Memórias e Lembranças

Poemas neste tema

Maurício B. Moisés

Maurício B. Moisés

Fotografia

A natureza sendo uma fotografia viva
Torna a fotografia uma natureza morta.
Mesmo assim ambas são belas,
Pois uma é a nossa vida,
E a outra a lembrança dela.

521
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Distância

Sol de memória
na incógnita das horas.

Ruídos na pele expectante
e olhos transidos de espera.

No ouro das molduras
fios de ausência perdidos
no mosaico de lembranças.

Buscam o rosto distante.

836
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Sutilezas

Brinco com seus lábios
já ausentes de meus olhos.
Imagino o relógio de sol
marcando peles brancas.
Lembranças envolvem sutilezas
que suas mãos ofereciam.
Doçuras carregam água de geleiras
e em cada verso que te oferto vejo
minha morte.

954
Marco Antônio Rosa

Marco Antônio Rosa

Ode

Velha mochila
companheira de viagens,
verde testemunha de trilhas
nem sempre silenciosas
serva muda de meu
incansável capricho
de acumular lembranças
dos lugares por onde passo
e tento deixar alguma
que realmente sirva,
pouco ou nada
recebendo em troca
a não ser o suor
que escorre de meu corpo
e nos banha a ambos
sob o mesmo sol.

858
Marco Antônio Rosa

Marco Antônio Rosa

Aos Curdos

As dobras do tempo
me assustam
por sua precisão
em faces há muito conhecidas
e reencontradas
depois de eras
em uma curva qualquer
da estrada
onde seguimos rumo
a estranho compromisso
de pó e cordite,
lágrimas
nos olhos.

817
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Domínios da Casa

É esta nitidez abrindo
lentamente as portas
ao encontro das horas.

Cheiro de sol em pomares e vinhos.
Acordes nas bordas de um cálice
desfiando memória no tempo.

Território de vidas a casa
é um canto explícito de ausências.

Reacendendo chamas aquecendo o coração.

831
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Noite

Tenho nos olhos suas mãos

olhando açucenas na jarra.

O tempo vai multiplicar a noite.

968
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Retrato do Poeta

Companheiro do vento, rosto de sal.
Ontem existia energia nos olhos.
O pórtico do tempo aberto ao silêncio
da alma.
Nossos fracassos nossos fracassos
desenhados na imaginação.

995
Marigê Quirino Marchini

Marigê Quirino Marchini

De Diário de Bordo (1958)

De um passado tempo, aqui
que marujo ébrio içará as velas
domingo de manhã
quando todos perguntarem o seu nome
sua nacionalidade o nome do seu barco
e a tripulação?
Ele nada saberá contar senão que
as paredes são como os fuzilados, erguidas contra as sombras
e ele preferia os peixes voadores.

768
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Lições de Vida

Nos lábios, secura de fome espera
o rio manso das palavras. Ando
soltando pássaros verdes e descubro
nos ninhos lições de vida. O galho
do salgueiro conversa com o vento.
No corpo, marcas de ferro. Nas cavernas,
lembranças embalsamadas.

Tudo o que escrevo está em mim.

966
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Meninas de Tamancos

Cirandas jogando tempo
em calçadas antigas
Meninas de tamancos
rodando pião
Alecrim crescendo na janela
O estafeta visitando
velhas casas
Maria das Dores fugindo no sol

O barulho da memória acorda a alma.

1 095
Marigê Quirino Marchini

Marigê Quirino Marchini

Os lírios azuis

Os lírios azuis
florescerão nas fendas dos luares
e seus perfis serão portas
onde os duendes chamarão
a ronda mágica
das clareiras cintilantes.

Hansel e Gretel passearão em minha infância.

812
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

O Vento no Rosto

Descalços, andávamos no campo,
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.

- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.

987
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Vigília

Quietude repensa abrigos
e acorda o coração velejando
rumos da memória.

De porosidade a vida filtra
o tempo
desertando a saga de abrolhos.

E estira canções de efervescência
nos meandros da paz.

868
Luiz de Aquino

Luiz de Aquino

Precognição

Precognição

Gosto da vida e deixo
que a noite me vista
de escuro.

Nem sempre é de justo
mostrar-se às claras:
hoje sou como era
quando ainda sonhava
com o futuro.

Pode ser que ainda cresça,
mas é bom ser criança
de gris e de rugas.

878
Lucília Cândida Sobrinho

Lucília Cândida Sobrinho

Tempo de Ilusões

As nuvens passam
Como passam as desilusões.
Na vida há marcas do tempo
E o tempo acelera seu passo,
Levando consigo as doces ilusões —

Quimeras navegam
No mar revolto
Do meu ardente desejo.

Vejo quimeras e nuvens
Envolvendo a lembrança
Da volúpia do teu beijo.

838
Lúcio José Gusman

Lúcio José Gusman

Sabor

E depois do amor,
muito tempo depois do amor,
não sinto apenas a saudade,
nem lembro apenas o teu perfume,
nem sigo ouvindo apenas a tua voz,
e os teus ais, e os meus te-amo.
Continuo sentindo o teu sabor,
depois do amor,
muito tempo depois do amor...

816
Thereza Magalhães Pinto

Thereza Magalhães Pinto

Intransferível

Deixo exiladas
na distância do tempo
efêmero e rude
as lembranças do amor
que vive em mim e
exaltei mais do que pude.

Queixo-me calada
um saldar de profundo
escuro olhar de sensações
e luzes enfim
inexistentes.

Concentro-me
impiedosa, veemente
nos meus
séculos incríveis
de solidão total.

943
Luiz Fernandes da Silva

Luiz Fernandes da Silva

Carrossel

Em cada rodada
o frio de lembrança
dos dias de infância.

Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.

Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.

Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.

Em cada salto,
o impacto, a queda

1 116
Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

Ai, Cais!

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
Fernando Pessoa, in Ode Marítima
... o tempo (...) essa angústia máxima...
Soares Feitosa, dOs Poemas da Besta,
in Psi, a Penúltima.

Cais, saudade em pedra.
Zarpam lábios na memória.
Tempo: angústia máxima.

Para Soares Feitosa, zarpando do Salvador
ao Siarah, de volta-volta...

1 019
Valéry Larbaud

Valéry Larbaud

Mise au Point

Deixou teu gesto ali
nenhuma rosa,
delicadeza e não ser,
nenhum suspiro,
silêncio e resposta.

E a lua nenhuma
grita a lembrança esquecida
de teu nenhum sorriso.

Frios cristais, no entanto,
que guardam vinhos de sangue,
não são teus olhos, ainda.

932
Luis Alberto Costa Guedes

Luis Alberto Costa Guedes

Ofertório

Antes de começares ler
Estes pedaços de vida,
Estas lágrimas de saudade,
Estes soluços de agonia,
Estes sorrisos de esperanças
Estas ironias existenciais
que te dedico,
quero fazer meu "OFERTÓRIO"
aos entes que me inspiraram...

1 026
Laura Amélia Damous

Laura Amélia Damous

Cartão-Postal

e havia uma luz dourada
no vento, nos telhados, nas pedras
do casarão em ruínas. E pombos
dourados voavam e se abrigavam
nos santuários escavados pelo tempo
Havia pombos brancos, róseos,
à luz do sol
Navegávamos então impossível Veneza
em busca de improvável porto

962
João Fortunato

João Fortunato

Estela

Para Manuel Ribeiro de Paiva

Orgulho natural,
Integridade,
Um corpo que não se vende,
Humilha, ou trai.

Só agora,
Toda claridade,
Sua alma a nós se rende
E não se retrai.

E alva,frágil,
Agreste como flor de esteva,
Acima do turbilhão
Da cidade que a colheu,
Liberta, se eleva…

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