Solidão

Poemas neste tema

Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Noite no Mar

O mar é massa dágua
que dos rios do mundo
vem.
Tem correntezas,
tem profundezas,
os maiores perigos
tem.

Mas, de noite, a sonhar
na solidão da praia,
apenas sentimos
o imenso mistério
do mar.

861
Claudia Moraes Rego

Claudia Moraes Rego

Exílio e Miopia (para Julia)

"Olha o balão!"
Não via.
Não falava nada.

"Olha o gavião!"
Não via.
Calava.

"Olha o Cristo Redentor!"
Puxa, não via!
Mas fingia

"O bondinho!"
Nada.
Era assim.

Certamente,
sem dúvida nenhuma,
fazia parte
(tinha caído do lado)
da tribo dos exilados
do prazer.

828
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Em Riste

de que um obelisco
acusa o céu?

ele mesmo tão inpuro
entre potência e solidão

855
Carla Bianca

Carla Bianca

Alheio

Sofro,
por não ter
o que é teu.
O corpo,
boca,
pernas,
e dorso.
Contemplo o alheio,
sou do outro
e assim
faço-me companhia.

900
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Um Gato

meio de louça
meio de sombra
imóveis sobre
si mesmo
o objeto de carne
e espera
espera que a tarde
se vá
de seus olhos
de tédio e sono

829
Castro Alves

Castro Alves

Fragmento

HÁ FLORES tristes, que nascendo à noite
Só têm o açoite
Do cruento sul
E sem que um raio lhes alente a seiva,
Rolam na leiva
De seu vil paul.

Eu sou como elas. A vagar sozinho

Sigo um caminho
De ervaçais e pó

A luz de esprança bruxuleia a custo
Tremo de susto,
De morrer tão só.

4 168
Almeida Garrett

Almeida Garrett

Tronco Despido (1828)

Virgílio,
Sine nomine corpus
Qual tronco despido
De folha e de flores,
Dos ventos batido
No inverno gelado
De ardentes queimores
No estio abrasado,
De nada sentido,
Que nada ele sente...
Assim ao prazer,
À dor indifrente,
Vão-me as horas da vida
Comprida
Correndo,
Vivendo,
Se é vida
Tam triste viver.

3 049
Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

A Lâmina, o Punhal

Não haverá futuro — e haverá
somente esta lâmina
de quartzo lacerando
a carne amarrotada. E haverá
somente este punhal
de cinza cravado
entre almofadas inúteis
e lençóis vazios.

1 186
Alfredo José Assunção

Alfredo José Assunção

Lembranças

Um violino, uma mulher.Um trago, uma dose.Um alguém que não quis.

Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.

O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.

Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...

1 001
Ascendino Leite

Ascendino Leite

Qualidade Noturna

Noite cinza mas não suja.
Noite de homem, insenil,
senão que imaginoso,
tendendo ao viril,
ainda que só fitando o teto.

892
Alfredo José Assunção

Alfredo José Assunção

Mais uma Abstração

Não quero música.Não quero amor.Não quero tempo, espaço ...

Quero ficar aquiouvindo os carros,vendo o mar parado.

Sentindo os pingos frioscaindo-me nos pés,fechando-me as mãos.

Não quero intervir em nada.Quero apenas ser mais uma abstração.

656
Antero Coelho Neto

Antero Coelho Neto

Agora Tenho que Partir

Agora tenho de partir
para longe e sempre
sem nunca mais voltar.

Eu devo novamente fugir
como tantas vezes durante a vida
indo embora sem chorar
depois de outra luta perdida.

Parto mas hoje eu sei
que jamais voltarei
aqui ou a qualquer lugar.

1 206
Antônio Brasileiro

Antônio Brasileiro

Mágoa

1.
Fiz-me embrulho para presente
para ofertar-me aos amigos.

(Sempre fui o mesmo homem:
papel de seda, uma fita.)

2.
Amei tanto, tanto mesmo:
só me chamaram poeta.

Sorri tanto, e só sabiam
que eu tinha dentes bonitos.

3.
Guardei-me um dia no mar
chorei ondas pela praia.

Em mim nasceu uma flor
porque sempre fui jardim.

1 034
Juan Ramón Jiménez

Juan Ramón Jiménez

PAVILHÃO

Muros altos de teu corpo.
Não havia entrada em teu horto.

(Que onda de asas ascendia!
Oh o que ali se passaria!)

Céu claro ou turvo, que importa?
Não havia entrada em tua glória.

(Que aroma às vezes subia!
Oh em teus vergéis que haveria?)

Tornaste a ficar fechada.
Não havia em tua alma entrada!

2 505
Silvia Brito

Silvia Brito

Beijo

Beijo partido de vidro
incandescente.
De cores escorridas
e pincéis sujos.
Beijo de papel branco
No canto jogado.
Beijo cheio de ausências,
de cortes e dores,
De braços cansados.
Beijo de caminho sem volta,
de quarto vazio.
Beijo sem boca,
Sem corpo, sem custo.
Beijo no claro e vazio da minha alma
Que se solta...
Calma.

1 250
Liz Christine

Liz Christine

Senha

será que um dia
encontro alguém
que ame poesia
e vá além
odeie hipocrisia
será que eu acho
quem adore se divertir
quem goste de sair
mas... diacho!
não encontrei
ainda
apenas sonhei
com alguém
que vai me completar
além
de me fazer gozar
alguém que tenha
a minha senha
a chave perdida
em algum lugar
da minha vida

825
Helga Holtz

Helga Holtz

Ausente

Ele dorme ausente dos meus olhos abertos,
guarda para si paisagens que desejo sonhar.
Sob pálpebras alvas de tecido sonolento
percebo o claro volume genital do seu olhar.
Desejo amparo de algum sono, quero fugir
do olho molhado, vermelho, recém-acordado,
intumescido de sono e que me espia chorar.

918
Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

Noite-Pétala

Posso estar aquieu posso
estar aqui perfeitamente pobreum círio me acendi
espora agudao vento ritmo negro
assassinou-oposso estar aqui-o musgo é lento como a
sombra-e sei de cor a voz cega das canções(viola de
silêncio acorda-me)que eu posso estar aqui
perfeitamente pedrainsonee um longo segredo
impessoalbordando a minha solidão.

1 447
Jorge Melícias

Jorge Melícias

Há a boca pisada de pedras,

e o remorso

é uma parede mordida pelo eco.

A mulher fechou-se no quarto

com a noite entre as mãos.

Está funda na casa.

Mas partidas todas as lâmpadas

a cegueira é ainda uma forma de ver.

de Iniciação ao Remorso(1998)

1 104
Juan-Eduardo

Juan-Eduardo

Ni la luz

de la luna
La noche enferma
duerme lejos del río.No me escuches,
no me oigas llorar cuando amanece.
Dime:¿has tocado mis ojos
con tus dedos de hielo?

Es que estoy enterrado;
no pises nunca el césped,
no pises la tristeza,
ni la luz de la Luna
cuando pone lejanos los caminos.

Muchacha,
no me escuches,no.No me escuches.

872
Jorge Melícias

Jorge Melícias

À beira das salinas os homens declinam,

as cabeças como cometas fulminantes.

De longe a longe vêm os filhos,

trazem a solidão como um metal aceso nas costas

trazem um enxame de dardos.

E a memória é um pulso atravessado.

Quando partem fecham atrás de si as portas,

e os homens voltam a sentar-se sobre as estacas

e brilham.

de A Luz nos Pulmões(2000)

852
João José Cochofel

João José Cochofel

Os Dias Íntimos

Mói música um realejo,
poético de convenção.
Mas é hoje o que agrada
ao meu coração.

Com castanhas assadas,
chuva na imaginação,
e luzes molhadas
no asfalto do chão,

Egoísmo de bicho,
simulado ou não,
mas que bem me sabe
esta solidão.

Ó comedida felicidade,
com teu ópio vão
sobre tanta náusea
passa a tua mão.

1 370
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

dia

encher d’água os pratos
e descobrir o óbulo
(há baratas!)
lavar a latrina e arrumar
almofadas no sofá
- costume dos antigos -
dor, rotina

videos, games
eletrônicos
barbitúricos coloridos
oligofônicos

tempos idos de filosofia
é noite é dia é noite
de manhã chovia

Goulart Gomes, Salvador, BA

725
Carlos Figueiredo

Carlos Figueiredo

Fosse o hálito dos tigres

Fosse o hálito dos tigres
bálsamo

e reconciliasse
a carne pântana
que recobre como fios de amianto
esse interior em que vive
estrangeiro de si mesmo
isso que parece ser o ser humano

E findasse esse exílio

772