Tempo e Passagem
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Leve, breve, suave,
Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
o dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.
Nunca, nunca, em nada,
Raie a madrugada,
Ou 'splenda o dia, ou doire no declive,
Tive
Prazer a durar
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.
05/08/1921 (Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
o dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.
Nunca, nunca, em nada,
Raie a madrugada,
Ou 'splenda o dia, ou doire no declive,
Tive
Prazer a durar
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.
05/08/1921 (Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
8 391
6
Haroldo de Campos
O Instante
o instante
é pluma
seu holograma
radia estável
como quem olha pelo cristal
do tempo
feixe fixo
de luz
(já não se vê se o olho deixa sua seteira)
prisma
o sol
chove
de um teto
zenital
elipse: um estilo de persianas
In: CAMPOS, Haroldo de. Signatia quasi coelum = signância quase céu. São Paulo: Perspectiva, 1979. p. 35. (Signos, 7).
é pluma
seu holograma
radia estável
como quem olha pelo cristal
do tempo
feixe fixo
de luz
(já não se vê se o olho deixa sua seteira)
prisma
o sol
chove
de um teto
zenital
elipse: um estilo de persianas
In: CAMPOS, Haroldo de. Signatia quasi coelum = signância quase céu. São Paulo: Perspectiva, 1979. p. 35. (Signos, 7).
7 833
5
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. Não Creias, Lídia, Que Nenhum Estio
Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
5 758
4
Casimiro de Brito
Intensidades 1
Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.
6 383
4
Sophia de Mello Breyner Andresen
Assim o Amor
Assim o amor
Espantando meu olhar com teus cabelos
Espantando meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilavam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa
Espantando meu olhar com teus cabelos
Espantando meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilavam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa
3 855
4
Haroldo de Campos
Se
se
nasce
morre nasce
morre nasce morre
renasce remorre renasce
remorre renasce
remorre
re re
desnasce
desmorre desnasce
desmorre desnasce desmorre
nascemorrenasce
morrenasce
morre
se
9 430
4
Guilherme de Almeida
Haicai
Infância
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
Cigarra
Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
Cigarra
Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.
4 256
4
Eugénio de Andrade
Surdo, Subterrâneo Rio
Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.
Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?
5 658
4
Fernando Pessoa
Eu amo tudo o que foi,
Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
1931
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
1931
11 051
4
Fernando Pessoa
Momento imperceptível,
Momento imperceptível,
Que coisa foste, que há
Já em mim qualquer coisa
Que nunca passará?
Sei que, passados anos,
O que isto é lembrarei,
Sem saber já o era,
Que até já o não sei.
Mas, nada só que fosse,
Fica dele um ficar
Que será suave ainda
Quando eu o não lembrar.
05/09/1933
Que coisa foste, que há
Já em mim qualquer coisa
Que nunca passará?
Sei que, passados anos,
O que isto é lembrarei,
Sem saber já o era,
Que até já o não sei.
Mas, nada só que fosse,
Fica dele um ficar
Que será suave ainda
Quando eu o não lembrar.
05/09/1933
4 834
4
Fernando Pessoa
42 - Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o Sol é sempre pontual todos os dias.
07/05/1914 (Athena, nº 4, Janeiro de 1925)
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a acção humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o Sol é sempre pontual todos os dias.
07/05/1914 (Athena, nº 4, Janeiro de 1925)
2 329
4
Fernando Pessoa
Coroai-me de rosas! [3]
Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas –
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
12/06/1914 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)
Coroai-me em verdade
De rosas –
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.
12/06/1914 (Athena, nº 1, Outubro de 1924)
7 505
4
Adélia Prado
Explicação de Poesia Sem Ninguém Pedir
Um trem de ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.
11 518
3
Ferreira Gullar
No corpo
De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.
4 186
3
Emily Dickinson
CEMITÉRIO
Este pó foram damas, cavalheiros,
Rapazes e meninas;
Foi riso, foi espírito e suspiro,
Vestidos e tranças finas.
Este lugar foram jardins que abelhas
E flores alegraram.
Findo o verão, findava o seu destino...
E como estes, passaram.
Rapazes e meninas;
Foi riso, foi espírito e suspiro,
Vestidos e tranças finas.
Este lugar foram jardins que abelhas
E flores alegraram.
Findo o verão, findava o seu destino...
E como estes, passaram.
3 169
3
Rainer Maria Rilke
O Poeta
Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: que fazer da boca, agora?
Que fazer do dia, da noite?
Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: que fazer da boca, agora?
Que fazer do dia, da noite?
Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.
1 909
3
Fernando Pessoa
Quando era criança
Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.
E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.
Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.
02/10/1933
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.
E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.
Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.
02/10/1933
7 812
3
Marina Colasanti
Debaixo dos seus cascos
Hoje
domingo à noite
nesta sala quieta
desta casa quieta
nessa quieta montanha
o tempo
mais uma vez
finge estar parado enquanto as horas
mudas
passam a galope.
domingo à noite
nesta sala quieta
desta casa quieta
nessa quieta montanha
o tempo
mais uma vez
finge estar parado enquanto as horas
mudas
passam a galope.
1 225
2
José Saramago
Enigma
Um novo ser me nasce em cada hora.
O que fui, já esqueci. O que serei
Não guardará do ser que sou agora
Senão o cumprimento do que sei.
O que fui, já esqueci. O que serei
Não guardará do ser que sou agora
Senão o cumprimento do que sei.
1 602
2
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Luz Oblíqua
A luz oblíqua da tarde
Morre e arde
Nas vidraças.
Nas coisas nascem fundas taças
Para a receber,
E ali eu vou beber.
A um canto cismo
Suspensa entre as horas e um abismo.
A vibração das coisas cresce.
Cada instante
No seu secreto murmurar é semelhante
A um jardim que verdeja e que floresce.
Morre e arde
Nas vidraças.
Nas coisas nascem fundas taças
Para a receber,
E ali eu vou beber.
A um canto cismo
Suspensa entre as horas e um abismo.
A vibração das coisas cresce.
Cada instante
No seu secreto murmurar é semelhante
A um jardim que verdeja e que floresce.
3 161
2
Ruy Belo
Remate para qualquer poema
Passeou pelos espelhos dos dias
suas clandestinas alegrias
que mal se reflectiram desertaram
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
suas clandestinas alegrias
que mal se reflectiram desertaram
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
1 404
2
Noémia de Sousa
Teias da memória
Na baça melancolia do tecto
bilros de teia bordam solidão
enquanto meigos sussurros de sombra
no brilhante mutismo do espelho
recitam estrofes de poeira.
bilros de teia bordam solidão
enquanto meigos sussurros de sombra
no brilhante mutismo do espelho
recitam estrofes de poeira.
3 303
2
Idea Vilariño
Já não tenho
Já não tenho
já não quero
mais ter perguntas.
Já não tenho
já não quero
ter mais respostas.
Teria que me sentar num banquinho
e esperar que termine.
já não quero
mais ter perguntas.
Já não tenho
já não quero
ter mais respostas.
Teria que me sentar num banquinho
e esperar que termine.
1 107
2
Álvaro Moreyra
Temperatura
Quando eu era mais moço tive na vida um
sorriso para tudo.
Tive?
Ainda tenho.
Mas hoje o meu sorriso é como o sorriso das
bailarinas.
Um sorriso na ponta dos pés, que espia o público
e que às vezes nem está sorrindo.
Dura enquanto dura a dança...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
sorriso para tudo.
Tive?
Ainda tenho.
Mas hoje o meu sorriso é como o sorriso das
bailarinas.
Um sorriso na ponta dos pés, que espia o público
e que às vezes nem está sorrindo.
Dura enquanto dura a dança...
In: MOREYRA, Álvaro. Circo. Rio de Janeiro: Pimenta de Mello, 1929
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2
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