Liberdade

Poemas neste tema

Martha Medeiros

Martha Medeiros

Sou Uma Gata

sou uma gata
que cruza
outros gatos
na rua


quem vê gata
assanhada
logo fica
engatado
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ix. Como É Estranha a Minha Liberdade

Como é estranha a minha liberdade
As coisas deixam-me passar
Abrem alas de vazio pra que eu passe
Como é estranho viver sem alimento
Sem que nada em nós precise ou gaste
Como é estranho não saber
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Rosa Luxemburgo

Rosa Luxemburgo

Quem não se move não sente as correntes que o prendem

Quem não se move não sente as correntes que o prendem.
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Joaquim Namorado

Joaquim Namorado

Fábula

No tempo em que os animais falavam.
Liberdade!
Igualdade!
Fraternidade!

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Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

A história da moral

Você tem-me cavalgado
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá--lo.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Câmara Municipal

Aqui se fazem leis
aqui se fazem tramas
aqui se fazem discursos
aqui se cobra imposto
aqui se paga multa
aqui se julgam réus
aqui se guardam presos
ensardinhados em cubículos.
Os presos fazem gaiolas
para que também os pássaros fiquem presos
dentro e fora dos cubículos
musicalando a vida.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Eu Falo da Primeira Liberdade

Eu falo da primeira liberdade
Do primeiro dia que era mar e luz
Dança, brisa, ramagens e segredos
E um primeiro amor morto tão cedo
Que em tudo que era vivo se encarnava.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Quarto

No quarto roemos o sabor da fome
A nossa imaginação divaga entre paredes brancas
Abertas como grandes páginas lisas
O nosso pensamento erra sem descanso pelos mapas
A nossa vida é como um vestido que não cresceu connosco
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Catilina

Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.

De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu — coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.

Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.

E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pr’além do nó de angústia mais convulso.
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Adão Ventura

Adão Ventura

Agora

É hora
de amolar a foice
e cortar o pescoço do cão.

— Não deixar que ele rosne
nos quintais
da África.

É hora
de sair do gueto/eito
senzala
e vir para a sala
— nosso lugar é junto ao Sol.

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Mário Dionísio

Mário Dionísio

Pior que não cantar

Pior que não cantar
é cantar sem saber o que se canta

Pior que não gritar
é gritar só porque um grito algures se levanta

Pior que não andar
é ir andando atrás de alguém que manda

Sem amor e sem raiva as bandeiras são pano
que só vento electriza
em ruidosa confusão
de engano

A Revolução
não se burocratiza
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Arménio Vieira

Arménio Vieira

Isto é que fazem de nós

E perguntam-nos:
- sois homens?
Respondemos:
- animais de capoeira.
Dizem-nos:
- bom dia.
Pensamos:
lá fora...

Isto é que fazem de nós
quando nos inquirem:
- estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
- dormimos.
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Charles Baudelaire

Charles Baudelaire

ORAÇÃO

Glória e louvor a ti, Satã, nas amplidões
Do céu, em que reinaste, e nas escuridões
Do inferno, em que, vencido, sonhas com prudência!
Deixa que eu, junto a ti sob a Árvore da Ciência,
Repouse, na hora em que, sobre a fronte, hás de ver
Seus ramos como um Templo novo se estender!

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Manuela Amaral

Manuela Amaral

Rebeldia

Soltem-me
as algemas

Quero
a minha alma livre
meu corpo livre
meu pensamento livre

Esbofetear o mundo
e cuspir
na vida.



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Joaquim Namorado

Joaquim Namorado

Legenda para a vida de um vagabundo

Nasci vagabundo em qualquer país,
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais de dez a matar.

O caminho é longo!…
— Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente…
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais senão possa dar.

(in Antologia de Poetas Alentejanos)

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Helena Amin

Helena Amin

Manhã

Estais de volta!
Espirais de luz...
Múltiplas faces!

Cala em mim
a corrosão do desencanto.
Dá-me o direito
de tê-la assim:
desejada e liberta
— infinitamente! —

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Luís Veiga Leitão

Luís Veiga Leitão

Manhã

— Bom-dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço... apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.

Vômito insuportável de ironia
Bom-dia, por que bom-dia?

Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite, ninguém mora,
deite esse bom-dia lá fora
porque lá fora é que é dia!

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quero dos deuses só que me não lembrem.

Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre — sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.
A quem deuses concedem
Nada, tem liberdade.

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Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Zumbi Saldo

Zumbi, meu Zumbi.
Hoje meu coração eu arranco
Zumbi hoje eu fui ao banco
E ainda estou presa
Escuto os seus sinos
e ainda estou presa na senzala Bamenrindus
Presa definitivamente
Presa absolutamente
à minha conta
corrente.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Liberdade

O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
— Sílaba por sílaba —
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
— Como se os deuses o dessem
O fazemos
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cidade

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Acaia

Aqui despi meu vestido de exílio
E sacudi de meus passos a poeira do desencontro
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Por Delicadeza

Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Dançarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também eu direi:

«Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida»
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