Raiva e Indignação

Poemas neste tema

João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Quando Chamam Joan'airas, Reedor, Bem Cuid'eu Logo

Quando chamam Joan'Airas, reedor, bem cuid'eu logo,
per boa fé, que mi chamam; mais a Nostro Senhor rogo
       que atal Demo o tome,
       per que me tolhem o nome.

Vêm Joam'Airas chamando per aqui todo o dia,
e eu vou, quand'o chamam; mais rog'eu a Santa Maria
       que atal Demo o tome,
       per que me tolhem o nome.
549
Afonso X

Afonso X

Dom Meendo

Dom Meendo, Dom Meendo,
por quant'ora eu entendo,
       quem leva o baio, nom leixa a sela.

Amigo de Souto Maior,
daquesto sõo sabedor:
       quem leva o baio, nom leixa a sela.

Dom Meendo de Candarei,
per quant'eu de vós apres'hei,
       quem leva o baio, nom leixa a sela.
642
Ademir Assunção

Ademir Assunção

Sol Negro

tenho gritado raios elétricos, chuvas
que não passam, maremotos, tremores e ruínas

grito: e meu grito ilumina
toda a cidade de campinas

grito: e meu grito desespera
todos os torcedores da ponte preta

grito: e o sol rola em slow motion
como uma cabeça tarahumara, em direção ao gol,

deixando um rastro de incêndio no gramado
713
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Ah

dor de flamingo.
dedos queimados tentando
acender o final desta
bituca.
em um lugar descrito
por mulheres apavoradas
com dinheiro em suas bolsas
como "buraco de rato".
"vocês podem cuspir no chão aqui",
eu lhes digo.
mas não, a
uma distância
segura, parece que
preferem discutir
minha poesia.
586
Charles Bukowski

Charles Bukowski

um

o coração ruge como um leão
diante do que nos fizeram
1 272
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Projeto póstumo

Se
quando morta
me fizerem busto
volto
pomba gentil
e
cago nele.
1 207
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Pistoia

Como podiam guerrear aqui
entre castelos e vinhedos?
Atirar granadas, estuprar camponesas
como podiam?
Sangue nenhum torna tão fértil a terra
que faça brotar sob essas cruzes
o que morreu, o que morreu
naquela áspera estação.
1 101
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Isto

Falam sobre isto.
Discursam sobre isto.
E, no entanto,
nem por isto.
1 029
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXX

Qual o trabalho forçado
de Hitler no inferno?

Pinta paredes ou cadáveres?
Ou fareja o gás de seus mortos?

Lhe dão de comer as cinzas
de tantos meninos calcinados?

Ou lhe deram desde sua morte
de beber sangue em um funil?

Ou lhe martelam na boca
os arrancados dentes de ouro?
902
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XVIII

Como conheceram as uvas
a propaganda do cacho?

E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?

É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?

E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?

Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
970
Robert Frost

Robert Frost

Há quem diga que o mundo vai acabar em chamas

Há quem diga que o mundo vai acabar em chamas,
Há quem diga que em gelo.
Pelo que me foi dado experimentar do desejo
Estou do lado dos que preferem o fogo.
Mas se ele viesse a perecer duas vezes,
Julgo conhecer do ódio o bastante
Para dizer que para destruição o gelo
Também é bom
E era quanto bastava.
2 581
José Saramago

José Saramago

Demissão

Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.
1 155
José Saramago

José Saramago

Fraternidade

A qual de nós engano quando irmão
Nestes versos te chamo?
Não são irmãs as folhas que do chão
Olham outras no ramo.
Melhor é aceitar a solidão,
Viver iradamente como o cão
Que remorde o açamo.
1 261
José Saramago

José Saramago

Como Um Vidro Estalado

Como um vidro estalado. A quem me ler
Não direi, já agora, se esta imagem
Vem serena dos ramos que perderam
As folhas contra o céu, ou se mastigo
Qualquer raiva escondida.
Como doendo, ou sendo, ou mastigando,
Sejam rendas aéreas, alma ferida,
Fecho, brusco, o poema onde não digo.
522
José Saramago

José Saramago

Duas Pedras de Sal

Duas pedras de sal sobre a pupila;
Os punhos bem cerrados, apertando
As agudas arestas do cristal;
Vem-me sangue na água, laivo brando,
Navegando nos olhos, enquanto o grito
Bate forte nos dentes que o degolam:
Ao tempo que o sorriso me disfarça
O rosnar, a ameaça, o cão de fila.
932
Martha Medeiros

Martha Medeiros

que você tenha tido um derrame

que você tenha tido um derrame
uma anorexia nervosa, uma falta súbita
de memória
que tenha tido suores noturnos
taquicardia, febre, envenenamento
que tenha tido trombose, hemorragia,
pneumonia dupla
que tenha tido tudo isso ao mesmo tempo
um glaucoma, uma tuberculose
uma perfuração no abdômem
sou muito boazinha mas não aceito
qualquer desculpa
914
Martha Medeiros

Martha Medeiros

me visto de vermelho

me visto de vermelho
a raiva tem essa cor


uma lança na mão
uma mancha no lençol


São Jorge
um dragão
um sonho solto


estou pronta para enfrentar
meu inferno zodiacal
1 046
Martha Medeiros

Martha Medeiros

sente minha raiva canibal

sente minha raiva canibal
te mordo te sinto te como
e como me fazes mal
801
Martha Medeiros

Martha Medeiros

para encontrar as origens do meu rosto

para encontrar as origens do meu rosto
muçulmano
revistei-me em aeroportos nebulosos
rasguei o véu que me encobria
descobri bombas e granadas no meu peito
tentei lentes azuis e corante no cabelo
nada feito explodi no bar da esquina
1 073
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ménades

As antigas Fúrias tinham as pupilas vermelhas
Os cabelos eriçados de serpentes
As mãos pesadas a boca sequiosa
De puro sangue a cara tatuada
1 117
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Nestes Últimos Tempos

Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo — de seu
Viscoso gozo da nata da vida — que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
Julho de 1976
1 128
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Electra

Os muros da casa dos Manon escorrem sangue
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.

O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.

Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras

Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.

O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.
1 300
Adélia Prado

Adélia Prado

A Diva

Vamos ao teatro, Maria José?
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
2 655
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Escravo Em Papelópolis

Ó burocratas!
Que ódio vos tenho, e se fosse apenas ódio...
É ainda o sentimento
da vida que perdi sendo um dos vossos.
1 187