Destino e Superação

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos
A transparência perdida — o grito
Que não conseguiu atravessar o opaco
O limiar e o linear perdidos

Deverá tudo passar a ser passado
Como projecto falhado a abandonado
Como papel que se atira ao cesto
Como abismo fracasso não esperança
Ou poderemos enfrentar e superar
Recomeçar a partir da página em branco
Como escrita de poema obstinado?
1975
2 320 1
Fernando Paixão

Fernando Paixão

78 [É dos deuses

É dos deuses
tocar fogo às coisas
esperar naturalmente
as sentenças
escritas na cinza.


In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.5
1 280 1
Angela Santos

Angela Santos

Transparências

Na
bruma
de um qualquer horizonte
não me quero perder
pelo sonho se vislumbra já
novo oriente das descobertas.

Pedras raras, essências,
sedas naturais num corpo
porto e navio…

ò transparências matinais
aqui vos aguardo…
levantar ferros, navegar
esse é o destino.

686 1
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Mundo Cruel

Primeiro te dão uma estrada
Depois tu ganhas a vida
Se não der em nada
Não tinha saída

946 1
Helena Parente Cunha

Helena Parente Cunha

Percurso

Corolas
malogradas
defluímos na caudal

margens opostas
compõem horizonte
concedido ao que vamos

e o que vamos?
remota a fonte
de onde emanamos omitidos

1 247 1
Goulart Gomes

Goulart Gomes

Semi-ótica

esteiras de linho
tenho cruzado adagas
e cegado meus caminhos

o vento toca seu alaúde
estão trancados nossos sonhos
bem guardados no escuro

vermelhidão de mar
mortovivo, plasma de segredos
e os medos nossos

não sei bem se posso seguir
estes desígnios ou
minguar à fome

destes signos.

959 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Segundo: TORMENTA

SEGUNDO

TORMENTA

Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.

Isto, e o mistério de que a noite é o fausto...
Mas súbito, onde o vento ruge,
O relâmpago, farol de Deus, um hausto
Brilha, e o mar scuro struge.


26/02/1934
4 760 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Primeira: D. DUARTE, REI DE PORTUGAL

AS QUINAS


PRIMEIRA


D. DUARTE
REI DE PORTUGAL

Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.

Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.


26/09/1928
4 741 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Dizem?

Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Disseram.

Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.

Porquê
Esperar?
– Tudo é
Sonhar.
5 723 1
Amália Bautista

Amália Bautista

Conheci um dia um homem tão estranho

Conheci um dia um homem tão estranho
que continuo a recordá-lo. Disse
que estava condenado para sempre
a suportar o peso de uma enorme
pedra sobre os seus ombros, e que nunca
a levaria até ao seu destino.
Contive a vontade de lhe dizer
“que achas que faço eu com estes fios?”

451
Herberto Helder

Herberto Helder

84

se me vendam os olhos, eu, o arqueiro! acerto
em cheio no alvo porque o não vejo:
por pensamento e paixão,
ou porque foi tão sentido o vento a luzir nos botões dos salgueiros
como se atirasse do outro lado do vento,
ou na solidão de um sonho,
ou como se tudo fosse o mesmo: flecha e alvo —
e
cego
acerto em cheio:
porque não quero
924
Renato Rezende

Renato Rezende

Formigas

Talvez isso ajude a compreender o Destino
ou a Graça:
Num pátio de mármore, duas formigas
tentam escalar uma pilastra.
Mas não conseguem.
Uma desiste.
A outra prossegue,
insiste.
Até que eu
pego essa formiga com a mão
e a coloco um palmo acima do chão.


Bombaím, novembro 1991
941
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

MADRIGAL

Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.

As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.

O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo.
790
Luís Quintais

Luís Quintais

Psicogeografia

Como nos salvámos, ainda que só por instantes?
Recusando mapas, designando ocasos,
espreitando
a intransparência do vidro das casas
após a entropia que devora famílias.

Salvámo-nos por inquietação móvel,
por solidão contrafeita
e vigilante.
722
Salgado Maranhão

Salgado Maranhão

Ladainha

Não secarás as raízes
do teu sopro
no abismo da noite púrpura;
não seguirás o fantasma
que atravessa os trilhos;
não cantarás aos muros de arrimo
tua fantasia de pássaro.

Escarpado é o chão
dos teus sapatos;
escarpado é o azul
rabiscado de estrelas;
escarpada é a rima
que lateja a alegoria
da palavra.
737
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Oceano

Olho a praia. A treva é densa.
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.

E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino:
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde eu menino,
Cresce quanto em anos cresço.

— Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo...
950
Marina Colasanti

Marina Colasanti

E LOGO PASSA

A vida é uma praça às duas da tarde
o sol queimando a nuca e o coração
e nós andando cegos no destino
que nos crava a pino.
1 020
Marina Colasanti

Marina Colasanti

É nesse

Há sempre um ponto
fora
um ponto além da tela
da moldura
da armação dos óculos
um ponto além da linha de horizonte
na quina alheia ao campo visual.
E é nesse ponto
nesse ponto ausente
se atam os nós
e traçam rumos das
coisas por nascer
ditas
destino.
1 312
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

O Impossível Acontece

O Messias nasceu de uma Virgem.
O grande pensador grego nunca escreveu um livro.
A Nona Sinfonia é fruto de um homem surdo.
Na Biblioteca de Babel o leitor era um poeta cego.
E não tinha mãos, o homem que fez
as mais belas esculturas de meu país.
1 120
Pablo Neruda

Pablo Neruda

L

Quem pode convencer o mar
para que seja razoável?

De que lhe serve demolir
âmbar azul, granito verde?

E para que tantas marcas
e tantos sulcos no rochedo?

Cheguei de detrás do mar
e onde vou quando me atalha?

Por que encerrei meu caminho
caindo no ardil do mar?
913
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Panfletos

Eu recebi o mal e a miséria
De meu pai que os recebeu de meu avô
Que os recebeu de seus avós
Que os receberam de Adão
Que os recebeu de Eva
Que os recebeu de Satã
Que foi criado por Deus.
Não me conformo e destruirei em mim a fome a peste a guerra e a morte
501
José Saramago

José Saramago

Virgindade

Não essa que o pudor um dia larga,
Não essa que foi miragem e é negaça.
A porta derradeira é a que importa:
Caçador que porfia, mata caça.
1 146
José Saramago

José Saramago

Signo do Escorpião

Para ti, saberás, não há descanso,
A paz não é contigo nem fortuna:
O signo assim ordena.
Pagam-te os astros bem por essa guerra:
Por mais curta que a vida for contada,
Não a terás pequena.
1 892
José Saramago

José Saramago

Tenho a Alma Queimada

Tenho a alma queimada
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
1 010