:
apenas
anunciação
quantos roçados de pranto
regados
prosseguem
no rosto
sobreviventes raizes
soturnos
percorremos
os silentes corredores da memória
2
cal e sofrimento
recompõem
o território em ruinas
no tecido da linguagem
estampam-se
palavras e paisagens
3
serpenteia-se
a procissão
dos mortos
não trazem
chamas
cânticos ou incensos:
apenas
anunciação
791
Marcelo Tápia
ironia do destino
Ayds emagrece com segurança 4,5 kg por mês.
Já emagreceu milhares de americanos.
(...) logo, logo, Ayds estará em todo o Brasil.
anúncio publicitário em revista Cláudia, c. 1972
no anúncio antigo de produto dietético
o humor tétrico adivinho da palavra:
poder intemporal, primitivo, insone
a se trair só por um ipsilone?
Já emagreceu milhares de americanos.
(...) logo, logo, Ayds estará em todo o Brasil.
anúncio publicitário em revista Cláudia, c. 1972
no anúncio antigo de produto dietético
o humor tétrico adivinho da palavra:
poder intemporal, primitivo, insone
a se trair só por um ipsilone?
864
Roberto Saito
Inverno
Depois da geada
nas faces do espantalho
lágrimas geladas.
Cálidos casacos
todos rodeando um morto —
pálido, gelado.
nas faces do espantalho
lágrimas geladas.
Cálidos casacos
todos rodeando um morto —
pálido, gelado.
946
Rogério F. P.
Não sei o que incomoda
Não sei o que incomoda
aquela bela jovem que chora.
Estará agora perdida a
bailarina louca de outrora?
Comercializaste teu amor,
bacante insaciável,
agora pende sobre a sua cabeça
a triste sombra da morte.
E, enquanto seu corpo repousa,
eis que a criatura que em
seu sangue esta envolta
se alimenta dessa tua carne escrota!
aquela bela jovem que chora.
Estará agora perdida a
bailarina louca de outrora?
Comercializaste teu amor,
bacante insaciável,
agora pende sobre a sua cabeça
a triste sombra da morte.
E, enquanto seu corpo repousa,
eis que a criatura que em
seu sangue esta envolta
se alimenta dessa tua carne escrota!
827
Roberto Pontes
Ode à Cama
Então pode-se ouvir certo ruído
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.
Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.
Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.
1 112
Paulo Augusto Rodrigues
Paraíso
Amas,
Amas,
Amas,
Concebes.
Gestas,
Gestas,
Gestas,
Pares.
Vai, filho,
Não te aflija.
Vai ter com anjos,
No lugar que te recebem.
Amas,
Amas,
Concebes.
Gestas,
Gestas,
Gestas,
Pares.
Vai, filho,
Não te aflija.
Vai ter com anjos,
No lugar que te recebem.
966
Ricardo Madeira
Sempre
Falta de ar,
Perda de visão:
Sintomas da morte,
Arautos da Escuridão.
Sinos que tocam,
Prisioneiro de um caixão,
Mas... Então?!...
Porque ainda bate o meu coração?
And it kept pulsing beneath the Earth,
A crimson jewel underneath six feet of dirt,
Forever waiting an impossible rebirth...
Perda de visão:
Sintomas da morte,
Arautos da Escuridão.
Sinos que tocam,
Prisioneiro de um caixão,
Mas... Então?!...
Porque ainda bate o meu coração?
And it kept pulsing beneath the Earth,
A crimson jewel underneath six feet of dirt,
Forever waiting an impossible rebirth...
881
Pedro Paulo de Sena Madureira
O Olhar Branco
O olhar branco
preso ao vazio
depois que as coisas ficaram por ser vistas.
O silêncio branco
despido de harmonia
depois que as palavras ficaram por ser ditas.
A morte branca
sem grito
sem cruz
sem glória
no avesso da história
depois que a agonia toda ficou por ser escrita.
preso ao vazio
depois que as coisas ficaram por ser vistas.
O silêncio branco
despido de harmonia
depois que as palavras ficaram por ser ditas.
A morte branca
sem grito
sem cruz
sem glória
no avesso da história
depois que a agonia toda ficou por ser escrita.
886
Olinda Marques de Azevedo
Primavera
Profusão de flores
desfile de primavera.
Também passa um féretro.
desfile de primavera.
Também passa um féretro.
847
Marcelo Penido Silva
Na jardineira
Na jardineira, sepultadas flores
colhem o frio
da fachada.
E sustentados
pelos ares de varanda
os perfumes fluem
ao dique
das vidraças.
Dentro,
ante os olhares dos porta-retratos,
estão sem vida
as coloridas
sempre-vivas,
embalsamadas num reflexo
da mobília
encerada.
colhem o frio
da fachada.
E sustentados
pelos ares de varanda
os perfumes fluem
ao dique
das vidraças.
Dentro,
ante os olhares dos porta-retratos,
estão sem vida
as coloridas
sempre-vivas,
embalsamadas num reflexo
da mobília
encerada.
764
Moreira Campos
Antecipação
Este fim de tarde,
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.
1 110
Mário Donizete Massari
Trilogia
nascimento
— nasceu nas horas
que precedem
a fome
vida
— cresceu com fome
morte
— morreu de fome
— nasceu nas horas
que precedem
a fome
vida
— cresceu com fome
morte
— morreu de fome
756
Mário Donizete Massari
Viver e morrer
Viver por viver,
não é viver.
Viver é viver
viver a vida
sem ver,
o que se pode ver.
Viver e morrer
que um dia há de ser,
— mas nunca morrer sem viver
não é viver.
Viver é viver
viver a vida
sem ver,
o que se pode ver.
Viver e morrer
que um dia há de ser,
— mas nunca morrer sem viver
469
Micheliny Verunschk
Da Morte pela Manhã
A manhã seguinte
decalcou quase toda
a manhã anterior
ainda fixa nos olhos dela
( e todas as outras manhãs
subseqüentes
decalcariam
detalhes cada vez menores
daquela última
até que não houvessem
mais olhos.)
decalcou quase toda
a manhã anterior
ainda fixa nos olhos dela
( e todas as outras manhãs
subseqüentes
decalcariam
detalhes cada vez menores
daquela última
até que não houvessem
mais olhos.)
900
Mário Donizete Massari
Rotina
Amanheceu
O orvalho molhou a flor
O passarinho cantou
Clareou
A sirene de uma fábrica
O empregado sai correndo
Tumulto
Houve atropelamento
A rádio anuncia
Nota de falecimento
Mais uma alma que vai
Para onde?
O orvalho molhou a flor
O passarinho cantou
Clareou
A sirene de uma fábrica
O empregado sai correndo
Tumulto
Houve atropelamento
A rádio anuncia
Nota de falecimento
Mais uma alma que vai
Para onde?
823
Maria Rita Kehl
corte de cabelos para ficar triste
Tipo faça-você-mesma. Trabalho incansável.
Pode durar uma noite -- ou mais -- fio por fio --
a memória na ponta da tesoura,
obcecada,
Medo crescente. Medo até a paixão.
Ou até conferir pelo espelho:
aquela lá morreu mesmo.
Pode durar uma noite -- ou mais -- fio por fio --
a memória na ponta da tesoura,
obcecada,
Medo crescente. Medo até a paixão.
Ou até conferir pelo espelho:
aquela lá morreu mesmo.
1 430
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