Encontros e Desencontros

Poemas neste tema

Pablo Neruda

Pablo Neruda

Em Pleno Mês de Junho

Em pleno mês de Junho
me aconteceu uma mulher,
melhor uma laranja.
Está confuso o panorama.
Bateram à porta,
era uma lufada,
um látego de luz,
uma tartaruga ultravioleta,
a via com lentidão de telescópio,
como se longe fosse ou habitasse
esta vestidura de estrela,
e por erro do astrônomo
houvesse entrado em minha casa.
1 050
Martha Medeiros

Martha Medeiros

no mesmo vagão, eu e alguém

no mesmo vagão, eu e alguém
conversa vai, conversa vem
chega a estação


lembrança vai, lembrança vem
meu coração
até hoje não desceu do trem
1 257
Martha Medeiros

Martha Medeiros

vou chegar atrasada

vou chegar atrasada
e distraída
como quem saiu do trabalho
e foi direto pro bar


vou pedir um hi-fi inocente
e olhar toda hora pro relógio
como se tivesse alguém
me esperando em outro lugar


vou rir bastante
manter um ar distante
e esquecer quanto tempo faz


vou perguntar pelos amigos
e se aceitar carona
deixar cair um brinco no banco de trás
1 093
Martha Medeiros

Martha Medeiros

chegou na minha casa cheio de olhares

chegou na minha casa cheio de olhares
e poucas palavras
trouxe champanhe, sentou na cadeira
tentou me abraçar


me desculpei:
– hoje não que eu não ensaiei
1 006
Martha Medeiros

Martha Medeiros

ele odeia festas

ele odeia festas
eu adoro frutas
ele odeia figos
eu adoro frango
ele adora fiat
eu odeio fusca
eu odeio frades
eu adoro frascos
ele adora fêmeas
eu odeio fugas
ele adora frança
eu adoro londres
1 059
Martha Medeiros

Martha Medeiros

em Paris

em Paris
encontrei o homem da minha vida
nem me olhou


Jeu de Paume seis da tarde
se não fosse Degas Monet Toulouse Lautrec
ele me olhava
1 147
Martha Medeiros

Martha Medeiros

vou andando devagar

vou andando devagar
olhando para um lado
para o outro
rindo ali, pensando aqui
de repente
vejo você na minha frente
e até pararia de andar
se você não fosse
estacionamento proibido
1 004
Martha Medeiros

Martha Medeiros

me viu

me viu
te vi
corei
gostei
olhei
cheguei
teus olhos
teu sorriso
senta
garçom!
amor
pra dois
1 058
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu passei por poucas e boas

eu passei por poucas e boas
ele por maus momentos


eu soube de sofrimento
ele quis relaxar e gozar


eu tentei novos caminhos
ele preferiu ficar sozinho


eu quase não via
ele pura alegria e descoberta


eu certa de que tudo daria certo
ele incerto e cuidadoso


até a hora que nos conhecemos
e tentamos uma coisa que só nós dois sabemos
1 003
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Branco

Foi pelo pranto que te reconheci
Foi pelo branco da praia que te reconheci
1 367
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vii. Outros Dirão Senhor As Singraduras

Outros dirão senhor as singraduras
Eu vos direi a praia onde luzia
A primitiva manhã da criação

Eu vos direi a nudez recém-criada
A esquiva doçura a leve rapidez
De homens ainda cor de barro que julgaram
Sermos seus antigos deuses tutelares
Que regressavam
1982
1 101
Adélia Prado

Adélia Prado

O Mais Leve Que o Ar

O que me leva a Jonathan?
A bicicleta do sonho,
mais veloz que avião.
Anda no mar, encantada,
transpõe montanhas,
para no portão florido.
Jonathan está no escritório
com a luz do abajur acesa.
Demoro um pouco a bater,
pro coração sossegar.
Jonathan me pressente
e abre a cortina brusco,
brincando de me assustar.
As bicicletas são duas na planície.
1 120
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fora de Hora

Entrega fora de hora
e posse fora de hora.
Quem mandou
você atrasar a hora,
você apressar a hora,
você aceitar a hora
não madurada
ou demasiado madura?

O tempo fora de hora
não é tempo nem é nada.
O amor fora de hora
é como rolar a escada.
1 282
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Primeiro Dia

Resumo do Brasil no pátio de areia fina.
Sotaques e risos estranhos.
Continente de almas a descobrir
palmo a palmo, rosto a rosto,
número a número,
ferida a ferida.
Mal nos conhecemos, a palavra-mistério
na pergunta-sussurro
é pedrada na testa:
— Você gosta de foder?
1 106
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Como Se Caminhasse Para Um Encontro

Como se caminhasse para um encontro

encontro

a cor do muro

um murmúrio do sono

e do olhar

um murmúrio de sono no olhar
1 057
Edmir Domingues

Edmir Domingues

De Profundis I

Estou no umbral da Porta.
Se convidado, entro.
Rejeitado
descerei a encosta
e novamente
habitarei o Vale.
656
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Pátio

Onde te encontrei: pomba
que pousa por instantes, que procura
uma saída sobre os muros, e
se perde por entre varandas e cordas.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 20 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 819
Ruy Belo

Ruy Belo

Epígrafe para a nossa solidão

Cruzámos nossos olhos em alguma esquina
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemperâneos


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 40 | Editorial Presença Lda., 1984
1 352
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Meu País

As pequenas cidades intensas
Onde o tempo não é dissolvido mas dura
E cada instante ressoa nas paredes da esquina
E o rosto loiro de Laura aflora na janela desencontrada
E o apaixonado de testa obstinada como a de um toiro
Em vão a procura onde ela nunca está
— É aqui que ao passarmos a nossa garganta se aperta
Enquanto um homem alto e magro
Baixando a direito o chapéu largo e escuro
De cima a baixo se descobre
Ao transpor o limiar sagrado da casa
1 454
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Olímpia

Ele emergiu do poente como se fosse um deus
A luz brilhava de mais no obscuro loiro do seu cabelo

Era o hóspede do acaso
Reunia mal as palavras
Foram juntos a Olímpia lugar de atletas
Terra à qual pertenciam
Os seus largos ombros as ancas estreitas
A sua força esguia espessa e baloiçada
E a sua testa baixa de novilho
Jantaram ao ar livre num rumor de verão e de turistas
Uma leve brisa passava entre diversos rostos

Ela viu-o depois ficar sozinho em plena rua
Subitamente jovem de mais e como expulso e perdido

Porém na manhã seguinte
Entre as espalhadas ruínas da palestra
Ela viu como o corpo dele rimava bem com as colunas
Dóricas

De qualquer forma em Patras poeirenta
No abafado subir da noite
Tomaram barcos diferentes

De muito longe ainda se via
No cais o vulto espesso baloiçado esguio
Que entre luzes com as sombras se fundia

Sob a desprezível indiferença
Não dela mas dos deuses
1 955
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Biombos Nambam

Os biombos Nambam contam
A história alegre das navegações
Pasmo de povos de repente
Frente a frente

Alvoroço de quem vê
O tão longe tão ao pé

Laca e leque
Kimono camélia
Perfeição esmero
E o sabor do tempero

Cerimónias mesuras
Nipónicas finuras
Malícia perante
Narigudas figuras
Inchados calções

Enquanto no alto
Das mastreações
Fazem pinos dão saltos
Os ágeis acrobatas
Das navegações

Dançam de alegria
Porque o mundo encontrado
É muito mais belo
Do que o imaginado
1987
3 028
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poema

Cantaremos o desencontro:
O limiar e o linear perdidos

Cantaremos o desencontro:
A vida errada num país errado
Novos ratos mostram a avidez antiga
1 834
José Miguel Silva

José Miguel Silva

O Atalante - Jean Vigo (1934)

No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.
1 390
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu te pedi duas vezes

Eu te pedi duas vezes
Duas vezes, bem o sei.
Que por fim me respondesses
Ao que não te perguntei.
1 205