Escritas

Linguagem

Poemas neste tema

Flora Figueiredo

Flora Figueiredo

A pedidos

Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.



1 326
Myriam Fraga

Myriam Fraga

Possessão

O poema me tocou
Com sua graça,
Com suas patas de pluma,
com seu hálito
De brisa perfumada.

O poema fez de mim
O seu cavalo;
Um arrepio no dorso,
Um calafrio,
Uma dança de espelhos
E de espadas.

De repente, sem aviso,
O poema como um raio,
- Eleobá, pomba gira!
Me tocou com sua graça

1 688
Angela Santos

Angela Santos

Declaração

Amo!
Decidi escrever em todos os cantos
e muros por onde passasse
e até riscar teu nome a grafitti,
quem sabe desenhar uma tatuagem
ao jeito dos marinheiros,
escrever um artigo de jornal sobre o amor
e nele desenhar o teu nome e o meu
e um coração a envolvê-los

Mas pensei
que amar-te é um facto
coisa que mexe por dentro
e por assim ser, por fora se vê
o que dentro do coração vive

Pensei, repensei , concluí
todos sabiam, todos notavam
que um nome e um sentir
bordavam meus dias
de azul e luz

Decidi sem pudores confessar-me a ti,
soltar em voz alta
o que vezes calei
para deixar que os olhos, a alma e o desejo
em suas explosões imprimissem marcas,
as que eu quis deixar gravadas por aí
Mas foi em sussurro que à boca aflorou
a palavra mel …

uma só palavra que em si contém
o sentido todo,
mesmo que a tragam por aí prostituída
e imprimam nela o cunho das palavras gastas,
"Meu Amor" é uma expressão
que guarda o brilho de pedras raras.

988
Angela Santos

Angela Santos

Oiro sobre Azul

Um
dia azul onde o teu nome
a oiro nele surgisse gravado

um dia todo de azul e oiro
e no ar inscritas, cinco letras
que em grito dissessem
o que eu não quero calar

Um dia azul..azul.. azul…
onde em sussurro eu pudesse
dizer-te as cinco letrinhas
que eu quis gritar.

1 092
Maria Isabel

Maria Isabel

A hora vazia

Onde as humildes palavras
Que ingenuamente disseste?
Onde os gestos dos teus braços
Nascidos para enlaçar?

Cansaste. O sol do deserto
Secou tua alma de fonte.
Morreu nos dedos do inútil
A tua frágil canção.

Não mais ouvirás soluços,
Não mais na noite deserta
Descobrirás desesperos.
Corpos virão sobre as ondas,
Diante dos teus olhos secos.

Houve uma voz nos teus lábios
Quente e viva. Quando foi?

Hoje a fadiga, hoje o sono.
Hoje, trágica e vazia,
A hora de contemplar.

748
Angela Santos

Angela Santos

Poema Atravessado

Escrevo, atravessando
o sentido inscrito
nas palavras, as tuas.

As minhas vêm invadir
o corpo onde repousa
o sentido que às palavras restituis.

Sou nas palavras
que atravessam as tuas e nelas se fundem,
assim como à noite somos uma só,
abraço que nos ata até que nos aparte a luz
que nos devolve à maré dos dias
onde inscrevemos de novo o sentido.

1 034
Angela Santos

Angela Santos

Enluarada

Meus
olhos sacodem
poeiras de sono e estrelas
que sobram da noite, suspensa na memória
onde vibram palavras surgidas da tela
como pirilampos mágicos
atravessando o ar.

E nos meus olhos mal dormidos
passam voláteis as letras,
compondo palavras, gerando emoções
como notas musicais que bailam e ecoam
nocturnas cantatas que me lembram a Lua.....

E esse dia de sol, fica enluarado....

Meus olhos cansados, esquecem seu cansaço
e aguardam de novo a noite que há - de vir,
como deusa milenar do nada surgindo
trazendo em seu seio o enlace de amantes,
que longe e tão perto
em sonhos se abraçam.

891
Angela Santos

Angela Santos

Só Sentir

Livro-me
das palavras
verbos e conjugações
ah! como me fartam.....

Deixo-me levar como a corrente
livre de um riacho
e não saber para onde......

Viver,
saber que sinto me basta,
sem porquês......

900
Angela Santos

Angela Santos

De onde a palavra

Pelas friestas
do Ser
espiam as palavras
e nelas, inexplicáveis,
a força das marés,
a macieza da pétala,
o bruto rasgar do cutelo
o alívio do unguento

Vêm e colhem no ar
ou na fundura da terra,
a dimensão do que for
e dizem sem desvendar
no seu afã, as palavras…

Emerge e regressa à penumbra
pressagiando, a palavra
como sibila que habita
o seio da obscuridade….
lugar de todos os nomes
onde repousa o sentido
daquilo que nos afronta
entre o silencio e o grito.

620
Angela Santos

Angela Santos

Epifania

Des-obliterando uma palavra
corre, expande-se significante
invade as horas e os murmúrios
enquanto o mundo
no inquietante da sua
fácies
se revela

Azuís
imensamente azuís
os olhos da menina
o quotidiano lodo atravessam
e um instante... um instante único
o imundo lava
nas águas do perfeito azul
de uns olhos de criança

1 015
Angela Santos

Angela Santos

Tecedeira

Redes
de pescadora, eu teço
quem sabe, pescadora de palavras e sentido

Caminho, não sobre as águas
mas por dentro das palavras, e do sentir
por dentro das gentes
que abrem um sulco
e por dentro de si me deixam entretecer mais um fio
um subtil fio compondo o inegualável desenho da vida.

As palavras chegam
como? de onde? porque?
chegam...como som de riacho entre rochedos
como linho colhido para tecer brancos lençóis
onde o presente se deita
desfiando memórias...
e lançar a ponte entre os irrepetíveis
momentos do ser.

1 082
Angela Santos

Angela Santos

Do Amor

(Para
C., meu amor)

Assim , de repente,
como todas as coisas que vêm sem aviso,
quis falar-te "disto" que cresceu dentro de mim,
este querer feito de coisas que só se sentem,
e ficam no limbo das definições,
porque definir é limitar.

Eu quis falar
do que ao jeito de "milagre" aconteceu
uma palavra, gerou outra e outra e outra,
e essas palavras traziam em si o que nelas colocamos
e era a gente que fluía nessas palavras

Tantas palavras… para dizer o possível de tanto sentir
palavras como corpos gestantes, revelando, desnudando,
quantas vezes se erguendo como muro
tantas vezes nos fartando, nos faltando, sobrando
à mingua de não nos termos e fazermos com as palavras
a vez do corpo, do coração, do suspiro, do sorriso,
do toque, do abraço, da entrega, do desejo, da saudade.

E ainda assim, as palavras
são o que tenho para dizer "te amo",
palavras que entreteço com gestos e sinais
com que se enchem o meu e o teu quotidiano,
meus dias e minhas noites, repletos da tua presença,
antes de mais neste sentir que abrigo
e se encaminha para ti

Se as palavras são o que me resta,
se um vago perfume se te pega às mãos
e por ele me lembras,
se num fio de telefone alivio a fome de ti,
se até no silêncio eu me oiço chamar-te,
que assim seja!

Um dia tudo será diferente e tão igual
ao que sinto, digo, faço
porque o que faço, digo e sinto,
vem do fundo onde te guardo
esse lugar de onde brota
a verdade com que digo
o tanto que quero dizer, se simplesmente digo
"Te amo"

686
Angela Santos

Angela Santos

A Contas com Deus

Há dias
em que à conversa com Deus
O chamo para o ajuste de contas....

E ainda que o Verbo seja,
Deus, não me responde!

Há dias
em que quebrando os remos
contra as vagas
cansa-me remar...

E pergunto:
quando aportarei?
E o que seja o Verbo
não me responde!

Há dias
em que não suporto as horas
e pergunto....
Até quando?
E o que seja o Verbo
o insustentável silencio me devolve

Há dias
em que o silencio aceito
e não pergunto
espero só de outro modo
saber ....

Porquê
o que seja o Verbo
o mais que perfeito
amor consentiu,
sem me doar o tempo
da sua infinita forma
conjugar?

1 058
Angela Santos

Angela Santos

Verbo

As
palavras são o que são...

delas fazemos pedras raras
farpas com que ferimos
oração com que nos ungimos,
revelação, descoberta, desocultação.

Com as palavras mordemos a boca
que sente o beijo contido na palavra,
com palavras matamos
ou fazemos reviver a alma,
com as palavras construímos ilusões,
destroçamos vidas refazemos corações

Com as palavras erguemos pirâmides de amor,
e no seu vértice estendidos em oferenda ao sol dourado
deitamos corpos amantes
no momento em que se transmudam
de sujeito em objecto amado

Com palavras mordemos
amamos, ferimos, oramos, refazemos,
pensamos destruímos
as palavras onde nos pomos
as palavras com que nos fazemos
as palavras que também somos.

743
Angela Santos

Angela Santos

De Profundis

Diante
da Beleza, do Amor, de Deus
emudecemos

As palavras são excrescências
e despropositadas vêm
invadir a densa profundidade do silêncio
onde se vive a dimensão do essencial.

912
Angela Santos

Angela Santos

Secreta Morada

Vem,
e assume a força de um grito amordaçado,
irrompe nas minhas veias, lateja na minha cabeça
e no meu peito é incandescência .

Vem, e assoma à boca em palavras sussurradas
ditas não a medo, mas em sons transfigurados
perceptíveis no silencio só,
inaudíveis palavras
que o ar atravessam e buscam chegar às margens
de outro ser que em mim é.

Vem, debruado com orlas de saudade
isso que em mim
tem um nome que não sei dizer
que é meu mar de calmaria
minha raiva, minha crença, meu ir além
fome e saciar do meu ser.

Veio....como haveria de vir
de manso, sem pré-aviso
como quem chega a um lugar que soube sempre foi seu
veio para me deixar assim,
para sempre acompanhada pela certeza
de que em mim ergueu
sua secreta morada

abrigo do que não tem nome
e nem precisa de ter,
feito de um sentir mais fundo
que é sentir e saber.

Veio e em mim ficou
porque tinha que ser!

1 045
Angela Santos

Angela Santos

Inominável

Escoam-se
as palavras
com que teça e urda
o sentido da corrente

parcos os vocábulos
assomam no afã de transparecer
ou desvelar
o que emerge
da explosão da Vida

Acerca-se do inominável
do silente corpo
a palavra ...
falha o intento de dizer
e é só limite

No hiato das  palavras
consentido
habita o silêncio, indecifrável
acerto de luz e sussurros
fonte secreta do saber antigo

é vago e é tanto....

E tudo se ilumina,
nos indecifráveis signos nascentes
desse
saber  pressentido.

986
Angela Santos

Angela Santos

E assim te digo

Implícita,
dita
nos silêncios e prelúdios
das palavras
que não ousam dizê-lo
nos silêncios e prelúdios
das palavras
que não ousam
dizê-lo

Gasta e ainda assim
intacta, palavra
só igual à vida
pelas esquinas
do não senti-la
prostituída

Agiganta-se no sentir
e extravasa
na tentativa nunca vã
de dizer o não contido

Meu Amor
que outro dizer não conheço
para o que em mim vive

...e assim te digo!

902
Fernando Tavares Rodrigues

Fernando Tavares Rodrigues

Verbo

Amar a
mulher
É também sentir
Antes de a beijar, antes de a despir,
Esse sabor doce
Como se ela fosse uma rosa a arder

Esse verbo tão difícil e tão fácil de dizer...

1 137
Angela Santos

Angela Santos

Os Nomes das Coisas

Inventamos
nomes que se colam às coisas
e para tudo coisa é nome,
palavras que são coisas,
as coisas nas palavras

Rasgamos o ser imprimindo sentido
àquilo que é,
como quem espalha
sinais pelos caminhos
para não se perder

Sons são as palavras
sentido e busca também
e coisificamos para tornar palpável
aquilo vemos, isso que sentimos
e o que somos até

Mas é no silêncio
no ficar atento , perscrutando o que vem,
que de manso chega a elemental voz
eterno exercício desnudando as coisas
de vestes e adornos
para ficar diante da total nudez.

Se o silêncio chega
o que nele buscamos é, quem sabe, ainda
o sentido fundado no inexpressivo
ao reinventar o nome das coisas
que nos desafiam a descer
ao âmago de tudo o que é.

Será na fundura ou na superfície
que desocultamos a razão de ser ?

947
Joaquim Pessoa

Joaquim Pessoa

Outono

Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
2 206
José Carlos Ferreira

José Carlos Ferreira

O sexo sem risco

O sexo sem
risco não:
sem rabisco não há poema
nem nuvens cúmulus-nimbus no céu.

Traçados, medidos os modos
de agir, de gozo,
restam regra e exceção.
A frestra, a nesga, a execração.

Problema em sexo:
não.
Não
tem esse jeito agressivo de se escrever, ininterrupto, enérgico.
Pois sexo n érgico quero.

706
Angela Santos

Angela Santos

Cifra

Regresso
à minha forma
de ser
inscrita nas palavras

às palavras regresso
como a um espelho…

profano o silencio,
quem sabe, a verdade
no regresso indevido
ou inexacto às cifras
que não dizem.

949
Angela Santos

Angela Santos

Poiésis

Vinhas
e eu não sei donde
nem porque vinhas
mas à tua chegada
alguma coisa se iluminava
e crescia

Revelação,
interminável afã de quem se busca
na imensidão dos estilhaços
que de si dispersos
vogam por aí

Vinhas e trazias
dores de punhais e mel
e cada sílaba carregava
o gosto a verdade

Silenciada a fonte,
de quando em vez se sente ainda,
hoje
menos cismo e mais corrente.

Só por vires
abençoada sejas

956