Corpo
Poemas neste tema
Manuel António Pina
Os joelhos
Os teus joelhos dedicados como bichos
Tão exactamente debaixo da mesa guardas os joelhos!
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 50 | Assírio & Alvim, 2012
1 462
Nuno Júdice
Epigrama gastronómico
Há mil e cem anos
de poesia num só dia
mil e cem palavras
numa só sílaba,
mil e cem páginas
numa linha
-quando abro o livro
do teu corpo, e provo mil
e cem receitas num só
amor.
1 324
Manuel António Pina
Agora é diferente
Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro
Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor
Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora
1 950
Fernando Pessoa
Trazes os brincos compridos,
Trazes os brincos compridos,
Aqueles brincos que são
Como as saudades que temos
A pender do coração.
Aqueles brincos que são
Como as saudades que temos
A pender do coração.
1 830
Fernando Pessoa
A tua boca de riso
A tua boca de riso
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.
2 038
Fernando Pessoa
Lenço preto de orla branca —
Lenço preto de orla branca —
Ataste-o mal a valer
À roda desse pescoço
Que tem que se lhe dizer.
Ataste-o mal a valer
À roda desse pescoço
Que tem que se lhe dizer.
991
Fernando Pessoa
Puseste por brincadeira
Puseste por brincadeira
A touca da tua irmã.
Ó corpo de bailadeira,
Toda a noite tem manhã.
A touca da tua irmã.
Ó corpo de bailadeira,
Toda a noite tem manhã.
1 259
Fernando Pessoa
Se vais de vestido novo
Se vais de vestido novo
O teu próprio andar o diz,
E ao passar por entre o povo
Até teu corpo é feliz.
O teu próprio andar o diz,
E ao passar por entre o povo
Até teu corpo é feliz.
1 126
Fernando Pessoa
Horror! Conhecer intimamente
Horror! Conhecer intimamente
O transcendente horror dum corpo humano!
Sentir o mistério doutra vida
Tão intimamente perto... quase nosso
E como que carnalizar em hórrida
Intranscendência o mistério em si.
O transcendente horror dum corpo humano!
Sentir o mistério doutra vida
Tão intimamente perto... quase nosso
E como que carnalizar em hórrida
Intranscendência o mistério em si.
1 714
Fernando Pessoa
I loved a woman;
I loved a woman; there was the story of sex relations, an emotional novelty. They were sex relations and no more. It was pleasure and no more.
687
Fernando Pessoa
A água chia no púcaro que elevo à boca.
A água chia no púcaro que elevo à boca.
«É um som fresco» diz-me quem me dá a bebê-la.
Sorrio. O som é só um som de chiar.
Bebo a água sem ouvir nada com a minha garganta.
«É um som fresco» diz-me quem me dá a bebê-la.
Sorrio. O som é só um som de chiar.
Bebo a água sem ouvir nada com a minha garganta.
1 434
Fernando Pessoa
FLASHES OF MADNESS — I
I.
Thy hand with its lovely fingers
And the heavy rings on them!
How my soul over them lingers
Each finger with a heavy gem,
Each ring like a small diadem!
When thou and I are alone,
One only wish my soul stings —
Holding thy hand in my own,
All night, while the night-bird sings,
To take off and replace thy rings.
Thy hand with its lovely fingers
And the heavy rings on them!
How my soul over them lingers
Each finger with a heavy gem,
Each ring like a small diadem!
When thou and I are alone,
One only wish my soul stings —
Holding thy hand in my own,
All night, while the night-bird sings,
To take off and replace thy rings.
956
Fernando Pessoa
FLASHES OF MADNESS — III
III.
Eyes are strange things.
Meaning in them becomes life,
Life in them has wings.
Look at me thus. Thy glance is mad and rare.
Thine eyes show deep and wild an inner strife.
How they are more than Horror fair!
Eyes are strange things.
Meaning in them becomes life,
Life in them has wings.
Look at me thus. Thy glance is mad and rare.
Thine eyes show deep and wild an inner strife.
How they are more than Horror fair!
1 124
Fernando Pessoa
A tua saia, que é curta,
A tua saia, que é curta,
Deixa-te a perna a mostrar:
Meu coração já se furta
A sentir sem eu pensar.
Deixa-te a perna a mostrar:
Meu coração já se furta
A sentir sem eu pensar.
1 294
Fernando Pessoa
Só com um jeito do corpo
Só com um jeito do corpo
Feito sem dares por isso
Fazes mais mal que o demónio
Em dias de grande enguiço.
Feito sem dares por isso
Fazes mais mal que o demónio
Em dias de grande enguiço.
1 402
Fernando Pessoa
Quando apertaste o teu cinto
Quando apertaste o teu cinto
Puseste o cravo na boca.
Não sei dizer o que sinto
Quando o que sinto me toca.
Puseste o cravo na boca.
Não sei dizer o que sinto
Quando o que sinto me toca.
1 466
Fernando Pessoa
ODE TO A WOMAN'S BODY
For thou art two — thy woman's self and God
Thy Presence is a (...) mystery
Thy flesh is spirit looked on as eyes should
When they inquire of thought what is't to see?
Every limit is the visible road
To an invisible infinity
Thy Presence is a (...) mystery
Thy flesh is spirit looked on as eyes should
When they inquire of thought what is't to see?
Every limit is the visible road
To an invisible infinity
1 444
Fernando Pessoa
Um corpo humano!
Um corpo humano!
Às vezes, eu olhando o próprio corpo
Estremecia de terror ao vê-lo
Assim na realidade, tão carnal.
Encarnação do mistério, tão próximo
Misteriosidade e transcendente
Apontar-se-(me) em mim do negro e fundo
Mistério do universo.
Às vezes, eu olhando o próprio corpo
Estremecia de terror ao vê-lo
Assim na realidade, tão carnal.
Encarnação do mistério, tão próximo
Misteriosidade e transcendente
Apontar-se-(me) em mim do negro e fundo
Mistério do universo.
2 719
Fernando Pessoa
O mistério ideal dum corpo humano,
O mistério ideal dum corpo humano,
O qual se as potestades e os seus seres
Intimamente vissem e soubessem
Nenhum homem em guerra ou dessidência
Cairia, tal o terror que inspira
E o respeito que nasce do terror!
O corpo humano o mistério inventa.
O qual se as potestades e os seus seres
Intimamente vissem e soubessem
Nenhum homem em guerra ou dessidência
Cairia, tal o terror que inspira
E o respeito que nasce do terror!
O corpo humano o mistério inventa.
2 040
Fernando Pessoa
MOMENTS - V
V
The heart's a pump.
The heart's a pump.
1 198
Fernando Pessoa
Teu corpo real que dorme
Teu corpo real que dorme
É um frio no meu ser.
É um frio no meu ser.
865
Fernando Pessoa
Estou doente. Meus pensamentos começam a estar confusos,
Estou doente. Meus pensamentos começam a estar confusos,
Mas o meu corpo, tocando nas coisas, entra nelas.
Sinto-me parte das coisas com o tacto
E urna grande libertação começa a fazer-se em mim,
Uma grande alegria solene como a de um acto heróico
Pondo a vis no gesto sóbrio e escondido.
Mas o meu corpo, tocando nas coisas, entra nelas.
Sinto-me parte das coisas com o tacto
E urna grande libertação começa a fazer-se em mim,
Uma grande alegria solene como a de um acto heróico
Pondo a vis no gesto sóbrio e escondido.
1 597
Ibn Ammar
A amada
Ela é uma frágil gazela:
Olhares de narciso
Acenos de açucena
Sorriso de margarida.
E os seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta
Da música do requebro da cintura.
Olhares de narciso
Acenos de açucena
Sorriso de margarida.
E os seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta
Da música do requebro da cintura.
1 229
Fernando Pessoa
Boca de riso escarlate/E de sorriso de rir...
Boca de riso escarlate
E de sorriso de rir...
Meu coração bate, bate,
Bate de te ver e ouvir.
E de sorriso de rir...
Meu coração bate, bate,
Bate de te ver e ouvir.
1 594
Português
English
Español