Solidão

Poemas neste tema

Raimundo Oswald Cavalcante Barroso

Raimundo Oswald Cavalcante Barroso

A Vida no Cárcere

A vida no cárcere é limitada.
Nosso corredor é bem estreito.
Apenas no sábado
temos visita.
Dela saímos
exaustos de tanto viver
a semana em poucas horas.

884
Orlando Neves

Orlando Neves

1935

Vou alimentar-te à mão, ternura,
até que morras negada
pelos fantasmas que são, vivas,
as pessoas. Vou alimentar-te
como a um animal feroz
que guardo, amo e temo.
Vou alimentar-te de mim,
ternura.

1 019
Neide Archanjo

Neide Archanjo

Noite adentro

Noite adentro
olhos ancorados em Deus
dormem os animais
as crianças as plantas

Ninguém mais.

1 146
Moreira Campos

Moreira Campos

Antecipação

Este fim de tarde,
estes túmulos,
a visita aos meus.
Esta solidão,
o silêncio dos meus próprios passos
entre carrapichos,
que se grudaram às minhas calças.
O apito longo da velha máquina
(perto é a oficina da Estrada de Ferro)
vem de longe,
tem tons de queixa e modulações de chamado.
Dominam-me a renúncia
e um desejo de antecipação.

1 110
Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

Minha felicidade vem de quando estou só

Minha felicidade vem de quando estou só
e ninguém me interrompe no poema,
essa espécie de transfusão
do sangue para a palavra,
sem qualquer estratagema.
A palavra é meu rito, minha forma
de celebrar, investir, reivindicar:
a palavra é a minha verdade,
minha pena exposta sem humilhação
à leitura do outro,
hypocrite lecteur, mon semblable.

1 198
Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

Não conheci o desterro

Não conheci o desterro,
mas sei a quanto obriga.
Vivo na minha terra,
embora desencontrada. Quem sabe
de mim, quem me ouve
o que não digo, quem segura
a rédea de meu sonho, permitindo
o risco da vertigem, o perigo
de conhecer o abismo?

1 136
Mônica Banderas

Mônica Banderas

Desaflito

A solidão é um transplante
de um peito de carne
para um peito de aço.
É a sétima arte equivocada
com a película da face (endurecida)
A solidão é portadora de equívocos.
É um corte ao norte do meu sonho
e à leste de meus planos e perspectivas.

999
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Canto à poesia

Se isto que eu canto agora
fosse alegria,
eu não cantaria.

Pois esta minha canção
é minha tristeza
em forma de poesia.

Pungiu-me a solidão
na minha vida vazia.
Encheu-se o campo de flores,
orquídeas
e braços que já não abrem
para colhê-las.

Triste vida vazia . . .

870
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Velório

Sinto-me só neste velório
As pessoas estão distantes, alheias
o que farão aqui?

Sussurram problemas diários
preço do arroz, sindicato
sucessão presidencial, sucessos do
[rádio . . .

Estou só, na minha lucidez
E embora seja o morto
Me sinto vivo mais do que nunca.

905
Sérgio Mattos

Sérgio Mattos

Sonhei Orizontes

Sonhei horizontes.
Vivi, entre vírgulas, um hiato.
Andei exclamando paixões
e interrogando amores:
(dois pontos)

De repente,
quebrei lanças de solidão
na solidez de teu coração...

879
Marcão de Barros

Marcão de Barros

Haicai

Gato faminto,
copo-de-leite no vaso.
Amor perfeito.

Pijama de bolas
no picadeiro vazio.
Palhaço sonâmbulo.

1 162
Marco Antônio Rosa

Marco Antônio Rosa

Fortaleza

Fortaleza, Fortaleza,
já quase quites então:
quantos turistas
fazem uma cidade,
com quantas ausências
se faz solidão?

846
Marigê Quirino Marchini

Marigê Quirino Marchini

De Diário de Bordo (1958)

De um passado tempo, aqui
que marujo ébrio içará as velas
domingo de manhã
quando todos perguntarem o seu nome
sua nacionalidade o nome do seu barco
e a tripulação?
Ele nada saberá contar senão que
as paredes são como os fuzilados, erguidas contra as sombras
e ele preferia os peixes voadores.

768
Marcelo Almeida de Oliveira

Marcelo Almeida de Oliveira

Shopping center

Olhos de desejo barato.
Vitrines de beleza barata.
sozinhos todos
homens,
desejando,
sozinhos.
Alheios à música ambiente.
- Meu Deus! Quanta falta de amor!
Lágrima solitária
molhou despercebida.

924
Mário Hélio

Mário Hélio

36-VI-(Litografia)

que voz sopra os sons
nessas horas sincopadas
no silêncio dos homens?
que voz assoprará
o assombro
o sombrio ressumbro
os sobrolhos selvagens
da solidão?
e sobrará um silvo
seda e sono solto.

860
João Linneu

João Linneu

Biruta

Por vezes, dentro é tormento;
e fora,- ao relento de mim -,
por mais que tento, nada encanta.
Dentro, - na insônia -,
sem nenhum alento,
louca biruta ao sabor do vento.

982
Jorge Lescano

Jorge Lescano

Inverno

Ao amanhecer
grita o quero-quero
sobre a geada.

A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.

968
Thereza Magalhães Pinto

Thereza Magalhães Pinto

Intransferível

Deixo exiladas
na distância do tempo
efêmero e rude
as lembranças do amor
que vive em mim e
exaltei mais do que pude.

Queixo-me calada
um saldar de profundo
escuro olhar de sensações
e luzes enfim
inexistentes.

Concentro-me
impiedosa, veemente
nos meus
séculos incríveis
de solidão total.

943
Lígia Andrade

Lígia Andrade

Silêncio

O silêncio brota
Flui
escorre em cada canto
Da casa
Exala um perfume triste
De abandono
De algo que passou
Não volta mais
O irremediável
Silêncio
Faca de dois gumes
Cicatriza e ao mesmo tempo fere
E nós
Aproximados na mesma freqüência morna
Mais nos afastamos
Por falta de palavras...

918
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Querer

luz pálida
sinal fechado
solidão me toque não
no outdoor vejo você

encanto de alquimista
qualquer coisa, qualquer vista
mar à vista
meu porto é você

meu olho chove
seu rosto jovem
meu grito mudo
sua boca morde
não me incomode
deixe-me amar

abraça-me em lá maior
me transe em música
e me deixe só...

739
José Eustáquio da Silva

José Eustáquio da Silva

Tive

vou assim sem rumo

chutando pedras pelo caminho

tenho lenço e documento

só não tenho pra onde ir

já tive ao menos um amor

que chutava pedras comigo

hoje me restam apenas as pedras

apenas as pedras...

frias pedras...

981
J. Anderson

J. Anderson

Invenção do Vento

No casarão vazio...
Uma canção triste
Esquecida numa vitrola,
Despertou a nostalgia.
E o vento...
Inventou de trazer lembranças.

1 046
Iacyr Anderson Freitas

Iacyr Anderson Freitas

XXII

sempre a noite na escada
sempre o quarto a
luminária
o disco de sempre
essa toada sem graça
esse asco profundo
esse medo de sacrificar-se

esse sempre

XXII

Sempre la notte nella scala
sempre la stanza la
lucerna
il disco di sempre
quella canzone senza grazia
quella nausea profonda
quella paura di sacrificarsi

quel sempre

867
Lucila Issa

Lucila Issa

Why

Grito:
vazio preenchido,
eco infinito,
enfraquece,
perturba a chuva
que volta a reinar.

Pergunto por que
responde porque.
Volta a chuva,
vai-se o eco perdido
à procura.

830