Dor e Desespero

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei o quê desgosta

Não sei o quê desgosta
A minha alma doente.
Uma dor suposta
Dói-me realmente.

Como um barco absorto
Em se naufragar
À vista do porto
E num calmo mar,

Por meu ser me afundo,
Para longe da vista
Durmo o incerto mundo.


26/07/1910
4 985
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Hoje, neste ócio incerto

Hoje, neste ócio incerto
Sem prazer nem razão,
Como a um túmulo aberto
Fecho meu coração.

Na inútil consciência
De ser inútil tudo,
Fecho-o, contra a violência
Do mundo duro e rudo.

Mas que mal sofre um morto?
Contra que defendê-lo?
Fecho-o, em fechá-lo absorto,
E sem querer sabê-lo.


09/02/1923
3 745
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Onda que, enrolada, tornas,

Onda que, enrolada, tornas,
Pequena, ao mar que te trouxe
E ao recuar te transtornas
Como se o mar nada fosse,

Porque é que levas contigo
Só a tua cessação,
E, ao voltar ao mar antigo,
Não levas meu coração?

Há tanto tempo que o tenho
Que me pesa de o sentir.
Leva-o no som sem tamanho
Com que te ouço fugir!


09/05/1934
4 622
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não tragas flores, que eu sofro...

Não tragas flores, que eu sofro...
Rosas, lírios, ou vida...
Ténue e insensível sofro
O céu que se não olvida!

Não tragas flores, nem digas...
Sempre há-de haver cessar...
Deixa tudo acabar...
Cresceram só ortigas.


18/05/1922

4 289
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O meu tédio não dorme.

O meu tédio não dorme.
Cansado existe em mim
Como uma dor informe
Que não tem causa ou fim.


19/06/1915
4 296
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vento que passas

Vento que passas
Nos pinheirais,
Quantas desgraças
Lembram teus ais.

Quanta tristeza,
Sem o perdão
De chorar, pesa
No coração.

E ó vento vago
Das solidões
Traz um afago
Aos corações.

À dor que ignoras
Presta os teus ais,
Vento que choras
Nos pinheirais.


21/08/1921
4 628
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,

Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!

(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)

Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...
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