Sol, amanhecer e pôr do sol
Poemas neste tema
Cida Pedrosa
o sol anestesia
o sol anestesia a dor e de dor é feito
como deve ser feito de dor o frio do outro campo
como deve ser feito de dor o frio do outro campo
629
Marina Colasanti
CINCO DA TARDE E SUDOESTE
Logo virá a tempestade
trazendo a noite.
Mas por enquanto tudo
é doce mucosa
e o cinza e o rosa
se tocam no horizonte.
Sábias como aves de rocha
as traineiras se aninham
os recortes da costa.
Uma primeira luz se acende
junto à ilha.
E o grilo ainda canta
quando ao longe
o trovão escancara a garganta.
trazendo a noite.
Mas por enquanto tudo
é doce mucosa
e o cinza e o rosa
se tocam no horizonte.
Sábias como aves de rocha
as traineiras se aninham
os recortes da costa.
Uma primeira luz se acende
junto à ilha.
E o grilo ainda canta
quando ao longe
o trovão escancara a garganta.
970
Affonso Romano de Sant'Anna
Se Eu Dissesse
Se eu dissesse que o crepúsculo está coalhado de sangue
diriam que isto é uma banalidade
que só um mau poeta ousa escrever.
E, no entanto, o crepúsculo está coalhado de sangue.
Não só o crepúsculo, também a alvorada.
E quanto a isto não há muito que se possa fazer.
diriam que isto é uma banalidade
que só um mau poeta ousa escrever.
E, no entanto, o crepúsculo está coalhado de sangue.
Não só o crepúsculo, também a alvorada.
E quanto a isto não há muito que se possa fazer.
1 124
Pablo Neruda
Descrição de Capri
A vinha na rocha, as gretas do musgo, os muros que enredam
as trepadeiras, os plintos de flor e de pedra:
a ilha é a cítara que foi colocada na altura sonora
e corda por corda a luz ensaiou do dia remoto
sua voz, a cor das letras do dia,
e do seu fragrante recinto voava a aurora
derrubando o orvalho e abrindo os olhos da Europa.
as trepadeiras, os plintos de flor e de pedra:
a ilha é a cítara que foi colocada na altura sonora
e corda por corda a luz ensaiou do dia remoto
sua voz, a cor das letras do dia,
e do seu fragrante recinto voava a aurora
derrubando o orvalho e abrindo os olhos da Europa.
1 357
Pablo Neruda
Trinou o Zorzal
Trinou o Zorzal, pássaro puro
dos campos do Chile:
chamava, celebrava,
escrevia no vento.
Era cedo,
aqui, no inverno, na costa.
Ficava um arrebol celeste
como um delgado pedaço de bandeira
flutuando sobre o mar.
Depois a cor azul invadiu o céu
até que tudo se encheu de azul,
porque esse é o dever de cada dia,
o pão azul de cada dia.
dos campos do Chile:
chamava, celebrava,
escrevia no vento.
Era cedo,
aqui, no inverno, na costa.
Ficava um arrebol celeste
como um delgado pedaço de bandeira
flutuando sobre o mar.
Depois a cor azul invadiu o céu
até que tudo se encheu de azul,
porque esse é o dever de cada dia,
o pão azul de cada dia.
1 280
José Saramago
Amanhecer
Navego no cristal da madrugada,
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.
Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.
1 066
José Saramago
Poente
Que podes mais dizer-me que não saiba,
Veio do sol sangrada para a terra,
Manso esgarçar de névoa refrangida
Entre o azul do mar e o céu vermelho?
Já há tantos poentes na lembrança,
Tantos dedos de fogo sobre as águas,
Que todos se confundem quando, noite,
Posto o sol, se fecham os teus olhos.
Veio do sol sangrada para a terra,
Manso esgarçar de névoa refrangida
Entre o azul do mar e o céu vermelho?
Já há tantos poentes na lembrança,
Tantos dedos de fogo sobre as águas,
Que todos se confundem quando, noite,
Posto o sol, se fecham os teus olhos.
1 473
José Saramago
Hora
Vou no caminho esparso, à luz difusa
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.
1 204
José Saramago
Ainda Agora É Manhã
Ainda agora é manhã, e já os ventos
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.
Adormecem no céu. Pouco a pouco,
A névoa antiga e baça se levanta.
Ruivamente, o sol abre uma estrada
Na prata nublada destas águas.
É manhã, meu amor, a noite foge,
E no mel dos teus olhos escurece
O amargo das sombras e das mágoas.
1 370
Martha Medeiros
este sol não me engana
este sol não me engana
tá se pondo pra me pôr na cama
tá se pondo pra me pôr na cama
907
Sophia de Mello Breyner Andresen
Enigmáticos, Desertos E Suspensos
Os espaços vermelhos do poente,
Países de completa maravilha,
Cobrem o campo morto dos destroços
Um por um morremos olhos fitos
No caminho dos deuses.
Países de completa maravilha,
Cobrem o campo morto dos destroços
Um por um morremos olhos fitos
No caminho dos deuses.
1 101
Sophia de Mello Breyner Andresen
Teu Passo Não Enraizou Nas Areias de Seda
Embora te iniciasse Ártemis
Quando atravessaste a roxa
Respiração da aurora tropical
Tomaste em tua mão o sopro
Como um fruto ou como um rosto
Nas palavras tupi procuraste o segredo
Extremo do lugar
Uma névoa velou o azul dos morros
As praias como braços se estendiam
No mar corriam todas as quadrigas
Atreladas em mão azul
Quando atravessaste a roxa
Respiração da aurora tropical
Tomaste em tua mão o sopro
Como um fruto ou como um rosto
Nas palavras tupi procuraste o segredo
Extremo do lugar
Uma névoa velou o azul dos morros
As praias como braços se estendiam
No mar corriam todas as quadrigas
Atreladas em mão azul
1 388
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Poema E a Casa
Paramos devagar entre paredes brancas
Entre mobílias escuras e as janelas verdes
Um longo instante paramos em frente
Das mil luzes e mil estátuas do poente
Entre mobílias escuras e as janelas verdes
Um longo instante paramos em frente
Das mil luzes e mil estátuas do poente
1 151
Sophia de Mello Breyner Andresen
Cada Manhã o Alvoroço da Luz
Me acorda: a luz atravessa a paisagem e a casa
— A dormir tinha esquecido não as coisas
Mas sua meticulosa beleza
Múltipla
No princípio Deus disse
Faça-se a luz
— E com a luz da manhã o mundo principia
Digo a luz e não o sol
Nos dias de nevoeiro emergem formas brancas
Aqui e além como se vogassem
Numa deriva cismadora e serena
Nos dias de sol os ciprestes enegrecem
E ao longe brilha o regozijo das vidraças
1987
— A dormir tinha esquecido não as coisas
Mas sua meticulosa beleza
Múltipla
No princípio Deus disse
Faça-se a luz
— E com a luz da manhã o mundo principia
Digo a luz e não o sol
Nos dias de nevoeiro emergem formas brancas
Aqui e além como se vogassem
Numa deriva cismadora e serena
Nos dias de sol os ciprestes enegrecem
E ao longe brilha o regozijo das vidraças
1987
1 351
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. À Luz do Aparecer a Madrugada
À luz do aparecer a madrugada
Iluminava o côncavo de ausentes
Velas a demandar estas paragens
Aqui desceram as âncoras escuras
Daqueles que vieram procurando
O rosto real de todas as figuras
E ousaram — aventura a mais incrível —
Viver a inteireza do possível
1977
Iluminava o côncavo de ausentes
Velas a demandar estas paragens
Aqui desceram as âncoras escuras
Daqueles que vieram procurando
O rosto real de todas as figuras
E ousaram — aventura a mais incrível —
Viver a inteireza do possível
1977
642
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Cigarras
Com o fogo do céu a calma cai
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao mais extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras do que o mar
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao mais extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras do que o mar
1 153
Sophia de Mello Breyner Andresen
Manhã
Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A frescura do centro
Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro
Aberto pelo meio
A frescura do centro
Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro
1 545
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Minha Esperança Mora
No vento e nas sereias —
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias.
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias.
1 474
Adélia Prado
Sinal No Céu
É um tom de laranja
sobre os montes
um pensamento inarticulado
de que a Virgem
pôs o mundo no colo
e passeia com ele nos rosais.
sobre os montes
um pensamento inarticulado
de que a Virgem
pôs o mundo no colo
e passeia com ele nos rosais.
1 430
Adélia Prado
O Oráculo
A luz arcaica,
a que antes de tudo
no coração da treva preexistia,
é a iminente aurora
que do topo do mundo
o galo anuncia.
Dão medo
seus olhos amarelos multimóbiles.
Olhando fixo pra lugar nenhum,
bruto como um profeta
o galo anuncia.
a que antes de tudo
no coração da treva preexistia,
é a iminente aurora
que do topo do mundo
o galo anuncia.
Dão medo
seus olhos amarelos multimóbiles.
Olhando fixo pra lugar nenhum,
bruto como um profeta
o galo anuncia.
1 205
António Ramos Rosa
Ao Vento Leve do Sol
Ao vento leve do sol
num verde e fresco entusiasmo
propagando o antes em nova agilidade
no esplendor da espiral levíssima.
num verde e fresco entusiasmo
propagando o antes em nova agilidade
no esplendor da espiral levíssima.
998
António Ramos Rosa
Na Conjunção Radiosa do Habitar
Na conjunção radiosa do habitar
as distâncias fluem
no nunca afirmado esplendor
de rajadas sedentas e solares.
as distâncias fluem
no nunca afirmado esplendor
de rajadas sedentas e solares.
1 054
António Ramos Rosa
O Movimento do Repouso
O movimento do repouso
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
1 105
António Ramos Rosa
A Duna
A duna
ou quando
o sol
do sangue
ou quando
o sol
do sangue
497
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