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Poemas neste tema

Luís Filipe Maçarico

Luís Filipe Maçarico

Alentejo

Alentejo terra de vento e silêncio
onde o Homem semeia a Palavra
Alentejo terra de sonho e sofrimento
onde o poema tem sede de flores
e rios. Como quem faz um pão,
escrevo à sombra das tuas oliveiras.

E canto o vôo altivo das cegonhas.
Esta leveza de viver em ruas brancas...

(Mértola, 1994)

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Gregório de Matos

Gregório de Matos

Soneto

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco cos demais, que só, sisudo.

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Capinan

Capinan

De Não Ser, Sendo Constantemente

Não sou o mesmo de olhar vazio
e palavra sem conseqüência usada.
Andei pesando este medo
em interrogações do que seria o poeta
ante estruturas que o antecederam,
cercos de ferro, fechos de ferro, cercos.

No caminho de minha volta
esqueci canções, dupliquei memórias,
e aceito como verdade humana
que o homem é um caminho ao homem,
processo e pouso, caminhante e rota.

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Gilson Babilak

Gilson Babilak

Filhos de Olorum

Somos

NEGROS

meigos...

Porém Quilombolas
Filhos de Olorum
De cabeça

- Ogum
Belos
Feito - Oxum

- somos filhos de OLORUM! João Pessoa, 1981

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Fábio Afonso de Almeida

Fábio Afonso de Almeida

É só

Não me importa se vais,
Não tenho medo, é só.
O silêncio que restar
Junto com a solidão que ficou
E sufoco com decoro.
Náo quero chorar, é só.
Não foi eu que escolhi
O caminho que tomei.
Se não quero te perder,
Mas me perco no meu ego,
Mesmo assim eu me aceito,
Não tenho forças, é só.
Contudo, espero, não divago,
Apenas tenho pudor.
Se assim sou, não renego,
Tenho brios que sustentam.
Tenho apenas eu e é só.

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Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Auto-Suficiente

Sei do meu pouco
sei das limitações do meu domínio.
Sei do que é meu
e sei do que não é meu.
Que não me venham precisar a chave
do sucesso trabalhado
no empirismo da bigorna.

Nem me venham ofertar motivações
da paz que não é minha.
Seja a sombra do meu nada
o Cirineu amigo
que a cada impulso do meu sangue
responda aos meus porquês.

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Clóvis Ramos

Clóvis Ramos

O Cego Bartimeu

Há poesia em tudo o que é divino.
Nas bodas de Caná como na Ceia.
Embora eu seja um poeta pequenino,
cantar o Deus de Amor minhalma anseia.

Quando Jesus seguia, sol a pino,
de Jericó na estrada — sol e areia — ,
o cego Bartimeu — homem franzino —
de ser repreendido não receia.

— "Ó Filho de Davi, tem piedade!"
Jesus parou. — "Que queres que te faça?"
— "Que eu veja, meu Senhor!" E a claridade

do dia iluminou aqueles olhos,
aquele coração cheio de graça,
aquela alma liberta dos escolhos!

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Dora Ferreira da Silva

Dora Ferreira da Silva

Mulher e Pássaro

Linha invisível
liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.

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Carlos Dantas

Carlos Dantas

Ofertório

DAR-TE-EI
o sol vermelho pulsante
que em meu cerne habita,
qual riacho de luz
a procura de um mar-de-prata !

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Célia Lamounier de Araújo

Célia Lamounier de Araújo

Venha Acordar-me

Não me espere, amor,
venha buscar-me
pois que a aurora
em breve
pode se acabar.
A vida é curta
eu estou sozinha
cansada de sonhar.
Não me espere, amor,
venha acordar-me
quero correr na areia
viva e solta
o céu alcançar
em suas mãos
rejuvenescida
por seu olhar.
Não me espere, amor,
venha depressa
viver comigo
as noites
madrugadas e dias
pois que nosso tempo
deve ser vivido
feito de alegrias.

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Castro Alves

Castro Alves

O Vôo do Gênio

À ATRIZ EUGÊNIA CÂMARA
Um dia, em que na terra a sós vagava
Pela estrada sombria da existência,
Sem rosas — nos vergéis da adolescência,
Sem luz destrela — pelo céu do amor;
Senti as asas de um arcanjo errante
Roçar-me brandamente pela fronte,
Como o cisne, que adeja sobre a fonte,
As vezes toca a solitária flor.

E disse então: "Quem és, pálido arcanjo!
Tu, que o poeta vens erguer do pego?
Eras acaso tu, que Milton cego
Ouvia em sua noite erma de sol?
Quem és tu? Quem és tu?" — "Eu sou o gênio",
Disse-me o anjo "vem seguir-me o passo,
Quero contigo me arrojar no espaço,
Onde tenho por croas o arrebol".

"Onde me levas, pois?.. . " — "Longe te levo
Ao país do ideal, terra das flores,
Onde a brisa do céu tem mais amores
E a fantasia — lagos mais azuis. . . "
E fui... e fui... ergui-me no infinito,
Lá onde o vôo dáguia não se eleva...
Abaixo — via a terra — abismo em treva!
Acima — o firmamento — abismo em luz!

"Arcanjo! arcanjo! que ridente sonho!"
— "Não, poeta, é o vedado paraíso,
Onde os lírios mimosos do sorriso
Eu abro em todo o seio, que chorou,
Onde a loura comédia canta alegre,
Onde eu tenho o condão de um gênio infindo,
Que a sombra de Molière vem sorrindo
Beijar na fronte, que o Senhor beijou. . . "

"Onde me levas mais, anjo divino?"
— "Vem ouvir, sobre as harpas inspiradas,
O canto das esferas namoradas,
Quando eu encho de amor o azul dos céus.
Quero levar-te das paixões nos mares.
Quero levar-te a dédalos profundos,
Onde refervem sóis... e céus... e mundos...
Mais sóis... mais mundos, e onde tudo é rneu...

"Mulher! mulher! Aqui tudo é volúpia:
A brisa morna, a sombra do arvoredo,
A linfa clara, que murmura a medo,
A luz que abraça a flor e o céu ao mar.
Ó princesa, a razão já se me perde,
És a sereia da encantada Sila.
Anjo, que transformaste-te em Dalila,
Sansão de novo te quisera amar!

"Porém não paras neste vôo errante!
A que outros mundos elevar-me tentas?
Já não sinto o soprar de auras sedentas,
Nem bebo a taça de um fogoso amor.
Sinto que rolo em báratros profundos...
Já não tens asas, águia da Tessália,
Maldições sobre ti... tu és Onfália,
Ninguém te ergue das trevas e do horror.

"Porém silêncio! No maldito abismo,
Onde caí contigo criminosa,
Canta uma voz, sentida e maviosa,
Que arrependida sobe a Jeová!
Perdão! Perdão! Senhor, pra quem soluça,
Talvez seja algum anjo peregrino...
... Mas não! inda eras tu, gênio divino,
Também sabes chorar, como Eloá!

"Não mais, ó serafim! suspende as asas!
Que, através das estrelas arrastado,
Meu ser arqueja louco, deslumbrado,
Sobre as constelações e os céus azuis.
Arcanjo! Arcanjo! basta... já contigo
Mergulhei das paixões nas vagas cérulas...
Mas nos meus dedos — já não cabem — pérolas —
Mas na minhalma — já não cabe — luz!...

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Castro Alves

Castro Alves

Prometeu

Ó mon auguste mère, et vous enveloppe de la commune lumière, divin éther, voyez quels injustes tourments on me fait souffrir.
Qui compatit à cette grande souffrance, qui sapproche du rocher désert où se tord Prométhée? Quelques pauvres filles, pieds nus.

ÉSQUILO

Inda arrogante e forte, o olhar no sol cravado,
Sublime no sofrer, vencido — não domado,
Na última agonia arqueja Prometeu.
O Cáucaso é seu cepo; é seu sudário o céu,
Como um braço de algoz, que em sangueira se nutre,
Revolve-lhe as entranhas o pescoço do abutre.
Pra as iras lhe sustar... corta o raio a amplidão
E em correntes de luz prende, amarra o Titão.

Agonia sublime! ... E ninguém nesta hora
Consola aquela dor, naquela angústia chora.
Ai! por cúmlo de horror!... O Oriente golfa a luz,
No Olímpo brinca o amor por entre os seios nus.
De tirso em punho o bando das lúbricas bacantes,
Correm montanha e val em danças delirantes.
E ao gigante caído... a terra e o céu (rivais!...)
Prantos lascivos dão... suor de bacanais.

Mas não! Quando arquejante em hórrido granito
Se estorce Prometeu, gigantesco precito,
Vós, Nereidas gentis, meigas filhas do mar!
O oceano lhe trazeis... pra em prantos derramar...

Povo! povo infeliz! Povo, mártir eterno,
Tu és do cativeiro o Prometeu moderno...
Enlaça-te no poste a cadeia das Leis,
O pescoço do abutre é o cetro dos maus reis.
Para tais dimensões, pra músculos tão grandes,
Era pequeno o Cáucaso... amarram-te nos Andes.

E enquanto, tu, Titão, sangrento arcas aí,
O século da luz olha... caminha... ri...

Mas não! mártir divino, Encélado tombado!
Junto ao Calvário teu, por todos desprezado,
A musa do poeta irá — filha do mar —
O oceano de sua alma ... em cantos derramar ...

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Altemar Pontes de Oliveira

Altemar Pontes de Oliveira

Nu

Primeiro lugar no concurso do
Copo de Mar, Folhetim Cultural - Internet
Dia desses,
despi-me das máscaras
e delas nu, perambulei calçadas....
quão inconveniente notei-me,
passos irregulares.. ,
feridas expostas, esconderijos à mostra...
ainda titubiante sentei-me ao chão,
pouco a pouco, desacorrentei uns medos
enlameei, com lacrimosas palavras, o poste.
(...) em dado momento
não era eu quem falava,
aliás, fui eu ? eu...?
Viciei-me em farsas.

748 1
Antônio Massa

Antônio Massa

Eu, Papel

Amarelado semblante tortuoso
redefinido na manhã do meu ser
difuso e frágilforte no todo
retratado no torneio interior
onde o prêmio sou eu
que me perdi
n’eu

Sou batida acidental, porém compassada
ao painel de refúgio e angústia
estragando ao som dos fungos
guias de minhas almas

Sou pessoa trânsfuga
que apoio eu inimigo
Eu paragem e transgressão

Eu sou quantos? Não sei tanto!
Talvez nada
talvez tudo
talvez todos
todos tortos

Sou folha escrita
em branco
dentro do livro de mim

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Langston Hughes

Langston Hughes

ASPIRAÇÃO

Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
- Negra como eu -
Descansar... É o que quero!

Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
- Este o desejo meu -
Quando a noite baixar
Negra como eu.

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Luís Caeiro

Luís Caeiro

Escondido entre o arvoredo

Vejo escondido entre o arvoredo,
Mulheres banhando-se no rio.
Vestidas de nada, nuas, sem medo,
Aquece-as o sol, esquece-lhes o frio.

Invejo o rio que numa carícia,
Afaga todos os seus recantos.
Cresce em mim uma malícia,
Perco-me a fitar os seus encantos.

Banham-se, brincam e gracejam,
Cantam melodias de encantar.
Ainda sinto que ali estejam,
Mesmo depois de acordar.

903 1
Ademir Antônio Bacca

Ademir Antônio Bacca

Insensatez

eu navego
em ti
o desejo insano
que persegue
anos a fio.

nas águas perigosas
do teu cio
eu me deixaria afogar
de vez.

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Liz Christine

Liz Christine

Paixão

O que é a paixão?
Você consegue definir
O imenso
Tesão
Você é capaz de sentir?
O choque intenso
A me confundir
Mergulhar
Ou fugir?
Aproveitar
Ou amargar?
Prazer ou decepção?
Amada
Ou usada?
Paixão...
Te amo, te uso
Escrevo, abuso
Porque você me fudeu
E foi o melhor que me aconteceu
Em toda a minha vida...
Te amo, fudida...
Você me corrompeu
Me conduziu à fidelidade
E te amo de verdade

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Adélia Prado

Adélia Prado

Moça Na Sua Cama

Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba-do-campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixezinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
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Octavio Paz

Octavio Paz

El Sediento

Por buscarme,poesía,
en ti me busqué:
deshecha estrella de agua
se anegó mi ser.
Por buscarte,poesía,
en mí naufragué.

Después sólo te buscaba
por huir de mí:
!espesura de reflejos
en que me perdí!
Mas lueho de tanta vuelta
otra vez me vi:

el mismo rostro anegado
en la misma desnudez;
la misma aguas de espejo
en las que no he de beber;
y en ele borde de esas aguas
el mismo muerto de sed.

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Ingeborg Bachmann

Ingeborg Bachmann

Dizer Trevas

Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda húmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.

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Emily Dickinson

Emily Dickinson

Im Nobody! Who are you?

Im Nobody! Who are you?

Im Nobody! Who are you?

Are you--Nobody--Too?

Then theres a pair of us?

Dont tell! theyd advertise--you know!

How dreary--to be--Somebody!

How public--like a Frog--

To tell ones name--the livelong June--

To an admiring Bog!

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João de Jesus Paes Loureiro

João de Jesus Paes Loureiro

O Poeta

Debruçado no poço
salmodia
e a própria voz escuta.
Osso.
atirado a si mesmo
(espelho)
por um cão faminto.

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João José Cochofel

João José Cochofel

Paraíso Perdido

Que vens aqui fazer, espírito velho
de tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?

Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.

Foi mais tarde...
que a vida me entardeceu.

(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas
tristes como eu... )
Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.

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