Cidade e Cotidiano

Poemas neste tema

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Princípio de Verão

Largos longos doces horizontes
A desdobrada luz ao fim da tarde
Um ar de praia nas ruas da cidade
Secreto sabor a rosa e nardo arde
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Egito Gonçalves

Egito Gonçalves

O Fósforo na Palha

Aos meus olhos
a cidade organiza
a sua tristeza.

Uma cintura aperta
a asfixia.
Um furo mais.

Um riso eleva-se
e sou eu que rio
sou eu que amo.

Auxilio a cidade
a suportar.
Um furo menos.

Não há pedras bastantes
para o nosso túmulo.
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Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

Urbe

hoje na minha boca
não cabem girassóis

cabe um poemapodre
cheiro de mangue capibaribe

um poemaponte
galeria esgoto chuvas de abril

um poemacidade
fumaça ferrugem fuligem

hoje na minha boca
cabe apenas o poema

o poema hóspede da agonia
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cidadezinha Qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Êta vida besta, meu Deus.
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Edmir Domingues

Edmir Domingues

Dístico para as portas do Recife

A quem vem se diga:
percorra a cidade
como quem afaga
o corpo despido
da mulher amada.
Que o faça pois com
carinho e cuidado.

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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Serenata

Flauta e violão na trova da rua,
que é uma treva rolando da montanha,
fazem das suas.
Não há garrucha que impeça:
a música viola o domicílio
e põe rosas no leito da donzela.
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Ruy Belo

Ruy Belo

Fundação de Roma

Grande te chamo cidade. Ainda há
o espaço em ti de um domingo
para as folhas caírem
Talvez até
com o gládio do espírito eu possa
rasgar à tua volta um areal de silêncio
onde o sol ilumine os cristais dos meus dias

Jerusalém é o teu nome de cidade





Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 49 | Editorial Presença Lda., 1984
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

És Tu Que Estás À Transparência Das Cidades

És tu que estás à transparência das cidades
Vê-se o Teu rosto para além dos bairros interditos.

O mal palpável próximo insistente
Parece tornar-Te evidente.

Sobe do destino uma sede de Ti.
Não somos só isto que se torce
Com as mãos cortadas aqui.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cidade

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Fúrias

Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario

Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam

Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria

Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço
E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contra tempo
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

«Fernando Pessoa» Ou «Poeta Em Lisboa»

Em sinal de sorte ou de desgraça
A tua sombra cruza o ângulo da praça
(Trémula incerta impossessiva alheia
E como escrita de lápis leve e baça)
E sob o voo das gaivotas passa
Atropelada por tudo quanto passa

Em sinal de sorte ou de desgraça
Lisboa, 1972
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No dia de S. João

No dia de S. João
Há fogueiras e folias
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.
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Chacal

Chacal

Curral de Deus

cães ladram ao longe
galos abrem o berreiro
cigarras se despedem da vida
sapos coacham a verdade

e assim vai mais um dia
nesse curral de Deus.


In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.40. (Cantadas literárias, 48
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Eunice Arruda

Eunice Arruda

Cimento Armado

O cotidiano basta
calçadas
asfaltos
desafogam o coração

Depois há a noite
A noite é mãe de
afagar cabelos onde
seus dedos são constante ausência

Sim
o cotidiano basta
não tem importância
o que
não tenho


In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
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Ulisses Tavares

Ulisses Tavares

Maravilhas da Flora

Pinheiros natalinos sintéticos,
flores cor-de-fuligem,
arbustos esqueléticos,
florestas de antenas de TV,
alfaces com DDD.


In: TAVARES, Ulisses. Caindo na real. Il. Angeli. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.59. (Jovens do mundo todo
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Ronaldo Azeredo

Ronaldo Azeredo

ruasol

                            r u a r u a r u a s o l
                            r u a r u a s o l r u a
                            r u a s o l r u a r u a
                            s o l r u a r u a r u a
                            r u a r u a r u a s



1957


In: POESIA concreta. Sel. notas, est. biogr. hist. e crít. Iumna Maria Simon e Vinicius de Avila Dantas. São Paulo: Abril Educação, 1982. p.22. (Literatura comentada)
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Manuel Machado

Manuel Machado

Canto a Andaluzia

Cádiz, graciosa claridade.
Granada, água oculta que chora.
Romana e moura, Córdoba calada.
Málaga cantadora
Almería, dourada.
Prateado, Jaén.
Huelva, a beira
das três caravelas,
e Sevilha.

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Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Café de cais

Café de cais,
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfritite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício
Nossa Senhora do Baixo Mundo.

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Viriato Gaspar

Viriato Gaspar

Voluntários da Pátria

perdemos a tarde
o ônibus
a paciência
e a vida

perdemos a cor
a calma
a voz
o voto
a vergonha
e agora
voltamos pela rua lentamente
livres do peso da nossa dignidade
— sobrevivemos a mais um dia —

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Reynaldo Valinho Alvarez

Reynaldo Valinho Alvarez

Maracanã

A multidão arqueja. O sol adeja,
Asas de acácia sobre o mar de grama.
E a multidão regressa, ainda opressa,
Prenhe de estrelas, morta do vazio.

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Maria Rita Kehl

Maria Rita Kehl

pompéia

Cachorros lâmpadas
pernas das meninas

rua de pedra se precipitando
do alto sobre o mundo incendiado

Avião furando nuvens
galho seco na sarjeta.

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Heinrich Heine

Heinrich Heine

SIE SASSEN

Tomando chá, sentadíssimos,
Conversam muito de amor.
Os homens delicadíssimos,
As damas só temo ardor.

Cumpre que seja platônico,
Um Conselheiro declara.
Da esposa o sorriso irónico
É como um ai que soltara.

O Cónego fala rude:
E que a excessos não se dê
Pra não estragar a saúde.
Murmura a virgem: - Porquê?

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Ezra Pound

Ezra Pound

In a Station of the Metro

In a Station of the Metro

The apparition of these faces in the crowd;

Petals on a wet, black bough.

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Abrahão Cost'Andrade

Abrahão Cost'Andrade

Fortaleza

Escura cidade,
onde se balança a ânsia
de voltar para casa.

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