Morte e Luto

Poemas neste tema

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah, que extraordinário,

Ah, que extraordinário,
Nos grandes momentos do sossego da tristeza,
Como quando alguém morre, e estamos em casa dele e todos estão quietos
O rodar de um carro na rua, ou o canto de um galo nos quintais...
Que longe da vida!
É outro mundo.
Viramo-nos para a janela, e o sol brilha lá fora
Vasto sossego plácido da natureza sem interrupções!
2 096
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ENDINGS

Farewells, departures, goings - these are most sad:
They are endings, dissolutions; they drive sentiment mad.
Even the fall of priests, of tyrants, of slaves and of kings
Has the bitterness and the sadness of the finishing of things.
1 518
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Paro, escuto, reconheço-me!

Paro, escuto, reconheço-me!
O som da minha voz caiu no ar sem vida.
Fiquei o mesmo, tu estás morto, tudo é insensível...
Saudar-te foi um modo de eu querer animar-me,
Para que te saudei sem que me julgue capaz
Da energia viva de saudar alguém!

Ó coração por sarar! quem me salva de ti?
1 694
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se eu morrer, na minha cova

Se eu morrer, na minha cova
Ponham letreiro mostrando
Que morri quando era nova
Que morri sempre te amando.
1 459
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Para mim ser é admirar-me de estar sendo.

Horror da Morte

A ilusão da vida, é horrorosa;
Mas o horror de pensar
Que a morte quebra
Essa ilusão numa realidade
Reveladora da verdade certa!
Oh, esse horror!

1 738
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O medo intelectual da «morte»

O medo intelectual da «morte»
Não o instintivo e humano, mas o que nega e
Cresce com o olhá-la e reflecti-la.
1 744
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teu inútil dever

Teu inútil dever
Quanta obra faça cobrirá a terra
Como ao que a fez, nem haverá de ti
Mais que a breve memória.
1 549
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sad lot of all on earth

Sad lot of all on earth,
        Sad and lone!
We go to death from birth
Cheerless in laugh or groan;
And the greatest of us that here must sigh
Is but a meteor hurled on high
        From the unknown to the unknown.
1 263
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Primeiro: D. SEBASTIÃO

Esperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
3 853
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Com a doçura

Com a doçura de urna linda ave
Bateu as asas brancas e voou.
Era meiga, era pura, era suave
Não viveu! Foi um anjo que passou.
1 503
Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Salinas de Santo Amaro

Salinas de Santo Amaro,
Ondas de terra salgada,
Revoltas, na escuridão,
De silêncio e de naufrágio
Cobrindo a tantos no chão.

Terra crescida, plantada
De muita recordação.
1 370
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Gabino Suárez, vulgo O Conselho

Nascer, existir, morrer,
já sei como se divide
o nada por três.

663
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Efigenio Gomiá, vulgo O Semicompleto

Aqui jaz um idiota maravilhoso,
acreditou que haver nascido fosse um êxito.
Não ponham flores em seu túmulo.
618
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Creencio Álvarez, vulgo O Dentro

O caixão me dói menos que o berço.

457
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio para Jacinto Modales

vulgo O Botas

Vivi lutando contra a gordura e a ontologia,
agora tudo está no caixão.

810
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Carlos Sanchez

vulgo O Limitado

Do que aqui jaz,
só a morte encontrou a utilidade.

717
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Réndez Merodes, vulgo O Vigilante

Espero que esta seja a última vez que morro,
que não me coloquem de novo, com sangue, em outra fase da matéria
e me façam chorar em outro local,
eu quero que esta morte me seja de serventia para sempre.

652
Rose Ausländer

Rose Ausländer

A heranca II

É chegada a hora
de repartir a herança

toma
a maçã
mortal
e
a palavra
imortal

Das Erbe II

Es ist an der Zeit
das Erbe zu verteilen

nimm
den sterblichen
Apfel
und
das unsterbliche
Wort
792
Rose Ausländer

Rose Ausländer

Novos sinais

Novos sinais
queimam
no firmamento

mas

sem expectadores
que os apontem

e

meus mortos
calam fundo


Neue Zeichen
brennen
am Firmament

doch

sie zu deuten
kommt kein Seher

und

meine Toten
schweigen tief



582
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Seremo Cruz, vulgo O Norte

A nós deveriam fazer-nos natimortos.
Antidio Cabal (1925-2012)
inEpitafios, Barcelona: Kriller71 Ediciones, 2014.
Traduções de Ricardo Domeneck.
457
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Tomás Elías, vulgo O Doutor

Aqui jaz um acadêmico cuja saberdoria
o levou a cultivar a ignorância
baseando-se no conhecimento.
Passante, não ponhas flores em seu túmulo,
ele não as entenderia.

697
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Luis Calvo

vulgo O Suficiente

Aqui se encontra sob a terra um sábio
cuja esterilidade produziu muito.

509
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Ramón Suelo, vulgo O Calado

Quando nasci, estava incompleto, faltava-me a morte.

719
Antidio Cabal

Antidio Cabal

Epitáfio de Ramón Ramonense

vulgo O Igual

Sinto falta de não ter nascido.

702