Sonhos e Imaginação
Poemas neste tema
Pablo Neruda
Aqui
Vim aqui para contar os sinos
que vivem no mar,
que soam no mar,
dentro do mar.
Por isso vivo aqui.
que vivem no mar,
que soam no mar,
dentro do mar.
Por isso vivo aqui.
5 791
3
Ademir Antônio Bacca
Das paixões
a nudez do teu corpo
é idéia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
resuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.
é idéia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
resuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.
1 419
3
Fernando Pessoa
Tenho tal sono que pensar é um mal.
SONO
Tenho tal sono que pensar é um mal.
Tenho sono. Dormir é ser igual,
No homem, ao despertar do animal.
É viver fundo nesse inconsciente
Com que à tona da vida o animal sente.
É ser meu ser profundo alheiamente.
Tenho sono talvez porque toquei
Onde sinto o animal que abandonei
E o sono é uma lembrança que encontrei.
Tenho tal sono que pensar é um mal.
Tenho sono. Dormir é ser igual,
No homem, ao despertar do animal.
É viver fundo nesse inconsciente
Com que à tona da vida o animal sente.
É ser meu ser profundo alheiamente.
Tenho sono talvez porque toquei
Onde sinto o animal que abandonei
E o sono é uma lembrança que encontrei.
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3
Fernando Pessoa
Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.
19/09/1933
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.
19/09/1933
4 818
3
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Quarto
No quarto roemos o sabor da fome
A nossa imaginação divaga entre paredes brancas
Abertas como grandes páginas lisas
O nosso pensamento erra sem descanso pelos mapas
A nossa vida é como um vestido que não cresceu connosco
A nossa imaginação divaga entre paredes brancas
Abertas como grandes páginas lisas
O nosso pensamento erra sem descanso pelos mapas
A nossa vida é como um vestido que não cresceu connosco
2 309
2
Paulo Leminski
a estrela cadente
a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão
me caiu ainda quente
na palma da mão
3 628
2
Ana Luísa Amaral
Criação Sonhada
Tanto
tempo a pensar
divino esforço
que adormecendo
deus sonhou consigo:
Sonhou braços e pernas
e cabeças,
sonhou paisagens
de mental pudor
conversas calmas
com o quase feito
E esforçado ficou
e exausto se quedou
ao ver-se assim traído
pela obra criada
Só em sonho
tempo a pensar
divino esforço
que adormecendo
deus sonhou consigo:
Sonhou braços e pernas
e cabeças,
sonhou paisagens
de mental pudor
conversas calmas
com o quase feito
E esforçado ficou
e exausto se quedou
ao ver-se assim traído
pela obra criada
Só em sonho
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2
Carlos Queirós
Província
Se eu tivesse nascido
No seio da província, era fatal
Que o meu sonho maior, o mais sentido
Seria triunfar na capital.
E depois de tê-lo conseguido,
Voltar à terra natal
E ser pelos conterrâneos recebido
Com palmas e foguetes,
Fanfarras, vivas e banquetes
Na Câmara Municipal.
No seio da província, era fatal
Que o meu sonho maior, o mais sentido
Seria triunfar na capital.
E depois de tê-lo conseguido,
Voltar à terra natal
E ser pelos conterrâneos recebido
Com palmas e foguetes,
Fanfarras, vivas e banquetes
Na Câmara Municipal.
1 836
2
Fernando Pessoa
PRESSÁGIO
PRESSÁGIO
Vinham, louras, de preto
Ondeando até mim
Pelo jardim secreto
Na véspera do fim.
Nos olhos toucas tinham
Reflexos de um jardim
Que não o por onde vinham
Na véspera do fim.
Mas passam... Nunca me viram
E eu quanto sonhei afim
A essas que se partiram
Na véspera do fim.
10/04/1927
Vinham, louras, de preto
Ondeando até mim
Pelo jardim secreto
Na véspera do fim.
Nos olhos toucas tinham
Reflexos de um jardim
Que não o por onde vinham
Na véspera do fim.
Mas passam... Nunca me viram
E eu quanto sonhei afim
A essas que se partiram
Na véspera do fim.
10/04/1927
6 607
2
Fernando Pessoa
Houve um ritmo no meu sono,
Houve um ritmo no meu sono.
Quando acordei o perdi.
Porque saí do abandono
De mim mesmo, em que vivi?
Não sei que era o que não era.
Sei que suave me embalou,
Como se o embalar quisera
Tornar-me outra vez quem sou.
Houve uma música finda
Quando acordei de a sonhar.
Mas não morreu: dura ainda
No que me faz não pensar.
11/06/1934
Quando acordei o perdi.
Porque saí do abandono
De mim mesmo, em que vivi?
Não sei que era o que não era.
Sei que suave me embalou,
Como se o embalar quisera
Tornar-me outra vez quem sou.
Houve uma música finda
Quando acordei de a sonhar.
Mas não morreu: dura ainda
No que me faz não pensar.
11/06/1934
4 605
2
Reynaldo Bessa
como figurinhas coladas
como figurinhas coladas
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.
no horizonte,
navios iam e vinham parados,
fugiam dos nossos olhos
da margem, da terra, de longe,
de muito longe eu embarcava neles, pedindo;
navios, navios, me levem a lugar nenhum.
1 221
1
Fernando Pessoa
Que coisa distante
Que coisa distante
Está perto de mim?
Que brisa fragrante
Me vem neste instante
De ignoto jardim?
Se alguém mo dissesse,
Não quisera crer.
Mas sinto-o, e é esse
O ar bom que me tece
Visões sem as ver.
Não sei se é dormindo
Ou alheado que estou:
Sei que estou sentindo
A boca sorrindo
Aos sonhos que sou.
02/10/1933
Está perto de mim?
Que brisa fragrante
Me vem neste instante
De ignoto jardim?
Se alguém mo dissesse,
Não quisera crer.
Mas sinto-o, e é esse
O ar bom que me tece
Visões sem as ver.
Não sei se é dormindo
Ou alheado que estou:
Sei que estou sentindo
A boca sorrindo
Aos sonhos que sou.
02/10/1933
4 612
2
Fernando Pessoa
Passos tardam na relva
Passos tardam na relva
Entre o luar e o luar,
Tudo é eflúvio e selva.
Sente-se alguém passar.
Passa, pisando leve
O chão que o luar desmente,
Num pálido hausto leve
De pisar levemente.
É elfo, é gnomo, é fada
A forma que ninguém vê?
Lembro: não houve nada.
Sinto, e a saudade crê.
05/09/1933
Entre o luar e o luar,
Tudo é eflúvio e selva.
Sente-se alguém passar.
Passa, pisando leve
O chão que o luar desmente,
Num pálido hausto leve
De pisar levemente.
É elfo, é gnomo, é fada
A forma que ninguém vê?
Lembro: não houve nada.
Sinto, e a saudade crê.
05/09/1933
4 801
2
Manuel Bandeira
Tema e Variações
Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.
Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.
Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado, -
Que é tempo passado.
Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.
Que havia sonhado.
Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.
Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado, -
Que é tempo passado.
Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.
1 988
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Da Transparência
Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres
4 176
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nocturno
Acordo quando os muros são o medo,
Acordo quando o tempo cai contado,
E no meu quarto entra o arvoredo,
E se desfolha ao longo dos meus membros.
Acordo quando a aurora nas paredes
Desenha nardos brancos e macios,
Acordo quando o sono vos convence
De que sois rios.
Acordo quando o tempo cai contado,
E no meu quarto entra o arvoredo,
E se desfolha ao longo dos meus membros.
Acordo quando a aurora nas paredes
Desenha nardos brancos e macios,
Acordo quando o sono vos convence
De que sois rios.
2 004
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Intervalo Ii
Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.
Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.
Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.
Um dia em que se possa não saber.
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.
Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.
Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.
Um dia em que se possa não saber.
2 660
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Jardim
O jardim está brilhante e florido.
Sobre as ervas, entre as folhagens,
O vento passa, sonhador e distraído,
Peregrino de mil romagens.
É Maio ácido e multicolor,
Devorado pelo próprio ardor,
Que nesta clara tarde de cristal
Avança pelos caminhos
Até os fantásticos desalinhos
Do meu bem e do meu mal.
E no seu bailado levada
Pelo jardim deliro e divago,
Ora espreitando debruçada
Os jardins do fundo do lago,
Ora perdendo o meu olhar
Na indizível verdura
Das folhas novas e tenras
Onde eu queria saciar
A minha longa sede de frescura.
Sobre as ervas, entre as folhagens,
O vento passa, sonhador e distraído,
Peregrino de mil romagens.
É Maio ácido e multicolor,
Devorado pelo próprio ardor,
Que nesta clara tarde de cristal
Avança pelos caminhos
Até os fantásticos desalinhos
Do meu bem e do meu mal.
E no seu bailado levada
Pelo jardim deliro e divago,
Ora espreitando debruçada
Os jardins do fundo do lago,
Ora perdendo o meu olhar
Na indizível verdura
Das folhas novas e tenras
Onde eu queria saciar
A minha longa sede de frescura.
7 101
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quem Como Eu Em Silêncio Tece
Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?
2 546
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Mortos de Hecate
Ao nosso lado os mortos em surdina
Bebem a exalação da nossa vida.
São a sombra seguindo os nossos gestos,
Sinto-os passar quando leves vêm
Alta noite buscar os nossos restos.
Passam nos quartos onde nos deixamos,
Envolvem-se nos gestos que traçamos,
Repetem as palavras que dissemos,
E debruçados sobre o nosso sono
Bebem como um leite o nosso sonho.
Intangíveis, sem peso e sem contorno
Ressurgem no sabor vivo do sangue.
Sorriem às imagens que vivemos
E choram por nós quando não as vemos,
Porque já sabem para aonde vamos.
Bebem a exalação da nossa vida.
São a sombra seguindo os nossos gestos,
Sinto-os passar quando leves vêm
Alta noite buscar os nossos restos.
Passam nos quartos onde nos deixamos,
Envolvem-se nos gestos que traçamos,
Repetem as palavras que dissemos,
E debruçados sobre o nosso sono
Bebem como um leite o nosso sonho.
Intangíveis, sem peso e sem contorno
Ressurgem no sabor vivo do sangue.
Sorriem às imagens que vivemos
E choram por nós quando não as vemos,
Porque já sabem para aonde vamos.
1 782
1
Fernando Pessoa
Água que passa e canta
Água que passa e canta
É água que faz dormir...
Sonhar é coisa que encanta,
Pensar é já não sentir.
É água que faz dormir...
Sonhar é coisa que encanta,
Pensar é já não sentir.
3 307
1
Florbela Espanca
Alma demais
Alma demais pra viver,
Alegria do meu peito.
Ai tanto sonho perdido,
Ai tanto sonho desfeito!
Alegria do meu peito.
Ai tanto sonho perdido,
Ai tanto sonho desfeito!
1 453
1
Venúsia Neiva
Flor Azul
era uma flor desmaiada
e, ao vento, tinha gesto de pássaro
que foge ao frio.
era azul e nasceu nos primeiros véus da noite.
ninguém a viu.
ninguém sentiu o seu estranho perfume.
só eu que amo as coisas misteriosas e fugaces.
e ela se evaporou nas brumas do meu sonho.
ó poesia!
ó musa!
ó inatingível!
e, ao vento, tinha gesto de pássaro
que foge ao frio.
era azul e nasceu nos primeiros véus da noite.
ninguém a viu.
ninguém sentiu o seu estranho perfume.
só eu que amo as coisas misteriosas e fugaces.
e ela se evaporou nas brumas do meu sonho.
ó poesia!
ó musa!
ó inatingível!
1 404
1
Marly de Oliveira
Parecia um pássaro
Parecia um pássaro, um frêmito
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.
1 198
1
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