Filhos

Poemas neste tema

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Otávio Tarquínio de Sousa

Não só no nome que brilha
Este é imperador e rei.
Pois tem n'alma, ó maravilha,
Dois tronos de ouro de lei:
- Lúcia esposa e Lúcia filha.
976
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Liliana

Para a filha (Feliciana?
Joana? Bibiana? Aureliana?
Ana? Mariana? Fabiana?
Herculana? Emerenciana?
Caetana? Diana? Damiana?
Justiniana? Sebastiana?
Valeriana? Taprobana?),
Para a filha de Liliana
E para a própria Liliana
Mando um beijo de pestana.
556
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Maria da Glória Chagas

Esta é Glória, esta é Maria;
Nome que é nome e renome.
Claro está que com tal nome
Será — fácil profecia —

Boa filha, boa irmã e
Boa esposa. Ó anjos, dai-
Lhe a gentileza da mãe,
A inteligência do pai.

Nesta vida transitória
Chagas tenha só no nome,
— Nome que é nome e renome —,
E tudo o mais seja glória.
754
Marina Colasanti

Marina Colasanti

A medida do pai

O filho primogênito
abaixa a cabeça
sempre que passa
por aquela porta.
O filho primogênito cresceu.

Alteie a porta,
digo para ele,
não abaixe a cabeça.

Não posso,
me responde,
já tentei, mas
a porta foi feita
e posta a viga
na minha antiga medida.

O filho primogênito cresceu
e a casa do pai
só lhe cabe
abaixando a cabeça.  


El Moro, Roma, 2001
1 053
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Austin, 1976

E como caminhássemos à beira-rio no entardecer
e a filha menor nos perguntasse
se antes de nascer
já nos amávamos à beira-rio
minha mulher
se adiantou
– Sim, filha, a gente se amou
à beira desse e de outros rios
antes
e depois de você
e, sobretudo, sem rio.
1 089
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o sentido da vida

o sentido da vida
é o que a gente sente


por um filho
que é a cara da gente


por um trabalho
que ocupa a mente


por um amor
que nos deixa doente


pena que isso não baste
por mais que se tente
1 281
Adélia Prado

Adélia Prado

Uma Pergunta

Vede como nossos filhos nos olham,
como nos lançam em rosto
uma conta que ignorávamos.
Não cariciosos, convertem em pura dor
a paixão que os gerou.
Por qual ilusão poderosa
nos veem assim tão maus,
a nós que, tal como eles,
buscamos a mesma mãe,
concha blindada a salvo de predadores.
991
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poema para a filha Maria

O espírito da vida estremeceu quando
No escuro percebi que eras tu, Maria,
A minha filha adorada, boa como o pão
e fonte de alegria
(ilegível)

Pareceu-me que era felicidade a mais ficares
Até altas horas decifrando o azul escuro
Dos rostos da noite e era para mim a inteira
Maria, bela, misteriosa, boa

E tudo em mim ficou confiança e amor partilhado
E Deus tinha derramado sobre nós
A benção da sua mais alta estrela
E a beleza da noite nos acompanha
Hoje onze de Agosto
E a noite parecia encantada



Poema inédito

Sophia já estava bastante doente quando escreve este poema
para a filha Maria, na noite de 11 de Agosto de 2002, em Lagos, Meia-Praia.


Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal, 2011
4 226
Dan Pagis

Dan Pagis

Escrito a lápis em um vagão de trem lacrado

Aqui neste vagão
eu Eva
com meu filho Abel
se virem meu primogênito
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu

("tradução" perpetrada por Ricardo Domeneck a partir das versões inglesa, espanhola e alemã.)

1 370
Kenneth Rexroth

Kenneth Rexroth

Metempsicose

Dois meses de vida e já passam
Pelo rosto da minha filha
Rostos há muito passados e mortos.
METEMPSYCHOSIS
Two months old, already
Across my daughter’s face
Pass faces long past and dead.
736
Eugénia Tabosa

Eugénia Tabosa

A gata

(A meu filho Carlos)

A gata branca tinha um olho verde e outro azul
mas para mim ela era como uma aranha.
Que pena eu tinha de a não amar,
que pena eu tinha do seu ronronar em mim não ter eco.
E sempre que a gata vinha eu ia
e ela ficava mais triste mais só.
Sim, ela tivera casa, almofada e mesmo um nome
depois nasceu um menino e ela foi para o quintal.
Como ela soube então que as noites eram azuis,
o luar, o cheiro da terra molhada e tudo o mais.
Mas um dia a casa ficou vazia.
Aqueles de quem ela tinha sido e seus se diziam
fizeram malas e levaram tudo o que havia,
foram-se deixando a porta fechada.
Só ela ficou, toda branca um olho verde outro azul.
Passaram noites, dias longos e silêncios.
Depois cheguei eu, as flores e os risos,
a casa enchera-se outra vez, mas ela não entrou.
Rondava, olhando-me como intrusa.
Passou o verão, houve noites de chuvas
Noites azuis e de estrelas que nevavam.
E numa delas chegou um menino, o meu menino.
Então amei-o, amei-o daquele amor à vida
transbordante e doce, até às coisas pequenas.
E quando um dia a gata se foi deitar
em meu casaco numa cadeira esquecido,
olhei-a e não a pude enxotar.

1 140
Madi

Madi

Espelho

Espelho

Chegará o tempo
em que irão olhar e enxergar em mim o seu rosto
Chegará o tempo
em que eu não vou precisar dizer o meu nome:
o seu estará escrito em minha vida,
claro, exposto, legível

878
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Paraíso

Amas,
Amas,
Amas,
Concebes.

Gestas,
Gestas,
Gestas,
Pares.

Vai, filho,
Não te aflija.

Vai ter com anjos,
No lugar que te recebem.

965
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Gravidade

A gravidez da menina
que um dia sonhava . . .

Na gravidade da terra
que gira, gira . . .

O homem grávido de idéias
e a menina sonhava . . .
Homem menina
na gravidade das horas
que giram.

Gravidade na palidez
do pai de família,

a censurar a gravidez
da menina.

864
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Lavra Dor

O lavrador
lavra a terra,
como quem gera
um filho.

A semente é o sêmen
fértil nascente,
que logo frutifica
e gera novos filhos.

O lavra dor
lavra a terra,
gera os filhos
e frutifica

E vive a paixão eterna
do pai pelo filho . . .

1 035
Luciano Matheus Tamiozzo

Luciano Matheus Tamiozzo

Anjinho

Uma fraca luminosidade
Adentra à porta
Então sorrateiramente
Da cama se aproxima.
Mamãe ao ver pergunta
Em um tom terno e afetivo:
Ainda não dormiu, meu anjinho?

909
Helena Ortiz

Helena Ortiz

Arrumando o Quarto

hoje mexi em tuas coisas
em tuas mínimas coisas
em teus pequenos vestidos
tuas sandalinhas
em pedaços de coisas
que ganhavam vida em tuas mãos
ouvi teus passos curtos
te reencontrei em gavetas fechadas
armários intocados
brinquedos mudos
chorei entre tuas roupas
e precisei me dizer
para não naufragar
não mexe aí, mamãe

984
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

For Simone

These hands of yours,
tiny little hands,
seaweeds in the silence,
bathed in light:
to what encounter,
tell me, daughter of mine,
to what fate
the fountain leads them?

920
Antonio Roberval Miketen

Antonio Roberval Miketen

A Simone

Essas mãos que tens,
pequeninas mãos,
algas no silêncio,
lavadas de luz:
para que encontro,
diz-me, filha minha,
para que destino,
a fonte as conduz?

758
Aldir Blanc

Aldir Blanc

Hefesto

Um dia inteiro
para
em queda livre
beijar o solo.

No tempo mitológico
o dia é a vida.

Os filhos que ficam
grudados na mãe
passam toda a vida
caindo.

1 582
António Gancho

António Gancho

Tu és mortal

Tu és mortal meu filho
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar

Tu és mortal meu anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte
virá de banjo
insinuar-se-te senhor

É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus
1 371
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VIII - Scarce five years passed ere I passed too.

Scarce five years passed ere I passed too.
Death came and took the child he found.
No god spared, or fate smiled at, so
Small hands, clutching so little round.
3 608
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