Literatura e Palavras

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deixa passar o vento

Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…

Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.
1 632
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Deixaste cair a liga

Deixaste cair a liga
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada.
1 482
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Outros com liras ou com harpas narram,

Outros com liras ou com harpas narram,
       Eu com meu pensamento.
Que, por meio de música, acham nada
        Se acham só o que sentem.
Mais pesam as palavras que, medidas,
        Dizem que o mundo existe.
1 243
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,

O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,
E o comboio real e não os versos que o cantam
É o ferro dos rails, dos rails quentes, é o ferro das rodas, é o giro real delas.
E não os meus poemas falando de rails e de rodas sem eles.
1 404
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MOMENTS - III

III

A philosopher of name
In the best of mind once said:
«Man is... » the rest is immaterial
And need not be chronicled.
1 152
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Desejava querer fugir de mim.

ali. ali. ali
e...e...e...
        Palavras, não sois nada!
O que é Deus?
                        Uma palavra,
Pouco mais que um som.
                                           E um som?
                                                             Nada.
1 444
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPIGRAMS - V

What is the best‑named thing in all
The world? Why, this: A papal bull.
1 254
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A Rainha D. Amélia

A Rainha D. Amélia
Se se dissesse que arrélia,
Rimava, mal seria
O mais certo é que arrelia.
1 301
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há verdades que se dizem

Há verdades que se dizem
E outras que ninguém dirá.
Tenho uma coisa a dizer-te
Mas não sei onde ela está.
803
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Amanhã estas letras em que te amo

Amanhã estas letras em que te amo.
        Serão vistas, tu morta.
Corpo, eras vida para que o não foras,
        Tão bela! Versos restam.
Quem o (...)
1 326
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

E ao acabar estes versos

E ao acabar estes versos
Feitos em modo menor
Cumpre prestar homenagem
À bebedeira do cantor.
1 062
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se houver alguém que me diga

Se houver alguém que me diga
Que disseste bem de mim,
Farei uma outra cantiga,
Porque esta não é assim.
1 396
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vem Orfeu, uma sombra

Vem Orpheu, uma sombra
Que traz nas mãos um vago filho — a lira.
1 505
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Tenho uma pena que escreve

Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.
2 199
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Li vaga — inerte — e sonhadoramente li

Li vaga — inerte — e sonhadoramente li
Compreendendo mais do que havia
Em frase (...)

Fechei tremendo, os livros, e sentindo
Como que de detrás da consciência,
Negrume transcendendo o que de horror
(...)

Desde então o constante persistir
Do mistério em minha alma não me deixa
Quieto o espírito, por meditar
Que seja, meditando sempre.
1 268
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

«À tua porta está lama.

«À tua porta está lama.
Meu amor, quem na faria?»
É assim a velha cantiga
Que como tu principia.
1 463
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

III - Análogo começo,

III

Análogo começo,
Uníssono me peço,
Gaia ciência o assomo —
Falha no último tomo,

Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso
O entreaberto haver
Diagonal a ser.

O interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.

Timbre do vespertino,
Ali, caricia, o hino
Outonou entre preces
Antes que, água, comeces.
902
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Chamam-te boa, e o sentido

Chamam-te boa, e o sentido
Não é bem o que eu supunha.
Boa não é apelido:
É, quando muito, alcunha.
1 339
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cesário, que conseguiu

Cesário, que conseguiu
Ver claro, ver simples ver puro,
Ver o mundo nas suas coisas,
Ser um olhar com uma alma por trás, e que vida tão breve!
Criança alfacinha do Universo.
Bendita sejas com tudo quanto está à vista!
Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti
E não há recanto que não veja para ti, nos recantos de seus recantos.
1 198
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que fútil toda essa tristeza

Que fútil toda essa tristeza
Que uns vagos versos vácuos dão,
Num modo de nem sim nem não,
A quente e abstracta singeleza
De se sentir o coração!
898
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

14a Rimo quando calha

[XIVa]

Rimo quando calha
E as mais das vezes não rimo...
Copio a Natureza e não a interrogo.
(De que me serviria interrogá-la?)
Nem tudo é terreno plano,
Por isso muitas vezes não rimo...
1 248
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quem lavra julga que lavra

Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
1 130
Orides Fontela

Orides Fontela

Cisne

Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
- a presença do cisne?


Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e - humana -
é esplendor memória
e sangue.


E
resta
não o cisne: a
palavra


- a palavra mesmo
cisne.


do livro Alba (1983)
1 735
Rose Ausländer

Rose Ausländer

A heranca II

É chegada a hora
de repartir a herança

toma
a maçã
mortal
e
a palavra
imortal

Das Erbe II

Es ist an der Zeit
das Erbe zu verteilen

nimm
den sterblichen
Apfel
und
das unsterbliche
Wort
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