Memórias e Lembranças

Poemas neste tema

José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Fugaz

Fugaz é o momento do encontro.
Fugaz é a despedida do sol na linha do horizonte.
Fugaz é a estrela cadente.
Fugaz é o encanto do inesperado.
Fugaz é o momento da vitória.
Fugaz é o prazer sublime do orgasmo.
Fugaz é a própria vida no horizonte do tempo.
Eterna é a recordação.

1 190
José Eduardo Mendes Camargo

José Eduardo Mendes Camargo

Despertar

Acorda e recorda, mulher!
Que recordar é viver outra vez.
Que vibrar é viver e fenecer é morrer.
Acorda e desperta, mulher, outra vez!
Que o amor, a dor e o prazer é viver!

917
J. B. Sayeg

J. B. Sayeg

O Velho

O velho disse vamos
vamos voltar para casa
mas você já está em casa
lhe disse a mulher, gentilmente,
vamos voltar para casa
falou o velho de novo
e entrou com lucidez
no mundo de sua velhice.

( de Os Comedores do Museu, 1979)

860
J. Anderson

J. Anderson

Invenção do Vento

No casarão vazio...
Uma canção triste
Esquecida numa vitrola,
Despertou a nostalgia.
E o vento...
Inventou de trazer lembranças.

1 047
Helena Parente Cunha

Helena Parente Cunha

Retrato

de agora a mil horas
o meu retrato
ainda estará aqui

quem aparece
onde pareço?

pouso de passagem
na fotografia

atrás do quadro
que me contorna
desapareço

quem comparece
na própria face?

poso de novo
(me encontra pronta
cada hora que mil)

de agora a mil horas
quem perece
no meu retrato?

1 407
Helena Parente Cunha

Helena Parente Cunha

Quem

quem me habita provisória
nesta paisagem súbita
onde sou?

quem chora pranto antigo
nos meus olhos contemporâneos
desta viagem?

quem fui quando passei
aqui tão longe
de onde sou agora?

1 024
Idalina de Carvalho

Idalina de Carvalho

Sem Título

Quando a tarde
caía sobre nós
enegrecendo o céu
era como se a vida
nos fosse tirada
por momentos
que a crueldade
fazia eternos.

Mas amanhecia
sempre
e tínhamos o sol
o quintal
recheado de cenouras
e o balanço
na goiabeira
insistentes em nos
fazer crer que
sobrevivíamos.

868
Fernando Cereja

Fernando Cereja

Qdo a cabeça

qdo a cabeça
papel
q se escreve
a saudade
borracha pincel
q se esquece.

762
Fernanda Benevides

Fernanda Benevides

Afagando Sonhos

Meu coração afaga sonhos.
Sonhos despedaçados.
Coisas do passado
acariciam o presente.
Abraço ilusões vãs.
Lembranças fazem cócegas na
memória,
até quando, não sei...
Afagando sonhos, alimento a alma.
Sacio a sede das madrugadas...

709
Eliane Pantoja Vaidya

Eliane Pantoja Vaidya

Amo estes gregos pagãos

Amo estes gregos pagãos
que amavam a vida
a partir de um céu azul
e um mar violeta.
Amo estas montanhas cabritas
onde Safo e companhia
a de belos tornozelos
galgavam o dia.

813
Donizete Galvão

Donizete Galvão

Anil

Pedra tocada por Yves Klein,

em que borda do poço

se perdeu?

Em que veio de mina

ficou incrustada?

Por que a pálpebra se fechou

quando deveria estar aberta?

Por que não foi feita

a pergunta certa?

Onde o mantra

que faz surgir Tara,

caminhando hierática

sobre a muralha?

Em que noite adormeci verde

e acordei Saara?

984
Camilo Mota

Camilo Mota

Alice

As palavras fundiram-se à montanha
sem nada dizerem
...
tempo consumido memória
...
grita o coração: te amo,
incógnita mulher!
metamorfose de cidade
e nuvem,
istmo do beijo anônimo
inaugurando rugas

Na tarde dourada e rósea
vovó virou neblina

819
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Brinquedo

O dado no dedo,
o dedo no dado.

Conto os pontos:
um-dois-três-
quatro-cinco-seis.

As bolinhas
bem redondinhas
em cada lado.
Atiro um punhado
de cada vez.

O branco no preto,
o preto no branco
do quadradinho.

Não sei se de osso,
madeira ou marfim,
os dados deste saquinho
que mamãe comprou pra mim.

1 116
Claudia Moraes Rego

Claudia Moraes Rego

No seu colo

Cabeça no seu colo
orelha colada em sua perna
ouvindo
palavras fiadas em conversa
conduzidas, transmitidas
através
de carnes e ossos
com ecos e reverberações
intrigantes:
orelha colada na pele
friinha (mistério!)
macia e perambulante.

Hoje
minha mãe
é a lembrança de um corpo
--- auscultado ---
ontem.

989
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Substantivo Concreto

No quarto do morto
ainda sentíamos
das noites mais fundas
A matéria dos seus sonhos
--
Tocar-nos

907
Castro Alves

Castro Alves

Numa Página

(Do álbum de desenho do autor)

Horas de tédio ou de amorosa espr’ança,
— Meteoros da vida!... errantes astros!...
Fugi!... porém que fique uma lembrança!
Passai!... deixando os perfumosos rastros!...

1 690
Anízio Vianna

Anízio Vianna

leitmotiv

a seda do luar na veia
o sedativo

onde pousei meu desejo
tua mão varreu o piso

deixo
no AR

como
que por alívio

o perfume desse filme
não cessa de passar

lento

na tela
da música

meu leitmotiv

falo:
- é feminino cantar

1 121
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

Night

A breeze ripples
huge leaves
in the depth
of my silence.

A wave floods
my conscience
that submerges
in the tense waters.

Memories shine
from a star
at no time traced.

Deep inside
roars the eternal scream
of earth covered by darkness.

819
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

Noite

Um vento ondula
folhas imensas
no mais profundo
do meu silêncio.

Uma onda inunda
meu consciente
que se afunda
na água intensa.

Memórias brilham
de uma estrela
jamais descrita.

Brama, cá dentro,
o eterno grito
da terra em trevas.

803
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

Noche

Un viento ondula
hojas inmensas
en los más profundo
de mi silencio.

Una onda inunda
mi consciente
que se ahonda
en el agua intensa.

Memorias brillan
de una estrella
jamás descrita.

Brama, aquí dentro,
el eterno grito
de la tierra en tinieblas.

587
Anderson Braga Horta

Anderson Braga Horta

Poeminha Súbito

Mas que sabemos nós de toda essência?
Do beijo que se foi fica um perfume;
do que não foi, também.
O beijo estava em nós antes do beijo!
Somos o que já éramos? Terrível
o futuro.

1 205
André Ricardo Aguiar

André Ricardo Aguiar

Ancoradouros

lembrança boa
um mar maior

maior que um oceano
vou lendo ilhas

frequentemente distantes;
Kafka, Borges, Pessoa...

903
Alfredo José Assunção

Alfredo José Assunção

Lembranças

Um violino, uma mulher.Um trago, uma dose.Um alguém que não quis.

Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.

O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.

Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...

1 001
Antônio Girão Barroso

Antônio Girão Barroso

As Três Pessoas

Eram três pessoas distintas mas uma só, na verdade:
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.

1 076