Verdade

Poemas neste tema

Martha Medeiros

Martha Medeiros

de mim, que tanto falam

de mim, que tanto falam
quero que reste
o que calei
que tanto rezam por mim
quero que fique
o que pequei
de mim, que tanto sabem
quero que saibam
que não sei
1 120
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não deixo pistas nem marcas de mordidas

não deixo pistas nem marcas de mordidas
ficam sempre escondidas
as provas da inocência
1 097
Martha Medeiros

Martha Medeiros

você chegou com uma nova versão

você chegou com uma nova versão
do passado
e mais que apressado
esqueceu
que o que passou
ficou do meu lado
1 035
Martha Medeiros

Martha Medeiros

todo conto de fada

todo conto de fada
faz de conta que não sabe
1 095
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

V. Ali Vimos a Veemência do Visível

Ali vimos a veemência do visível
O aparecer total exposto inteiro
E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar
Era o verdadeiro
1977
1 052
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Profetas Falsos Vieram Em Teu Nome

Anjos errados disseram que tu eras
Um poema frustrado
Na angústia sem razão das Primaveras

Porém eu sei que tu és a verdade
E és o caminho transparente e puro
Embora eu não te encontre e no obscuro
Mundo das sombras morra de saudade.
1 187
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vii. Não Procures Verdade No Que Sabes

Não procures verdade no que sabes
Nem destino procures nos teus gestos
Tudo quanto acontece é solitário
Fora de saber fora das leis
Dentro de um ritmo cego inumerável
Onde nunca foi dito nenhum nome
1 174
Adélia Prado

Adélia Prado

Os Comoventes Preconceitos

As finuras de Margarete
fogem a padrões sociais:
‘O popular, tudo bem.
Mas o clássico é imbatível!’
Com a alma à porta da rua
nada esconde de si mesma.
Vi tremer-lhe o queixo um dia
a ardoroso pretendente:
‘Você por acaso é gay?’
Sofre muito Margarete,
a que não sabe doer-se,
inocente como romã,
que racha por não conter-se.
944
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Comércio da Privacidade

Mas esta é a velha Garbo, seminua
assim na praia, lamentavelmente?
Não. O retrato, em que a maldade estua,
é da alma do fotógrafo, somente.
970
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Eu Digo Vacila, o Que Vejo Treme.

O que eu digo vacila, o que vejo treme.
O que eu não posso dizer ou ver é o que eu digo,
é o que eu vejo, a transparência.
1 215
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Falar com coisas

As coisas, por detrás de nós,
exigem: falemos com elas,
mesmo quando nosso discurso
não consiga ser falar delas.
Dizem: falar sem coisas é
comprar o que seja sem moeda:
é sem fundos, falar com cheques,

em líquida, informe diarreia.
948
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Teu Rosto

Onde os outros puseram a mentira
Ficou o testemunho do teu rosto
Puro e verdadeiro como a morte

Ficou o teu rosto que ninguém conhece
O teu desejo sempre anoitecido
Ficou o ritmo exacto da má sorte
E o jardim proibido.
2 156
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Serenamente Sem Tocar Nos Ecos

Serenamente sem tocar nos ecos
Ergue a tua voz
E conduz cada palavra
Pelo estreito caminho.

Vive com a memória exacta
De todos os desastres
Aos deuses não perdoes os naufrágios
Nem a divisão cruel dos teus membros.

No dia puro procura um rosto puro
Um rosto voluntário que apesar
Do tempo dos suplícios e dos nojos
Enfrente a imagem límpida do mar.
2 112
Susana Thénon

Susana Thénon

Inferno

Acredita no ódio
que joga veneno em seu lábio?
Acredita no rancor
que te morde até diluir seu inferno?
Acredita na lenda
dos polos opostos
e nesta adorável mentira
da inimizade entre água e azeite?
Hoje?
quando o amor se disfarça de ódio
para sobreviver,
quando o carrasco chora
atrás da morte
e deus descansa?
783
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Revolução — Descobrimento

Revolução isto é: descobrimento
Mundo recomeçado a partir da praia pura
Como poema a partir da página em branco
— Katharsis emergir verdade exposta
Tempo terrestre a perguntar seu rosto
2 416
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Enigma ornitológico

Um pássaro entrou numa nuvem.
Uma nuvem entrou num pássaro.
"Qual a verdade?", perguntou
o homem. "Está no pássaro? Ou
está numa nuvem?" E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.


Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
1 285
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O burburinho da água

O burburinho da água
No regato que se espalha
É como a ilusão que é mágoa
Quando a verdade a baralha.
1 893
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não tenho sinceridade nenhuma que te dar.

Não tenho sinceridade nenhuma que te dar.
Se te falo, adapto instintivamente frases
A um sentido que me esqueço de ter.
1 017
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não, não vos disse... A essência inatingível

Não, não vos disse... A essência inatingível
Da profusão das cousas, a substância
Lógica e      (...)      do caos dos seres,
Furta-se até a si mesma. Se entendeste
Neste ou naquele modo o que vos disse,
Não o entendestes que lhe falta o modo
Per que se entenda.
853
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

TO A FRIEND WHO ASKED FOR AN EPITAPH

«He was strong and kind to all mankind,
Strong all temptations through.ª
May this epitaph be written over thee,
And, what's more, may it be true.
1 080
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Pobre do pobre que é ele

Pobre do pobre que é ele
E não é quem se fingiu!
Por muito que a gente vele
Descobre que já dormiu.
1 405
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte

O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte
Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa —
        Quer verdade, e não sorte.

Como um mendigo a quem é dado o nome
De rei, não come dele, mas do prato
        Do rei, minha esperança
Da razão que lia em tê-la se alimenta
        E não do que deseja.
1 512
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não há verdade na vida

Não há verdade na vida
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.
1 767
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O rosário da vontade,

O rosário da vontade,
Rezei-o trocado e a esmo.
Se vens dizer-me a verdade,
Vê lá bem se é isso mesmo.
1 186