Recomeço e Renascimento
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Fontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ressurgiremos
E em Delphos centro do mundo
Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta
Ressurgiremos ali onde as palavras
São o nome das coisas
E onde são claros e vivos os contornos
Na aguda luz de Creta
Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo
São o reino do homem
Ressurgiremos para olhar para a terra de frente
Na luz limpa de Creta
Pois convém tornar claro o coração do homem
E erguer a negra exactidão da cruz
Na luz branca de Creta
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ingrina
É esse o tempo a que regresso no perfume do orégão, no grito da cigarra, na omnipotência do sol. Os meus passos escutam o chão enquanto a alegria do encontro me desaltera e sacia. O meu reino é meu como um vestido que me serve. E sobre a areia sobre a cal e sobre a pedra escrevo: nesta manhã eu recomeço o mundo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Depois da Cinza Morta Destes Dias
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Apesar Das Ruínas E da Morte
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Helena Amin
Manhã
Espirais de luz...
Múltiplas faces!
Cala em mim
a corrosão do desencanto.
Dá-me o direito
de tê-la assim:
desejada e liberta
— infinitamente! —
Stela do Patrocínio
Eu sobrevivi do nada
Eu não existia
Não tinha existência
Não tinha uma matéria
Comecei a existir com quinhentos milhões
e quinhentos mil anos
Logo de uma vez, já velha
Eu não nasci criança, nasci já velha
Depois é que eu virei criança
...
Carlos Drummond de Andrade
Áporo
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha.
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Fonte
A renascermos incessantemente
Na luz do antigo sol nu e recente
E no sussurro da noite primitiva
Sophia de Mello Breyner Andresen
Acaia
E sacudi de meus passos a poeira do desencontro
Sophia de Mello Breyner Andresen
Maria Natália Teotónio Pereira
O sol e o vento da canção
Agora jaz no silêncio terrestre
Oculta na ressurreição
Porque em seu viver nascia
Porque estando era procura
Sua imagem permanece
Não passada mas futura
Sempre que rio e confio
E passo além do meu pranto
A sua presença irrompe
Erguida em nós como canto
Aquela que agora jaz
Como semente no chão
Ergue no vento seu riso
Transpõe a destruição
Sophia de Mello Breyner Andresen
Movimento
Liberta de repente as linhas presas
E o jardim evadido dos seus traços
Sobe cambaleando nos espaços.
Era esta a partida que eu buscava,
Este o rumor de fuga que vibrava
Nos muros da prisão que me prendia.
Era este o tumulto que dormia
Na aparente quietude das folhagens,
Era este o destino que me unia
À suspensão vibrante das paisagens.
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do mar", pág. 77 | Edições Ática, 1974
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Erros
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos
Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado a abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?
1975
Sophia de Mello Breyner Andresen
Revolução
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
27 de Abril de 1974
António Tomé
Colecionador de Quimeras
começam a morder-me
ponho-lhes a trela
saio à rua a passea-las
e deixo-as ladrar
ao tédio transeunte.
Depois ponho-lhes asas
e deixo-as voar
como pássaros
em busca de primaveras
imprevisíveis.
Angela Santos
Odes de Luz
acordando uma saudade antiga…
manhãs de sol, a orla da praia
luz e cores pela alma bebidas
e o tempo a escoar-se lento
num vago murmúrio de eras perdidas
ressurgindo, assim, o canto e o sol
odes de luz reflectiam…
os olhos curados renegavam sombras
e outra vez e outra
acreditar podiam.
Angela Santos
Transparências
bruma
de um qualquer horizonte
não me quero perder
pelo sonho se vislumbra já
novo oriente das descobertas.
Pedras raras, essências,
sedas naturais num corpo
porto e navio…
ò transparências matinais
aqui vos aguardo…
levantar ferros, navegar
esse é o destino.
Nana Corrêa de Lima
Sonhos de Baú
Janeiro floresce.
Os galhos dos dias abrem-se um a um
em melodia preguiçosa e sonolenta.
Os sonhos de dezembro
são relíquias cuidadosamente guardadas
em um velho baú.
Utopias do florir do ano....
Manuel Geraldo
Memória I
Cérebros e ventres
Napalm e capim
Gatilho de arma
Espoleta e granada
Crâneos desfeitos
Vomitar de náuseas
Capim em fogo
Homens e gritos
Estoiros e rajadas
Vómitos de sangue
Alienação de um povo
Barco de fumo
Voltar à terra
Nascer de novo
Donizete Galvão
Trajetória
fundou um reino
criou um pai
fez um leito
de pedra
para o corpo
de cristal
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 30
Na serra aliamos as tendas, aquecemos
música. A luz é da tribo, a Grande Pedra
escuta. Somo xamãs foragidos da pele da
Cidade, despidos do Futuro junto ao rio.
Vamos aprender a fabricar-nos alimentos,
esquecer digitalmente o Sucesso, renascer as
mãos na utopia. Neste mundo deus vai dançar.
Herberto Helder
Olhos Ávidos
áridos olhos quando tudo tem de ser novo para de novo ser soberbo,
e é esse o êrro de que ressuscito:
e depois morro
Renato Rezende
Piazza San Marco
de pombas
de gôndolas
no entanto o ar está fresco
e como se pela primeira vez
o sol nasce
Veneza, julho 1984 --
São Paulo, abril 1996
Renato Rezende
Dentro do Mar
nós quatro
em silêncio
Onda vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Um vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Nós quatro
cada um quatro
cada quatro mil
em silêncio
lavando nossos passados
dentro do mar
infinito --
e o céu infinito
Cidade dos Arrecifes (Recife), 16 de novembro 1994
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