Guerra e Paz
Poemas neste tema
José Craveirinha
Carreira de Gaza
Escusado fazer pontaria.
Chusmas de rajadas acertam sempre.
Povo armado de maternitude e velhice
esgota a lotação das carreiras de Gaza
rumo à saudade de onde saiu.
Objectivo estratégico de maternitude
machibombo da carreira de Gaza
atingido em cheio calcinou.
A mãe que dava o peito ao bebé de três meses
foi removida assim mesmo.
Chusmas de rajadas acertam sempre.
Povo armado de maternitude e velhice
esgota a lotação das carreiras de Gaza
rumo à saudade de onde saiu.
Objectivo estratégico de maternitude
machibombo da carreira de Gaza
atingido em cheio calcinou.
A mãe que dava o peito ao bebé de três meses
foi removida assim mesmo.
3 570
1
José Craveirinha
Eles foram lá
Vovó
amanhã não precisa
ir ao hospital.
Ontem eles foram lá
deram maningue tiros
partiram tudo, tudo
mataram doentes
mutilaram o senhor enfermeiro
e violaram a senhora parteira.
Outros doentes privilegiados
foram carregar na cabeça
farinha açucar e arroz
da cooperativa
...
Foram."
amanhã não precisa
ir ao hospital.
Ontem eles foram lá
deram maningue tiros
partiram tudo, tudo
mataram doentes
mutilaram o senhor enfermeiro
e violaram a senhora parteira.
Outros doentes privilegiados
foram carregar na cabeça
farinha açucar e arroz
da cooperativa
...
Foram."
4 740
1
Susana Pestana
Huila
África
adormecida
nas pétalas capturadas da vida.
Sonho com o vermelho da terra
Nas cores de um planalto esquecido.
Mãe minha, mostra-me paz
nunca tocada e muita vez prometida.
Afasta essa mão branca
deixa-me dormir
nesta noite violada.
adormecida
nas pétalas capturadas da vida.
Sonho com o vermelho da terra
Nas cores de um planalto esquecido.
Mãe minha, mostra-me paz
nunca tocada e muita vez prometida.
Afasta essa mão branca
deixa-me dormir
nesta noite violada.
904
1
Rogaciano Leite Filho
Relógio
No tic-tac do tempo
o mundo passa.
Presa entre cordas
e correntes,
a mente se cala.
E a vida passa.
Sofrendo e morrendo
entre canhões e balas
o sangue se coalha.
E o tempo vai.
Correndo com fome
entre muros altos e duros
o homem se perde.
Mas, a vida passa.
o mundo passa.
Presa entre cordas
e correntes,
a mente se cala.
E a vida passa.
Sofrendo e morrendo
entre canhões e balas
o sangue se coalha.
E o tempo vai.
Correndo com fome
entre muros altos e duros
o homem se perde.
Mas, a vida passa.
1 162
1
Oswald de Andrade
O Capoeira
— Qué apanhá sordado?
— O quê?
— Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada.
— O quê?
— Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada.
10 871
1
Manuel Geraldo
Memória V
Numa alucinação
De credos vesgos
Milhares
de entre nós
Fora ceifados
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
De credos vesgos
Milhares
de entre nós
Fora ceifados
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
821
1
Manuel Geraldo
Memória IV
No chão
Pelo capim
Punhais afiados
Balas granadas
Surdos marchámos
Por matas
E picadas
Cedo chegámos
Gentios metralhámos
Pelo capim
Punhais afiados
Balas granadas
Surdos marchámos
Por matas
E picadas
Cedo chegámos
Gentios metralhámos
845
1
Manuel Geraldo
Memória III
Pardas
as noites
Bazucas rasantes
Uivos de medo
Palhotas queimadas
Silêncios vaiados
Rajadas em fúria
Velhos crianças
De corpos varados
as noites
Bazucas rasantes
Uivos de medo
Palhotas queimadas
Silêncios vaiados
Rajadas em fúria
Velhos crianças
De corpos varados
799
1
Manuel Geraldo
Memória I
Barco de fumo
Cérebros e ventres
Napalm e capim
Gatilho de arma
Espoleta e granada
Crâneos desfeitos
Vomitar de náuseas
Capim em fogo
Homens e gritos
Estoiros e rajadas
Vómitos de sangue
Alienação de um povo
Barco de fumo
Voltar à terra
Nascer de novo
Cérebros e ventres
Napalm e capim
Gatilho de arma
Espoleta e granada
Crâneos desfeitos
Vomitar de náuseas
Capim em fogo
Homens e gritos
Estoiros e rajadas
Vómitos de sangue
Alienação de um povo
Barco de fumo
Voltar à terra
Nascer de novo
933
1
Manuel Geraldo
Memória II
E à tarde
Os soldados voltavam
Traziam feridas
E balas a menos
Traziam memórias
De sonhos traídos
Traziam fadigas
De corpos caídos
Nos sacos e rostos
Traziam o regresso
Traziam memórias
Soldados sem armas
Voltavam em transe
Não eram os mesmos
Os soldados voltavam
Traziam feridas
E balas a menos
Traziam memórias
De sonhos traídos
Traziam fadigas
De corpos caídos
Nos sacos e rostos
Traziam o regresso
Traziam memórias
Soldados sem armas
Voltavam em transe
Não eram os mesmos
1 016
1
Epitácio Mendes Silva
Promessas
Promessas, guerras, conflitos,
fazem a hora da existência
e a certeza é uma só:
o amanhã será sombrio !
Promessa que não se cumpre
vai matando a esperança
e a guerra que busca a paz
traz a insegurança da paz.
Felizes os loucos e inocentes
que vivem das fantasias
e que das promessas não conhecem
o lado das traições.
fazem a hora da existência
e a certeza é uma só:
o amanhã será sombrio !
Promessa que não se cumpre
vai matando a esperança
e a guerra que busca a paz
traz a insegurança da paz.
Felizes os loucos e inocentes
que vivem das fantasias
e que das promessas não conhecem
o lado das traições.
893
1
Giuseppe Ungaretti
Vigília
Uma noite inteira
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia
com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor
Nunca me senti
tão
preso à vida.
atirado ao lado
de um camarada
massacrado
com a sua boca
desgrenhada
voltada à lua-cheia
com a congestão
das suas mãos
penetrada
no meu silêncio
escrevi
cartas plenas de amor
Nunca me senti
tão
preso à vida.
2 234
1
Fernando Pessoa
Um cansaço feliz, uma tristeza informe
Um cansaço feliz, uma tristeza informe
O meu espírito intranquilamente dorme.
Combati, fui o gládio e o braço e a intenção
E dói-me a alma na alma e no gládio e na mão...
Meu gládio está caído aos meus pés... um torpor
Impregna de cansaço a minha própria dor...
O meu espírito intranquilamente dorme.
Combati, fui o gládio e o braço e a intenção
E dói-me a alma na alma e no gládio e na mão...
Meu gládio está caído aos meus pés... um torpor
Impregna de cansaço a minha própria dor...
4 078
1
Herberto Helder
Quatro Poemas Árabes - Divisa
Conhecem-me os cavalos e a noite e os desertos
traiçoeiros e a guerra e as feridas e o papel e a pena.
traiçoeiros e a guerra e as feridas e o papel e a pena.
1 170
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Cavalo Alazão
Era um cavalo alazão, e à sua volta a batalha acendia-se como um tição de
coragem.
As crinas eram cor da flor da romãzeira e as orelhas tinham a forma das
folhas de mirto.
No peito, ao meio da cor vermelha, abria-se uma estrela branca, como as
bolhas claras que nascem numa taça de vinho rubro.
coragem.
As crinas eram cor da flor da romãzeira e as orelhas tinham a forma das
folhas de mirto.
No peito, ao meio da cor vermelha, abria-se uma estrela branca, como as
bolhas claras que nascem numa taça de vinho rubro.
1 084
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Cavalo Branco
Alvo como luz quando o sol se levanta — orgulhoso avançava, ajaezado com
a sela de ouro.
Vendo-o caminhar atrás de mim para a guerra, disse alguém:
«Quem pôs bridas à aurora com as Pléiades e selou o relâmpago com o
crescente lunar?»
a sela de ouro.
Vendo-o caminhar atrás de mim para a guerra, disse alguém:
«Quem pôs bridas à aurora com as Pléiades e selou o relâmpago com o
crescente lunar?»
911
Sérgio Medeiros
Tudo para atiçar o riso dos…
Coça-se o passarinho num fio diante do mar
Enquanto avançam recrutas correndo e vociferando
Pela praia iluminada
— o passarinho decerto compara o pelotão que se aproxima com as ondas do mar; e o vê afastar-se
— só diante do mar ele bica com determinação os seus piolhos
Enquanto avançam recrutas correndo e vociferando
Pela praia iluminada
— o passarinho decerto compara o pelotão que se aproxima com as ondas do mar; e o vê afastar-se
— só diante do mar ele bica com determinação os seus piolhos
712
Manuel Bandeira
O Major
O major morreu.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.
Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.
Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.
1 547
Marina Colasanti
Tempos de medo
Durante a guerra
no hotel em que morei
ouvíamos rádio
na sala de venezianas fechadas e
longo pano verde sobre a mesa.
Mas era Rádio Londres
e havia sempre perigo de polícia.
Do lado de fora
gente juntava diante da janela
para ouvir a voz vinda do inimigo.
Do lado de dentro
eu me escondia debaixo da mesa
criança a salvo
no útero de pano verde.
no hotel em que morei
ouvíamos rádio
na sala de venezianas fechadas e
longo pano verde sobre a mesa.
Mas era Rádio Londres
e havia sempre perigo de polícia.
Do lado de fora
gente juntava diante da janela
para ouvir a voz vinda do inimigo.
Do lado de dentro
eu me escondia debaixo da mesa
criança a salvo
no útero de pano verde.
1 094
Marina Colasanti
CINCO MÁRTIRES E UM CALIFA
Duas cimitarras e cinco
gargantas
cinco cabeças colhidas
no tênue caule dos corpos
cinco frades no Marrocos
e o Miramolim
que olha.
As vestes sobrepostas
se fundem na folhagem
fino fio de sangue borda as papoulas.
Os pés nus nas sandálias
encontram seu caminho.
gargantas
cinco cabeças colhidas
no tênue caule dos corpos
cinco frades no Marrocos
e o Miramolim
que olha.
As vestes sobrepostas
se fundem na folhagem
fino fio de sangue borda as papoulas.
Os pés nus nas sandálias
encontram seu caminho.
991
Marina Colasanti
MESSA AL DOM
L'antico gesto
la medesima lama
e la testa che vola
nella porta di bronzo
del Manzú.
Ruzzolano le teste
dalla storia
dai quadri
dagli affreschi
E mozze
ci raccontano chi siamo.
Salzburg 1995
la medesima lama
e la testa che vola
nella porta di bronzo
del Manzú.
Ruzzolano le teste
dalla storia
dai quadri
dagli affreschi
E mozze
ci raccontano chi siamo.
Salzburg 1995
953
Affonso Romano de Sant'Anna
Ansiedade, 1983
Eu vi um homem
matar um animal
e ninguém o defendeu.
Eu vi um homem
matar outro homem
e ninguém o defendeu.
Eu vi um povo
exterminar outro povo
e ninguém o defendeu.
Prevejo homens
destruindo o mundo inteiro
e ninguém para detê-los.
Ninguém.
Nem você nem eu.
Nem Deus.
matar um animal
e ninguém o defendeu.
Eu vi um homem
matar outro homem
e ninguém o defendeu.
Eu vi um povo
exterminar outro povo
e ninguém o defendeu.
Prevejo homens
destruindo o mundo inteiro
e ninguém para detê-los.
Ninguém.
Nem você nem eu.
Nem Deus.
1 035
Affonso Romano de Sant'Anna
Pistoia
Como podiam guerrear aqui
entre castelos e vinhedos?
Atirar granadas, estuprar camponesas
como podiam?
Sangue nenhum torna tão fértil a terra
que faça brotar sob essas cruzes
o que morreu, o que morreu
naquela áspera estação.
entre castelos e vinhedos?
Atirar granadas, estuprar camponesas
como podiam?
Sangue nenhum torna tão fértil a terra
que faça brotar sob essas cruzes
o que morreu, o que morreu
naquela áspera estação.
1 101
Affonso Romano de Sant'Anna
Espada de Pizarro
Eu vi a espada de Pizarro
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
na vitrina
de um museu em Lima.
Era fina.
Foi comprada por um peruano rico
de um americano rico
para o espanto de meus olhos pobres.
Eu vi a espada de Pizarro
– era fina –
numa tarde cinzenta em Lima.
Num museu podia ser um histórico ornamento.
Mas uma gota de sangue escorria
escorria no assoalho ainda.
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