Desejo
Poemas neste tema
Olga Savary
Ycatu
E assim vou
com a fremente mão do mar em minhas coxas.
Minha paixão? Uma armadilha de água,
rápida como peixes,
lenta como medusas,
muda como ostras.
(*Do tupi: água boa)
com a fremente mão do mar em minhas coxas.
Minha paixão? Uma armadilha de água,
rápida como peixes,
lenta como medusas,
muda como ostras.
(*Do tupi: água boa)
3 171
Fátima Carvalho
Faz-de-conta
Vamos brincar de casinha
e de doutor e enfermeira
depois de Tarzan e Janeiro
pra trepar na bananeira
Agora em vez de chapeuzinho
eu serei a vovozinha
e você o lobo-mau
pra me comer inteirinha
Entramos no paraíso
eu de Eva e você de Adão
você, comendo a maçã
e eu com o pau na mão...
Pra matar a serpente
que quer engolir a gente.
e de doutor e enfermeira
depois de Tarzan e Janeiro
pra trepar na bananeira
Agora em vez de chapeuzinho
eu serei a vovozinha
e você o lobo-mau
pra me comer inteirinha
Entramos no paraíso
eu de Eva e você de Adão
você, comendo a maçã
e eu com o pau na mão...
Pra matar a serpente
que quer engolir a gente.
1 019
Vera Maya
Desejo
essa brasa
essa chama
esse lume
esse fogo
esse forno
essa caldeira
ah, esse amor
que arde
incendeia
esse corpo
essa fornalha
essa fogueira
essa alma
essa queimada
que se alastra
em labareda
me envolvo
a noite inteira
ah, essa paixão
me acende
me inflama
me consome e me transforma
em tocha huma.
essa chama
esse lume
esse fogo
esse forno
essa caldeira
ah, esse amor
que arde
incendeia
esse corpo
essa fornalha
essa fogueira
essa alma
essa queimada
que se alastra
em labareda
me envolvo
a noite inteira
ah, essa paixão
me acende
me inflama
me consome e me transforma
em tocha huma.
737
Réca Poletti
Caminhando
vou abocanhando leve
as peles morenas
ou pálidas
vou deitando
em cada uma
me plantando
em cada corpo
vou beijando
bocas pretas
e vermelhas
e tocando as línguas quentes
vou bebendo
todos os amores
cuspindo
todos os venenos.
as peles morenas
ou pálidas
vou deitando
em cada uma
me plantando
em cada corpo
vou beijando
bocas pretas
e vermelhas
e tocando as línguas quentes
vou bebendo
todos os amores
cuspindo
todos os venenos.
935
Manuela Amaral
De nós em limite
Na luta da posse
meu corpo guerreiro
batalha no teu
Meus beijos em seta
percorrem a meta
atingem loucura
No espaço liberto
da minha procura
tu és o limite
meu corpo guerreiro
batalha no teu
Meus beijos em seta
percorrem a meta
atingem loucura
No espaço liberto
da minha procura
tu és o limite
1 585
Hilda Hilst
Fragmentos
Muros castos e tristes
Cativos de si mesmos
Como criaturas que envelhecem
Sem conhecer a boca
De homens e mulheres.
Muros Escuros, tímidos:
Escorpiões de seda
No acanhado da pedra.
Há alturas soberbas
Danosas, se tocadas.
Como a tua própria boca, amor,
Quando me toca...
Cativos de si mesmos
Como criaturas que envelhecem
Sem conhecer a boca
De homens e mulheres.
Muros Escuros, tímidos:
Escorpiões de seda
No acanhado da pedra.
Há alturas soberbas
Danosas, se tocadas.
Como a tua própria boca, amor,
Quando me toca...
1 629
Zezé Pina
Haikais
chuva na praia
o céu beija o mar
– gaivota espera
neva lá fora
gato à lareira
silêncio na vila
velho castelo
menina à janela
sonho de infância
lágrimas na face
lenço nas mãos -
fim de romance
vida repensada
noite de insônia -
manhã cansada.
noite calada
uma loba uiva -
homem no cio.
o céu beija o mar
– gaivota espera
neva lá fora
gato à lareira
silêncio na vila
velho castelo
menina à janela
sonho de infância
lágrimas na face
lenço nas mãos -
fim de romance
vida repensada
noite de insônia -
manhã cansada.
noite calada
uma loba uiva -
homem no cio.
1 033
Angela Santos
Oferenda
Infinitamente,
com o meu coração desprendido, e cativo,
amo-te
com o meu corpo de mulher,
que só do teu tem sede,
com a alma plena de ti,
amo-te
por seres e existires...
amo o que em mim vive e percorre
Vida, memória, sabor a ti
e como a vida és oferenda
que trago guardada dentro de mim.
com o meu coração desprendido, e cativo,
amo-te
com o meu corpo de mulher,
que só do teu tem sede,
com a alma plena de ti,
amo-te
por seres e existires...
amo o que em mim vive e percorre
Vida, memória, sabor a ti
e como a vida és oferenda
que trago guardada dentro de mim.
1 188
Angela Santos
Eva
Mordo
a tua boca
rosa, carne viva
provo o teu sabor
ao jeito de Eva
subversiva
Ousadia do gosto
meu fruto proibido
mordo o teu corpo
virgem
e reencontro o paraíso.
a tua boca
rosa, carne viva
provo o teu sabor
ao jeito de Eva
subversiva
Ousadia do gosto
meu fruto proibido
mordo o teu corpo
virgem
e reencontro o paraíso.
839
Angela Santos
Volúpia
Noite
mansamente me convidas…
e um instante mágico
te transforma num enlace
de mulher…
E por dentro de mim
oiço só o coração…
e agitada abandono-me
à volúpia do amor na noite.
na noite…
mansamente me convidas…
e um instante mágico
te transforma num enlace
de mulher…
E por dentro de mim
oiço só o coração…
e agitada abandono-me
à volúpia do amor na noite.
na noite…
1 108
Angela Santos
Noite
Do
fundo da noite
se erguem meus olhos
alucinados……
salto do sonho.. e vivo
meus braços estendem-se
à transparência azul
que se acerca e julgo-me
tocada pelo infinito
Néon rasgando os meus olhos,
metamorfose de luz em mim…
Noite, noite..
teu fogo sou meu cio extingues
noite, dentro de ti
o meu sonho vive.
fundo da noite
se erguem meus olhos
alucinados……
salto do sonho.. e vivo
meus braços estendem-se
à transparência azul
que se acerca e julgo-me
tocada pelo infinito
Néon rasgando os meus olhos,
metamorfose de luz em mim…
Noite, noite..
teu fogo sou meu cio extingues
noite, dentro de ti
o meu sonho vive.
1 028
Angela Santos
Vibração
Toda
a verdade
é do domínio do sussurro
e telúricas as vozes da carne
segredam paisagens…
onde o ser à solta se revê em tudo
e em tudo está
As minhas mãos agitam-se
na busca do corpo que vibra
toco, sinto
poderosa e insubmissa
a Vida,
na macieza do teu ser
oculta.
a verdade
é do domínio do sussurro
e telúricas as vozes da carne
segredam paisagens…
onde o ser à solta se revê em tudo
e em tudo está
As minhas mãos agitam-se
na busca do corpo que vibra
toco, sinto
poderosa e insubmissa
a Vida,
na macieza do teu ser
oculta.
1 061
Angela Santos
Lua
Nocturna
silenciosamente vens
ò Lua
deitar-te sobre o meu corpo
límpida e nua
Banhada de luar, assim
Já de mim não sou
mas tua
Ò lua, longe, miragem
digo o quê quando te digo?…
A que há-de vir
viva latejante
ao compasso do coração
descompassado
que vibra em mim
silenciosamente vens
ò Lua
deitar-te sobre o meu corpo
límpida e nua
Banhada de luar, assim
Já de mim não sou
mas tua
Ò lua, longe, miragem
digo o quê quando te digo?…
A que há-de vir
viva latejante
ao compasso do coração
descompassado
que vibra em mim
1 093
Angela Santos
Verpertina
Vem
ver-me
à hora em que me refaço
vem
e traz nos lábios uma rosa
Vem
àquela hora em que a noite
de manso cai
à hora da inocência
vem e traz teus olhos
tuas mãos, teus corpo inteiro
despidos de culpa e pecado ...
Vem
e dá-te assim!
ver-me
à hora em que me refaço
vem
e traz nos lábios uma rosa
Vem
àquela hora em que a noite
de manso cai
à hora da inocência
vem e traz teus olhos
tuas mãos, teus corpo inteiro
despidos de culpa e pecado ...
Vem
e dá-te assim!
718
Angela Santos
Viva Voz
Da
tua voz vivo agora
e se chega eu esqueço
o vazio que me farta…
mordo e deixo em tua boca
a marca de um beijo
e parto...
a cabeça repleta e o coração faminto
e pergunto – me sem fim
até quando…
até quando…
até quando..?
tua voz vivo agora
e se chega eu esqueço
o vazio que me farta…
mordo e deixo em tua boca
a marca de um beijo
e parto...
a cabeça repleta e o coração faminto
e pergunto – me sem fim
até quando…
até quando…
até quando..?
1 112
Angela Santos
Meu Bem Querer
Surge
diante de mim
como um lampejo de luz
e claramente eu vejo
que é ela…
Deusa do meu amor
Venus como todas
as mulheres
que trazem as mãos
e o peito carregados
de amor
Clara Luz
essa que me invade
a vida e o desejo
meu bem querer
meu bem me quer
diante de mim
como um lampejo de luz
e claramente eu vejo
que é ela…
Deusa do meu amor
Venus como todas
as mulheres
que trazem as mãos
e o peito carregados
de amor
Clara Luz
essa que me invade
a vida e o desejo
meu bem querer
meu bem me quer
1 158
Angela Santos
Dionísiaca
Assomas à
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta
Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto
E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.
flor dos dias
no negro mais fundo do olhar
como grito explodindo
à luz do que desperta
Tremulas mãos,
peito em cavalgada..
prenuncio do incontido fogo,
bruto poder do
instinto
E me recrio
a partir de ti
a cada instante da vida
a que me atam
estes frágeis fios.
1 117
Cristiane Neder
Em Uma Só Unidade
Bis,
heteros,
homos,
todos nós somos
nos dias de cio.
Animais
todos sexuais.
Raça pura
destilada em outras misturas.
Animais
pensantes,
fabricantes,
da origem dos habitantes.
Bis,
heteros,
homos,
é o que somos
em uma só unidade.
heteros,
homos,
todos nós somos
nos dias de cio.
Animais
todos sexuais.
Raça pura
destilada em outras misturas.
Animais
pensantes,
fabricantes,
da origem dos habitantes.
Bis,
heteros,
homos,
é o que somos
em uma só unidade.
858
Fernando Fabião
Dá-me Sempre Esse Dom
Dá-me sempre
esse Dom
Obscuro e precário esse fulgor da cinza
Essa pureza na alegria da terra
Dá-me uma cisterna de luz
Um cântaro de água aprisionada
Dá-me a tua aurora e o teu presságio
Para eu dançar no centro da noite
E na orla do coração
Escutar os pássaros.
esse Dom
Obscuro e precário esse fulgor da cinza
Essa pureza na alegria da terra
Dá-me uma cisterna de luz
Um cântaro de água aprisionada
Dá-me a tua aurora e o teu presságio
Para eu dançar no centro da noite
E na orla do coração
Escutar os pássaros.
712
Angela Santos
Mil Sóis
De
noites de mil sóis
se fazem os
dias
e na berma
dos sentidos,
corre o desassossego
de um corpo
sôfrego
noites de mil sóis
se fazem os
dias
e na berma
dos sentidos,
corre o desassossego
de um corpo
sôfrego
782
José Carlos Ferreira
O sexo sem risco
O sexo sem
risco não:
sem rabisco não há poema
nem nuvens cúmulus-nimbus no céu.
Traçados, medidos os modos
de agir, de gozo,
restam regra e exceção.
A frestra, a nesga, a execração.
Problema em sexo:
não.
Não
tem esse jeito agressivo de se escrever, ininterrupto, enérgico.
Pois sexo n érgico quero.
risco não:
sem rabisco não há poema
nem nuvens cúmulus-nimbus no céu.
Traçados, medidos os modos
de agir, de gozo,
restam regra e exceção.
A frestra, a nesga, a execração.
Problema em sexo:
não.
Não
tem esse jeito agressivo de se escrever, ininterrupto, enérgico.
Pois sexo n érgico quero.
719
Fernando Tavares Rodrigues
Jantar
Jantar
sozinho, comer
O resto da minha sede.
Como se alguém repartisse
A fome de apetecer
Outro corpo que se bebe
E que depois nos fugisse....
sozinho, comer
O resto da minha sede.
Como se alguém repartisse
A fome de apetecer
Outro corpo que se bebe
E que depois nos fugisse....
997
Angela Santos
Eclosão
Cativa
no meu peito
uma ave se abriga
nos meus olhos, crescendo
a fome de cores que não vejo
e nas minhas mãos
que abro ao sol de outono
as sementes por plantar
guardo ainda…
E na corrente sem lei
que o meu sangue percorre,
a força de Eros vive adormecida
esperando o dia ou então o sinal
que o desperte e chame à dança da vida.
no meu peito
uma ave se abriga
nos meus olhos, crescendo
a fome de cores que não vejo
e nas minhas mãos
que abro ao sol de outono
as sementes por plantar
guardo ainda…
E na corrente sem lei
que o meu sangue percorre,
a força de Eros vive adormecida
esperando o dia ou então o sinal
que o desperte e chame à dança da vida.
1 126
Angela Santos
Cansaços
Verde
planície,
teus olhos
teu corpo
doce orvalho em minha pele
Meu sol a pino
flamejante a tua língua
arrastando do meu corpo
exausto
restos de frio.
planície,
teus olhos
teu corpo
doce orvalho em minha pele
Meu sol a pino
flamejante a tua língua
arrastando do meu corpo
exausto
restos de frio.
613
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