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Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

44 - THE KING OF GAPS

There lived, I know not when, never perhaps­ -
        But the fact is he lived - an unknown king
Whose kingdom was the strange Kingdom of Gaps.
        He was lord of what is twixt thing and thing,
Of interbeings, of that part of us
        That lies between our waking and our sleep,
                Between our silence and our speech, between
Us and the consciousness of us; and thus
        A strange mute kingdom did that weird king keep
                Sequestered from our thought of time and scene.

Those supreme purposes that never reach
        The deed - between them and the deed undone
He rules uncrowned. He is the mystery which
                Is between eyes and sight, nor blind nor seeing.
        Himself is never ended nor begun,
Above his own void presence empty shelf.
                All He is but a chasm in his own being,
The lidless box holding not‑being's no‑pelf.

All think that he is God, except himself.
1 379
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pia número SEIS

Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.

Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.

Pia número DEZ
Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
1 391
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quer com amor, que sem amor, senesces

Quer com amor, que sem amor, senesces
Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

«Mau, Maria!» — tu disseste

«Mau, Maria!» — tu disseste
Quando a trança te caía.
Qual «Mau, Maria», Maria!
«Má Maria!» «Má Maria!»
1 374
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teu olhar não tem remorsos

Teu olhar não tem remorsos
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.
1 227
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Duas horas vão passadas

Duas horas vão passadas
Sem que te veja passar.
Que coisas mal combinadas
Que são amor e esperar!
1 462
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Por cima da saia azul

Por cima da saia azul
Há uma blusa encarnada,
E por cima disso os olhos
Que nunca me dizem nada.
1 331
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Trazes já aquele cinto

Trazes já aquele cinto
Que compraste no outro dia.
Eu trago o que sempre sinto
E que é contigo, Maria.
1 351
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

É Carnaval, e estão as ruas cheias

É Carnaval, e estão as ruas cheias
De gente que conserva a sensação,
Tenho intenções, pensamento, ideias,
Mas não posso ter máscara nem pão.

Esta gente é igual, eu sou diverso —
Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
E o que digo, eles nunca assim diriam.

Que pouca gente a muita gente aqui!
Estou cansado, com cérebro e cansaço.
Vejo isto, e fico, extremamente aqui
Sozinho com o tempo e com o espaço.

Detrás de máscaras nosso ser espreita,
Detrás de bocas um mistério acode
Que meus versos anódinos enjeita.

Sou maior ou menor? Com mãos e pés
E boca falo e mexo-me no mundo.
Hoje, que todos são máscaras, és
Um ser máscara-gestos, em tão fundo...
1 129
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E quanto sei do Universo é que ele

E quanto sei do Universo é que ele
        Está fora de mim.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

POEMA PIAL

Casa Branca — Barreiro a Moita (Silêncio ou estação, à escolha do freguês)

Toda a gente que tem as mãos frias
Deve metê-las dentro das pias.

Pia número UM,
Para quem mexe as orelhas em jejum.

Pia número DOIS,
Para quem bebe bifes de bois.

Pia número TRÊS,
Para quem espirra só meia vez.

Pia número QUATRO,
Para quem manda as ventas ao teatro.

Pia número CINCO,
Para quem come a chave do trinco.

Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.

Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.

Pia número DEZ,
Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
2 023
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Compras carapaus ao cento,

Compras carapaus ao cento,
Sardinhas ao quarteirão.
Só tenho no pensamento
Que me disseste que não.
1 166
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Nem relógio parado, nem a falta

Nem relógio parado, nem a falta
Da água em clepsidra, ou na ampulheta a areia
        Tiram o tempo ao tempo.
1 519
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deixaste cair a liga

Deixaste cair a liga
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada.
1 455
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Puseste a chaleira ao lume

Puseste a chaleira ao lume
Com um jeito de desdém.
Suma-te o diabo que sume
Primeiro quem te quer bem!
1 347
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ao dobrar o guardanapo

Ao dobrar o guardanapo
Para o meteres na argola
Fizeste-me conhecer
Como um coração se enrola.
1 252
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Descasquei o camarão,

Descasquei o camarão,
Tirei-lhe a cabeça toda.
Quando o amor não tem razão
É que o amor incomoda.
2 360
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lavadeira a bater roupa

Lavadeira a bater roupa
Na pedra que está na água,
Achas a minha mágoa pouca?
É muito tudo o que é mágoa.
1 423
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O manjerico e a bandeira

O manjerico e a bandeira
Que há no cravo de papel —
Tudo isso enche a noite inteira,
Ó boca de sangue e mel.
1 448
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Entornaram-me o cabaz

Entornaram-me o cabaz
Quando eu vinha pela estrada.
Como ele estava vazio,
Não houve loiça quebrada.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deixaste o dedal na mesa

Deixaste o dedal na mesa
Só pelo tempo da ausência —
Se eu to roubasse dirias
Que eu não tinha consciência.
742
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O teu carrinho de linha

O teu carrinho de linha
Rolou pelo chão caído.
Apanhei-o e dei-o e tinha
Só em ti o meu sentido.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Velha cadeira deixada

Velha cadeira deixada
No canto da casa antiga
Quem dera ver lá sentada
Qualquer alma minha amiga.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Concordar não posso

Concordar não posso
Em que alguém mais do que eu tenha sentido
O mistério completo do universo
Completo e profundo.
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