Consciência e autoconhecimento
Poemas neste tema
Sophia de Mello Breyner Andresen
Há Cidades Acesas Na Distância
Há cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.
Há cidades acesas cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.
E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.
Há cidades acesas cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.
E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.
2 864
Sophia de Mello Breyner Andresen
Persona
Mitológica personagem — parece
Um falcão do Egipto
Sob seu lógico discurso permanece
Intacto o não dito
Mas algo de falcão nele se inscreve
Hieróglifo indecifrável
E o deus que ele foi ou nele esteve
Desarticula seu olhar instável
Um falcão do Egipto
Sob seu lógico discurso permanece
Intacto o não dito
Mas algo de falcão nele se inscreve
Hieróglifo indecifrável
E o deus que ele foi ou nele esteve
Desarticula seu olhar instável
1 652
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eis Que o Mundo de Ti Cai Abolido
Eis que o mundo de ti cai abolido
E tu ficas sozinho e muito longe
Com dois búzios do mar sobre os ouvidos
Ouvindo, só para ti, uma canção.
Assim as flores de dentro para fora
Se queimam sob o halo dos perfumes
E voltam para nós os olhos cegos
Estrangeiras a tudo no sabor
Duma substância angélica e terrível.
E tu ficas sozinho e muito longe
Com dois búzios do mar sobre os ouvidos
Ouvindo, só para ti, uma canção.
Assim as flores de dentro para fora
Se queimam sob o halo dos perfumes
E voltam para nós os olhos cegos
Estrangeiras a tudo no sabor
Duma substância angélica e terrível.
1 770
Sophia de Mello Breyner Andresen
E Só Então Saí Das Minhas Trevas
E só então saí das minhas trevas:
Abri as minhas mãos como folhagens,
Intacta a luz brotava das paisagens,
Mas na doçura fantástica das coisas
As minhas mãos queimavam-se e morriam.
Dia perfeito, inteiro e luminoso,
Dia presente como a morte — luz
Trespassando os meus olhos de cegueira.
Cada voz, cada gesto, cada imagem
Na exaltação do sol se consumia.
Abri as minhas mãos como folhagens,
Intacta a luz brotava das paisagens,
Mas na doçura fantástica das coisas
As minhas mãos queimavam-se e morriam.
Dia perfeito, inteiro e luminoso,
Dia presente como a morte — luz
Trespassando os meus olhos de cegueira.
Cada voz, cada gesto, cada imagem
Na exaltação do sol se consumia.
2 097
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ó Poesia — Quanto Te Pedi!
Ó Poesia — quanto te pedi!
Terra de ninguém é onde eu vivo
E não sei quem sou — eu que não morri
Quando o rei foi morto e o reino dividido.
Terra de ninguém é onde eu vivo
E não sei quem sou — eu que não morri
Quando o rei foi morto e o reino dividido.
2 218
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Mar Passa de Onda Em Onda Repetido
No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente.
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente.
1 990
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Espelhos
Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos reflectem. Nunca nos decoram
Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos reflectem. Nunca nos decoram
Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo
3 203
Sophia de Mello Breyner Andresen
Navegação
Distância da distância derivada
Aparição do mundo: a terra escorre
Pelos olhos que a vêem revelada.
E atrás um outro longe imenso morre.
Aparição do mundo: a terra escorre
Pelos olhos que a vêem revelada.
E atrás um outro longe imenso morre.
2 563
Susana Thénon
Inferno
Acredita no ódio
que joga veneno em seu lábio?
Acredita no rancor
que te morde até diluir seu inferno?
Acredita na lenda
dos polos opostos
e nesta adorável mentira
da inimizade entre água e azeite?
Hoje?
quando o amor se disfarça de ódio
para sobreviver,
quando o carrasco chora
atrás da morte
e deus descansa?
que joga veneno em seu lábio?
Acredita no rancor
que te morde até diluir seu inferno?
Acredita na lenda
dos polos opostos
e nesta adorável mentira
da inimizade entre água e azeite?
Hoje?
quando o amor se disfarça de ódio
para sobreviver,
quando o carrasco chora
atrás da morte
e deus descansa?
783
Susana Thénon
Habitante do Nada
Vivo entre pedras
sua forma se parece à minha.
Eu sou uma pedra,
um brinquedo no túmulo de uma criança,
uma medalha escurecida?
Sou antes um espelho gasto
uma superfície que não reflete,
um rosto estranho
um dia que termina.
sua forma se parece à minha.
Eu sou uma pedra,
um brinquedo no túmulo de uma criança,
uma medalha escurecida?
Sou antes um espelho gasto
uma superfície que não reflete,
um rosto estranho
um dia que termina.
661
Sophia de Mello Breyner Andresen
No Mais Secreto
No mais secreto de Junho e de folhagens
Ou interior de flor secretamente
Rosto sob o choupo à luz das luas
Rosto do meu rosto exactamente
Espelho quasi onde me vi de frente
E deslizamos pelo rio como um barco
Ou interior de flor secretamente
Rosto sob o choupo à luz das luas
Rosto do meu rosto exactamente
Espelho quasi onde me vi de frente
E deslizamos pelo rio como um barco
2 092
Raquel Nobre Guerra
Vir às mãos / Aforismos terceiros
subindo rei no horizonte sou rei de luzes apagadas
sou rei na divina loucura do trono
o trono vazio sou eu
sou rei na divina loucura do trono
o trono vazio sou eu
1 235
Fernando Pessoa
Em Ceres anoitece.
Em Ceres anoitece.
Nos píncaros ainda
Faz luz.
Sinto-me tão grande
Nesta hora solene
E vã
Que, assim como há deuses
Dos campos, das flores
Das searas,
Agora eu quisera
Que um deus existisse
De mim.
Nos píncaros ainda
Faz luz.
Sinto-me tão grande
Nesta hora solene
E vã
Que, assim como há deuses
Dos campos, das flores
Das searas,
Agora eu quisera
Que um deus existisse
De mim.
1 376
Fernando Pessoa
Não tenho sinceridade nenhuma que te dar.
Não tenho sinceridade nenhuma que te dar.
Se te falo, adapto instintivamente frases
A um sentido que me esqueço de ter.
Se te falo, adapto instintivamente frases
A um sentido que me esqueço de ter.
1 017
Fernando Pessoa
O horror sórdido do que, a sós consigo,
O horror sórdido do que, a sós consigo,
Vergonhosa de si, no escuro, cada alma humana pensa.
Vergonhosa de si, no escuro, cada alma humana pensa.
1 318
Fernando Pessoa
Não inquiro do anónimo futuro
Não inquiro do anónimo futuro
Que serei, pois que tenho,
Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro
Os olhos do vindouro.
Odeio o que não vejo. Se pudera,
Vê-lo, grato o não vira.
Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem
Não tenho o que não tenho.
O que o Destino manda, saiba-o ele.
A ignorância me basta.
Que serei, pois que tenho,
Qualquer que seja, que vivê-lo. Tiro
Os olhos do vindouro.
Odeio o que não vejo. Se pudera,
Vê-lo, grato o não vira.
Se mo mostrarem num quadro, ou o virarem
Não tenho o que não tenho.
O que o Destino manda, saiba-o ele.
A ignorância me basta.
1 248
Fernando Pessoa
Pobre do pobre que é ele
Pobre do pobre que é ele
E não é quem se fingiu!
Por muito que a gente vele
Descobre que já dormiu.
E não é quem se fingiu!
Por muito que a gente vele
Descobre que já dormiu.
1 409
Fernando Pessoa
Saber? Que sei eu?
Saber? Que sei eu?
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!...
A ciência, uma fada
Num conto de louco...
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!
Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!
Pensar é descrer.
— Leve e azul é o céu —
Tudo é tão difícil
De compreender!...
A ciência, uma fada
Num conto de louco...
— A luz é lavada —
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!
Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!
1 552
Fernando Pessoa
Quis que comigo vísseis
Quis que comigo vísseis
A sombra essencial, o abstracto fruto
Do inúmero universo. Mas, não fostes
Mais que uma luz extinta em noite densa
Um pampal sem fruto.
(...) — Que é pensar
Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é,
E a raiz não medita.
A sombra essencial, o abstracto fruto
Do inúmero universo. Mas, não fostes
Mais que uma luz extinta em noite densa
Um pampal sem fruto.
(...) — Que é pensar
Sem ser? poeta, o que pensa vive o que é,
E a raiz não medita.
1 117
Fernando Pessoa
A TEMPLE
I have built my temple — wall and face —
Outside the idea of space,
Complex — built as a full-rigged ship;
I made its walls of my fears,
Its turrets many of weird thoughts and tears —
And that strange temple thus unfurled
Like a death's-head flag, that like a whip
Stinging around my soul is curled,
Is far more real than the world.
Outside the idea of space,
Complex — built as a full-rigged ship;
I made its walls of my fears,
Its turrets many of weird thoughts and tears —
And that strange temple thus unfurled
Like a death's-head flag, that like a whip
Stinging around my soul is curled,
Is far more real than the world.
1 353
Fernando Pessoa
Tenho um desejo comigo/Que me traz longe de mim.
Tenho um desejo comigo
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.
922
Fernando Pessoa
E quanto sei do Universo é que ele
E quanto sei do Universo é que ele
Está fora de mim.
Está fora de mim.
698
Fernando Pessoa
Débil no vício, débil na virtude
Débil no vício, débil na virtude
A humanidade débil, nem na fúria
Conhece mais que a norma.
Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
Será à liberdade.
Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
Mando e uso de si mesmo.
A humanidade débil, nem na fúria
Conhece mais que a norma.
Pares e diferentes nos regemos
Por uma norma própria, e inda que dura,
Será à liberdade.
Ser livre é ser a própria imposta norma
Igual a todos, salvo no amplo e duro
Mando e uso de si mesmo.
951
Fernando Pessoa
Concentra-te, e serás sereno e forte;
Concentra-te, e serás sereno e forte;
Mas concentra-te fora de ti mesmo.
Não sê mais para ti que o pedestal
No qual ergas a estátua do teu ser.
Tudo mais empobrece, porque é pobre.
Mas concentra-te fora de ti mesmo.
Não sê mais para ti que o pedestal
No qual ergas a estátua do teu ser.
Tudo mais empobrece, porque é pobre.
1 140
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