Tempo e Passagem

Poemas neste tema

Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

Discurso do Tempo

se a pressa iguala
o santo à fera
espera.
Não peça à pressa insana
faça-se, Quimera.
Nem pense que o porvir
será de pura primavera
pois que ao nascer a flor em si se desinteira.
Por isso o tempo passava
antes dos relógios
e era maior
quanto selvagem era.

801
José Maria de Barros Pinho

José Maria de Barros Pinho

Aviso Prévio

o sonho
uma borboleta

quando menos
se espera
a gente acorda

e vai-se
embora
sem deixar
aviso prévio

1 277
Castro Alves

Castro Alves

Numa Página

(Do álbum de desenho do autor)

Horas de tédio ou de amorosa espr’ança,
— Meteoros da vida!... errantes astros!...
Fugi!... porém que fique uma lembrança!
Passai!... deixando os perfumosos rastros!...

1 690
Aymar Mendonça

Aymar Mendonça

Karma

Saber travar o gosto da framboesa
louvar a luz do sol
fugir da neve que estilhaça

O vento
o vento em manhãs de rocio
e á noite o fanal das madrugadas
em portos ancestrais

Gente de olhar gris e têmpora marcada
ou gente aos trapos
tropa de trapos
e o rio a correr
levando troncos e cardumes.

887
Antônio Massa

Antônio Massa

Vestíbulo

Urram os relógios
mais uma hora se passou
e eu agrilhoado
aos papéis independentes
pendentes
na dependência social

Urram os relógios
mais uma hora se passou
eu em vestíbulo
sem alcançar a porta principal
ou mesmo a escada interior

Urram os relógios
mais uma hora se passou
e eu aqui
atado
cavalo preso nas rédeas do papel

852
André Joffily Abath

André Joffily Abath

O Navegador

Tempo não é o que passa,
é sim o que fica,
cercado em quatro paredes,
prisioneiro da própria vida.
Daí não haver saída,
ou chegada até a margem.
Viver não é ir, voltar;
viver é viagem.

1 651
Alexandre Marino

Alexandre Marino

O Relógio Da Matriz

toda noite
quando badala
o relógio da matriz

os homens da cidade
se recolhem
para conta carneiros
e sonhar dinheiros

e morrem
a cada batida
do relógio da matriz

os mortos da cidade
então festejam
as badaladas na igreja
remoçando a terra.

1 193
André Ricardo Aguiar

André Ricardo Aguiar

Revisão

uma mão sempre escreve
o ofício das letras:

a Eternidade
urge reformas

826
Adão José Pereira

Adão José Pereira

A Vida

A vida é um poema mui lindo
Que o Pai Celeste assinou,
E com habilidade infinda
Afeto e ternura expressou.

Porém ela é veloz e passageira,
Corre tão rapidamente!
E qual uma águia ligeira,
Passa e nos leva de repente.

Ma enquanto existe há esperança
De que melhores dias virão!
Trazendo paz, amor e bonança,
Fartura, prosperidade e realização.
906
Antônio Girão Barroso

Antônio Girão Barroso

As Três Pessoas

Eram três pessoas distintas mas uma só, na verdade:
eu, o Floro e o Assis.
Três corpos numa lama só.
(O povo dizia que nós éramos
três amizades perfeitas
e meninos de futuro, sim senhor.)
Depois veio o tempo mau
o tempo que tudo leva
e levou o Floro pro céu.
O Assis ficou na terra.
Eu não sei onde fiquei.

1 076
Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Antonio Ferreira dos Santos Júnior

Pressentida Saudade

Pressentida saudade
Deste presente
Nos longes do meu futuro.

Corpo que apalpo
E que enlaço
E que prevejo a perda.

A saudade futura
Me oprime o presente
Que vivo.

920
Marcial

Marcial

VII, 19 - A UM FRAGMENTO DO ARGOS

Este fragmento, lenho inútil dizes,
Primeira quilha foi no mar ignoto.
Que não quebraram as Ciâneas rochas,
Nem a fúria cruel das águas citas,
Os séculos venceram: mas que resta
Mais venerável é que a nave inteira.

847
Antônio Brasileiro

Antônio Brasileiro

Resquício

As horas feitas de flandre
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.

Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.

No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.

953
Marcial

Marcial

IV, 7 - A HILO

Porque ontem que tu davas, hoje, ó Hilo, negas,
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?

1 063
Alfred Edward Housman

Alfred Edward Housman

SAY, LAD

Tens que fazer, meu rapaz?
Não tardes, que o tempo foge.
O trabalho a dois se faz?
Aqui me tens para hoje.

Manda por mim, que eu hei-de ir.
Por mim chama, que ouvirei.
Usa-me antes de eu partir
Pra onde não prestarei.

Antes que a carne envelheça,
E morta seja a vontade.
E o lábio já nem estremeça
Dizendo: - Rapaz, é tarde.

1 169
Marcial

Marcial

V, 58 - A PÓSTUMO

Viverás amanhã, sempre me dizes, Póstumo.
Esse amanhã, ó Póstumo, quando virá?
Quão longe mora? E aonde está? Onde buscá-lo?
Esse amanhã mais velho é que Nestor ou Príamo.
Esse amanhã tem preço? Qual o preço? Diz-me.
Viverás amanhã. E viver hoje é tarde.
Aquele é sage, ó Póstumo, que ontem viveu.

762
Lord Byron

Lord Byron

DO PORTUGUÊS TU ME CHAMAS

DO PORTUGUÊS TU ME CHAMAS

Tu me chamas ainda a tua vida-
- E a vida é só o que se escapa e corre...
Antes me chames alma: é mais exacto,
Pois que, como alma, o meu amor não morre.

1 440
Archibald Mcleish

Archibald Mcleish

CHARTRES

Pedras, o que me espanta
Não é que tenhais resistido
Por tanto tempo a tanto vento e a neve tanta:
Pois não vos tinham construído
Para arrostar nesta colina
O inverno e o vento desabrido?

Meu espanto é que suportais,
Sem vos gastardes, nossos olhos,
Nossos olhos mortais.

(Tradução
de Manuel Bandeira)

1 006
José Honório

José Honório

Foi-se a ilusão dessa vidaa minha pica morreu

Glosa:

Eu na minha mocidade
as madrugadas varava
e toda noite eu transava
nos cabarés da cidade
hoje só resta a saudade
do garanhão que fui eu
minha força se perdeu
na pica mole, encolhida
FOI-SE A ILUSÃO DESSA VIDA
A MINHA PICA MORREU.

1 288
Natália Correia

Natália Correia

Pusemos tanto azul nessa distância

ancorada em incerta claridade

e ficamos nas paredes do vento

a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves

que secam folhas nas árvores dos dedos.

E ficámos cingidos nas estátuas

a morder-nos na carne dum segredo.

de Poemas (1955)

2 430
José Lino Grünewald

José Lino Grünewald

Vai e Vem

vaievem

e e

vemevai

3 030
Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes

Carlos Eduardo Bandeira de Mello Gomes

O Silêncio

O silêncio
morre na boca azul da lua
"temos todo o tempo do mundo"
só não tenho tempo de viver
mas vivo, claro verbo profundo
"parece cocaína mas é só tristeza"
o silêncio
nasce no ventre branco do lírio
passa o colírio
e uma gota de orvalho do teu incêndio

816
Manuel Alegre

Manuel Alegre

Página

outro é o tempo
outra a medida

tão grande a página
tão curta a escrita

entre o achigã e a perdiz
entre chaparro e choupo

tanto país
e tão pouco

2 556
Daniel Faria

Daniel Faria

O meu projecto de morrer

O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 112