Empoderamento

Poemas neste tema

Martha Medeiros

Martha Medeiros

chegou na minha casa cheio de olhares

chegou na minha casa cheio de olhares
e poucas palavras
trouxe champanhe, sentou na cadeira
tentou me abraçar


me desculpei:
– hoje não que eu não ensaiei
1 009
Martha Medeiros

Martha Medeiros

de um rali que escapei

de um rali que escapei
quase ilesa
um pouco de lama na alma
e olho injetado de dor
descobri novas marchas
copilota de planos que não tinha
tirei meu nome do mapa
e segui a trilha sozinha
1 071
Martha Medeiros

Martha Medeiros

me visto de vermelho

me visto de vermelho
a raiva tem essa cor


uma lança na mão
uma mancha no lençol


São Jorge
um dragão
um sonho solto


estou pronta para enfrentar
meu inferno zodiacal
1 047
Martha Medeiros

Martha Medeiros

não quero mudar o sobrenome

não quero mudar o sobrenome
que carrego sustentando meu nome ateu
ele pode vir, eu deixo dormir na minha cama
mas não quero nada dele
que já não seja meu
1 106
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tango ensaiado

tango ensaiado
boca pintada
só de danada
lasco um decote
profundo
rosa vermelha
batom maravilha
só de rasteira
lasco um pingente
na orelha


don’t cry for me
segunda-feira
1 006
Martha Medeiros

Martha Medeiros

uma nissei não sabe

uma nissei não sabe
tudo que sei
meus olhos arregalados
não piscam pra qualquer um
nem fecham pra qualquer medo
uma nissei
não sabe todo o segredo
periga guardar bilhetes
mas quieta comete enganos
decifra letras do mal
mal sabe meus vinte anos


uma nissei dança muito bem
mas sei que ela dorme cedo
1 103
Martha Medeiros

Martha Medeiros

aquele monstro que você pensou que era

aquele monstro que você pensou que era
é um bobo covarde que só fala besteiras
vive dizendo que mata, estrangula, devora
mas quando muito enforca umas
segundas-feiras
530
Martha Medeiros

Martha Medeiros

quanto mais escrava

quanto mais escrava
mais escrevo
pra libertar essa mulher da vida
que me habita
1 079
Martha Medeiros

Martha Medeiros

era uma vez um gato chinês

era uma vez um gato chinês
que me chamou para comer um frango
xadrez
no boteco onde ele era freguês


e eu, como gata vadia
topei porque sempre podia
e fiz dele meu prato do dia
1 145
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ode À Maneira de Horácio

Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida
1 069
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Santa Clara de Assis

Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas.

Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.
1 444
Adélia Prado

Adélia Prado

Senha

Eu sou uma mulher sem nenhum mel
eu não tenho um colírio nem um chá
tento a rosa de seda sobre o muro
minha raiz comendo esterco e chão.
Quero a macia flor desabrochada
irado polvo cego é meu carinho.
Eu quero ser chamada rosa e flor
eu vou gerar um cacto sem espinho.
1 454
Adélia Prado

Adélia Prado

Direitos Humanos

Sei que Deus mora em mim
como sua melhor casa.
Sou sua paisagem,
sua retorta alquímica
e para sua alegria
seus dois olhos.
Mas esta letra é minha.
1 906
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Recusa

Não entendo, não engulo este latim:
Perinde ac cadaver.
“Você tem que obedecer como um cadáver.”

Cadáver obedece?
Tanto vale morrer como viver?
Para isso nos chamam, nos modelam?

Bem faz Padre Filippo:
cansado de obedecer, vai dar o fora
para viver no mundo largo
a fascinante experiência de só receber ordens
do seu tumultuoso coração.
1 063
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Plenitude

Ainda era quente e volante e luminosa
e o seu fulgor vibrava em orifícios verdes.
O seu pudor era feliz como um músculo no mar.
Tocava o cimo do mundo, as árvores mais claras.
O seu segredo era a frescura imensa do seu sexo.
O seu furor era o reconhecimento da experiência.
1 061
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

16. Tecida a Paciência do Tecido

16
Tecida a paciência do tecido
se escrevo o tempo exíguo
e ela dança sem lâmpada sem véus.

Vermelha a lança a nascer da perna
volumosa e dura sem face
figura de alta árvore
e obscena sóbria sem folhagem.

Ela dupla na marcha sobre
a pedra e pedra bem de pedra
o taco do tacão negro
tornando a perna incorruptível
pedra branca.
934
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Pássaro de Braque

Para ser mestre da cidade
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.

Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta

papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
905
Francisco Mallmann

Francisco Mallmann

VI

não serei bonita
há tantas coisas por fazer
823
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Epidauro

O cardo floresce na claridade do dia. Na doçura do dia se abre o figo. Eis o país do exterior onde cada coisa é:
trazida à luz
trazida à liberdade da luz
trazida ao espanto da luz
Eis-me vestida de sol e de silêncio. Gritei para destruir o Minotauro e o palácio. Gritei para destruir a sombra azul do Minotauro. Porque ele é insaciável. Ele come dia após dia os anos da nossa vida. Bebe o sacrifício sangrento dos nossos dias. Come o sabor do nosso pão a nossa alegria do mar. Pode ser que tome a forma de um polvo como nos vasos de Cnossos. Então dirá que é o abismo do mar e a multiplicidade do real. Então dirá que é duplo. Que pode tornar-se pedra com a pedra alga com a alga. Que pode dobrar-se que pode desdobrar-se. Que os seus braços rodeiam. Que é circular. Mas de súbito verás que é um homem que traz em si próprio a violência do toiro.
Só poderás ser liberta aqui na manhã d’Epidauro. Onde o ar toca o teu rosto para te reconhecer e a doçura da luz te parece imortal. A tua voz subirá sozinha as escadas de pedra pálida. E ao teu encontro regressará a teoria ordenada das sílabas — portadoras limpas da serenidade.
2 264
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,

Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,
        Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
        Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
        No inútil infinito.
4 578
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sê dono de ti

Sê o dono de ti
Sem fechares os olhos.
  
Na dura mão aperta
Com um tacto encavado
O mundo exterior
Contra a palma sentindo
Outra cousa que a palma.
1 658
Vasko Popa

Vasko Popa

Trepadeira

Filha mais doce
Do verde sol subterrâneo
Fugiria
Da barba branca da parede
Se ergueria em plena praça
Vórtice envolto em sua beleza
Com sua dança-de-serpente
Fascinaria tempestades
Mas o ar de amplas espáduas
Não lhe estende as mãos


835
Torquato Neto

Torquato Neto

Let’s Play That

quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
4 140
Adão Ventura

Adão Ventura

Das biografias (1)

em negro
teceram-me a pele.
enormes correntes
amarram-me ao tronco
de uma Nova África.

carrego comigo
a sombra de longos muros
tentando impedir
que meus pés
cheguem ao final
dos caminhos.

mas o meu sangue
está cada vez mais forte,
tão forte quanto as imensas pedras
que os meus avós carregaram
para edificar os palácios dos reis .

1 889