Morte e Luto

Poemas neste tema

Armando Freitas Filho

Armando Freitas Filho

Micro

Boca de rato. Morte.
Não há saída viva da vida.
Murmúrio de rádio através dos muros.
Vozes miúdas
roendo por dentro
no dia-a-dia
de mordidas mínimas e minuciosas.

16 nov. 89


In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 283
Pedro Nava

Pedro Nava

Educação Sentimental

P/Alberto Deodato


Mariquita fechou o Escrich
e teve vontade dum espanhol
com seu punhal
para matá-la...


In: REVISTA DE ANTROPOFAGIA, São Paulo, ano 1, n.9, p.2, jan. 192
1 595
Paulo Leminski

Paulo Leminski

LÁPIDE 2

epitáfio para a alma


aqui jaz um artista
mestre em desastres

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces


2 516
Felipe Vianna

Felipe Vianna

DORES

A gota
Goteja
Na gota
Que gotejou.

E o soro
Da vida,
Nada
Adiantou.

18/11/1997

935
Manuel Machado

Manuel Machado

Morrer, dormir

- Filho, para descansar
é necessário dormir,
não pensar,
não sentir,
não sonhar...
- Madre, para descansar,
morrer.

955
Maria Ângela Alvim

Maria Ângela Alvim

Há uma rosa caída

Há uma rosa caída
Morta
há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa

4 069
Leila Mícollis

Leila Mícollis

Tentativa de suicídio

Foi ao toalete
e cortou os sonhos,
a gilete.

1 081
Eugénia Tabosa

Eugénia Tabosa

Destino

No passeio junto à praia,
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.

Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.

O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.

Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.

Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.

1 137
Hilda Hilst

Hilda Hilst

Poesia XX

Teu nome é Nada.
Um sonhar o Universo
No pensamento do homem:
Diante do eterno, nada.

Morte , teu nome.
Um quase chegar peerto.
Um pouco masi (me dizem)
E terias o Todo no teu gesto.
Um pouco mamis, tu O terias visto.

Teu nome é Nada.
Haste, pata. Sem ponta, sem ronda.
Um pensar duas palavras diante da Graça:
Terias tido.



1 264
Angela Santos

Angela Santos

O Apocalipse, é agora!

De Thanatos é a voz que ressoa
e irrompe no muro dos lamentos...
cada grito, cada estilhaço vivo
Abel e Caim, outra vez e outra
na voragem das entranhas

De ódio as pedras
de ódio os tanques
de ódio as mitras,
de ódio os homens
de morte cada
esquina que os abriga

O Amor que se fez lei
quem de entre vós
lembra ainda?
1 009
Angela Santos

Angela Santos

À Margem

Expiro
numa praia longínqua
dentro de mim

Expiro
à margem de mim
onda desfeita no movimento
incessante

Expiro
aspirando à luz
que não alcanço.

1 082
Angela Santos

Angela Santos

A um Suicída

(11/12/85)
A
manhã chegava
de orlas nocturnas adornada

Nos trilhos de um comboio
a vida parara de correr…

A manhã chegava
e despontava negro
o dia
a lógica e o absurdo
sob o manto matinal de brumas
nas letras a preto e branco
de um jornal.

1 065
Carlos Nejar

Carlos Nejar

Inscrição

Aqui estou,
aberto o pórtico.
Serei breve no amor e no transporte.
O óbolo está pago, o dia resgatado
E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.

Aos deuses não ouso nada,
nem compro,
senão o intervalo
de meu próprio espanto.

Carregai-me, barca
E ainda canto.

866
Hilda Hilst

Hilda Hilst

Cantares do Sem Nome e de Partida

Ó tirânico Amor, ó caso vário
Que obrigas um querer que sempre seja
De si contínuo e áspero adversário...
Luiz Vaz de Camões

Cubram-lhe
o rosto, meus olhos ofuscam-se;
ela morreu jovem.
John Webster
1 680
Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar

Dias Não

Menos Dias

Chora-se
com a facilidade das nascentes
Nasce-se sem querer, de um jato, como uma dádiva
(às primeiras virações vi corações se entrefugindo todos
ninguém soubera antes o que havia de ser não bater
as pálpebras em monocorde

e a tarde
pendurada ro raminho de um
fogáceo arborescente
deixava-se ir
muda feita uma coisa ultima.

1 674
Regina Souza Vieira

Regina Souza Vieira

Memória

Memória
Como se um dia injustamente
Tivesse partido á frente
Para deixar-nos somente a noite

Como se o mar sozinho
Tivesse decidido
Deixar-nos secas areias moribundas

Só porque vergaste o sol, camarada
Para levá-lo contigo
Na tipóia

Não há memória, querido amigo
De Setembro
Ter arrefecido tanto
806
Antonio Rogerio Czelusniak

Antonio Rogerio Czelusniak

Vôo

Num voo
sem destino
desabalo carreiras sem fim
procuro pousada
negam abrigo
eu....
pássaro ferido
pela mão
pela arma
pelo não.
Voarei uma eternidade
descansarei na saudade
morrerei
ao alvorecer.

338
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Na vida somos iguais

Na vida somos iguais
Às peças que no xadrez
Valem o menos e o mais,
Segundo o acaso que a fez.

Do mesmo cepo nascer
Para as batalhas pensadas,
Aos mais, peões de perder,
A raros, ficções coroadas.

Mas, findo o jogo, receio
Que, extintas as convenções,
Durma a rainha no meio
Dos mal nascidos peões.
1 778
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Componho para a hora em que for lido

Componho para a hora em que for lido,
Para aquela, entre todas improvável,
Em que, estando eu já morto e já esquecido,
O que escrevo for póstumo e for estável.

Componho com receio do desdoiro
De quem sonho hei-de ser. Fito o futuro.
O que é grosseiro em mim, eu o apuro,
O que é vago e banal, o pulo e doiro.

1 369
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Timbre

EU,
Morreu.
Só há ideal
No plural.
Tecidos
Como os fios que há nos linhos,
Parecidos
Entre nós como dois olhos,
Somos do tempo de viver aos molhos
Para morrer sòzinhos.

2 046
Renato Castelo Branco

Renato Castelo Branco

Retorno

Um dia voltarei a ser terra
e de meu seio brotarão
flores agrestes.

Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.

Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.

Um dia eu serei
o que já fui.

1 639
Moranno Portela

Moranno Portela

Maturidade

Tudo finda.
Tudo um dia finda
e nem percebemos
essa morte súbita
e escorregadia a carcomer
os nervos do que foi espanto.

Vem desde antes
mesmo ainda antes
da elaboração do existir
esse morrer constante
que dá-se à vida.

Vida:
nome tanto para
tão pouca fruta
que não cessa de madurar seu fruto
e infalível apodrecer
em semente.

904
João Quental

João Quental

Natureza Morta

Quando o horror estanca as feridas da noite
A morte, emaranhado tecido de escuridão,
Passeia seus cabelos por entre as árvores.
O abandono
Pisam macios os pés no quarto de dormir:
na sala
Desmoronam, palidamente,
as flores do vaso.

(1989)

834
João Luiz Pacheco Mendes

João Luiz Pacheco Mendes

Desencanto

Não seria
Bela Adormecida
se sonhasse um dia
retornar à
vida.

968