Tempo e Passagem
Poemas neste tema
Silvestre Péricles de Góis Monteiro
A que deixa posteridade
Quando contemplo as rugas do teu rosto,
fico-me triste e evoco os tempos ídos:
fico-me triste e evoco os tempos ídos:
843
Maria Thereza Noronha
Finito e Infinito
Entre as folhas do outono
e a infinita linha do oceano
cumpre-nos escalar montanhas
decifrar inscrições rupestres
desmontar o teorema, captar
sua argúcia de mestre.
E, inabaláveis, posto que lúcidos,
no finito da carne o agudo vértice
suavizar, e o ardor insano.
Entre as folhas do outono
e a sombra dos ciprestes.
e a infinita linha do oceano
cumpre-nos escalar montanhas
decifrar inscrições rupestres
desmontar o teorema, captar
sua argúcia de mestre.
E, inabaláveis, posto que lúcidos,
no finito da carne o agudo vértice
suavizar, e o ardor insano.
Entre as folhas do outono
e a sombra dos ciprestes.
978
Roberto Pontes
As Nuvens
As nuvens são sempre puras
em qualquer lugar e tempo.
A rosa-dos-ventos flora
e a ampulheta
filtra tênues detritos
de azul contaminação.
Entre as coisas de perene fluxo
as nuvens são sempre puras.
em qualquer lugar e tempo.
A rosa-dos-ventos flora
e a ampulheta
filtra tênues detritos
de azul contaminação.
Entre as coisas de perene fluxo
as nuvens são sempre puras.
1 072
Roberto Pontes
Louvação
De muitos pores-de-sóis
vou renascendo Fênix.
A noite se polui
no azul de estrelas novas
e as constelações xixizam
pó metálico no espaço.
Um doce frio
gruda em minha pele.
Então se aguarda uma aurora grave.
Então eu sinto o tempo derramado.
vou renascendo Fênix.
A noite se polui
no azul de estrelas novas
e as constelações xixizam
pó metálico no espaço.
Um doce frio
gruda em minha pele.
Então se aguarda uma aurora grave.
Então eu sinto o tempo derramado.
847
Paulo Augusto Rodrigues
Astral
Energia incandescente
Baixando ao fundo.
Algo cosméticamente simples
Retocado de pureza.
O sentido ingênuo da admiração aguçado
Pela beleza repetidamente nova.
A indecência do vermelho
A força do amarelo.
E a nós, só nos cabe ver e sentir
Enquanto dure este momento mágico.
Baixe sol,
Porque amanhã quero vê-lo nascer.
Baixando ao fundo.
Algo cosméticamente simples
Retocado de pureza.
O sentido ingênuo da admiração aguçado
Pela beleza repetidamente nova.
A indecência do vermelho
A força do amarelo.
E a nós, só nos cabe ver e sentir
Enquanto dure este momento mágico.
Baixe sol,
Porque amanhã quero vê-lo nascer.
920
Raimundo Oswald Cavalcante Barroso
A Vida no Cárcere
A vida no cárcere é limitada.
Nosso corredor é bem estreito.
Apenas no sábado
temos visita.
Dela saímos
exaustos de tanto viver
a semana em poucas horas.
Nosso corredor é bem estreito.
Apenas no sábado
temos visita.
Dela saímos
exaustos de tanto viver
a semana em poucas horas.
884
Ona Gaia
Diferença
Nada que retorna é o mesmo
tampouco é cópia
do que sempre foi...
se você não é aquele
muito menos o será depois
pois aquele não é o mesmo
que um dia lhe pareceu que foi
tudo que retorna é o próprio
tão diferente
do que um dia foi
que aquele que um dia foi sapo
hoje é poeira
quiçá amanhã?
novamente estrela...
tampouco é cópia
do que sempre foi...
se você não é aquele
muito menos o será depois
pois aquele não é o mesmo
que um dia lhe pareceu que foi
tudo que retorna é o próprio
tão diferente
do que um dia foi
que aquele que um dia foi sapo
hoje é poeira
quiçá amanhã?
novamente estrela...
912
Ona Gaia
A vida alada borboleta
A vida alada borboleta
vive dourada no vento
alisa e cheira a rosa e o tempo
· descuidada e breve
· me leve.
vive dourada no vento
alisa e cheira a rosa e o tempo
· descuidada e breve
· me leve.
986
Ona Gaia
Três Milhões de Anos
Três milhões de anos
não bastam
para perpetuar a espécie
Cem mil anos bastam
uma vida
Mas o infinito
é nossa meta
seja ômega
seja alfa
Tudo ou nada terá sido
a cada mundo esquecido.
não bastam
para perpetuar a espécie
Cem mil anos bastam
uma vida
Mas o infinito
é nossa meta
seja ômega
seja alfa
Tudo ou nada terá sido
a cada mundo esquecido.
873
Murillo Mendes
Reflexão No 1
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
1 053
Maria de Lourdes Hortas
Ciranda
Segundos e milímetros
do tempo que nos resta
a festa que foi ontem
é hoje a mesma festa.
do tempo que nos resta
a festa que foi ontem
é hoje a mesma festa.
1 036
Sonia Mori
Verão
Manhã de sol.
Gaivotas mariscam n’areia
coqueiros farfalham.
Rosto do bebê
pontuado de vermelho
cruel pernilongo!
Verão, mas já vejo
o inverno nas vitrinas
É o natal chegando...
Gaivotas mariscam n’areia
coqueiros farfalham.
Rosto do bebê
pontuado de vermelho
cruel pernilongo!
Verão, mas já vejo
o inverno nas vitrinas
É o natal chegando...
805
Millôr Fernandes
Obstinação dos Outros
Deixamos de beber
E em cada esquina
Abriram um novo bar.
Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.
A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.
E em cada esquina
Abriram um novo bar.
Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.
A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.
1 002
Micheliny Verunschk
Cartório do 2º Ofício
Cato os minutos,
Grãos de milho
Caídos na música
Datilográfica
Do relógio velho
Da parede;
Sementes loiras
De tão sonífera
Claridade
Que só os posso
Contemplar
Com os olhos
Semicerrados;
Óvulos de pó
Que ajunto
No bojo do avental
Para tentar
Saciar a fome
Desse galo voraz,
Desse expediente infindo.
Grãos de milho
Caídos na música
Datilográfica
Do relógio velho
Da parede;
Sementes loiras
De tão sonífera
Claridade
Que só os posso
Contemplar
Com os olhos
Semicerrados;
Óvulos de pó
Que ajunto
No bojo do avental
Para tentar
Saciar a fome
Desse galo voraz,
Desse expediente infindo.
971
Micheliny Verunschk
Da Morte pela Manhã
A manhã seguinte
decalcou quase toda
a manhã anterior
ainda fixa nos olhos dela
( e todas as outras manhãs
subseqüentes
decalcariam
detalhes cada vez menores
daquela última
até que não houvessem
mais olhos.)
decalcou quase toda
a manhã anterior
ainda fixa nos olhos dela
( e todas as outras manhãs
subseqüentes
decalcariam
detalhes cada vez menores
daquela última
até que não houvessem
mais olhos.)
900
Maria Aparecida Reis Araújo
Domínios da Casa
É esta nitidez abrindo
lentamente as portas
ao encontro das horas.
Cheiro de sol em pomares e vinhos.
Acordes nas bordas de um cálice
desfiando memória no tempo.
Território de vidas a casa
é um canto explícito de ausências.
Reacendendo chamas aquecendo o coração.
lentamente as portas
ao encontro das horas.
Cheiro de sol em pomares e vinhos.
Acordes nas bordas de um cálice
desfiando memória no tempo.
Território de vidas a casa
é um canto explícito de ausências.
Reacendendo chamas aquecendo o coração.
831
Maria Aparecida Reis Araújo
Rotina
Na rotina das noites o inverno da flor
oxida maxilares do tempo.
Sigilo de areia entranhada
no suor da lida.
Circuito das horas em roteiros de âncoras
rompe silêncios de aridez e púrpura.
oxida maxilares do tempo.
Sigilo de areia entranhada
no suor da lida.
Circuito das horas em roteiros de âncoras
rompe silêncios de aridez e púrpura.
892
Marco Antônio Rosa
Aos Curdos
As dobras do tempo
me assustam
por sua precisão
em faces há muito conhecidas
e reencontradas
depois de eras
em uma curva qualquer
da estrada
onde seguimos rumo
a estranho compromisso
de pó e cordite,
lágrimas
nos olhos.
me assustam
por sua precisão
em faces há muito conhecidas
e reencontradas
depois de eras
em uma curva qualquer
da estrada
onde seguimos rumo
a estranho compromisso
de pó e cordite,
lágrimas
nos olhos.
816
Maria Aparecida Reis Araújo
Faces do Silêncio
Pedras escondidas em prateleiras
de encostas
e guizos de aljôfar - silêncio
é o guia, o selo e a viagem.
O desembarcar de ossos
em asas do vento
o borbulhar de espuma
em corpos de areia
o riso milenar no roteiro de cinzas.
de encostas
e guizos de aljôfar - silêncio
é o guia, o selo e a viagem.
O desembarcar de ossos
em asas do vento
o borbulhar de espuma
em corpos de areia
o riso milenar no roteiro de cinzas.
837
Maria Aparecida Reis Araújo
Vigília
Quietude repensa abrigos
e acorda o coração velejando
rumos da memória.
De porosidade a vida filtra
o tempo
desertando a saga de abrolhos.
E estira canções de efervescência
nos meandros da paz.
e acorda o coração velejando
rumos da memória.
De porosidade a vida filtra
o tempo
desertando a saga de abrolhos.
E estira canções de efervescência
nos meandros da paz.
868
Machado de Assis
A uma Senhora que me Pediu Versos
Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.
Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.
Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.
Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.
Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.
Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.
Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.
2 242
Majela Colares
As Marcas do Tempo
O último impulso do segundo antes
ao projetar-se no após segundo
risca no tempo cicatrizes, fendas...
(o largo corte invariável, sempre)
que esculpe a forma virtual do instante
no confundível e abstrato mármore,
imagem sólida do momento único.
ao projetar-se no após segundo
risca no tempo cicatrizes, fendas...
(o largo corte invariável, sempre)
que esculpe a forma virtual do instante
no confundível e abstrato mármore,
imagem sólida do momento único.
1 161
Luiz de Aquino
Harmonia
Harmonia
Essas mãos já se tocaram
antes
e se afagaram feito jeito
de criança sonolenta.
Essas mãos andaram juntas
muito tempo
e se desejaram tanto tempo.
Agora essas mãos se deram
de vez
e querem envelhecer
sempre unidas.
Essas mãos já se tocaram
antes
e se afagaram feito jeito
de criança sonolenta.
Essas mãos andaram juntas
muito tempo
e se desejaram tanto tempo.
Agora essas mãos se deram
de vez
e querem envelhecer
sempre unidas.
1 035
Leão Moysés Zagury
Momento 2
Momento 2
Momento é brisa
que se forma,
sonhos que vem e que passam
por teus olhos veludíneos.
Cada sopro de vida,
representa a existência
do porvir.
Gotas de tempo
formando o anjo
que inspira a flor,
que exala perfume
— realidade
te agradeço !
Momento é brisa
que se forma,
sonhos que vem e que passam
por teus olhos veludíneos.
Cada sopro de vida,
representa a existência
do porvir.
Gotas de tempo
formando o anjo
que inspira a flor,
que exala perfume
— realidade
te agradeço !
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