Morte e Luto

Poemas neste tema

Vasko Popa

Vasko Popa

- Debaixo da terra

Músculo da treva músculo da carne
Isso dá no mesmo
E o que faremos agora
Convocaremos os ossos de todos os tempos
Subiremos até o sol
E então o que faremos
Cresceremos então limpos
Continuaremos crescendo à vontade
E depois o que faremos
Nada um vagar de cá para lá
Seremos um eterno ser ósseo
Espera só o bocejo da terra
619
Vasko Popa

Vasko Popa

- Diante do final

Onde iremos agora
Onde a lugar algum
Onde poderiam ir dois ossos
O que faremos lá
Lá nos de há muito
Lá nos espera ansioso
Nada e sua mulher nada
De que lhes servimos nós
Envelheceram desossados
Seremos para eles como filhos
672
João Apolinário

João Apolinário

A pressa de chegar...

A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer



A pressa de chegar
O desvario obtuso
O medo de parar
gasto pelo uso
de estar



A pressa de chegar
A pressa a louca pressa
de poder encontrar
aquilo que me esqueça
de levar



A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer

.
.
.





1 407
Vasko Popa

Vasko Popa

- No começo

Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
O que faremos agora
Diz algo
Talvez queiras ser
A espinha do raio
Diz algo mais
O que direi
O osso pélvico da tempestade
Diz outra coisa
Nada mais sei
Costela celeste
Não somos os ossos de ninguém
Diz uma terceira coisa
600
Rui Knopfli

Rui Knopfli

Maxilar triste

Suave curva dolorosa
atenuando o bordo rijo
desse rosto derradeiro
de brancura infinita.

Impugnando-lhe a doçura,
a antinomia do tempo
acentuará os duros ângulos
num mapa de tristeza

irreparável. O sorriso
vago nela projecta um
brilho fosco de loiça antiga:

espreitando na carne
os dentes anunciam o resto.



1 197
Bronisława Wajs

Bronisława Wajs

Historinha cigana

Ela molda uma andorinha
sob minha janela o ninho,
andorinha negra
como a Ciganinha.
Ela nos apontou bons caminhos.
Ela viveu em estábulos e casas.
Ela morreu num pântano.
710
Kenneth Rexroth

Kenneth Rexroth

Num Cemitério Militar

Estranho, quando vier a Washington
Diga a eles que aqui deitados
Aguardamos suas ordens.
c/ Simônides
ON A MILITARY GRAVEYARD
Stranger, when you come to Washington
Tell them that we lie here
Obedient to their orders.
after Simonides
592
Isabel Câmara

Isabel Câmara

ninguém morre ao travesseiro

ninguém morre ao travesseiro

só os sonhos

isto quando há travesseiro

ou lojas cheirosas
de
tanto capim-do-pará murta macela...

essas ervas que socorrem

a Santa Mãe Natureza


689
Christopher Okigbo

Christopher Okigbo

A árvore

A raiz atingiu
Um veio de pedra.

A seiva seca no caule
Em ascensão:
O sangue seca na veia
Como seiva.

(tradução de Ricardo Domeneck)


The Tree
Christopher Okigbo

THE ROOT has struck
A layer of rock;

The sap dries out in the stem
Upwards:
The blood dries out in the vein
Like sap.



.
.
.
882
Erich Fried

Erich Fried

Naturalização

Mãos brancas
cabelos ruivos
olhos azuis

Pedras brancas
sangue ruivo
lábios azuis

Ossos brancos
areia ruiva
céu azul

:

Einbürgerung

Weisse Hände
rotes Haar
blaue Augen

Weisse Steine
rotes Blut
blaue Lippen

Weisse Knochen
roter Sand
blauer Himmel


948
Erich Fried

Erich Fried

Falta de humor

Os moleques
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos

Os sapos
morrem
de verdade

:

Humorlos

Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen

Die Frösche
sterben
im Ernst


805
Pentti Saarikoski

Pentti Saarikoski

XLVII

os mortos têm nomes
os vivos: uma cara e dez dedos
555
António José Forte

António José Forte

O Bom Artífice

Entretanto
dez séculos mais tarde no local do drama
o diabo
diante do seu fomo
levanta por instantes seus doces olhos
para quatro mil cadafalsos

Vêde
mais além o bom artífice
mostrando
anjos
ou
batéis

ainda uma canção
se gostais
de belas torturas
não ouvireis nada



António José Forte, Uma Faca nos Dentes


1 048
Noémia de Sousa

Noémia de Sousa

Grão d'areia

Um só ínfimo grão d'areia
nunca imaginei
pesar tanto.

--------------

eu depondo
no clássico ritual
sobre o nosso adeus
constrangidos torrões
a mancheias.

2 994
Noémia de Sousa

Noémia de Sousa

Te Deum

Opressiva
a inquietude
no carrilar dos bronzes.

Libreto
de mil cactos
em mudo refrão dos desertos.

Dobre
de sinos
em solene Te Deum
de graças pela Maria.

2 402
Lalla Romano

Lalla Romano

Até o ar está morto

Até o ar está morto
o céu é como uma pedra
Os pássaros não sabem mais voar
atiram-se como cegos
dos beirais dos tetos
:
Anche l'aria è morta
il cielo è come una pietra
Gli uccelli non sanno più volare
si buttano come ciechi
giù dall'orlo dei tetti
712
Moacy Cirne

Moacy Cirne

Poema final

o homem só,
velho e cansado,
olha para a frente
e nada vê.
olha para os lados
e nada vê.
olha para o fim do mundo
e nada vê.
entre
o espanto dos suicidas
e
o silêncio dos desamados,
o homem cansado,
velho e só,
olha para o poema
e nada vê.
será
que os sinos
dobrarão por ele?
1 296
Juan Gelman

Juan Gelman

claro que morrerei

claro que morrerei e hão de levar-me
em ossos ou cinzas
e dirão palavras e cinzas
e eu hei de morrer totalmente

claro que isto acabará
minhas mãos pelas tuas alimentadas
hão de pensar-se de novo
na umidade da terra

eu cá não quero caixão
nem roupa

que o barro aceite minha cabeça
e que os bichos me devorem
agora
despido de ti
1 720
Arlindo Barbeitos

Arlindo Barbeitos

Esperança

Por entre as margens da esperança e da morte
meteste a tua mão
e
eu vi alongados nas águas
os dedos que me agarram

em lagoa de um sonho
corpo de jacaré
é soturna jangada de palavras secas
por entre as margens da esperança e da morte
1 941
Paulo Leminski

Paulo Leminski

lembrem de mim

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça


Publicado no livro Polonaises (1980).

In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 198
1 848
Fernando Paixão

Fernando Paixão

84-a [Descobri a morte aos poucos

Descobri a morte aos poucos
imagens que ceifam como foices.
Repentinos amanheceres
torcidas árvores
e frutas podres.
Fui provando
seus sabores.


In: PAIXÃO, Fernando. Fogo dos rios. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1991. p.5
1 389
Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Céus Nossos

Céus nossos, terra nossa,
nossa é a graça,
a graça de existir por um momento.

Chamas, ensinai-nos a lição
de iluminar morrendo.


In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
1 089
Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

Folclírica 3

O mundo tem
entrada e saída.

Eu:
estou de visita.

(Quem pôs
a vassoura
atrás da porta
do invisível?)

1975


Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.111. (Sélesis, 13
1 197
Olga Savary

Olga Savary

Sextilha Camoniana

Daqui dou o viver já por vivido.
Quero estar quieta, sozinha agora,
igual a uma cobra de cabeça chata,
ficar sentada sobre os meus joelhos
como alguém coagulado em outra margem.
Daqui dou o viver já por vivido.

Rio, 1973


In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
1 822