Corpo
Poemas neste tema
Florbela Espanca
Toda a pureza
Toda a pureza do céu
E a amargura infinita
Casaram. Assim nasceu
A tua boca bendita!
E a amargura infinita
Casaram. Assim nasceu
A tua boca bendita!
1 312
Orides Fontela
São Sebastião
As setas
- cruas - no corpo
as setas
no fresco sangue
as setas
na nudez jovem
as setas
- firmes - confirmando
a carne.
- cruas - no corpo
as setas
no fresco sangue
as setas
na nudez jovem
as setas
- firmes - confirmando
a carne.
2 480
Luís Miguel Nava
Dois rios
O corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.
1 817
Antidio Cabal
Epitáfio de Indalecio Xunto, vulgo O Total
Chamavam-me de Deus porque eu não tinha forma, era gordo, pensei que Deus me havia feito gordo por ter me escolhido.
738
Vasko Popa
- Debaixo da terra
Músculo da treva músculo da carne
Isso dá no mesmo
E o que faremos agora
Convocaremos os ossos de todos os tempos
Subiremos até o sol
E então o que faremos
Cresceremos então limpos
Continuaremos crescendo à vontade
E depois o que faremos
Nada um vagar de cá para lá
Seremos um eterno ser ósseo
Espera só o bocejo da terra
618
Nizâr Qabbânî
a fala das mãos dela
um pouco de silêncio,
impetuosa,
que a mais bela fala
é a fala das tuas mãos
sobre a mesa
(tradução de André Simões)
502
Vasko Popa
- Sob a lua
O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse
Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada
Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível
Sabes o quê?
Será que ousas ladrar
631
Vasko Popa
- No começo
Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
O que faremos agora
Diz algo
Talvez queiras ser
A espinha do raio
Diz algo mais
O que direi
O osso pélvico da tempestade
Diz outra coisa
Nada mais sei
Costela celeste
Não somos os ossos de ninguém
Diz uma terceira coisa
600
Vasko Popa
- Sob o sol
É maravilhoso tomar sol nu
Nunca liguei para a carne
Esses trapos tampouco me envolveram
Enlouqueço por ti assim nu
Não deixes que o sol te acaricie
É melhor que nós nos amemos
Não aqui não aqui sob o sol
Aqui tudo se vê osso querido
688
Rui Knopfli
Maxilar triste
Suave curva dolorosa
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.
Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza
irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:
espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.
Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza
irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:
espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.
1 197
Paulo Colina
Forja
entre uma calmaria
e outra
do mar de nossas peles
me bastaria amor cantar o fogo
que somos na nascente
de suas coxas
mas há essa dor de outros tempos
e corpos
essa rosa dos ventos sem norte
na memória sitiada da noite
embora o gesto possa ser
no mais todo ternura
o poema continua um quilombo
no coração
1 274
Erich Fried
Naturalização
Mãos brancas
cabelos ruivos
olhos azuis
Pedras brancas
sangue ruivo
lábios azuis
Ossos brancos
areia ruiva
céu azul
:
Einbürgerung
Weisse Hände
rotes Haar
blaue Augen
Weisse Steine
rotes Blut
blaue Lippen
Weisse Knochen
roter Sand
blauer Himmel
cabelos ruivos
olhos azuis
Pedras brancas
sangue ruivo
lábios azuis
Ossos brancos
areia ruiva
céu azul
:
Einbürgerung
Weisse Hände
rotes Haar
blaue Augen
Weisse Steine
rotes Blut
blaue Lippen
Weisse Knochen
roter Sand
blauer Himmel
948
Pentti Saarikoski
XLVII
os mortos têm nomes
os vivos: uma cara e dez dedos
555
Marcial
A Musa Puerilis de Marcial
1, 23
Ninguém convidas, só com quem te lavas, Cota,
...e só os banhos dão o teu conviva.
Admirava-me, Cota, o nunca me chamares:
...agora sei que, nu, não te agradei.
Inuitas nullum nisi cum quo, Cotta, lauaris
...et dant conuiuam balnea sola tibi.
Mirabar, quare numquam me, Cotta, uocasses:
...iam scio, me nudum displicuisse tibi.
Ninguém convidas, só com quem te lavas, Cota,
...e só os banhos dão o teu conviva.
Admirava-me, Cota, o nunca me chamares:
...agora sei que, nu, não te agradei.
Inuitas nullum nisi cum quo, Cotta, lauaris
...et dant conuiuam balnea sola tibi.
Mirabar, quare numquam me, Cotta, uocasses:
...iam scio, me nudum displicuisse tibi.
872
Lalla Romano
Se em meu sonho comprimes
Se em meu sonho comprimes
a mão sobre o meu peito
uma orgulhosa égua
se empina
quer estradas livres
pastagens sem fim
:
Se hai premuto nel sogno
la mano contro il mio petto
una orgogliosa cavalla
s'impenna
vuole libere strade
e sterminate pasture
a mão sobre o meu peito
uma orgulhosa égua
se empina
quer estradas livres
pastagens sem fim
:
Se hai premuto nel sogno
la mano contro il mio petto
una orgogliosa cavalla
s'impenna
vuole libere strade
e sterminate pasture
806
Juan Gelman
claro que morrerei
claro que morrerei e hão de levar-me
em ossos ou cinzas
e dirão palavras e cinzas
e eu hei de morrer totalmente
claro que isto acabará
minhas mãos pelas tuas alimentadas
hão de pensar-se de novo
na umidade da terra
eu cá não quero caixão
nem roupa
que o barro aceite minha cabeça
e que os bichos me devorem
agora
despido de ti
em ossos ou cinzas
e dirão palavras e cinzas
e eu hei de morrer totalmente
claro que isto acabará
minhas mãos pelas tuas alimentadas
hão de pensar-se de novo
na umidade da terra
eu cá não quero caixão
nem roupa
que o barro aceite minha cabeça
e que os bichos me devorem
agora
despido de ti
1 720
Monteiro Santos
Tudo treme
tudo treme
neste poiso de espanto breve.
apresso a palavra e digo país:
e o teu corpo se despenha vertical
aqui entre as cordas desta febre.
digo espaço e as águas demoram.
de que me servem dedos
no contorno estéril da mão?
neste poiso de espanto breve.
apresso a palavra e digo país:
e o teu corpo se despenha vertical
aqui entre as cordas desta febre.
digo espaço e as águas demoram.
de que me servem dedos
no contorno estéril da mão?
902
João Melo
Dunas
Dunas brancas dunas
onde
altivo
brilha o sol;
tuas nádegas
Dunas firmes dunas
onde
célere
pulsa o sangue;
Dunas doces dunas
onde
trémulo
sucumbo ardendo;
tuas nádegas
suaves frescas e belas
onde
altivo
brilha o sol;
tuas nádegas
Dunas firmes dunas
onde
célere
pulsa o sangue;
Dunas doces dunas
onde
trémulo
sucumbo ardendo;
tuas nádegas
suaves frescas e belas
1 302
Antonio Fernando De Franceschi
Esteio
te palmilho
perfiladas coxas
contra vento e marés
te percorro
mediterrâneo
promontórios
te amparo a fronte
e o espasmo
— ato final
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
perfiladas coxas
contra vento e marés
te percorro
mediterrâneo
promontórios
te amparo a fronte
e o espasmo
— ato final
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Caminho das águas: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1987. Poema integrante da série Em Campo Aberto
1 339
Affonso Ávila
Por Leila Diniz
dizer a leila
diniz
dispa-se e
disparar
disposto
Publicado no livro Masturbações (1980).
In: ÁVILA, Affonso. O visto e o imaginado. Ilustrações de Maria do Carmo Secco. São Paulo: Perspectiva: Edusp, 1990. p. 138. (Signos, 12
diniz
dispa-se e
disparar
disposto
Publicado no livro Masturbações (1980).
In: ÁVILA, Affonso. O visto e o imaginado. Ilustrações de Maria do Carmo Secco. São Paulo: Perspectiva: Edusp, 1990. p. 138. (Signos, 12
1 470
Ulisses Tavares
Conteúdo
No toque, a troca.
No ato, o salto.
No esfrega, a entrega.
Na mão, o coração.
No rir, o repartir.
No sangue, o bumerangue.
Na ida, a vida.
In: TAVARES, Ulisses. Pega gente. 2.ed. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978. p.71. (Coleção PF
No ato, o salto.
No esfrega, a entrega.
Na mão, o coração.
No rir, o repartir.
No sangue, o bumerangue.
Na ida, a vida.
In: TAVARES, Ulisses. Pega gente. 2.ed. São Paulo: Núcleo Pindaíba Edições e Debates, 1978. p.71. (Coleção PF
1 805
Max Martins
Uma Tela de Dina Oliveira
Meu olho
no teu olho frestas
com arcos de ouro palha
e veludo pêlos
peluzem
Besouro negro
rajado verde
pula
sobre besouro negro
rajado verde
Pulam
copulam
voam
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
no teu olho frestas
com arcos de ouro palha
e veludo pêlos
peluzem
Besouro negro
rajado verde
pula
sobre besouro negro
rajado verde
Pulam
copulam
voam
In: MARTINS, Max. Não para consolar: poemas reunidos, 1952/1992. Pref. Benedito Nunes. Belém: CEJUP, 1992. (Verso & reverso, 2
1 459
Augusto Massi
Siesta
O sangue fluindo,
texto longínquo,
ritmos na sombra.
Sol latejando no escuro,
vulva do pensamento:
mar, mulheres, mormaço.
No edifício do verão
repousa o doce móbile
da mente: é só soprar.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
texto longínquo,
ritmos na sombra.
Sol latejando no escuro,
vulva do pensamento:
mar, mulheres, mormaço.
No edifício do verão
repousa o doce móbile
da mente: é só soprar.
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
964
Augusto Massi
Nudez
Despido de tudo
pronto a aceitar
a própria nudez
no quarto escuro
O espelho em branco
— mar amniótico —
projeta nos flancos
uma luz uterina
Homem em estado bruto
na metade da vida
homem sem atributos
— nudez como medida
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
pronto a aceitar
a própria nudez
no quarto escuro
O espelho em branco
— mar amniótico —
projeta nos flancos
uma luz uterina
Homem em estado bruto
na metade da vida
homem sem atributos
— nudez como medida
In: MASSI, Augusto. Negativo, 1982/1990. Il. Alberto Alexandre Martins. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 220
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