Escritas

Conflito

Poemas neste tema

Antônio Massa

Antônio Massa

Enredos de Busca

Louvado seja
aquele que não existe
e não conflitua
as raízes da vida
com os pedaços de ventania
agarrados ao seu espírito

Louvado seja
aquele que se agarra
nos pedaços de conflitos
(ventanias de vida)
inexistentes
no espírito de suas raízes

Louvado seja
o espírito daquele
que existe nos pedaços
dos conflitos da vida
e agarra suas ventanias
com as raízes da pertinácia

922
Antônio Massa

Antônio Massa

Não há Vagas

Buscamos vagas
nas casas, nas mágoas
no ofício de Gente
no prato do irmão

Buscamos as vagas
nos muros, na arte
e nos arremates
de vida e de sorte

E na morte
buscamos a paz
e as chagas das vagas
das quais poucas jazem

Mas os senhores da ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno

E, ao menos, poderemos
morrer mais tranqüilos
sem enfrentar filas
nos barrancos, estradas, asilos

896
Antônio Girão Barroso

Antônio Girão Barroso

As Três Pessoas

Eram três pessoas distintas mas uma só, na verdade:
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.

1 057
Amândio César

Amândio César

Par ou Pernão

Lançaram-se os dados
no par ou pernão
e uns foram
outros não.

E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...

Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...

Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?

958
Adailton Medeiros

Adailton Medeiros

Auto-retrato

Diante do espelho grande do tempo
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer

Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)

Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio

877
Antônio Brasileiro

Antônio Brasileiro

Canto de Flor e de Ódio

Em vossos campos de flores
muitos mortos brotarão:
chegado é o tempo do ódio.

(vasto ódio líquido inundando,
escorrendo pelas frestas,
povoando os tetos, os telhados;

tempo do ódio recolhido
nas corolas, como orvalho;

tempo do ódio conciso)

Façam-se horas de bronze
façam-se vozes em vossos
campos de flores, caladas.

Marcharemos contra o sol!

Restarão convosco as praças
sobre as calçadas — partidas.

923
Augusto de Campos

Augusto de Campos

Dodecassílabos

Estala na mudez universal das coisas
estrídulo tropel de cascos sobre pedras
e naquela assonância ilhada no silêncio
o cataclismo irrompe arrebatadamente.
O doer infernal das folhas urticantes
corta a região maninha das caatingas
fazendo vacilar a marcha dos exércitos
sob uma irradiação de golpes e de tiros.
Por fim tudo se esgota e a situação não muda,
lembrando um bracejar imenso, de tortura,
em longo apelo triste, que parece um choro.
Num prodigalizar inútil de bravura
desaparecem sob as formações calcáreas
as linhas essenciais do crime e da loucura.

1 330
Augusto de Campos

Augusto de Campos

O monstro

Todo o exército repousava...
Nisto,
despontam, cautos, emergindo à ourela
do matagal rasteiro e trançado
de arbustos em esgalhos,
na clareira, no alto,
onde estaciona a artilharia,
doze rostos inquietos,
olhares
felinos, rápidos,
percorrendo todos os pontos.
Doze rostos apenas
de homens ainda jacentes,
de rastro,
nos tufos das bromélias.
Surgem lentamente.
Ninguém os vê; ninguém os pode ver.
Dão-lhes as costas
com indiferença soberana
vinte batalhões tranqüilos.
Adiante divisam a presa cobiçada.
Como um animal fantástico,
prestes a um bote repentino,
o canhão Withworth,
a matadeira,
empina-se
no reparo sólido.
Volta
para Belo Monte
a boca truculenta e rugidora
que tantas granadas revessou já
sobre as igrejas sacrossantas.
Caem-lhe sobre o dorso luzidio e negro os
raios do Sol,
ajaezando-a de lampejos.
Os
fanáticos
contemplam-na algum tempo.
Aprumam-se depois à borda da clareira.
Arrojam-se sobre o monstro.
Assaltam-no; aferram-no; jugulam-no.
Um traz uma alavanca rígida.
Ergue-a num gesto ameaçador e rápido...
E a pancada bate, estrídula e alta, retinindo...
E um brado de alarma
estala na mudez universal das coisas;
multiplica-se nas quebradas;
enche o espaço todo;
e detona em ecos
que atroando os vales
ressaltam pelos morros numa vibração
triunfal e estrugidora,
sacudindo num repelão violento
o acampamento inteiro...

1 650
Robert Graves

Robert Graves

BOMBARDEAMENTO NA ALVORADA

Canhões do mar atiram sobre nós:
Na casamata o fumo oscila opaco
E um clamor de perdição ascende.
Contamos, bendizemos cada novo abalo -
Cativos aguardando ser libertos.
Anjo visitador de cabeleira em fogo,
O qual em sonhos vinha às noites consolar-nos
Lá onde éramos a ferros,
De nós se ri, ao acordarmos - rostos
Tão tensos de esperança: as lágrimas os descem.

976
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

THE LAWS OF GOD

Lei de Deus e lei humana,
Que as respeite quem se dana.
Eu não: os homens e Deus
Façam as leis para os seus.
E se como eles não sou,
VáCHse à vida como eu vou.
Condeno tanto os seus feitos!
Quando foi que os quis direitos?
Que se avenham. Não gostando,
Voltem cara e vão andando.
Mas qual! Não largam ninguém
Até quebrá-lo por bem.
E prendem-me em suas teias,
Infernos, forcas, cadeias.
E ser mais duro alguém há-de
Que diva e humana maldade?
Estranho e em terror, que farei
Num mundo que não criei?
São senhores de grande porte,
Cada qual mais asno e forte.
Ó minhalma, se é uma treta
Voar para outro planeta,
Respeite-se o que nos dana:
Lei de Deus e lei humana.

1 135
Ronilson Rocha

Ronilson Rocha

Instintos

Tê-la como minha fêmea favorita
é o que manda meus instinto de macho
a razão acha esta idéia esquisita
mas o que importa é o que eu acho...

acasalar contigo no verão e na primavera
me aquecer contigo no frio inverno
meu desejo por ti espera
amar-te até no inferno

possuir-te por trás ou pela frente
em pé na parede ou deitados na cama
que loucuras passam em minha mente
quando penso em acender sua chama...

1 152
Simone Barbariz

Simone Barbariz

Crime

Testemunhas: as quatro paredes.
Local do crime: a cama.
Réus: eu e você.
Crime cometido: amor louco e desenfreado,
Amor sem limites,
Amor em todas suas formas possíveis,
Em todas as formas em que éramos compatíveis.

Acoplados com a perfeição de dois módulos espaciais,
Onde qualquer erro milimétrico,
Compromete o sucesso da missão...

Missão cumprida...

A missão foi um sucesso total,
Pois dois corpos tornaram-se um!
Não mais existia eu e você,
Mas, sim, eu-você...

Cometemos um crime perfeito!

866
Caio Valério Catulo

Caio Valério Catulo

85

Odeio e amo. Quiçá queiras saber por que:
ignoro, mas sinto que acontece, e sofro.

1 271
Maria do Carmo Lobato

Maria do Carmo Lobato

Mulher de gigolô

Meu macho, comigo vem,
Com força bruta e arguta,
Vem penetrar na tua puta,
Fazer o que te convém.

Pois sabes que nesta luta
De amor dentro do meu peito,
Sempre foste meu eleito.
Fostes sempre o meu batuta.

Eu te entrego nas quebradas
Meu corpo e minhalma errada,
Te possuo com loucura,
Te exponho minha fratura.

Te convido pruma farra,
Te agarro com minha garra,
Em ti grudo feito sarna,
Te prendo com a minha arma.

E te digo: este amor é meu Karma,
Que com prazer vou cumprir,
Sem dele fazer alarma
Pra só contigo dormir.

1 047
Genaro Vencato

Genaro Vencato

O pescador

Abri a ostra e encontrei a pérola
Um leve beijo com o toque da língua,
Fez ela morder o lábio e mergulhar
Arrepiada no oceano de fogo
E urna gigantesca onda de calor
Banhou seu tênue corpo salgado
o vento uivou desconcertante
Completamente alucinado
Por cima das nuvens de nácar
Comprimindo os sons
Com um aperto, um urro
E um puxão de cabelo
Fiquei tonto, totalmente inebriado
Com a beleza desta jóia
De valor inestimável
Continuando minha busca
De cultivar sempre
A beleza rara
E deliciosamente pronta a ser aberta
Da sensível ostra.

854
Rogério Viana

Rogério Viana

Haikais

Gula. Ensandecida. Louca
Ela engoliu-me todo
com sua faminta boca.

Ninfomaníaca.
Sua demoníaca mania
me levou do céu ao inferno.

É devassa essa mulher
que seu sonhos expõem
quando abre a vidraça?

1 499
Luiz Alberto Machado

Luiz Alberto Machado

Tua língua

Tua língua toca minha alma
és o poço das galáxias longínquas
e vejo a lua lindo, cheia, radiante
no céu da tua boca
eu já era a Torre Eiffel
e em meu coração mais batia a vida
Eu te entumesço o rosto
lambuzo teus lábios rubros
enterro-te minha lâmina
no mormaço da tua língua faminta
cresço-me, enrijeço-me, teso
pau madeira-de-lei
acossado pela tua carícia
ah! a tua gula pulsa minha
nos meneios de veludo do teu toque
todos os truques para me capturar
eu e meu míssil dominado
Rara e feita me engole
debruçada sobre o meu cajado
como se fosse a melhor comida
o pico do Aconcágua em transe
buscando a ejaculação constante do meu Etna
com teu faro que desembaínha meus grunhidos
e levita só assim desfalecido
me devolves a vitalidade

959
Maurício de Lima

Maurício de Lima

Perfume de mulher

Olho para ti com receio
De que saibas que sinto,
Que penso,
Que minto
Para esconder minha vontade...

Procuro um espelho
Para fugir,
Sem lutar,
Sem fingir que estou ausente
Dessa fria realidade...

Não posso dizer que te amo
Estaria mentindo de novo ao dizer
Tenho ódio do carinho com que me tratas
Por fazer-me sentir culpado a cada instante
Por desejar teu corpo,
Por sentir o cheiro do teu sexo
À noite,
Na cama,
No papel higiênico roubado
Com que enxugaste a buceta no banheiro do escritório...

894
Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

Anjos do Apocalipse – II

Este é o anjo do apocalipse
com a sua espada
filva

funda

Embainhada na nossa
vagina

Ei-lo que rompe
o espaço
com a espada

com o esperma

Anjo da justiça
com o seu pénis

Caminham com estandartes
Com espadas e paixão
Numa erecção calada

São os anjos do ódio
com a sua raiva
alada

Vestem o corpo
com o brilho das armaduras
e do vidro

e só depois voam...

Os arcanjos do sonho
com as suas asas
nocturnas de veludo

São os arcanjos
do sonho

Usando comigo
a sua espada
de aço

3 603
Evandro Moreira

Evandro Moreira

Proserpina

Quero perder-me em teu abraço forte,
aquecer a alma e o corpo em teu regaço
e encontrar o ígneo sonho que comporte
toda a paixão em que hoje me desfaço.

Hei de seguir-te, qual fiel consorte,
por todos os caminhos, passo a passo;
quero, custe-me embora dor e morte,
viver com fúria o nosso amor devasso.

Serei dos teus demônios mais um réu
e entre tormentos te amarei, contente,
que, onde estiveres, aí terei meu céu.

Felicidade, então, será o inferno!,
pois em teu ventre encontro a sarça ardente
onde me queimarei num gozo eterno!

909
Isabel Machado

Isabel Machado

Primeiro suspiro

Arromba!
Penetre entre as gretas que te enxergam
Adentre pelos poros que veneram
o teu suor no meu endoidecido...

Arromba!
Por todos os meus lados puritanos
tão virgens e tão castos, espartanos
te engulo feito louca ao teu gemido...

Arromba!
Teu gozo exploda em mim feito uma bomba
debata-se e debata-se vencido
calando o meu grunhir na tua boca...

E...
depois da casa arrombada
não reste mais nada
por viver...

1 005
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Um sorriso

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

4 269
Urhacy Faustino

Urhacy Faustino

De boca aberta

Em nossas brigas não voam televisões,
nem há corporais agressões:
o verbo é a flecha que nos perfura
mesmo nos tempos e modos que a gente se censura.
Trocamos o costumeiro texto sacana
por verborrágica luta insana
e, se alguém se sente em desvantagem,
apela pra figuras de linguagem,
misturando metáforas, pleonasmos,
com licenças poéticas, no orgasmo
ao medirem forças dois titãs.
Até que já sem fala, de manhã,
mais sedentos que famintos, como taças
nos bebemos um ao outro, extasiados
de repente sem palavras, embrigados,
(eis que a língua se enrola, a gramática falha),
nos lambemos em nossa cama de batalha,
onde desejos e tesões explodem atômicos
em delírios guturais, gozando afônicos.

738
Anna Akhmatova

Anna Akhmatova

Sombra

Que sabe
certa mulher
Sobre a hora a morte?
O.Mandelstam
Sempre mais
elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura - tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me mas o tempo claro,
Flaubert, a insónia e os lilases tardios
De ti - bela de 1913 -
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar... Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
9 de Agosto de 1940. De noite.

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