Escritas

Conflito

Poemas neste tema

Leandro Nogueira Monteiro

Leandro Nogueira Monteiro

TEL AVIV, 05-11-95

Por que morrem as pombas da Paz?
Por que são elas devoradas pelas serpentes?
Será que dessa Paz tem pavor
Aqueles que lutam em guerras de sangue?

Canta hoje o mundo a canção da dor
A mesma canção que ontem glorificou a Paz,
Embutida num aperto de mãos,
A mesma que amanhã adorará uma memória.

Choram-se hoje os risos de ontem
A perda, não de mais uma pomba, mas dum ninho,
De um vitorioso, que trazia consigo
O dom de ser o que era.

O mundo hoje diminuiu seu exército,
Perdeu um batalhão bem disfarçado de soldado.
Adeus, Yitzhak Rabin, guerreiro sem guerra.
Pomba, voa mais alto...

892
Geraldo Lyra

Geraldo Lyra

Perdão para Meu Pai!

Meu pai pagou bem caro uma aventura
com jovem que não tinha virgindade,
pois, quando a "conheceu", toda a cidade
sabia que não era mulher pura ...

O genitor da tal, por crueldade,
contratou pistoleiros de alma dura:
— pegado de surpresa, um que o segura
e outro que o esfaqueia sem piedade ...

Pelo resto da vida deformado,
sofreu motejos e os filhos, também,
mesmo sem terem culpa do pecado...

Mas, quem de uma moiçola enjeita as graças?
— E eu, agora, respondo que — ninguém,
apesar das piores das desgraças!!!

306
Leão Moysés Zagury

Leão Moysés Zagury

Somália

Somália; terra sem dono,
infinita luta rubra,
vertente de rio desumano.

Cidades ao léu,
descrevem os horrores
da guerra.

Lutas fratricidas
arrancam a seiva da vida.

Guerra!
Oh! antropofagia moderna!
Homens sem rostos
deixados à mingua
de fome.

Guerreiros
secam esperanças,
matam de fome.

Somália sem dono,
extingue-se...

Somália
agoniza!

1 093
João Linneu

João Linneu

A ânsia de desfazer o nó górdio
desloca a pedra angular,
- sustento do amor e ódio -
e nos faz pletórica a jugular.

834
Tomáz Kim

Tomáz Kim

Antes da Metralha

Antes da metralha e do dedo da morte...
Antes dum corpo jovem, anônimo,
apodrecer, esquecido, à chuva...
Ou singrar, boiando, nas águas mansas...
Ou se despedaçar contra o céu indiferente...

Antes do pavor e do pranto e da prece...
Um adeus longo e triste
aos poemas amontoados no fundo da gaveta
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...

Antes da morte sem mistério...
Um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!

1 129
Tomáz Kim

Tomáz Kim

Ladainha Para Qualquer Natal

Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Tumba de carne viva em ódio amortalhada,
Anunciando sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Que esta noite não seja para sempre
De fome pra lá de tantas portas
Como flor viçosa em campa rasa.
Que esta noite não seja para sempre
De amor vendido a horas mortas
E o pudor lembrando e a raiva queimando.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Chaga aberta, como rubra flor de pesadelo,
Escorrendo sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
E seja para sempre esta noite
Cheia de graça na terra dos homens.

Assim seja

2 235
Tomáz Kim

Tomáz Kim

Campo de Batalha

1
A noite, porém, rangeu e quebrou:

Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.

Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.

Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!

2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.

Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.

Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.

Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!

3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...

Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...

Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...

4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.

Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...

Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!

5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.

É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!

6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...

Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...

Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...

Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!

1 523
Washington Queiroz

Washington Queiroz

Toque de Cristal

Granítica
é a palavra amor

Diamantina
é a palavra ódio.

722
Jurema Batista de Sousa

Jurema Batista de Sousa

Horário de Verão

Não sonhe mais vinte minutos!
Os homens, que mandam no tempo
colocam seus dedos pegajosos
sobre o relógio inocente
e ceifam estes vinte minutos
onde sua alma podia vadiar.
Não sinta nem mais um instante
que o mundo inexiste uma hora,
nesta hora, a violência germina
e nos quarenta minutos restantes
preparadas estão as armadilhas,
onde nosso coração é apenas
uma pequena raposa jovem.
Atrasa o teu relógio esta hora
para desvendar o mistério
da vida que pulsa desafiando
os terroristas da lógica.

798
José de Oliveira Falcon

José de Oliveira Falcon

Prelúdio

os galos na madrugada
cobrindo as éguas do alerta
os atalaias do alarme
na grande praça deserta

os galos rubros de guerra
espora crista e fanfarra
rasgando ao quebrar da barra
a gema de sol na serra

o heroísmo dos galos
com o levante na garganta
o galopar dos seus gritos
na luz que livre alevanta

madruga aurora madura
rompe a fanfarra na serra
brasão triunfo e estandarte
dos galos rubros de guerra

842
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Quem Somos Nós?

desenvolva
não envolva
lute e deguste
o prazer de se chegar
a um merecido
nenhum lugar

arrase a razão
prenda a prisão
da precisa imprecisão
dos infames imprestáveis

ame o ódio
dos que te odeiam
leia os lábios mudos
daqueles que te olham
ame tudo que não existe
e acredite no amor

a existência é uma experiência
cujos ratos somos nós...
meu deus eu não agüento mais
ficar assim tão quieto
me diga então enquanto vivo:
será que vamos dar certo?

852
José de Paula Ramos Jr.

José de Paula Ramos Jr.

Aquiles

A minha morte escolho nesta hora,
ao pé do corpo frio que jaz inerte.
No campo de batalha, junto a Tróia,
não mais verei, entrando nessa tenda,
sentado no divã, tocando a lira,
o amigo que foi morto em meu lugar.
Tristes despojos, Pátroclo divino,
regressas sem a vida e sem o escudo,
teu cadáver saqueado à tenda torna,
pilhado da armadura que envergaste.
Heitor, que te deu fim, e agora empunha
as armas que brandiste bravamente,
ufano está do feito vitorioso.
Pois regozije enquanto a Moira escura
no gume de meu gládio não provar.
Bem sei que morrerei dessa vingança,
assim me foi predito pelos deuses;
mas nada vale a vida sem a cólera,
que me dará na morte eterna glória.

1 650
José Maria Nascimento

José Maria Nascimento

Tempos de Zona

A gilete se aprofunda sobre um amontoado de sífilis
as coxas um mapa de tantas cicatrizes.
Em cada mesa uma constante mudança
nunca ou quase nunca renovada
que é infeliz a nostálgica canção
brotando do disco como brota um fruto.

A toalha que envolve o corpo
é a miragem de tantas taras
é a fumaça perdida no trago
é a faca jogada no bueiro
é o anel cravado nos dentes
é o ouro entranhado no ventre
é o líquido da virgindade vendida.

Por dentro de uma garrafa
toda uma vida aqui se torna calma.
No espaço do gole
para o soluço inauguramos
os encontros passados com os amigos mais tristes
bailando nesta rua 28
vinte e oito vezes apaixonados.

795
João Marcio Furtado Costa

João Marcio Furtado Costa

Auto-Estima

Auto-Estima

(11/96)

Se não me perdôo,
por não ser perfeito,
não vou alçar vôo,
pode não ser direito

Se me cega, a miopia,
e a auto-crítica imputa,
de que vale, no peito,
bater "mea culpa"

Se pra todos entôo,
meu maior defeito,
pode ser de enjôo,
o derradeiro efeito

Se pra acertar o alvo,
é, me imposta, uma multa,
esperar ficar calvo,
é um preço que insulta

Se eu preciso paciência,
pra viver diferenças,
e o que sobra é carência,
paz encontro em minhas crenças

Mas no jogo da vida,
pra buscar o reverso,
e tê-la bem resolvida,
mais que apoio, é o verso

Que resgata da alma,
o que anima e ensina,
e regenera, na calma,
o vigor da auto-estima.

807
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

blas fêmea

Há uma vastidão de desejos
entre os teus seios...
...que ira maior poderia haver
que o varrer dos meus dentes
no teu ventre?

E me deixar
sumir em teus abismos
Nem os braços abertos de um cristo
tanto fariam.

Iludiriam mesmo a alma
do mais crente dos homens

(não são para mim, demasiado humano)

mortal demais,
insano
indigno dos teus lençóis

Goulart Gomes, Salvador, BA

840
Truck Tumleh

Truck Tumleh

Rotina

a lua
se esconde,
estrelas desaparecem,
o pássaro canta.

o sol
entra sala a dentro
e o relógio dispara;
o sono se despede
acordo.

saio.
como se fosse
um robô,
caio na rotina.

as coisas
que antes havia citado,
somem por trás
dos meus ombros.

pego um ônibus cheio,
por estar cheio de tudo
e eu de todos
não percebo
quem levou minha carteira.

uma bala perdida
atinge o poema.
he-mor-ra-gia!
sinal vermelho.

freio!
como um coração
que anuncia
sua última batida.

836
Goulart Gomes

Goulart Gomes

Batalha Final

se amanhã me condenarem à morte
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos

quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo

os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado

e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...

992
Nelson Ascher

Nelson Ascher

O purgatório do Boca do Inferno

Mistérios gregorianos

Desde sua morte, há prováveis 300 anos, até os dias de hoje, a pessoa e a poesia de Gregório de Matos são objeto de uma polêmica ininterrupta Gregório de Matos e Guerra, cujo tricentenário da morte ocorre provavelmente no presente ano, é geralmente considerado a figura literária mais relevante do Brasil colonial. Ainda assim, o Boca do Inferno encontra-se há cerca de 150 anos num purgatório crítico, depois de ter passado outros tantos numa espécie de limbo. Tão ou mais célebre do que o satirista barroco é a ininterrupta polêmica que, por século e meio, mas, de certa forma, há já, pelo menos, três séculos, tem posto em questão tudo que diz respeito à sua pessoa, obra, reputação, época etc.
Nascido em Salvador, talvez em 1636, ou seja, há 360 anos, ele teria estudado na Bahia e em Portugal (Coimbra), e vivido dos dois lados do Atlântico, numa trajetória que incluiria um exílio em Angola, algo que, segundo a lenda, decorreria de uma reação de autoridades ofendidas pela virulência de suas sátiras. Julga-se que, já de retorno ao Brasil, teria morrido no Recife em 1696 ou 1695 (a segunda hipótese é defendida pelo historiador Fernando da Rocha Peres em texto nesta página).
A primeira "biografia" foi escrita um século depois. Acerca de sua vida há, portanto, pouquíssimos fatos, bastante conjetura e muito mais ignorância.
Os mistérios que cercam sua obra são ainda maiores, pois, enquanto vivia o provável autor, seus poemas — jamais recolhidos por ele mesmo num volume autógrafo — circularam em folhas soltas, copiados e recopiados à mão, e seu texto se alterava de versão em versão. Como discutir então suas intenções originais? Virtualmente "desaparecida" depois de sua morte, a obra volta realmente a circular aos poucos apenas em 1850. E, embora o poeta já tivesse sido atacado em vida enquanto imitador, foi só com a publicação de meados do século passado que principiou de verdade a "questão gregoriana".
Como se poderia esperar, essa polêmica dizia amiúde menos respeito ao poeta ou aos poemas do que às preocupações dos polemistas e de seu tempo. Num primeiro momento, que cobre cerca de cem anos, há sem dúvida textos sérios, mas o que se discute em geral é menos a qualidade dos textos, seu contexto histórico e outras tantas coisas do gênero, do que seu "caráter":
Gregório é autor original ou mero plagiário? Trata-se de um grande poeta que torna grande a poesia brasileira desde seus primórdios ou será ele, alternativamente, um português ou um mulato sem relevância. Ufanemo-nos dele e do nosso país ou não?
A mudança qualitativa da querela vem na segunda metade dos anos 40, primeiro com a publicação, por parte de Segismundo Spina, de uma antologia comentada e prefaciada por um minucioso estudo favorável ao poeta, tudo isso realizado segundo critérios de discussão mais congeniais aos dias que correm. Em seguida, a posição contrária também se renova por meio de alguns estudos de Paulo Rónai, que não tanto repete os velhos argumentos quanto os modifica ao repô-los em bases filológicas e estilísticas mais seguras.
Uma observação contundente, porém, que João Carlos Teixeira Gomes faz em seu "Gregório de Matos - O Boca-de-Brasa", é a de que nem uma vez sequer usa Rónai, para se referir ao poeta, o termo "barroco". Pode-se argumentar que o crítico húngaro formou-se num país e num período quando esse nome era sinônimo de decadência não só literária, mas social, econômica, nacional. Isso talvez ajude a explicar a posição de Rónai que, defensor de primeira hora de Drummond e de Guimarães Rosa, não pode ser qualificado de literato conservador.
Em todo caso, a omissão de Rónai demarca o signo sob o qual a polêmica viria a continuar e segue se travando: o da importância do barroco. A reavaliação do barroco, efetuada sobretudo nos anos 20, por gente como T.S. Eliot na Inglaterra, García Lorca na Espanha e Walter Benjamin na Alemanha, foi mais do que uma discussão meramente erudita e resumia, à sua maneira, muitos dos pontos programáticos do modernismo internacional. A partir dos anos 50, a "questão gregoriana" que inicialmente pouco tinha a ver com isso tudo, revestiu-se também desse significado que no Brasil parece agora ser o central. Esse é seguramente o tema principal do estudo de Haroldo de Campos, como se pode ver até mesmo em seu título —"O Sequestro do Barroco".
Ser hoje contra ou a favor de Gregório implica principalmente tomar partido num debate sobre o barroco, seu significado e sua relevância para a literatura moderna. É claro que há outras discussões paralelas como, segundo o gosto de nosso tempo, sobre o sentido político da obra de Gregório, se suas sátiras são, de acordo com os padrões de sua época ou da nossa, anticolonialistas, progressistas, talvez revolucionárias, ou conformistas, reacionárias e mesmo racistas. É justo que estas e outras questões sejam esmiuçadas e é provável que encontrem tão pouca resolução, ou pelo menos consenso, quanto as mais antigas. Para todos os efeitos, quanto mais "sub judice", mais presente a obra contestada de Gregório se torna na literatura brasileira, embora sua presença se configure sob a forma do paradoxo —provavelmente perpétuo.
Original e revolucionário.
(in Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 20/10/96)

Leia obra poética de Nelson Ascher

1 414
Goulart Gomes

Goulart Gomes

Mariniello

agosto seis
havia um cogumelo na história
mega-tons de Hiroxima:
um talo, a rosa

caído de joelhos
e o corpo
numa curva
para traz
teus ais

tudo era tão justo
que o mais
nobre
dos mortais
se renderia
às tuas ancas
brancas
frias; quadris
chuva ácida asperjada

e um clarão
denovo
dia
no espírito
paz...

817
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti

Gabriela Cunha Melo Cavalcanti

Realidade

Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?

Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?

Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 019
Fernando Mendes Vianna

Fernando Mendes Vianna

Iniciação

Teu fígado certo
inundarei de álcool.
Tua unha clara
sujarei de sangue.

No teu ventre puro
plantarei dez árvores.
No teu peito liso
agitarei as águas.

Em teu olhar gramado
cavarei uma vala,
e nesse longo sulco
sepultarei teu príncipe.

Rasgarás tuas sedas
e vestirás teu corpo.
Esquecerás tua mãe,
tua melhor amiga
e a oração ao anjo da guarda.

E me adorarás.

1 004
Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

A paz não está tão longe

Inúteis as conferências de paz,
os acordos, os ajustes
e tudo mais.

Como desarmar as potências
sem, antes, desarmar os espíritos?

Inúteis as conversações bilaterais,
nas mesas redondas (ou quadráticas?)
e tudo mais.

Como evitar a explosão atômica
sem, antes, conter a explosão das consciências?

Não procure o homem a paz
em conciliábulos multipartites.

Para encontrá-la
não é preciso ir a Versailles,
Genebra, Washington, Moscou,
Cabo Frio ou Tambaú.

No dia em que cada um de nós
encontrar a sua paz,
aí, sim, a columbina ave
abrirá suas asas sobre a humanidade.

762
Frederico Barbosa

Frederico Barbosa

Rarefato

Outra trilogia do tédio

I

Nenhuma voz humana aqui se pronunciachove um fantasma anárquico, demolidor

amplo nada no vazio deste desertoanuncia-se como ausência, carne em unha

odor silencioso no vento escarpacorte de um espectro pousando na água

tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa

II

Sentia o término correndo nas veias.Há pressa: via.Houve um momento grave.(O filme era ruim. O cinema, lotado.Na luz neblina, escondido, um cigarro.)Impossível escapar ao pânico,prever o vazio provável.De repente: o estalo.Terminal,a consciência do zero rondando.Estado, condição, estado.Abre:

III

Dominado pela pedra, insone,descolorido, o crime principianas altas horas de noite vaziaganha corpo no decorrer do dia.

Ganha corpo no decorrer do dia,dominado pela pedra insonedor de náusea delicada e infame,das altas horas da noite vazia.

Dor de náusea delicada, infame,nas altas horas na noite vaziaganha corpo no decorrer, no diadominada pela pedra, insone.

Ganha corpo no decorrer do dia,dor de naúsea delicada e infamedescolorido, o crime principiaalia-se ao tédio impune e some.

Poema em espanhol
1 401

Essas línguas

O descanso do crepúsculo, a sonolência
Perco-me em situações que talvez
poderia evitar.
Ah! Essas línguas
Por que não as engulo,
Por que o sonho vem assim ,
de repente,
sem que eu queira?
Não sei, ou sei que na vida existem os
Frustrantes e os frustados
Eu inutilmente estou nestes últimos
O fogo que corroe minha garganta
Por que eu simplesmente não fecho
a boca?
Fogo que talvez destruísse tímpanos
de quem estivesse perto.
sinto-me em lágrimas
preciso de uma gota de amor,
de afeto, de carinho...
Vivo perambulando pelos pensamentos
vagos dos que me rodeiam.
A palavra seria paz,
talvez seja este o verdadeiro inferno
que me faz viver.
Que me empurra
que me rodeia.
Quem sabe um dia eu morra
ou me cale.

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