Estações do Ano (Primavera, Verão, Outono, Inverno)

Poemas neste tema

Marina Colasanti

Marina Colasanti

EM QUE TUDO

Cachorro preto contra
o muro branco
cerejeiras em flor
a lua no alto.
E são quatro da tarde neste inverno
de sol
em que tudo estremece
e é tão parado
1 200
Marina Colasanti

Marina Colasanti

IA NO RUMO DE SEVILHA

Subi o Guadalquivir
no meu cavalo de água
de um lado o trigo deitava
do outro o trigo caía
as foices cortavam rentes
e das mulheres nos campos
só havia uma que sorria.

Subi o Guadalquivir
e o verão subiu comigo
carregado de papoulas.
Levei cigarras na crina
levei saias de babados
mas os moços que encontrei
todos ficaram calados
1 068
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLVII

Ouves em meio do outono
detonações amarelas?

Por que razão ou sem razão
chora a chuva sua alegria?

Que pássaros ditam a ordem
da bandada quando voa?

De que suspende o beija-flor
sua simetria deslumbrante?
917
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXXII

Se todos os rios são doces
de onde tira sal o mar?

Como sabem as estações
que devem mudar de camisa?

Por que tão lentas no inverno
e tão palpitantes depois?

E como sabem as raízes
que devem subir para a luz?

Sempre é a mesma primavera
a que repete seu papel?

E logo saudar o ar
com tantas flores e cores?
987
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLVI

E como se chama esse mês
que está entre dezembro e janeiro?

Com que direito numeraram
as doces uvas do racimo?

Por que não nos deram extensos
meses que durem todo o ano?

Não te enganou a primavera
com beijos que não floresceram?
1 059
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LXXIII

Quem trabalha mais na terra,
o homem ou o sol ceresino?

Entre o abeto e a papoula
a quem a terra quer mais?

Entre as orquídeas e o trigo
para qual é a preferência?

Para uma flor para que tanto luxo
e um ouro sujo para o trigo?

Entra o outono legalmente
ou é uma estação clandestina?
1 007
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XVII

Percebeste que o outono
é como uma vaca amarela?

E como a besta outonal
é logo um escuro esqueleto?

E como o inverno acumula
tantos azuis lineares?

E quem pediu à primavera
sua monarquia transparente?
977
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XVI

Trabalham o sal e o açúcar
construindo uma torre branca?

É verdade que no formigueiro
os sonhos são obrigatórios?

Sabes que meditações
rumina a terra no outono?

(Por que não dar uma medalha
à primeira folha de ouro?)
848
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XV

Mas é verdade que se prepara
a insurreição dos coletes?

Por que outra vez a primavera
oferece seus vestidos verdes?

Por que ri a agricultura
do pálido pranto do céu?

Como logrou sua liberdade
a bicicleta abandonada?
993
Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

guarda-roupa

seu vestido de verão
sem você dentro
não é um vestido de verão
porque no vestido o verão
era você


Da série “Arquitetura de interiores”
1 113
José Saramago

José Saramago

Outono

Não é agora Verão, nem me regressam
Os dias indiferentes do passado.
Já Primavera errada se escondeu
Numa dobra do tempo amarrotado.
É tudo quanto tenho, um fruto só,
Sob o calor de Outono amadurado.
1 166
José Saramago

José Saramago

Nuas, As Faias

Nuas, as faias nem memória têm
Da prata luarenta que as cobriu
(Que primavera é esta, que ternura
Vem soltar-me das mãos a mão do frio?)
1 059
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Inverno

Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa

Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco
Inverno de 1999
1 712
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Canção do Amor Primeiro

Tão jovem o Tempo
Tudo amanhecia
O loiro do rosto
Sob o negro da noite
Desde sempre o sabia

O loiro do rosto
A dança do cabelo
Doirado sobre a testa
Sob o choupo escondidos
Como sob floresta

E o loiro do cabelo
A voar na testa
E o linho do rosto
Entre os brilhos da festa

Tão jovem o Tempo
Que tudo luzia
De espanto e surpresa
Redonda a maçã
Que parecia acesa

Era Junho e o perfume
Da rosa e seu lume
1 175
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Estações do Ano

Primeiro vem Janeiro
Suas longínquas metas
São Julho e são Agosto
Luz de sal e de setas

A praia onde o vento
Desfralda as barracas
E vira os guarda-sóis
Ficou na infância antiga
Cuja memória passa
Pela rua à tarde
Como uma cantiga

O verão onde hoje moro
É mais duro e mais quente
Perdeu-se a frescura
Do verão adolescente

Aqui onde estou
Entre cal e sal
Sob o peso do sol
Nenhuma folha bole
Na manhã parada
E o mar é de metal
Como um peixe-espada
1 942
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Fotografias

Era quase no inverno aquele dia
Tempo de grandes passeios
Confusamente agora recordados —
A estrada atravessava a serra pelo meio
Em rugosos muros de pedra e musgo a mão deslizava —
Tempo de retratos tirados
De olhos franzidos sob um sol de frente
Retratos que guardam para sempre
O perfume de pinhal das tardes
E o perfume de lenha e mosto das aldeias
1 314
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Paixão Nua

A paixão nua e cega dos estios
Atravessou a minha vida como rios
1 594
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Um Pálido Inverno

Um pálido inverno escorria nos quartos
Brancos de silêncio como a névoa
Um frio azul brilhava no vidro das janelas
As coisas povoavam os meus dias
Secretas graves nomeadas
1 085
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Cigarras

Com o fogo do céu a calma cai
No muro branco as sombras são direitas
A luz persegue cada coisa até
Ao mais extremo limite do visível
Ouvem-se mais as cigarras do que o mar
1 153
Adélia Prado

Adélia Prado

A Madrugada Suspensa

A fria estação recobre a terra
com a pele dos sonhos.
Insinuado apenas, tudo se equivale
na maciez cinzenta.
Nada é voraz.
A nevoenta cortina trata a luz com brandura,
quanto mais baça, tanto mais eterno
o halo reflexo no vapor suspenso.
Sorvo encolhida a gélida beleza,
meu respirar transvaza convertido,
ele também, em pura e só neblina.
1 038
Adélia Prado

Adélia Prado

Aura

Em maio a tarde não arde
em maio a tarde não dura
em maio a tarde fulgura.
1 482
Adélia Prado

Adélia Prado

Tentação Em Maio

Maio se extingue
e com tal luz
e de tal forma se extingue
que um pecado oculto me sugere:
não olhe porque maio não é seu.
Ninguém se livra de maio.
Encantados todos viram as cabeças:
Do que é mesmo que falávamos?
De tua luz eterna, ó maio,
rosa que se fecha sem fanar-se.
1 254
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Indagação

Na morta biosfera,
o fantasma do pássaro
inquiriu
ao fantasma da árvore
(que não lhe respondeu):
— A Primavera já era
ou ainda não nasceu?
1 289
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Dezembro

Oiti: a cigarra zine:
convite à praia. Tine
o sol no quadril, e o míni
véu dissolve, do biquíni.
1 532