Memórias e Lembranças
Poemas neste tema
Luís Filipe Maçarico
No Cripto-pórtico de Mértola
I
Quantos ditosos
trazendo flor de oliva
em seus cabelos
provaram do teu pão,
ó prodigioso celeiro?
II
Quantas bocas
sarracenas se
dessedentaram
em tua água silvestre,
ó rumorosa cisterna?
III
Quanta fatal decisão
em nome da Santa Cruz
no teu ventre vazou
proscritos,
ó sombria prisão?
(Mértola, 1994)
Quantos ditosos
trazendo flor de oliva
em seus cabelos
provaram do teu pão,
ó prodigioso celeiro?
II
Quantas bocas
sarracenas se
dessedentaram
em tua água silvestre,
ó rumorosa cisterna?
III
Quanta fatal decisão
em nome da Santa Cruz
no teu ventre vazou
proscritos,
ó sombria prisão?
(Mértola, 1994)
1 269
4
Lya Luft
Mirada Secreta
Foram-se
os amores que tive
Ou me tiveram. Partiram
Num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
A não acreditar na morte
Nem demais na vida: cultivo
Segredos num jardim
Onde estamos eu, os sonhos idos,
Os velhos amores e os seus recados,
E os olhos deles que ainda brilham
Como pedras de cor entre as raízes.
os amores que tive
Ou me tiveram. Partiram
Num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina
A não acreditar na morte
Nem demais na vida: cultivo
Segredos num jardim
Onde estamos eu, os sonhos idos,
Os velhos amores e os seus recados,
E os olhos deles que ainda brilham
Como pedras de cor entre as raízes.
3 225
4
Guilherme de Almeida
Haicai
Infância
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
Cigarra
Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
Cigarra
Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.
4 256
4
Fiama Hasse Pais Brandão
Os amigos que morrem
Os amigos que morrem são arbóreos,
plantados e memoráveis como freixos.
Um freixo, que vejo entre árvores
como a aura, o tronco novo
sulcado de rasgões, a raiz curta
comparável à memória viva enterrada.
Têm uma única forma até à morte, próximos do Sol,
que torna as outras árvores mais ténues que os isolados freixos.
plantados e memoráveis como freixos.
Um freixo, que vejo entre árvores
como a aura, o tronco novo
sulcado de rasgões, a raiz curta
comparável à memória viva enterrada.
Têm uma única forma até à morte, próximos do Sol,
que torna as outras árvores mais ténues que os isolados freixos.
1 947
4
Castro Alves
A Maria Candinha
QUANW EU leio o teu nome embalsamado
Das magnólias do sul sinto o perfume,
Ouço a harmonia do violão magoado,
Vejo a luz singular do vaga-lume!
Das magnólias do sul sinto o perfume,
Ouço a harmonia do violão magoado,
Vejo a luz singular do vaga-lume!
3 270
4
Eugénio de Andrade
Casa na chuva
A chuva,outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar:Ouves?
Oiço,mãe,é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.
de Escrita da Terra
Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar:Ouves?
Oiço,mãe,é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.
de Escrita da Terra
7 708
4
Alex Polari
Idílica Estudantil
Nossa geração teve pouco tempo
começou pelo fim
mas foi bela a nossa procura
ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta.
começou pelo fim
mas foi bela a nossa procura
ah! moça, como foi bela a nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta.
3 223
4
Eugénio de Andrade
Pequena elegia de setembro
Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
de Coração de Dia
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
de Coração de Dia
9 436
4
Eugénio de Andrade
Que diremos ainda?
Vê como de súbito o céu se fecha
sobre dunas e barcos,
e cada um de nós se volta e fixa
os olhos um no outro,
e como deles devagar escorre
a última luz sobre as areias.
Que diremos ainda? Serão palavras,
isto que aflora aos lábios?
Palavras?,este rumor tão leve
que ouvimos o dia desprender-se?
Palavras,ou luz ainda?
Palavras,não.Quem as sabia?
Foi apenas lembrança doutra luz.
Nem luz seria,apenas outro olhar.
de Mar de Setembro
sobre dunas e barcos,
e cada um de nós se volta e fixa
os olhos um no outro,
e como deles devagar escorre
a última luz sobre as areias.
Que diremos ainda? Serão palavras,
isto que aflora aos lábios?
Palavras?,este rumor tão leve
que ouvimos o dia desprender-se?
Palavras,ou luz ainda?
Palavras,não.Quem as sabia?
Foi apenas lembrança doutra luz.
Nem luz seria,apenas outro olhar.
de Mar de Setembro
6 610
4
Carlos de Oliveira
Infância
Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.
de Cantata
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.
de Cantata
2 688
4
Fernando Pessoa
Eu amo tudo o que foi,
Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
1931
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.
1931
11 051
4
Fernando Pessoa
Momento imperceptível,
Momento imperceptível,
Que coisa foste, que há
Já em mim qualquer coisa
Que nunca passará?
Sei que, passados anos,
O que isto é lembrarei,
Sem saber já o era,
Que até já o não sei.
Mas, nada só que fosse,
Fica dele um ficar
Que será suave ainda
Quando eu o não lembrar.
05/09/1933
Que coisa foste, que há
Já em mim qualquer coisa
Que nunca passará?
Sei que, passados anos,
O que isto é lembrarei,
Sem saber já o era,
Que até já o não sei.
Mas, nada só que fosse,
Fica dele um ficar
Que será suave ainda
Quando eu o não lembrar.
05/09/1933
4 834
4
Reynaldo Bessa
um dia
um dia
caminhei descalço por entre as poças
deixadas pela chuva.
meus pés balançavam as estrelas,
baldeava o céu
relampejava e eu não tinha medo.
como pode alguém com fome
ter medo de relâmpagos?
caminhei descalço por entre as poças
deixadas pela chuva.
meus pés balançavam as estrelas,
baldeava o céu
relampejava e eu não tinha medo.
como pode alguém com fome
ter medo de relâmpagos?
1 167
3
Adélia Prado
Solar
Minha mãe cozinhava exatamente:
arroz, feijão-roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava.
arroz, feijão-roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava.
6 156
3
Sophia de Mello Breyner Andresen
Varandas
É na varanda que os poemas emergem
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste — quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha
Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste — quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha
Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade
3 062
3
Florbela Espanca
Cantigas Leva-As o Vento...
A lembrança dos teus beijos
Inda na minh’alma existe,
Como um perfume perdido,
Nas folhas dum livro triste.
Perfume tão esquisito
E de tal suavidade,
Que mesmo desapar’cido
Revive numa saudade!
Inda na minh’alma existe,
Como um perfume perdido,
Nas folhas dum livro triste.
Perfume tão esquisito
E de tal suavidade,
Que mesmo desapar’cido
Revive numa saudade!
6 045
3
Adélia Prado
Explicação de Poesia Sem Ninguém Pedir
Um trem de ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.
11 520
3
Ferreira Gullar
No corpo
De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.
4 186
3
José Tolentino Mendonça
Esplanadas
Um sofrimento parecia revelar
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo
por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo
por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria
1 994
3
Emily Dickinson
CEMITÉRIO
Este pó foram damas, cavalheiros,
Rapazes e meninas;
Foi riso, foi espírito e suspiro,
Vestidos e tranças finas.
Este lugar foram jardins que abelhas
E flores alegraram.
Findo o verão, findava o seu destino...
E como estes, passaram.
Rapazes e meninas;
Foi riso, foi espírito e suspiro,
Vestidos e tranças finas.
Este lugar foram jardins que abelhas
E flores alegraram.
Findo o verão, findava o seu destino...
E como estes, passaram.
3 169
3
Eugénio de Andrade
Há dias
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.
de Os lugares de Lume
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.
de Os lugares de Lume
9 044
3
Fernando Pessoa
Quando era criança
Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.
E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.
Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.
02/10/1933
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.
E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.
Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.
02/10/1933
7 813
3
Fernando Pessoa
Pobre velha música!
Pobre velha música!
Não sei porque agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
Não sei porque agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.
Recordo outro ouvir-te.
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.
Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
6 011
3
Fernando Pessoa
Não a ti, Cristo, odeio ou menosprezo
Ouço, como se o cheiro
De flores me acordasse...
É música – um canteiro
De influência e disfarce.
Impalpável lembrança,
Sorriso de ninguém,
Com aquela esperança
Que nem esperança tem...
Que importa, se sentir
É não se conhecer?
Ouço, e sinto sorrir
O que em mim nada quer.
21/08/1933
De flores me acordasse...
É música – um canteiro
De influência e disfarce.
Impalpável lembrança,
Sorriso de ninguém,
Com aquela esperança
Que nem esperança tem...
Que importa, se sentir
É não se conhecer?
Ouço, e sinto sorrir
O que em mim nada quer.
21/08/1933
4 765
3
Português
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