Solidão

Poemas neste tema

Angela Santos

Angela Santos

Ao Largo

Vaga
esqueleto de navio
ausência de mastro e velas,
um piloto exausto no convés
navio a desfazer-se nas ondas
sem outro destino,
distante de um porto
a que ancorar.
Sonho partidas, chegadas
portos ignotos,
águas claras,
e uma ilha lá longe
onde espraiar o cansaço.

1 229
Mauricio Segall

Mauricio Segall

Descalço e nu

Descalço
e nu
na escuridão de cada madrugada,
quando meus olhos em água
nem conseguem enxergar a caminhada,

Do quarto à sala
da sala ao quarto

Tropeço minha maratona,
treinando não sei por que
nem para que medalha
só pensando chegar à alvorada.
920
Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Uma Mulher

Tem os
olhos escondidos
no meio das pedras.

Ali o regato
brota de cerejas envelhecidas.

Suas mãos apanham o ar.

Caminha de leve
sobre as palavras.
É exata.

Ninguém lhe adivinha a nudez.

Muitos, muitos a amam.
a ninguém deu o amor.
Em seu corpo ela permanece,
a alma lhe exige um corpo tão diferente
que não sabe onde esperá-lo.

1 140
Miriam Paglia Costa

Miriam Paglia Costa

A Canção dos Insetos

brilha
a redação
eternidade de néon
aprisionados entre cimento e vidro
escrevemos sobre o mundo que anoitece
nada se vê pelas janelas
só reflexo de nossas caras amarelas
jornalistas no aquário
lá longe, tão depressa
nas escadas do teatro
um mendigo troca andrajos
encerra o ato
sem vaia nem aplauso pega o troco
exit
771
Emídia Felipe

Emídia Felipe

A Noite

De noite,
quando as bocas calam
e as almas passeiam
tudo vira refúgio
todos os ruídos
viram suspeitos
e as sombras
cúmplices
Os cantos
de todos os lados
viram abrigo
De noite
livre do barulho do mundo
posso saber de mim
Tudo se afasta
e posso sair
cair
sorrir

O véu escuro lá fora
me faz lembrar
que de manhã
tudo volta

860
Lívia Araújo

Lívia Araújo

Sobre Fundo Azul

Nas noites
em claro
A vela acesa
No desabafo
O desafio.

Mau altar, papel azul
O brilho tênue
O vinho doce
E a promessa.

Estou aqui
Desconhecida
Que se desnuda
E pede ajuda.

Salto aos teus olhos
No meu desenho
Um ser estranho
Cantando, Blue.

625
Zazé

Zazé

Dias

Há dias que chegam
Branco, claros,
Envoltos em luz de esperança
Por uma paz que não tenho.

Canto solitário do meu olhar
Que abarca o rio, a serra, o mar.

Ah, que força é esta que me move?
Donde vem?

740
Jazzim

Jazzim

Poema II

Onda
solitária na areia parida
na ausência dos teus braços
desaparecendo na imensa noite gélida

Invade-a a saudade do teu mar
perfumando, perfumando-a a cada gota
derramada em tua pele, mulher!

De regresso a um outro mar
(salgado e perdido)
é só água
que na água se confunde

825
Antonio Rogerio Czelusniak

Antonio Rogerio Czelusniak

Vôo

Num voo
sem destino
desabalo carreiras sem fim
procuro pousada
negam abrigo
eu....
pássaro ferido
pela mão
pela arma
pelo não.
Voarei uma eternidade
descansarei na saudade
morrerei
ao alvorecer.

338
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Timbre

EU,
Morreu.
Só há ideal
No plural.
Tecidos
Como os fios que há nos linhos,
Parecidos
Entre nós como dois olhos,
Somos do tempo de viver aos molhos
Para morrer sòzinhos.

2 046
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Na tarde erramos

Na tarde erramos,
Nós, tu e eu,
Mas três.
Tão sós que vamos
E não sou eu
Quem vês.

Discreto calo,
Pra que o meu senso
Louves;
Em vão não falo,
Tanto o que eu penso
Ouves.

Melhor me fora
Que a outro assim
Levasses
E, longe embora,
Sòmente em mim
Pensasses.

1 797
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Onde, aguardando, esperasse

Onde, aguardando, esperasse,
Onde, cantando, me ouvisse,
Onde, podendo, bastasse,
Onde, vivendo, existisse.

Onde o intuito trouxesse
O corpo de se cumprir
E eu todo sempre me desse,

Aí seria também
De exílio a minha atitude.
O que é longe é sempre o Bem,
Por mais que a alma se mude.

1 712
Waldomiro Siqueira Jr.

Waldomiro Siqueira Jr.

Haicai

O Sentenciado

Na cela minúscula
Contemplava, pensativo,
A mosca voando.

Restos

Casa ao abandono.
Telhado já desabado.
Uiva um cão sem dono.

1 734
Vani Rezende

Vani Rezende

Haicai

A ventania tumultua.
Bandos de pássaros
esticam suas asas.

No silêncio da cidade
a noite, gaiola negra,
envolve a luz do meu quarto.

1 080
Valdir L. Queiroz

Valdir L. Queiroz

Dissertação I

Grito no espaço procurando
o teu grito, que tu não gritaste
não sei porque ou por que...

mas tu me ensinaste,
não sei como nem onde,
a procurar o meu grito que
morre no teu, qual sombra
sem luz que forma uma cruz
e os olhos não vê.

898
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Despista-se

Mulher da minha vida
Por que se esconde
Sei que existe
Mas onde?

Dê-me um sinal
Qualquer pista
Antes que, de tão
cansado, desista.

686
Sílvia Rocha

Sílvia Rocha

Haicai

chuva de verão
transito no trânsito
chora coração

solidão
não te come não te mata
te retrata

961
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Súbito

Hoje,
foi um dos poucos dias em que me senti feliz.
E, de súbito,
veio-me uma vontade de abraçar o mundo.
Mas, já viram,
não posso.
Estou preso, em janelas.
E dentro de mim.

811
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Sou Náufrago Solitário

Não vejo,
não ouço,
não sinto.
Sou cálice de absinto
bebido no meu naufrágio...

Horas para sonhar
tempo sem dimensão...

Não vejo,
não ouço,
não sinto.
E com certeza não minto
ao cantar minha evasão!...

Sou náufrago solitário
na ilha da solidão...

749
Rodrigo Guidi Peplau

Rodrigo Guidi Peplau

Poêmio

Poêmio
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu

que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.

Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada

que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas

1 086
Paulo Roberto Cecchetti

Paulo Roberto Cecchetti

Haicai

Solidão

Essa solidão
à mesa, em pleno almoço:
mastigar a vida!

Motocicleta

Na rua de lua,
um vaga-lume eletrônico:
a motocicleta.

745
Pedro Paulo de Sena Madureira

Pedro Paulo de Sena Madureira

O Olhar Branco

O olhar branco
preso ao vazio
depois que as coisas ficaram por ser vistas.

O silêncio branco
despido de harmonia
depois que as palavras ficaram por ser ditas.

A morte branca
sem grito
sem cruz
sem glória
no avesso da história
depois que a agonia toda ficou por ser escrita.

886
Paulo F. Cunha

Paulo F. Cunha

Transparência

Por que , quando estás perto ,
sou transparente à ti ?
Por que , quando estás longe
sou transparente ao mundo ?

Por que não sou sólido , opaco
como os outros ?
Ou será que não vejo os outros ,
preocupado com minha transparência . ,

900
Orlando Neves

Orlando Neves

1954

Este rosto de hoje,
assim triste, assim magro,
é a memória.
Estas mãos de hoje,
assim vãs, asssssim frias,
são o silêncio.
Esta boca de hoje,
assim branca, assim breve,
é a ausência.
Este olhar de hoje,
assim ágil, assim mudo,
é o cansaço.
Este corpo de hoje,
assim remoto, assim seco,
é apenas um grito
de socorro.

989