Transcendência
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Se eu tirar com urna pancada
Se eu tirar com urna pancada
O bolo barato da boca da criança pobre
Onde encontrarei justiça no mundo,
Onde me esconderei dos olhos do Vulto
Invisível que espreita pelas estrelas
Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo?
Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças,
Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura,
Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém...
Os móveis comprados com tanto sacrifício,
As toalhas remendadas com tanto cuidado,
As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar
E a roda de um dos mil carros do rei vencedor
Parte tudo, e todos perderam tudo.
Que imperador tem o direito
De partir a boneca à filha do operário?
Que César com suas legiões tem justiça
Para partir a máquina de costura da velha
Se eu for pela rua
E arrancar a fita suja na mão da garota
E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?
O bolo barato da boca da criança pobre
Onde encontrarei justiça no mundo,
Onde me esconderei dos olhos do Vulto
Invisível que espreita pelas estrelas
Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo?
Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças,
Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura,
Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém...
Os móveis comprados com tanto sacrifício,
As toalhas remendadas com tanto cuidado,
As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar
E a roda de um dos mil carros do rei vencedor
Parte tudo, e todos perderam tudo.
Que imperador tem o direito
De partir a boneca à filha do operário?
Que César com suas legiões tem justiça
Para partir a máquina de costura da velha
Se eu for pela rua
E arrancar a fita suja na mão da garota
E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?
1 203
Fernando Pessoa
Concordar não posso
Concordar não posso
Em que alguém mais do que eu tenha sentido
O mistério completo do universo
Completo e profundo.
Em que alguém mais do que eu tenha sentido
O mistério completo do universo
Completo e profundo.
1 256
Fernando Pessoa
Para cantar-te,
Para cantar-te,
Para saudar-te
Era preciso escrever aquele poema supremo,
Onde, mais que em todos os outros poemas supremos,
Vivesse, numa síntese completa feita de uma análise sem esquecimentos,
Todo o Universo de coisas, de vidas e de almas,
Todo o Universo de homens, mulheres, crianças,
Todo o Universo de gestos, de actos, de emoções, de pensamentos,
Todo o Universo das coisas que a humanidade faz,
Das coisas que acontecem à humanidade —
Profissões, leis, regimentos, medicinas, o Destino,
Escrito a entrecruzamentos, a intersecções constantes
No papel dinâmico dos Acontecimentos,
No papiro rápido das combinações sociais,
No palimpsesto das emoções renovadas constantemente.
Para saudar-te
Era preciso escrever aquele poema supremo,
Onde, mais que em todos os outros poemas supremos,
Vivesse, numa síntese completa feita de uma análise sem esquecimentos,
Todo o Universo de coisas, de vidas e de almas,
Todo o Universo de homens, mulheres, crianças,
Todo o Universo de gestos, de actos, de emoções, de pensamentos,
Todo o Universo das coisas que a humanidade faz,
Das coisas que acontecem à humanidade —
Profissões, leis, regimentos, medicinas, o Destino,
Escrito a entrecruzamentos, a intersecções constantes
No papel dinâmico dos Acontecimentos,
No papiro rápido das combinações sociais,
No palimpsesto das emoções renovadas constantemente.
1 044
Fernando Pessoa
Para saudar-te
Para saudar-te
Para saudar-te como se deve saudar-te
Preciso tornar os meus versos corcel,
Preciso tornar os meus versos comboio,
Preciso tornar os meus versos seta,
Preciso tornar os versos pressa,
Preciso tornar os versos nas coisas do mundo
Tudo cantavas, e em ti cantava tudo —
Tolerância magnífica e prostituída
A das tuas sensações de pernas abertas
Para os detalhes e os contornos do sistema do universo
Para saudar-te como se deve saudar-te
Preciso tornar os meus versos corcel,
Preciso tornar os meus versos comboio,
Preciso tornar os meus versos seta,
Preciso tornar os versos pressa,
Preciso tornar os versos nas coisas do mundo
Tudo cantavas, e em ti cantava tudo —
Tolerância magnífica e prostituída
A das tuas sensações de pernas abertas
Para os detalhes e os contornos do sistema do universo
1 211
Fernando Pessoa
Sou mais que o SER que transcende
Sou mais que o SER que transcende
Criatura e Criador.
Se esse SER ninguém entende,
Ele a mim e ao meu horror
Menos. Vida, pensamento,
Tudo o que nem se adivinha...
É tudo como um momento
Numa eternidade minha.
Mais que mundo e eternidade
Num, siIente cataclismo,
Mais que ideia, ser, verdade,
Acaba no meu abismo.
E essas águas que esvair
Se vêm ao meu profundo —
Ninguém as ouve a cair,
Nem eu me concebo um fundo.
Criatura e Criador.
Se esse SER ninguém entende,
Ele a mim e ao meu horror
Menos. Vida, pensamento,
Tudo o que nem se adivinha...
É tudo como um momento
Numa eternidade minha.
Mais que mundo e eternidade
Num, siIente cataclismo,
Mais que ideia, ser, verdade,
Acaba no meu abismo.
E essas águas que esvair
Se vêm ao meu profundo —
Ninguém as ouve a cair,
Nem eu me concebo um fundo.
1 166
Fernando Pessoa
LUCIFER: Como quando o mortal, que a terra habita,
Como quando o mortal, que a terra habita,
Aprende que esse céu todo estrelado
É cheio de outros mundos, na infinita
Pluralidade do criado,
E um abismo se lhe abre na consciência
E uma realidade invisível gela,
Seu sentimento da existência,
E um novo ser-de-tudo se revela,
Assim, pensando e, a meu modo, vendo
Na interna imensidão do espaço abstracto,
Fui como deuses vários conhecendo,
Todos eternos e infinitos sendo,
Os astros.
E vi que Deus, se é tudo para o mundo,
Se a substância e o ser do nosso ser
Não é o único Deus mais que profundo.
Há infinitos de infinitos.
Por isso, Deus é eterno e infinito, e tudo,
Sim mesmo o tudo que é, Deus o transcende.
Porém muita ciência a mais ascende
Que a esse único Deus que a tudo excede.
Além do transcender-se que Deus é.
E ergui então a voz amargurada,
Porque o conhecimento transcendente
Deixa a alma exânime e gelada.
E clamei contra Deus o além-Deus,
Disse aos meus pares o segredo ominoso.
Eterno condenado, errarei sempre
Sempre maldito,
Porque este mundo (...)
Só sendo mais que Deus eu poderia
Transcender o infinito do infinito
E nascer para o inumerável dia...
Como, banido, o arqueiro Filoctetes
Sou só na alma porque vi o abismo.
Excluso eterno (...)
A vida pávida que cismo.
Sou morte, porque sei que o infinito,
É limitado, e assim Deus morre em mim.
Deus sabe que é uno, um e infinito,
Mas eu sei que Deus, sendo-o, não o é.
Mais longe que Deus vai meu ser proscrito.
Aprende que esse céu todo estrelado
É cheio de outros mundos, na infinita
Pluralidade do criado,
E um abismo se lhe abre na consciência
E uma realidade invisível gela,
Seu sentimento da existência,
E um novo ser-de-tudo se revela,
Assim, pensando e, a meu modo, vendo
Na interna imensidão do espaço abstracto,
Fui como deuses vários conhecendo,
Todos eternos e infinitos sendo,
Os astros.
E vi que Deus, se é tudo para o mundo,
Se a substância e o ser do nosso ser
Não é o único Deus mais que profundo.
Há infinitos de infinitos.
Por isso, Deus é eterno e infinito, e tudo,
Sim mesmo o tudo que é, Deus o transcende.
Porém muita ciência a mais ascende
Que a esse único Deus que a tudo excede.
Além do transcender-se que Deus é.
E ergui então a voz amargurada,
Porque o conhecimento transcendente
Deixa a alma exânime e gelada.
E clamei contra Deus o além-Deus,
Disse aos meus pares o segredo ominoso.
Eterno condenado, errarei sempre
Sempre maldito,
Porque este mundo (...)
Só sendo mais que Deus eu poderia
Transcender o infinito do infinito
E nascer para o inumerável dia...
Como, banido, o arqueiro Filoctetes
Sou só na alma porque vi o abismo.
Excluso eterno (...)
A vida pávida que cismo.
Sou morte, porque sei que o infinito,
É limitado, e assim Deus morre em mim.
Deus sabe que é uno, um e infinito,
Mas eu sei que Deus, sendo-o, não o é.
Mais longe que Deus vai meu ser proscrito.
1 304
Fernando Pessoa
Não sei se os astros mandam neste mundo,
Não sei se os astros mandam neste mundo,
Nem se as cartas —
As de jogar ou as do Tarot —
Podem revelar qualquer coisa.
Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.
Sim, não sei
Se hei-de acreditar neste sol de todos os dias,
Cuja autenticidade ninguém me garante.
Ou se não será melhor, por melhor ou por mais cómodo,
Acreditar em qualquer outro sol —
Outro que ilumine até de noite. —
Qualquer profundidade luminosa das coisas
De que não percebo nada...
Por enquanto
(Vamos devagar)
Por enquanto
Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro.
Seguro com a mão —
O corrimão que me não pertence
E apoiado ao qual ascendo...
Sim... Ascendo
Ascendo até isto:
Não sei se os astros mandam neste mundo...
Nem se as cartas —
As de jogar ou as do Tarot —
Podem revelar qualquer coisa.
Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.
Sim, não sei
Se hei-de acreditar neste sol de todos os dias,
Cuja autenticidade ninguém me garante.
Ou se não será melhor, por melhor ou por mais cómodo,
Acreditar em qualquer outro sol —
Outro que ilumine até de noite. —
Qualquer profundidade luminosa das coisas
De que não percebo nada...
Por enquanto
(Vamos devagar)
Por enquanto
Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro.
Seguro com a mão —
O corrimão que me não pertence
E apoiado ao qual ascendo...
Sim... Ascendo
Ascendo até isto:
Não sei se os astros mandam neste mundo...
1 406
Fernando Pessoa
(Depois do amor — na treva)
Eis-me enfim só, oh desejado horror
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.
Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...) e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
Eis-me enfim ante ti, oh Universo!
Eis-me aqui, lama e (...) mistério,
Excluído de ti, o eterno expulso
Que não pedia a vida. Eis-me aqui.
Pudesse eu pôr no seu desmedimento
O ódio (...) e afrontar-vos
Com a expressão desse ódio, oh silêncios,
Oh noites ao pensar! eu morreria
De haver interpretado em tanto horror
Um mor horror que interpretar não pode
O que há-de ser palavra ou pensamento.
Eis-me aqui, oh abismo explicado!
Eis-me aqui o maior dos seres todos,
Quebrando aos pés do pensamento forte
A cruz de Cristo e as fórmulas mortais
[...]
Eis-me aqui!
O que há para mim senão vacuidade
No mundo (...), o que me destinastes?
O vazio? O silêncio? A escuridão?
Desses-me o instinto deles, não a plena
Torturação da luz.
1 229
Fernando Pessoa
Morto, hei-de estar a teu lado
Morto, hei-de estar a teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P’ra ver um bem em morrer.
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P’ra ver um bem em morrer.
1 320
Fernando Pessoa
Entremos na morte com alegria! Caramba
Entremos na morte com alegria! Caramba
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos;
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Coisas onde há dor de [...] e moléstias
(Merda para isso tudo!)
Estou morto, de tédio também
Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros
Como se desse com ela num arco de brincadeira
Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,
Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco
No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.
Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa
Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo
Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda?
Eu sou Eu .
Viva eu porque estou morto! Viva!
Eu sou eu .
Que tenho eu com a roupa-cadáver que deixo?
Que tem o cu com as calças?
Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?
O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?
Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.
Eu, assombroso e desumano,
Indistinto a esfinges claras,
Vou embrulhar-me em estrelas
E vou usar o Sol como chapéu de coco
Neste grande carnaval do depois de morrer.
Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido
Do vasto céu arqueado do mundo,
Animando a monotonia dos espaços abstractos
Com a minha presença subtilíssima.
O ter que vestir fato, o ter que lavar o corpo,
O ter que ter razão, semelhanças, maneiras e modos;
O ter rins, fígado, pulmões, brônquios, dentes.
Coisas onde há dor de [...] e moléstias
(Merda para isso tudo!)
Estou morto, de tédio também
Eu bato, a rir, com a cabeça nos astros
Como se desse com ela num arco de brincadeira
Estendido, no carnaval, de um lado ao outro do corredor,
Irei vestido de astros; com o sol por chapéu de coco
No grande Carnaval do espaço entre Deus e a vida.
Meu corpo é a minha roupa de baixo; que me importa
Que o seu carácter de lixo seja terra no jazigo
Que aqui ou ali a coma a traça orgânica toda?
Eu sou Eu .
Viva eu porque estou morto! Viva!
Eu sou eu .
Que tenho eu com a roupa-cadáver que deixo?
Que tem o cu com as calças?
Então não teremos nós cuecas por esse infinito fora?
O quê, o para além dos astros nem me dará outra camisa?
Bolas, deve haver lojas nas grandes ruas de Deus.
Eu, assombroso e desumano,
Indistinto a esfinges claras,
Vou embrulhar-me em estrelas
E vou usar o Sol como chapéu de coco
Neste grande carnaval do depois de morrer.
Vou trepar, como uma mosca ou um macaco pelo sólido
Do vasto céu arqueado do mundo,
Animando a monotonia dos espaços abstractos
Com a minha presença subtilíssima.
1 356
Fernando Pessoa
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E quando o leito estiver quase ao pé do tecto
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
E eu olhando para trás, por esta vigia — o quarto todo com os seus armários,
E sentindo na alma o movimento da hélice do navio,
Verei já tudo ao longe e diferente e frio...
As minhas sensações numa cidade amontoada distante
E ao fundo, por detrás delas, o universo inteiro, ponte que finda...
1 078
Fernando Pessoa
A PARTIDA [b]
A PARTIDA
Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!
Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.
Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento,
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões (...) dos mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!
Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.
Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente...
(...)
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.
Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.
Ave atque vale, ó assombroso universo!
Ave atque vale, de que diversa maneira
É que eu te verei, e será definitivamente,
Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,
Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —
Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!
Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me
Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,
E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...
Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar
Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.
Ave atque vale, ó Universo espontâneo!
Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,
Verde escurecido das copas das árvores ao vento,
Escura brancura da água,
Penugem invisível dos brejos
Garras de sombra imaterial dos vendavais,
Grandes extensões (...) dos mares
Curso evidente dos rios
Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!
Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto
Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,
Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,
Como uma capa que me prenda,
Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele
E dispersar o meu ser pelo universo exterior,
Seja com alegria que eu reconheça que a Morte
Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.
Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Como um comboio sobre os rails directamente...
(...)
Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever
O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.
Estendo os braços para ti como uma criança
Do colo da ama para o aparecimento da mãe...
Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,
Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda
A este prodigioso, constante e doentio universo...
Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.
1 083
Fernando Pessoa
Crucificado, / Não como Cristo numa mera cruz,
Crucificado,
Não como Cristo numa mera cruz,
Mas no mistério do universo. (Sempre
Me foi a alma, ao ver a exterior
Vaidade monótona do mundo
Para ver em cada cousa e abstracto objecto
No seu misterioso ali-local de ser,
Sempre os meus pensamentos supervistos
Como coisas alheias me eram pontes
Donde eu partia para perguntar-me
Generalidades.)
Não como Cristo numa mera cruz,
Mas no mistério do universo. (Sempre
Me foi a alma, ao ver a exterior
Vaidade monótona do mundo
Para ver em cada cousa e abstracto objecto
No seu misterioso ali-local de ser,
Sempre os meus pensamentos supervistos
Como coisas alheias me eram pontes
Donde eu partia para perguntar-me
Generalidades.)
1 175
Fernando Pessoa
Todos os mistérios do universo
Todos os mistérios do universo
São um só: o mistério do universo.
Um dia — nunca o sol me-lo trouxera! (
Vi-o esse mistério — claramente
Com completa visão e compreendendo
Em todo o mistério do mistério
Na sua infinidade e concisão!
E desde então nunca mais livre fui
Mas no horror vivo e (...)
Recordando em cada momento essa visão,
Desse horror ocupado eternamente
Como da vida o calor do sangue
Intimamente anseia.
São um só: o mistério do universo.
Um dia — nunca o sol me-lo trouxera! (
Vi-o esse mistério — claramente
Com completa visão e compreendendo
Em todo o mistério do mistério
Na sua infinidade e concisão!
E desde então nunca mais livre fui
Mas no horror vivo e (...)
Recordando em cada momento essa visão,
Desse horror ocupado eternamente
Como da vida o calor do sangue
Intimamente anseia.
1 136
Fernando Pessoa
Ah as horas indecisas
Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.
1 280
Fernando Pessoa
Uma vontade física de comer o Universo
[1ª Ode]
Uma vontade física de comer o Universo
Toma às vezes o lugar do meu pensamento...
Uma fúria desmedida
A conquistar a pose como que observadora
Dos céus e das estrelas
Persegue-me como um remorso de não ter cometido um crime.
Como quem olha um mar
Olho os que partem em viagem...
Olho os comboios como quem os estranha
Grandes coisas férreas e absurdas que levam almas.
Que levam consciências da vida e de si-próprias
Para lugares verdadeiramente reais,
Para os lugares que — custa a crer — realmente existem
Não sei como, mas é no espaço e no tempo
E têm gente que tem vidas reais
Seguidas hora a hora como as nossas vidas...
Ah, por uma nova sensação física
Pela qual eu possuísse o universo inteiro
Um uno tacto que fizesse pertencer-me,
A meu ser possuidor fisicamente,
O universo com todos os seus sóis e as suas estrelas
E as vidas múltiplas das suas almas...
Uma vontade física de comer o Universo
Toma às vezes o lugar do meu pensamento...
Uma fúria desmedida
A conquistar a pose como que observadora
Dos céus e das estrelas
Persegue-me como um remorso de não ter cometido um crime.
Como quem olha um mar
Olho os que partem em viagem...
Olho os comboios como quem os estranha
Grandes coisas férreas e absurdas que levam almas.
Que levam consciências da vida e de si-próprias
Para lugares verdadeiramente reais,
Para os lugares que — custa a crer — realmente existem
Não sei como, mas é no espaço e no tempo
E têm gente que tem vidas reais
Seguidas hora a hora como as nossas vidas...
Ah, por uma nova sensação física
Pela qual eu possuísse o universo inteiro
Um uno tacto que fizesse pertencer-me,
A meu ser possuidor fisicamente,
O universo com todos os seus sóis e as suas estrelas
E as vidas múltiplas das suas almas...
875
Fernando Pessoa
2ª Ode - E eu era parte de toda a gente que partia.
2ª Ode
E eu era parte de toda a gente que partia.
A minha alma era parte do lenço com que aquela rapariga acenava
Da janela afastando-se de comboio...
O adeus do rapaz de boné claro
É dirigido a alguém dentro de mim
Sem que ele o queira ou o saiba...
E Paris-Fuentes d'Oñoro
Em letras encarnadas em fundo branco
Ao centro da carruagem, e no alto
Em letras que parecem mais vivas e sábias
Cª Internacional dos Wagons [...]
E o comboio avança — eu fico...
E eu era parte de toda a gente que partia.
A minha alma era parte do lenço com que aquela rapariga acenava
Da janela afastando-se de comboio...
O adeus do rapaz de boné claro
É dirigido a alguém dentro de mim
Sem que ele o queira ou o saiba...
E Paris-Fuentes d'Oñoro
Em letras encarnadas em fundo branco
Ao centro da carruagem, e no alto
Em letras que parecem mais vivas e sábias
Cª Internacional dos Wagons [...]
E o comboio avança — eu fico...
984
Fernando Pessoa
Olho os campos, Neera, [3]
Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e penso
Em que virá um dia
Em que não mais os olhe.
Isto se o meditar,
Me toldará os céus
E fará menos verdes
Os verdes campos reais.
Ah! Neera, o futuro
Ao futuro deixemos.
O que não está presente
Não existe pra nós.
Hoje não tenho nada
Senão os verdes campos
E o céu azul por cima.
Seja isto todo o mundo.
Verdes campos, e penso
Em que virá um dia
Em que não mais os olhe.
Isto se o meditar,
Me toldará os céus
E fará menos verdes
Os verdes campos reais.
Ah! Neera, o futuro
Ao futuro deixemos.
O que não está presente
Não existe pra nós.
Hoje não tenho nada
Senão os verdes campos
E o céu azul por cima.
Seja isto todo o mundo.
1 353
Fernando Pessoa
O segredo da Busca é que não se acha.
O segredo da Busca é que não se acha.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inúteis; Sóis, Deuses, Deus dos Deuses,
Neles intercalados e perdidos
Nem a nós encontramos no infinito.
Tudo é sempre diverso, e sempre adiante
De [Deus] e deuses vai a luz incerta
Da suprema verdade.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inúteis; Sóis, Deuses, Deus dos Deuses,
Neles intercalados e perdidos
Nem a nós encontramos no infinito.
Tudo é sempre diverso, e sempre adiante
De [Deus] e deuses vai a luz incerta
Da suprema verdade.
1 385
Fernando Pessoa
Nos vastos céus estrelados
Nos vastos céus estrelados
Que além de espaços estão,
Sob a regência de fados
Que ninguém sabe o que são,
Há sistemas infinitos,
Sóis centros de mundos seus,
E cada sol é um Deus.
Eternamente excluídos
Uns dos outros, cada um
É universo.
Mundo dentro de mundos
Infinidades variadas,
Abismos muitos, sem fundo
(...)
Que além de espaços estão,
Sob a regência de fados
Que ninguém sabe o que são,
Há sistemas infinitos,
Sóis centros de mundos seus,
E cada sol é um Deus.
Eternamente excluídos
Uns dos outros, cada um
É universo.
Mundo dentro de mundos
Infinidades variadas,
Abismos muitos, sem fundo
(...)
1 758
Fernando Pessoa
Ah, não poder dormir (eu não sei como,
Ah, não poder dormir (eu não sei como,
Não na verdade o quero) eternamente,
Acabar não comigo, nem com isto,
Mas com tudo, causa, efeito, ser...
Ideias vãs que a imaginação
Vazia dum momento em quietude
Gera sem ilusão, como criança
Embriagando-se indolentemente
Do cheiro transitório duma flor.
Não na verdade o quero) eternamente,
Acabar não comigo, nem com isto,
Mas com tudo, causa, efeito, ser...
Ideias vãs que a imaginação
Vazia dum momento em quietude
Gera sem ilusão, como criança
Embriagando-se indolentemente
Do cheiro transitório duma flor.
1 335
Fernando Pessoa
Nuvem do céu, que pareces
Nuvem do céu, que pareces
Tudo quanto a gente quer,
Se tu, ao menos, me desses
O que se não pode ter!
Tudo quanto a gente quer,
Se tu, ao menos, me desses
O que se não pode ter!
754
Fernando Pessoa
X - Aconteceu-me do alto do infinito
X
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
769
Fernando Pessoa
II - Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
II
Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.
Porque o havia de compreender?
Pois sim, mas também porque o não havia?
Água do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...
Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outra coisa te põe separado?
Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, à indiferença?
Por mim, só me levanto da barrica.
Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.
Porque o havia de compreender?
Pois sim, mas também porque o não havia?
Água do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...
Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outra coisa te põe separado?
Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, à indiferença?
Por mim, só me levanto da barrica.
1 254
Português
English
Español