Felicidade e Alegria
Poemas neste tema
Adélia Prado
Impressionista
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
1 758
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ali, Então
Ali então em pleno mundo antigo
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo
(Como se a morte a dor o tempo e a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido)
Em nossas mãos a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras
A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido
E os poemas serão o próprio ar
— Canto do ser inteiro e reunido —
Tudo será tão próximo do mar
Como o primeiro dia conhecido
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo
(Como se a morte a dor o tempo e a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido)
Em nossas mãos a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras
A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido
E os poemas serão o próprio ar
— Canto do ser inteiro e reunido —
Tudo será tão próximo do mar
Como o primeiro dia conhecido
2 513
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dia
Meu rosto se mistura com o dia
Nuvens telhados ramagens e Dezembro
Apaixonada estou dentro do tempo
Que me abriga com canto e com imagens
Tão abrigada estou dentro da hora
Que nem lamento já a tarde antiga
Tudo se torna presente e se demora
Será que o dia me pede que eu o diga?
Nuvens telhados ramagens e Dezembro
Apaixonada estou dentro do tempo
Que me abriga com canto e com imagens
Tão abrigada estou dentro da hora
Que nem lamento já a tarde antiga
Tudo se torna presente e se demora
Será que o dia me pede que eu o diga?
1 803
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dia de Hoje
Ó dia de hoje, ó dia de horas claras
Florindo nas ondas, cantando nas florestas,
No teu ar brilham transparentes festas
E o fantasma das maravilhas raras
Visita, uma por uma, as tuas horas
Em que há por vezes súbitas demoras
Plenas como as pausas dum verso.
Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
Bailando na doçura
E na amargura
De serem perfeitas e de serem breves.
Florindo nas ondas, cantando nas florestas,
No teu ar brilham transparentes festas
E o fantasma das maravilhas raras
Visita, uma por uma, as tuas horas
Em que há por vezes súbitas demoras
Plenas como as pausas dum verso.
Ó dia de hoje, ó dia de horas leves
Bailando na doçura
E na amargura
De serem perfeitas e de serem breves.
3 571
1
Nuno Júdice
Chegar antes de ti
Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar:
com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa.
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.
1 858
1
Fernando Pessoa
Boca que tens um sorriso
Boca que tens um sorriso
Como se fosse um florir,
Teus olhos cheios de riso
Dão-me um orvalho de rir.
Como se fosse um florir,
Teus olhos cheios de riso
Dão-me um orvalho de rir.
3 087
1
Abu Nuwas
Com vinho, dizendo que é vinho, enche-me a taça,
Com vinho, dizendo que é vinho, enche-me a taça,
Pois beber furtivamente não há quem me faça.
Pobre e maldito é o tempo em que sóbrio fico,
Mas quando trôpego pelo vinho torno-me rico.
Não escondas por temor o nome do bem-amado;
O prazer verdadeiro nunca deve ser ocultado.
748
1
Fernando Tavares Rodrigues
Ímpar
Como é
ímpar
Na moldura de uma cama
Um par
Quando se ama!
ímpar
Na moldura de uma cama
Um par
Quando se ama!
1 110
1
Reinaldo Ferreira
Dos prazeres no céu
Dos prazeres no céu
Que Mahomet promete,
Não trocava sete
Só por este meu.
Ver, enquanto ceio,
Teu olhar, Suzette,
Como se reflecte
No meu copo cheio.
Assim, com certeza,
Por mais que a desdenhe,
Na vida há beleza
Enquanto há champagne.
Que Mahomet promete,
Não trocava sete
Só por este meu.
Ver, enquanto ceio,
Teu olhar, Suzette,
Como se reflecte
No meu copo cheio.
Assim, com certeza,
Por mais que a desdenhe,
Na vida há beleza
Enquanto há champagne.
1 938
1
Amândio César
Tudo
Em surdina chegaste
E em surdina te vais:
— Oh felicidade que baste,
Que nunca bastas de mais!
E eu queria que ficasses,
De tal maneira ficada,
Que nunca mais me trocasses
— Por nada!
E em surdina te vais:
— Oh felicidade que baste,
Que nunca bastas de mais!
E eu queria que ficasses,
De tal maneira ficada,
Que nunca mais me trocasses
— Por nada!
1 103
1
Renier Dias Pereira
Néctar
Néctar
Escrevo mas sei que essaspalavras não conseguirão traduzira felicidade que sinto agora
uma alegria tão grande, quenão se imagina o tamanho.
um batuque, um olhar, um sorrisozilhões de gestos cristalizamum prazer sem igual.
a cada encontro uma poesia únicaa chama da missão cumpridacontinua acesa esperando aspróximas conquistas
Escrevo mas sei que essaspalavras não conseguirão traduzira felicidade que sinto agora
uma alegria tão grande, quenão se imagina o tamanho.
um batuque, um olhar, um sorrisozilhões de gestos cristalizamum prazer sem igual.
a cada encontro uma poesia únicaa chama da missão cumpridacontinua acesa esperando aspróximas conquistas
965
1
Fernando Pessoa
Cada dia sem gozo não foi teu
Cada dia sem gozo não foi teu
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!
14/03/1933
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!
14/03/1933
2 416
1
Fernando Pessoa
SCHEHERAZAD
SCHEHRAZAD
O que eu penso não sei e é alegria
Pensá-lo; nada sou, salvo a harmonia
Interior entre existir e ouvir
A música cantar-te e dissuadir
Da vida e desta inútil atenção
Ao útil dada, mortal sensação
Real, passada
E à minha mente inutilmente dada.
26/11/1916
O que eu penso não sei e é alegria
Pensá-lo; nada sou, salvo a harmonia
Interior entre existir e ouvir
A música cantar-te e dissuadir
Da vida e desta inútil atenção
Ao útil dada, mortal sensação
Real, passada
E à minha mente inutilmente dada.
26/11/1916
4 016
1
Fernando Fitas
Havia um barco
Havia um barco
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.
O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã
Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
590
Nuno Fernandes Torneol
Ai Madr', o Meu Amigo Que Nom Vi
Ai madr', o meu amigo que nom vi
há gram sazom, dizem-mi que é 'qui,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
E sempr'eu punhei de lhi mal fazer,
mais, pois ora vẽo por me veer,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
Por quanta coita el por mi levou
nom lhi poss'al fazer, mais, pois chegou,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
há gram sazom, dizem-mi que é 'qui,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
E sempr'eu punhei de lhi mal fazer,
mais, pois ora vẽo por me veer,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
Por quanta coita el por mi levou
nom lhi poss'al fazer, mais, pois chegou,
madre, per bõa fé, leda m'and'eu.
561
João Soares Coelho
Fremosas, a Deus Louvado, Com Tam Muito Bem Como Hoj'hei
Fremosas, a Deus louvado, com tam muito bem como hoj'hei,
e do que sõo mais leda: ca todo quant'eu desejei
vi, quando vi meu amigo.
e do que sõo mais leda: ca todo quant'eu desejei
vi, quando vi meu amigo.
444
D. Dinis
Pois Que Diz Meu Amigo
Pois que diz meu amigo
que se quer ir comigo,
pois que a el praz,
praz a mi, bem vos digo,
est'é o meu solaz.
Pois diz que todavia
nos imos nossa via,
pois que a el praz,
praz-m'e vej'i bom dia,
est'é o meu solaz.
Pois m'e[n]de levar vejo
que est'é o seu desejo,
pois que a el praz,
praz-mi muito sobejo,
est'é o meu solaz.
que se quer ir comigo,
pois que a el praz,
praz a mi, bem vos digo,
est'é o meu solaz.
Pois diz que todavia
nos imos nossa via,
pois que a el praz,
praz-m'e vej'i bom dia,
est'é o meu solaz.
Pois m'e[n]de levar vejo
que est'é o seu desejo,
pois que a el praz,
praz-mi muito sobejo,
est'é o meu solaz.
600
D. Dinis
Amiga, Bom Grad'haja Deus
Amiga, bom grad'haja Deus
do meu amigo que a mi vem,
mais podedes creer mui bem,
quando o vir dos olhos meus,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
Haja Deus ende bom grado
porque o faz viir aqui,
mais podedes creer per mim,
quand'eu vir o namorado,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
do meu amigo que a mi vem,
mais podedes creer mui bem,
quando o vir dos olhos meus,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
Haja Deus ende bom grado
porque o faz viir aqui,
mais podedes creer per mim,
quand'eu vir o namorado,
que possa aquel dia veer
que nunca vi maior prazer.
743
Renato Rezende
Espera
Uma conversa que hoje escutei
me fez refletir
se sou realmente feliz.
Um moço disse à outro:
Eu realmente, realmente, realmente
quero....
Quando foi a última vez
que eu quis?
Deito-me dentro de mim mesmo
e espero.
Nova York, 8 de março 1996
me fez refletir
se sou realmente feliz.
Um moço disse à outro:
Eu realmente, realmente, realmente
quero....
Quando foi a última vez
que eu quis?
Deito-me dentro de mim mesmo
e espero.
Nova York, 8 de março 1996
1 051
Renato Rezende
Ao Menos
Houve um tempo
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
975
Renato Rezende
No Aeroporto
Todas essas milhares de pessoas
merecem amor e respeito.
Estamos todos tentando viver
da melhor maneira que sabemos.
Estamos todos querendo ser felizes.
Somos a flor da terra,
a coisa mais doce do planeta.
Sou eu e cada uma delas.
São Paulo, abril 1998
merecem amor e respeito.
Estamos todos tentando viver
da melhor maneira que sabemos.
Estamos todos querendo ser felizes.
Somos a flor da terra,
a coisa mais doce do planeta.
Sou eu e cada uma delas.
São Paulo, abril 1998
662
Simone Brantes
O sol na cama
O dedo na rama e o sol na cama:
quanto vale o dia de quem ama?,
quanto? passá-lo em sua faina de
amor lado a lado, moita, mão, e
o sol derramado?
quanto vale o dia de quem ama?,
quanto? passá-lo em sua faina de
amor lado a lado, moita, mão, e
o sol derramado?
778
Charles Bukowski
Começando Rápido
cada um de nós
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
1 113
Charles Bukowski
Milagre
acabei de ouvir uma
sinfonia que Mozart rabiscou
num único dia
e ela tinha uma dose de júbilo
louco e selvagem
capaz de durar
para sempre,
seja lá o que para sempre
for
Mozart chegou o mais próximo
possível
disso.
sinfonia que Mozart rabiscou
num único dia
e ela tinha uma dose de júbilo
louco e selvagem
capaz de durar
para sempre,
seja lá o que para sempre
for
Mozart chegou o mais próximo
possível
disso.
1 088
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