Literatura e Palavras

Poemas neste tema

Bob Cobbing

Bob Cobbing

Este é um poema quadrado

Este é um poema quadrado.
Este poema é um quadrado.
É um poema este quadrado?
Este quadrado é um poema,
Este quadrado é. Um poema
É um poema – este quadrado.
Este é um quadrado-poema.
Um quadrado-poema é este
Poema. Este é um quadrado.
Um poema quadrado é este
Quadrado. Este é um poema,
este é. Um quadrado-poema.
937
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Círculo

cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas

1 309
Paulo Leminski

Paulo Leminski

o paulo leminski

o paulo leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filho da puta
de fazer chover
em nosso piquenique
2 297
Paulo Leminski

Paulo Leminski

a gente ia ser homero

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

3 668
Kenneth Rexroth

Kenneth Rexroth

Perdidos Etc.

Os expatriados dos anos
Vinte e seu líder Pound
Foram aqueles que, em tempos de
Revolta mundial, não acharam nada
Melhor pra combater
Que a lei seca.


LOST ETC.

The expatriates of the
Twenties and their leader Pound
Were those who, in an age of
World revolt, found nothing more
Important to revolt against
Than the Eighteenth Amendment.



971
Sandro Penna

Sandro Penna

Noite: sonho de esparsas

Noite: sonho de esparsas
janelas iluminadas.
Ouvir a clara voz
do mar. De um livro amado
ver as palavras
sumirem ... – Oh estrelas fugidias
o amor da vida!
:
Notte : sogno di sparse
finestre illuminate.
Sentir la chiara voce
dal mare. Da un amato
libro veder parole
sparire... – Oh stelle in corsa
l'amore della vita !
dePoesie (1939)
664
Sebastião Alba

Sebastião Alba

Há poetas com musa

Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar,
tê-la sonhado.


1 177
Sebastião Alba

Sebastião Alba

Epílogo

Fui
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.


1 222
Sebastião Alba

Sebastião Alba

Não sou anterior à escolha

Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde
Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável
atento à efusão
da névoa na sala.


1 095
António Pocinho

António Pocinho

cartas

As cartas não viajam à velocidade da luz, nem lá perto, nem mesmo as cartas de condução. Só os bilhetes-postais viajam a uma velocidade superior à da luz, com as suas palavras acabadas de se pôr sobre uma paisagem ou um momento, com esses recados de nós, mansos viajantes siderais, mesmo quando vamos só até Cacilhas.

759
Sierguéi Iessiênin

Sierguéi Iessiênin

Pobre escrevinhador, é tua

Pobre escrevinhador, é tua
A sina de cantar a lua?
Há muito o meu olhar definho
No amor, nas cartas e no vinho.
Ah, a lua entra pelas grades,
A luz tão forte corta os olhos.
Eu joguei na dama de espadas
E só me veio o ás de ouros.
956
Chico Doido de Caicó

Chico Doido de Caicó

Uma vez em Campina Grande

Uma vez em Campina Grande
Perto da Maciel Pinheiro
Tomei tanto sorvete de rainha
Que o Rei Luís de França
Resolveu bombardear o Japão.
Acuda-me Zé Limeira, nego véio,
Tocaram fogo no Cariri
Só pra que eu pudesse rimar
Tatu com xixi.
1 118
António Pocinho

António Pocinho

iscas

Quando se comem enguias fritas, a poesia parece a pior forma de recriar a vida. Não há metáforas para quando se pega no garfo para levar à boca sejam iscas, seja mão de vaca, seja chispe, ou até ensopado de borrego.
A fruta já se presta mais a ser cantada, mas não enche tanto.

864
Fernando Assis Pacheco

Fernando Assis Pacheco

A namoradinha de organdi

Como na dança ritual dos patos colhereiros se te amei
foi a cem por cento da minha capacidade metafórica
mas copiado de livros onde o herói sempre enviuvava
cruzei imensas vezes sob a tua varanda com glicínias
pensando numa cena infeliz à moda do Harold
eu sonhava contigo?
eu assoava-me ao pijama!
995
Juan Gelman

Juan Gelman

O cão

O poema não pede para comer. Come
os pobres pratos que
gente sem vergonha ou pudor
lhe serve no meio da noite.
A palavra divina já não existe. Que pode
fazer o poema, senão
contentar-se com o que lhe dão?
Depois uivará por aí
sem resposta, será
outro cão perdido
na cidade impiedosa.
1 778
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Nova meditação sobre a palavra

assim a palavra se prestasse
ao jade ao jogo ao jugo de uma toda
arte poética e nunca ripostasse
em golpes repentinos de judoka

assim nunca o poema se traísse
na trama aleatória de uma aposta
perdida no seu hábil mecanismo
traria o juro ao artesão que o monta
2 222
Ada Ciocci

Ada Ciocci

Prognóstico

Poeta,
Creia,
Nem tudo está perdido,
Porque,
Felizmente,
Sobretudo o mais,
O seu ideal,
A muitos outros ainda comove,
Demove
e
Predomina
1 065
Maria Azenha

Maria Azenha

poema sem terra

esta é a página onde o poema não se deu

onde o alfabeto e a tinta se encontram

onde não há nenhum poeta nem acontece o som

no campo mais alto da sementeira das árvores

as vogais voam aqui sem produzirem eco

abrem o corpo através do espaço aberto

uma nuvem tão terna um espelho tão doce

as crianças celebram-no esquecendo o seu nome
939
Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
1 721
João Maimona

João Maimona

Arte poética

Que erosão
no choque genésico das marés
de encontro às pedras habitadas.

Cai areia na areia.

Assim o gasto da palavra
limando os duros conformismos
libertando as verdades mais remotas
tão necessárias ao fruir dos gestos.
1 399
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Fragmentos Cósmicos

Todo sistema tende
A um grau crescente de desordem
Onde depositar
O lixo cósmico?
Informação é matéria prima
A paciência é elástica
Inflar bem lento e explodir
Como no Big Bang

1990


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 251
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Máquina

Máquina de signos
Gnosis de si mesmo
Nós cegos de nomes
Rota de desígnios
Ou máquina do sono
Que revira o corpo
Tudo gira em torno
Do nada onde somos

1990


Poema integrante da série Máquina de Signos.

In: LEITE, Sebastião Uchoa. A uma incógnita, 1989/1990. São Paulo: Iluminuras, 1991
1 312
Marcus Accioly

Marcus Accioly

4 [Antes de pintar as pintas

Antes de pintar as pintas
o animal-rei Leopardo
tendo juba pardacenta
se dizia o Leão-Pardo.


In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.7. (Série trava língua
1 368
Carlos Felipe Moisés

Carlos Felipe Moisés

Capibaribe

Capibaribe não é um rio,
Capibaribe: enredo musical
Melodia, Manuel Bandeira.
Texto e coreografia, João Cabral.

(Recife 1977)


Poema integrante da série I. Natural.

In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
920