Cidade
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
A PARTIDA [c]
A PARTIDA
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
E eu o complexo, eu o numeroso,
Eu a saturnália de todas as possibilidades,
Eu o quebrar do dique de todas as personalizações,
Eu o excessivo, eu o sucessivo, eu o (...)
Eu o prolixo até de continências e paragens,
Eu que tenho vivido através do meu sangue e dos meus nervos
Todas as sensibilidades correspondentes a rodas as metafísicas
Que tenho desembarcado em todos os portos da alma,
Passado em aeroplano sobre todas as terras do espírito,
Eu o explorador de todos os sertões do raciocínio,
O (...)
O criador de Weltanschauungen,
Pródigo semeador pela minha própria indiferença
De correntes de moderno todas diferentes
Todas no momento em que são concebidas verdades
Todas pessoas diferentes, todas eu-próprio apenas —
Eu morrerei assim? Não: o universo é grande
E tem possibilidade de coisas infinitas acontecerem.
Não: tudo é melhor e maior que nós o pensamos
E a morte revelará coisas absolutamente inéditas...
Deus será mais contente.
Salve, ó novas coisas, a acontecer-me quando eu morrer,
Nova mobilidade do universo a despontar no meu horizonte
Quando definitivamente
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, de Crença limpa no Ultramar,
Eia — por aí fora, por esses mares internado,
À busca do meu futuro — nas terras, lagos e rios
Que ligam a redondeza da terra — todo o Universo —
Que oscila à vista. Eia por aí fora...
Ave atque vale, ó prodigioso Universo...
Haverá primeiro
Uma grande aceleração das sensações, um (...)
Com grandes dérapages nas estradas da minha consciência,
(...)
(E até à aterissage final do meu aero (...) )
Uma grande conglobação das sensações incontíguas,
Veloz silvo voraz do espaço entre a alma e Deus
Do meu (...)
Os meus estados de alma, de sucessivos, tornar-se-ão simultâneos,
Toda a minha individualidade se amarrotará num só ponto,
E quando, prestes a partir,
Tudo quanto vivo, e o que viverei para além do mundo,
Será fundido num só conjunto homogéneo e incandescente
E com um tal aumentar do ruído dos motores
Que se torna um ruído já não férreo, mas apenas abstracto,
Irei num silvo de sonho de velocidade pelo Incógnito fora
Deixando prados, paisagens, vilas dos dois lados
E cada vez mais no confim, nos longes do cognoscível,
Sulco de movimento no estaleiro das coisas,
Nova espécie de eternidade dinâmica ondeando através da eternidade estática —
s-s-s-ss-sss
z-z-z-z-z-z automóvel divino
4 853
Fernando Pessoa
OS EMIGRADOS
OS EMIGRADOS
Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa
Mutilados da relação com os outros
Que depois contado na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?
E o propósito que uma vez formei num hotel planeando a legenda?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.
Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa
Mutilados da relação com os outros
Que depois contado na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?
E o propósito que uma vez formei num hotel planeando a legenda?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.
915
Fernando Pessoa
Quem me dera, quando fores
Quem me dera, quando fores
Pela rua sem me ver,
Supor que há coisas melhores
E que eu as pudera ter.
Pela rua sem me ver,
Supor que há coisas melhores
E que eu as pudera ter.
1 481
Fernando Pessoa
Linda noite a desta lua,
Linda noite a desta lua,
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua,
Por onde ela não virá.
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua,
Por onde ela não virá.
1 585
Fernando Pessoa
Não quero a fama, que comigo a têm
Não quero a fama, que comigo a têm
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
1 197
Fernando Pessoa
O teu cabelo cortado
O teu cabelo cortado
À maneira de rapaz
Não deixa justificado
Aquele amor que me faz.
À maneira de rapaz
Não deixa justificado
Aquele amor que me faz.
1 270
Fernando Pessoa
Now are no Janus’ temple-doors thrown wide
Now are no Janus' temple‑doors thrown wide
To utter thougts of war upon the land.
Now doth no double facing God divide
Him from himself, that sight of him may brand
The symbol of opposed things upon
Our hearts that at our eyes on him are thrown.
Now do no pagan cults tremble at Mars' name
Because bad‑auguring birds like clouds have flown
O'er nations' frontiers, nor do oracles frame
Strange answers unto ears of armoured chiefs,
Replies that leave perplexed their perplexed eyes
That know not whether that heart‑pang they hear
Is the first grief heralding their peoples' griefs
Or the strange cold that the Gods' mysteries
Speak to his soul that is to conquest near.
No. All is dead that wreathed war round with Gods.
Nor omens mute, nor the foiled sacrifice,
No dim words spoken by spilt blood on sods.
Nay, nor the later sense that vice and sloth,
When in a people's heart they nestle both
Do on them call the wrath of heaven, us move.
Our souls are void, like a stage mummer's cries
And our hate and our love mock hate and love.
Something of coldness, like the coming winter,
Crosses our autumn like a profecy.
Round our leaves now no swallows circle and twitter.
No more, no more, shall we heart‑wholesome be.
There is a sadness that with us doth stay
Like a billetted guest, and far away
Our ultimate death awaits us like a sea.
Alas! that even the poesy of wars
Should, like a tired thing, have gone where things go.
Alas! alas! that we have come thus far
Knowing still the same nothing that we know,
To meet more than ourselves, nor no throe
That shall be herald of a newer man.
And ever as the old woes the cold new woe
Fills with its deathless measure our life's span.
No, even the Christian manner of love or hate
Is dead. No God that lives in us survives
The winter in us that snow‑kills God and Fate
And has iced o'er the rivers of our lives.
With cuirass and with pike we laid aside
All that made battle worth the death in it.
Our science‑made war‑gestures now deride
The great eternal things that war doth fit
With helm and armour.
With mortal pomp yet pomp. We are on death's side.
All is as if were not part of it.
All clashes, rings and turmoils as if far.
The foiled imagining within our wit
Ousts war's clear image with bare thought of war.
Our plans are cold, our courage cold, our eyes
When they look inwards dream but the far plain
And vague, picture‑seen faces and their pain
Touches no sense of ours, nor do dreamed cries
Rise in us. What cold thing has become of
Our very hatred? What way has strength gone?
We die as if the sky were not above
Our heads and beneath us sand, grass and stone.
The great eternal presence of all things
No longer doth with us collaborate
To lift our hearts up on invisible wings
And bid us tremble at the thrill of Fate.
The possible fall of empires doth no more
Touch us with that great and mysterious dread
That John on Pathmos saw rise o'er his head
Like a space‑filling sea without a shore.
Alas! our nobler fear has gone away
Where our weariness pointed. We are blind
And learned to blindness. Our wild gestures stray
From us like leaves that fall far off with the wind,
And we fight clearly, coldly, night and day.
These things I thought, knowing that far behind
My visible horizon war was slave
Of that Invisible Master who doth wave
His speechless hand o'er continents and seas
And men like reaped things fall, and the blind wind
With groping hands that in the night are blind
Touches the dead men's faces' mysteries.
This I thought when, lo! before me there was
A door of iron, or what iron seemed,
An unsized portal, and its live‑seeming lock
Seemed all the uses of a lock to mock.
To see that door was to know none could pass
Through it, nor could its other‑side be dreamed.
A ribbon of broad stairs led up to it
But had no meaning, like a laugh unseen,
I looked and the door seemed to sway as hit
By blows, but no blows fell on it. That screen
Was interposed between me and no scene,
Yet, like an eye staring from out the night,
It touched my heart cold with its iron mean.
And this was not in space nor in a light.
Somewhere in me where dreams do themselves show
And have an inner meaning God doth know,
The door was set, and it seemed to my soul
That there since some inner eternity
It ever had been and I something had seen,
Yet half forgot, that like a half‑shown scroll,
Concealed its sense in what it showed to me.
And lo! as my heart looked, the door grew clear
As a near‑lit thing seen in a black night,
And a great sense of a great coming fear
Was fear already in my heart's affright.
Then as I looked I saw - yet it did seem
That in my vision that had ever been -
From beneath the strange door down the steps flow
A string of silent blood, that step by step,
Fell with a motion desolate and slow.
The thin red stream seemed conscious of its course
Though its course seemed to be none, but to fall.
I looked and it fell ever, with a force
Of relinquishment to its fall, a knell
To some hope in me, and the blood
That ever was but a small line did flood
All my pained soul and made it red. The spell
Of its thin redness spreade o'er my thought's mood
And all my thoughts became a great red wall
Set up in front of what in me doth brood.
Then everything shifted, yet was the same.
I looked on as one who sees a child's game
And finds its eyes at interest in it
And knows not why. A sense of end did hit
My power of having feelings with a rain
That did with deep red all my dim soul stain
As it had stained that soul.
Then all the outer world was dashed to night
And, though no floor remained, no sides, no light
To that space‑missed new world, set far from being,
Yet by some clearer virtue of my seeing
All I saw was without nor left nor right
With a name to it, without a place
Even in itself, without an I to see.
The mere great door and the red blood's thin trace
And all the rest was void and mystery.
Then all again seemed changing unto some
New, unimaginable and fearful thing.
The door and that blood‑line seemed to come
A strange new‑featured Face looking out through
The Universe's whole frame, traversing
It like light an invisible glass - a wing
Belonging to no bird our thoughts construe.
Then the door seemed to recede - nay, to have
Receded, when I knew not, nor was there
A when, for Time seem'd as seems a far wave
On a wide sea, something gone past. The bare
Eternal door seemed to have gone to the end
Of a visible infinity, and all
That now remained on which my soul could spend
Its terror was the blood ever at its fall.
Then, though still the same small line of red,
The blood seeemed to grow glass and in it I saw
A mighty river full of strange things - dead
Men, children, wrecks of bridges, cities, thrones,
And still the line was a small red line, (...)
Of other meaning than that
That before God for the clear world atones.
But the (...) visions in that line contained
Seemed wide as space. The red line seemed a slit
In a thin door through which our eyes can see
Large fields, a city and the whole sky stained
With clouds, and all this in the line could be;
And from some unknown where I looked on it.
It seemed the edge of a cube opening
Sideways to sides of visions, more and more.
Now and then across its glass - like being a wing
Passed a tremor ran over everything
That had in it a clear and tragic being.
Then ceased. And from, past space, the door
Still held my unconscious consciousness of seeing.
It seemed sometimes a bright, red moving veil
And through it as through a stained window I guessed
A night and stars on a vague pale day pressed,
On a same horizon desolate and pale.
Then, as I stared, suddenly before me,
Like a fan suddenly opened, the blood‑line
Took space from side to side, leaving naught to me
Left or right of it. Its red (...) fact
Became a red Niagara, a cataract.
But there were no steps, nothing: it did fall
As if drawn in the air, over no edge, and all
Was this and this was its own mystery.
Then lo! over the edge, no longer now,
But empires rolled, and I saw Greece and Rome
Pass. And still over the eternal flow
Reddened from left to right my inner sight's home
Of seeing. And all like to God's blood did come
Like a great rain off a huge thorn‑crowned brow.
And I saw more and more strange empires roll
Down and some I knew not, nor seeing them, guessed.
Awhile their falling the fall's brink caressed
Then they sunk down somewhere within my soul,
And my soul was the soul of all the world,
And from my (...) eyes that saw all this
Suddenly I felt, as if a flag unfurled,
God in me look out at these mysteries.
My eyes seemed windows of another sight
Of someone set behind my soul in the night
Looking through my eyes and my sight, mine own
Was but a glass those unknown eyes looked through,
And still the vision was blood falling down
In cataracts into Mystery, red and slow.
I became one with world and Fate and God,
And the great River that came on and fell
Let me see through its veil of (...) blood
The stars shine and a vague moonlight, then fell
Something from me. The cataract came more near
To my sight; then it seemed into mine eyes
To creep to become with them and the fear
To pass behind them into some soul (...).
Then all that did remain was the stars light
And again in the dark infinity
My pity and my dread alone with me
And my dream's meaning like a paling night.
To utter thougts of war upon the land.
Now doth no double facing God divide
Him from himself, that sight of him may brand
The symbol of opposed things upon
Our hearts that at our eyes on him are thrown.
Now do no pagan cults tremble at Mars' name
Because bad‑auguring birds like clouds have flown
O'er nations' frontiers, nor do oracles frame
Strange answers unto ears of armoured chiefs,
Replies that leave perplexed their perplexed eyes
That know not whether that heart‑pang they hear
Is the first grief heralding their peoples' griefs
Or the strange cold that the Gods' mysteries
Speak to his soul that is to conquest near.
No. All is dead that wreathed war round with Gods.
Nor omens mute, nor the foiled sacrifice,
No dim words spoken by spilt blood on sods.
Nay, nor the later sense that vice and sloth,
When in a people's heart they nestle both
Do on them call the wrath of heaven, us move.
Our souls are void, like a stage mummer's cries
And our hate and our love mock hate and love.
Something of coldness, like the coming winter,
Crosses our autumn like a profecy.
Round our leaves now no swallows circle and twitter.
No more, no more, shall we heart‑wholesome be.
There is a sadness that with us doth stay
Like a billetted guest, and far away
Our ultimate death awaits us like a sea.
Alas! that even the poesy of wars
Should, like a tired thing, have gone where things go.
Alas! alas! that we have come thus far
Knowing still the same nothing that we know,
To meet more than ourselves, nor no throe
That shall be herald of a newer man.
And ever as the old woes the cold new woe
Fills with its deathless measure our life's span.
No, even the Christian manner of love or hate
Is dead. No God that lives in us survives
The winter in us that snow‑kills God and Fate
And has iced o'er the rivers of our lives.
With cuirass and with pike we laid aside
All that made battle worth the death in it.
Our science‑made war‑gestures now deride
The great eternal things that war doth fit
With helm and armour.
With mortal pomp yet pomp. We are on death's side.
All is as if were not part of it.
All clashes, rings and turmoils as if far.
The foiled imagining within our wit
Ousts war's clear image with bare thought of war.
Our plans are cold, our courage cold, our eyes
When they look inwards dream but the far plain
And vague, picture‑seen faces and their pain
Touches no sense of ours, nor do dreamed cries
Rise in us. What cold thing has become of
Our very hatred? What way has strength gone?
We die as if the sky were not above
Our heads and beneath us sand, grass and stone.
The great eternal presence of all things
No longer doth with us collaborate
To lift our hearts up on invisible wings
And bid us tremble at the thrill of Fate.
The possible fall of empires doth no more
Touch us with that great and mysterious dread
That John on Pathmos saw rise o'er his head
Like a space‑filling sea without a shore.
Alas! our nobler fear has gone away
Where our weariness pointed. We are blind
And learned to blindness. Our wild gestures stray
From us like leaves that fall far off with the wind,
And we fight clearly, coldly, night and day.
These things I thought, knowing that far behind
My visible horizon war was slave
Of that Invisible Master who doth wave
His speechless hand o'er continents and seas
And men like reaped things fall, and the blind wind
With groping hands that in the night are blind
Touches the dead men's faces' mysteries.
This I thought when, lo! before me there was
A door of iron, or what iron seemed,
An unsized portal, and its live‑seeming lock
Seemed all the uses of a lock to mock.
To see that door was to know none could pass
Through it, nor could its other‑side be dreamed.
A ribbon of broad stairs led up to it
But had no meaning, like a laugh unseen,
I looked and the door seemed to sway as hit
By blows, but no blows fell on it. That screen
Was interposed between me and no scene,
Yet, like an eye staring from out the night,
It touched my heart cold with its iron mean.
And this was not in space nor in a light.
Somewhere in me where dreams do themselves show
And have an inner meaning God doth know,
The door was set, and it seemed to my soul
That there since some inner eternity
It ever had been and I something had seen,
Yet half forgot, that like a half‑shown scroll,
Concealed its sense in what it showed to me.
And lo! as my heart looked, the door grew clear
As a near‑lit thing seen in a black night,
And a great sense of a great coming fear
Was fear already in my heart's affright.
Then as I looked I saw - yet it did seem
That in my vision that had ever been -
From beneath the strange door down the steps flow
A string of silent blood, that step by step,
Fell with a motion desolate and slow.
The thin red stream seemed conscious of its course
Though its course seemed to be none, but to fall.
I looked and it fell ever, with a force
Of relinquishment to its fall, a knell
To some hope in me, and the blood
That ever was but a small line did flood
All my pained soul and made it red. The spell
Of its thin redness spreade o'er my thought's mood
And all my thoughts became a great red wall
Set up in front of what in me doth brood.
Then everything shifted, yet was the same.
I looked on as one who sees a child's game
And finds its eyes at interest in it
And knows not why. A sense of end did hit
My power of having feelings with a rain
That did with deep red all my dim soul stain
As it had stained that soul.
Then all the outer world was dashed to night
And, though no floor remained, no sides, no light
To that space‑missed new world, set far from being,
Yet by some clearer virtue of my seeing
All I saw was without nor left nor right
With a name to it, without a place
Even in itself, without an I to see.
The mere great door and the red blood's thin trace
And all the rest was void and mystery.
Then all again seemed changing unto some
New, unimaginable and fearful thing.
The door and that blood‑line seemed to come
A strange new‑featured Face looking out through
The Universe's whole frame, traversing
It like light an invisible glass - a wing
Belonging to no bird our thoughts construe.
Then the door seemed to recede - nay, to have
Receded, when I knew not, nor was there
A when, for Time seem'd as seems a far wave
On a wide sea, something gone past. The bare
Eternal door seemed to have gone to the end
Of a visible infinity, and all
That now remained on which my soul could spend
Its terror was the blood ever at its fall.
Then, though still the same small line of red,
The blood seeemed to grow glass and in it I saw
A mighty river full of strange things - dead
Men, children, wrecks of bridges, cities, thrones,
And still the line was a small red line, (...)
Of other meaning than that
That before God for the clear world atones.
But the (...) visions in that line contained
Seemed wide as space. The red line seemed a slit
In a thin door through which our eyes can see
Large fields, a city and the whole sky stained
With clouds, and all this in the line could be;
And from some unknown where I looked on it.
It seemed the edge of a cube opening
Sideways to sides of visions, more and more.
Now and then across its glass - like being a wing
Passed a tremor ran over everything
That had in it a clear and tragic being.
Then ceased. And from, past space, the door
Still held my unconscious consciousness of seeing.
It seemed sometimes a bright, red moving veil
And through it as through a stained window I guessed
A night and stars on a vague pale day pressed,
On a same horizon desolate and pale.
Then, as I stared, suddenly before me,
Like a fan suddenly opened, the blood‑line
Took space from side to side, leaving naught to me
Left or right of it. Its red (...) fact
Became a red Niagara, a cataract.
But there were no steps, nothing: it did fall
As if drawn in the air, over no edge, and all
Was this and this was its own mystery.
Then lo! over the edge, no longer now,
But empires rolled, and I saw Greece and Rome
Pass. And still over the eternal flow
Reddened from left to right my inner sight's home
Of seeing. And all like to God's blood did come
Like a great rain off a huge thorn‑crowned brow.
And I saw more and more strange empires roll
Down and some I knew not, nor seeing them, guessed.
Awhile their falling the fall's brink caressed
Then they sunk down somewhere within my soul,
And my soul was the soul of all the world,
And from my (...) eyes that saw all this
Suddenly I felt, as if a flag unfurled,
God in me look out at these mysteries.
My eyes seemed windows of another sight
Of someone set behind my soul in the night
Looking through my eyes and my sight, mine own
Was but a glass those unknown eyes looked through,
And still the vision was blood falling down
In cataracts into Mystery, red and slow.
I became one with world and Fate and God,
And the great River that came on and fell
Let me see through its veil of (...) blood
The stars shine and a vague moonlight, then fell
Something from me. The cataract came more near
To my sight; then it seemed into mine eyes
To creep to become with them and the fear
To pass behind them into some soul (...).
Then all that did remain was the stars light
And again in the dark infinity
My pity and my dread alone with me
And my dream's meaning like a paling night.
1 550
Fernando Pessoa
O bêbado caía de bêbado
O bêbado caía de bêbado
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
Meu Deus! Eu também caí de bêbado
Deus (...)
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
Meu Deus! Eu também caí de bêbado
Deus (...)
1 754
Fernando Pessoa
S. DÂMASO PORTUGUÊS
1 .
Depois de se ter passado
Os noventa mais vereis
Vir aquele desejado
Que há-de fundar novas leis.
2 .
Verá o Leão fatal
Que de Portugal lhe vem
O que lhe há-de fazer mal,
Aquele escondido Rei.
3.
Aquela manhã chuvosa
Com névoa muito escura
Verá de Deus a figura
Fazer Lisboa ditosa.
4.
Névoa já é levantada
Lá junto do meio-dia;
Haveis de a ver descoberta
A oitava maravilha.
Depois de se ter passado
Os noventa mais vereis
Vir aquele desejado
Que há-de fundar novas leis.
2 .
Verá o Leão fatal
Que de Portugal lhe vem
O que lhe há-de fazer mal,
Aquele escondido Rei.
3.
Aquela manhã chuvosa
Com névoa muito escura
Verá de Deus a figura
Fazer Lisboa ditosa.
4.
Névoa já é levantada
Lá junto do meio-dia;
Haveis de a ver descoberta
A oitava maravilha.
1 085
Fernando Pessoa
Com bandas militares
Com bandas militares à frente, compostas de volantes e hélices,
Com uma vanguarda sonora de sereia de automóvel e de barco
Com um estardalhaço longínquo, com saltos e alardes
De bombos e pratos, com (...)
Desencadeio-me a saudar-te. Pum!
Pum, pum, pum...
Pu-u-u-u-u-m!
Com uma vanguarda sonora de sereia de automóvel e de barco
Com um estardalhaço longínquo, com saltos e alardes
De bombos e pratos, com (...)
Desencadeio-me a saudar-te. Pum!
Pum, pum, pum...
Pu-u-u-u-u-m!
993
Fernando Pessoa
PARAGEM. ZONA
PARAGEM. ZONA
Tragam-me esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê. mas já basta...
Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje?
Viver amanhã por ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?
Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
E agora aparece o eléctrico — o de que eu estou à espera —
Antes fosse outro... Ter de subir já!
Ninguém me obriga, mas deixai-o passar, porquê?
Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida...
Que náusea no estômago real que é a alma consciente!
Que sono bom o ser outra pessoa qualquer...
Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios...
Não, não compreendo nada...
Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida...
Tragam-me esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê. mas já basta...
Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje?
Viver amanhã por ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?
Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
E agora aparece o eléctrico — o de que eu estou à espera —
Antes fosse outro... Ter de subir já!
Ninguém me obriga, mas deixai-o passar, porquê?
Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida...
Que náusea no estômago real que é a alma consciente!
Que sono bom o ser outra pessoa qualquer...
Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios...
Não, não compreendo nada...
Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida...
2 267
Fernando Pessoa
P. DAS HORAS — Parte II
P. DAS HORAS — Parte II —
Grandes estandartes de fumo das chaminés das fábricas
Sobre os telhados (...)
Ó poderosamente gritos de combate!
Vago rumor silencioso e comercial das ruas...
E a ordem inconsciente dos que vão e vêm
Pelas fitas dos passeios...
À hora de sol em que as lojas descem os toldos
Grandes estandartes de fumo das chaminés das fábricas
Sobre os telhados (...)
Ó poderosamente gritos de combate!
Vago rumor silencioso e comercial das ruas...
E a ordem inconsciente dos que vão e vêm
Pelas fitas dos passeios...
À hora de sol em que as lojas descem os toldos
1 217
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS OU WALT WHITMAN
PASSAGEM DAS HORAS OU WALT WHITMAN
Eu, o ritmista febril
Para quem o parágrafo de versos é uma pessoa inteira,
Para quem, por baixo da metáfora aparente,
Como em estrofe, anti-estrofe, epodo o poema que escrevo,
Que por detrás do delírio construo
Que por detrás de sentir penso
Que amo, expludo, rujo, com ordem e oculta medida,
Eu ante ti quereria ter menos de engenheiro na alma,
Menos de grego das máquinas, de Bacante de Apolo
Nos meus momentos de alma multiplicados em verso.
Mas o ar do mar alto
Chega, por um influxo de dentro do meu sangue
Ao meu cérebro desterrado em terra,
E a fúria com que medito, a raiva com que me domino
Abre-se como uma vela, tomada de vento, aos ares
Ampla servidão ao rasgo de assombro dos (...)
Eu, o ritmista febril
Para quem o parágrafo de versos é uma pessoa inteira,
Para quem, por baixo da metáfora aparente,
Como em estrofe, anti-estrofe, epodo o poema que escrevo,
Que por detrás do delírio construo
Que por detrás de sentir penso
Que amo, expludo, rujo, com ordem e oculta medida,
Eu ante ti quereria ter menos de engenheiro na alma,
Menos de grego das máquinas, de Bacante de Apolo
Nos meus momentos de alma multiplicados em verso.
Mas o ar do mar alto
Chega, por um influxo de dentro do meu sangue
Ao meu cérebro desterrado em terra,
E a fúria com que medito, a raiva com que me domino
Abre-se como uma vela, tomada de vento, aos ares
Ampla servidão ao rasgo de assombro dos (...)
1 219
Fernando Pessoa
Há tantos deuses!
Há tantos deuses!
São como os livros — não se pode ler tudo, nunca se sabe nada.
Feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo.
Tenho todos os dias crenças diferentes
Às vezes no mesmo dia tenho crenças diferentes
E gostava de ser a criança que me atravessa agora
A visão da janela abaixo —
Comendo um bolo barato (ela é pobre) sem causa aparente nem final,
Animal inutilmente erguido acima dos outros vertebrados
E cantando, entre os dentes, uma cantiga obscena de revista...
Sim, há muitos deuses...
Mas dava eu tudo ao deus que me levasse aquela criança de aqui p'ra fora...
São como os livros — não se pode ler tudo, nunca se sabe nada.
Feliz quem conhece só um deus, e o guarda em segredo.
Tenho todos os dias crenças diferentes
Às vezes no mesmo dia tenho crenças diferentes
E gostava de ser a criança que me atravessa agora
A visão da janela abaixo —
Comendo um bolo barato (ela é pobre) sem causa aparente nem final,
Animal inutilmente erguido acima dos outros vertebrados
E cantando, entre os dentes, uma cantiga obscena de revista...
Sim, há muitos deuses...
Mas dava eu tudo ao deus que me levasse aquela criança de aqui p'ra fora...
969
Fernando Pessoa
Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega...
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens...
Os ónibus ou os eléctricos ou os automóveis...
O novo aspecto das ruas de novas terras...
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...
As praças nitidamente quadradas e grandes,
As ruas com as casas que se aproximam ao fim,
As ruas transversais revelando súbitos interesses,
E através disto tudo, como uma coisa que inunda e nunca transborda,
O movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica...
Os portos com navios parados.
Excessivamente navios parados,
Com barcos pequenos ao pé esperando...
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega...
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens...
Os ónibus ou os eléctricos ou os automóveis...
O novo aspecto das ruas de novas terras...
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...
As praças nitidamente quadradas e grandes,
As ruas com as casas que se aproximam ao fim,
As ruas transversais revelando súbitos interesses,
E através disto tudo, como uma coisa que inunda e nunca transborda,
O movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica...
Os portos com navios parados.
Excessivamente navios parados,
Com barcos pequenos ao pé esperando...
1 245
Fernando Pessoa
Eu tenho ideias e razões,
Eu tenho ideias e razões,
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.
1 688
Fernando Pessoa
Tudo transcende tudo
Tudo transcende tudo
E é mais real e menor do que é.
Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.
Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.
E é mais real e menor do que é.
Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.
Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.
1 418
Fernando Pessoa
É inútil prolongar a conversa de todo este silêncio.
É inútil prolongar a conversa de todo este silêncio.
Jazes sentado, fumando, no canto do sofá grande —
Jazo sentado, fumando, no sofá de cadeira funda,
Entre nós não houve, vai para uma hora,
Senão os olhares de uma só vontade de dizer.
Renovávamos, apenas, os cigarros — o novo no aceso do velho
E continuávamos a conversa silenciosa,
Interrompida apenas pelo desejo olhado de falar...
Sim, é inútil,
Mas tudo, até a vida dos campos é igualmente inútil
Há coisas que são difíceis de dizer...
Este problema, por exemplo.
De qual de nós é que ela gosta? Como é que podemos chegar a discutir isso?
Nem falar nela, não é verdade?
E sobretudo não ser o primeiro a pensar em falar nela!
A falar nela ao impassível outro e amigo...
Caiu a cinza do teu cigarro no teu casaco preto —
Ia advertir-te, mas para isso era preciso falar...
Entreolhámo-nos de novo, como transeuntes cruzados.
E o pecado mútuo que não cometemos
Assomou ao mesmo tempo ao fundo dos dois olhares.
De repente espreguiças-te, semi-ergues-te — Escusas de falar...
"Vou-me deitar!" dizes, porque o vais dizer.
E tudo isto, tão psicológico, tão involuntário,
Por causa de uma empregada de escritório agradável e solene.
Ah, vamo-nos deitar!
Se fizer versos a respeito disto, já sabes, é desprezo!
Jazes sentado, fumando, no canto do sofá grande —
Jazo sentado, fumando, no sofá de cadeira funda,
Entre nós não houve, vai para uma hora,
Senão os olhares de uma só vontade de dizer.
Renovávamos, apenas, os cigarros — o novo no aceso do velho
E continuávamos a conversa silenciosa,
Interrompida apenas pelo desejo olhado de falar...
Sim, é inútil,
Mas tudo, até a vida dos campos é igualmente inútil
Há coisas que são difíceis de dizer...
Este problema, por exemplo.
De qual de nós é que ela gosta? Como é que podemos chegar a discutir isso?
Nem falar nela, não é verdade?
E sobretudo não ser o primeiro a pensar em falar nela!
A falar nela ao impassível outro e amigo...
Caiu a cinza do teu cigarro no teu casaco preto —
Ia advertir-te, mas para isso era preciso falar...
Entreolhámo-nos de novo, como transeuntes cruzados.
E o pecado mútuo que não cometemos
Assomou ao mesmo tempo ao fundo dos dois olhares.
De repente espreguiças-te, semi-ergues-te — Escusas de falar...
"Vou-me deitar!" dizes, porque o vais dizer.
E tudo isto, tão psicológico, tão involuntário,
Por causa de uma empregada de escritório agradável e solene.
Ah, vamo-nos deitar!
Se fizer versos a respeito disto, já sabes, é desprezo!
1 438
Fernando Pessoa
Porta p'ra tudo!
Porta p'ra tudo!
Ponte p'ra tudo!
Estrada p'ra tudo!
Tua alma omnívora e (...)
Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher,
Tua alma os dois onde estão dois,
Tua alma o um que são dois quando dois são um,
Tua alma seta, raio, espaço,
Amplexo, nexo , sexo , Texas, Carolina, Nova Iorque,
Brooklyn Ferry à tarde,
Brooklyn Ferry das idas e dos regressos,
Libertad! Democracy! Século vinte ao longe!
Pum! pum! pum! pum! pum!
PUM!
Tu, o que eras, tu o que vias, tu o que ouvias,
O sujeito e o objecto, o activo e o passivo,
Aqui e ali, em toda a parte tu,
Círculo fechando todas as possibilidades de sentir,
Marco miliário de todas as coisas que podem ser,
Deus Termo de todos os objectos que se imaginem e és tu!
Tu Hora.
Tu Minuto,
Tu Segundo!
Tu intercalado, liberto, desfraldado, ido,
Intercalamento, libertação ida, desfraldamento,
lntercalador, libertador, desfraldador, remetente,
Carimbo em todas as cartas,
Nome em todos os endereços,
Mercadoria entregue, devolvida, seguindo...
Comboio de sensações a alma-quilómetros à hora,
À hora, ao minuto, ao segundo. PUM!
E todos estes ruídos naturais, humanos, de máquinas
Todos eles vão juntos, tumulto completo de tudo,
Cheios de mim até ti, saudar-te
Cheios de mim até ti,
Vão gritos humanos, vão [...] de terra,
Vão os volumes dos montes,
Vão os rumores de águas,
Vão os barulhos da guerra,
Vão os estrondos da (...), os (...) da (...)
Vão os ruídos dos povos em lágrimas,
Vão os sons débeis dos ais no escuro
E vão mais cerca da vida, rodeando-me,
Prémio melhor do meu saudar-te
Os ruídos, cicios, assobios dos comboios
Os ruídos modernos e das fábricas,
Som regular,
Rodas,
[...],
Hélices
Pum...
Ponte p'ra tudo!
Estrada p'ra tudo!
Tua alma omnívora e (...)
Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher,
Tua alma os dois onde estão dois,
Tua alma o um que são dois quando dois são um,
Tua alma seta, raio, espaço,
Amplexo, nexo , sexo , Texas, Carolina, Nova Iorque,
Brooklyn Ferry à tarde,
Brooklyn Ferry das idas e dos regressos,
Libertad! Democracy! Século vinte ao longe!
Pum! pum! pum! pum! pum!
PUM!
Tu, o que eras, tu o que vias, tu o que ouvias,
O sujeito e o objecto, o activo e o passivo,
Aqui e ali, em toda a parte tu,
Círculo fechando todas as possibilidades de sentir,
Marco miliário de todas as coisas que podem ser,
Deus Termo de todos os objectos que se imaginem e és tu!
Tu Hora.
Tu Minuto,
Tu Segundo!
Tu intercalado, liberto, desfraldado, ido,
Intercalamento, libertação ida, desfraldamento,
lntercalador, libertador, desfraldador, remetente,
Carimbo em todas as cartas,
Nome em todos os endereços,
Mercadoria entregue, devolvida, seguindo...
Comboio de sensações a alma-quilómetros à hora,
À hora, ao minuto, ao segundo. PUM!
E todos estes ruídos naturais, humanos, de máquinas
Todos eles vão juntos, tumulto completo de tudo,
Cheios de mim até ti, saudar-te
Cheios de mim até ti,
Vão gritos humanos, vão [...] de terra,
Vão os volumes dos montes,
Vão os rumores de águas,
Vão os barulhos da guerra,
Vão os estrondos da (...), os (...) da (...)
Vão os ruídos dos povos em lágrimas,
Vão os sons débeis dos ais no escuro
E vão mais cerca da vida, rodeando-me,
Prémio melhor do meu saudar-te
Os ruídos, cicios, assobios dos comboios
Os ruídos modernos e das fábricas,
Som regular,
Rodas,
[...],
Hélices
Pum...
1 577
Fernando Pessoa
E o sentimento de que a vida passa
E o sentimento de que a vida passa
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
E o senti-la a passar
Toma em mim tal intensidade
De desolado e confrangido horror
Que a esse próprio horror, horror eu tenho,
Por ele e por senti-lo, e por senti-lo
Como tal.
Feliz a humanidade que, a não ser
Em momentos febris e desolados,
Não sente o esvair da existência
(E há quem a sinta com tristeza imensa)
Mas eu... eu não a sinto fugir-me,
Penso-a a fugir-me e em lugar de tristeza
Só esse horror é meu, silente e fundo.
1 342
Fernando Pessoa
WAS...
The wave hath burst white upon the beach.
Speak no more of it.
The leaf hath rotted. No more can it teach
But a moral for joy unfit.
The day hath ended. Who speaks of its morn
But must think of its night?
The old corpse is rotting. That it was once born
Seems a lie to the sight.
The heart hath broken; no more can it throb
With deep love or care.
Its voice hath vanished; no more can it sob
In its deep despair.
Thus all things do crumble and all doth pass,
But not always forgot:
For we feel it deep, and in the heart «was»
Meaneth but «is nob».
Speak no more of it.
The leaf hath rotted. No more can it teach
But a moral for joy unfit.
The day hath ended. Who speaks of its morn
But must think of its night?
The old corpse is rotting. That it was once born
Seems a lie to the sight.
The heart hath broken; no more can it throb
With deep love or care.
Its voice hath vanished; no more can it sob
In its deep despair.
Thus all things do crumble and all doth pass,
But not always forgot:
For we feel it deep, and in the heart «was»
Meaneth but «is nob».
1 399
Fernando Pessoa
Estatelo-me ao comprido em toda a vida
Estatelo-me ao comprido em toda a vida
E urro em mim a minha ferocidade de viver...
Não há gestos de prazer pelo mundo que valham
A alegria estupenda de quem não tem outro modo de a exprimir
Que rolar-se pelo chão entre ervas e malmequeres
E misturar-se com terra até sujar o fato e o cabelo...
Não há versos que possam dar isto...
Arranquem um (...) de erva, trinquem-na e perceber-me-ão,
Perceberão completamente o que eu incompletamente exprimo.
Tenho a fúria de ser raiz
A perseguir-me as sensações por dentro como uma seiva...
Queria ter todos os sentidos, incluindo a inteligência,
A imaginação e a inibição
À flor da pele para me poder rolar pela terra rugosa
Mais de dentro, sentindo mais rugosidade e irregularidades.
Eu só estaria contente se o meu corpo fosse a minha alma...
Assim todos os ventos, todos os sóis, e todas as chuvas
Seriam sentidos por mim do único modo que eu quereria...
Não podendo acontecer-me isto, desespero, raivo,
Tenho vontade de poder arrancar à dentada o meu fato
E depois ter pesadas garras de leão para me despedaçar
Até o sangue correr, correr, correr, correr...
Sofro porque tudo isto é absurdo
Como se me tivesse medo alguém,
Com o meu sentimento agressivo para o destino, para Deus,
Que nasce de encararmos com o Inefável
E medirmos bem, de repente, a nossa fraqueza e pequenez.
E urro em mim a minha ferocidade de viver...
Não há gestos de prazer pelo mundo que valham
A alegria estupenda de quem não tem outro modo de a exprimir
Que rolar-se pelo chão entre ervas e malmequeres
E misturar-se com terra até sujar o fato e o cabelo...
Não há versos que possam dar isto...
Arranquem um (...) de erva, trinquem-na e perceber-me-ão,
Perceberão completamente o que eu incompletamente exprimo.
Tenho a fúria de ser raiz
A perseguir-me as sensações por dentro como uma seiva...
Queria ter todos os sentidos, incluindo a inteligência,
A imaginação e a inibição
À flor da pele para me poder rolar pela terra rugosa
Mais de dentro, sentindo mais rugosidade e irregularidades.
Eu só estaria contente se o meu corpo fosse a minha alma...
Assim todos os ventos, todos os sóis, e todas as chuvas
Seriam sentidos por mim do único modo que eu quereria...
Não podendo acontecer-me isto, desespero, raivo,
Tenho vontade de poder arrancar à dentada o meu fato
E depois ter pesadas garras de leão para me despedaçar
Até o sangue correr, correr, correr, correr...
Sofro porque tudo isto é absurdo
Como se me tivesse medo alguém,
Com o meu sentimento agressivo para o destino, para Deus,
Que nasce de encararmos com o Inefável
E medirmos bem, de repente, a nossa fraqueza e pequenez.
1 269
Fernando Pessoa
V - Lá fora vai um redemoinho de sol
V
Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruído dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta ao ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de Primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...
De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje...
Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruído dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta ao ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de Primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...
De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje...
1 282
Fernando Pessoa
WALT WHITMAN
WALT WHITMAN
Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá,
Onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros.
Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer.
Excessivo na ânsia de tudo, tão excessivo que nem falo,
E não falo, porque não tento.
«Ou Tudo ou Nada» tem um sentido pessoal para mim.
Mas ser universal — não o posso, porque sou particular.
Não posso ser todos, porque sou Um, um só, só eu Não posso ser o primeiro em qualquer coisa, porque não há o primeiro.
Prefiro por isso o nada de ser co-primeiro em ser nada.
Quando é que parte o último comboio, Walt?
Quero deixar esta cidade, a Terra,
Quero emergir de vez deste país, Eu,
Deixar o mundo com o que se comprova falido,
Como um caixeiro viajante que vende navios a habitantes do interior.
O fim a motores partidos!
Que foi todo o meu ser? Uma grande ânsia inútil —
Estéril realização com um destino impossível —
Máquina de louco para realizar o motu continuo,
Teorema de absurdo para a quadratura do círculo,
Travessia a nado do Atlântico, falando na margem de cá
Antes da entrada na água, só com eles e o cálculo,
Atirar de pedras à lua
Ânsia absurda do encontro dos paralelos Deus-vida.
Megalomania dos nervos,
Ânsia de elasticidade do corpo duro,
Raiva de meu concreto ser por não ser o auge-eixo
O carro da sensualidade de entusiasmo abstracto
O vácuo dinâmico do mundo!
Vamo-nos embora de Ser.
Larguemos de vez, definitivamente, a aldeia-Vida
O arrabalde-Mundo de Deus
E entremos na cidade à aventura, ao rasgo
Ao auge, loucamente ao Ir...
Larguemos de vez.
Quando parte, Walt, o último comboio p'ra aí?
Que Deus fui para as minhas saudades serem estas ânsias?
Talvez partindo regresse. Talvez acabando, chegue,
Quem sabe? Qualquer hora é a hora. Partamos,
Vamos! A estada tarda. Partir é ter ido.
Partamos para onde se fique.
Ó estrada para não-haver-estradas!
Término no Não-Parar!
Onde não sou o primeiro, prefiro não ser nada, não estar lá,
Onde não posso agir o primeiro, prefiro só ver agir os outros.
Onde não posso mandar, antes quero nem obedecer.
Excessivo na ânsia de tudo, tão excessivo que nem falo,
E não falo, porque não tento.
«Ou Tudo ou Nada» tem um sentido pessoal para mim.
Mas ser universal — não o posso, porque sou particular.
Não posso ser todos, porque sou Um, um só, só eu Não posso ser o primeiro em qualquer coisa, porque não há o primeiro.
Prefiro por isso o nada de ser co-primeiro em ser nada.
Quando é que parte o último comboio, Walt?
Quero deixar esta cidade, a Terra,
Quero emergir de vez deste país, Eu,
Deixar o mundo com o que se comprova falido,
Como um caixeiro viajante que vende navios a habitantes do interior.
O fim a motores partidos!
Que foi todo o meu ser? Uma grande ânsia inútil —
Estéril realização com um destino impossível —
Máquina de louco para realizar o motu continuo,
Teorema de absurdo para a quadratura do círculo,
Travessia a nado do Atlântico, falando na margem de cá
Antes da entrada na água, só com eles e o cálculo,
Atirar de pedras à lua
Ânsia absurda do encontro dos paralelos Deus-vida.
Megalomania dos nervos,
Ânsia de elasticidade do corpo duro,
Raiva de meu concreto ser por não ser o auge-eixo
O carro da sensualidade de entusiasmo abstracto
O vácuo dinâmico do mundo!
Vamo-nos embora de Ser.
Larguemos de vez, definitivamente, a aldeia-Vida
O arrabalde-Mundo de Deus
E entremos na cidade à aventura, ao rasgo
Ao auge, loucamente ao Ir...
Larguemos de vez.
Quando parte, Walt, o último comboio p'ra aí?
Que Deus fui para as minhas saudades serem estas ânsias?
Talvez partindo regresse. Talvez acabando, chegue,
Quem sabe? Qualquer hora é a hora. Partamos,
Vamos! A estada tarda. Partir é ter ido.
Partamos para onde se fique.
Ó estrada para não-haver-estradas!
Término no Não-Parar!
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