Memórias e Lembranças
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Na praia de Monte Gordo,
Na praia de Monte Gordo,
Meu amor, te conheci.
Por ter estado em Monte Gordo
É que assim emagreci.
Meu amor, te conheci.
Por ter estado em Monte Gordo
É que assim emagreci.
1 644
Fernando Pessoa
Deste-me um cordel comprido
Deste-me um cordel comprido
Para atar bem um papel.
Fiquei tão agradecido
Que inda tenho esse cordel.
Para atar bem um papel.
Fiquei tão agradecido
Que inda tenho esse cordel.
1 389
Fernando Pessoa
FLASHES OF MADNESS — V
V.
My child, I see thine eyes upon
A shadow, as cast by the wings
When a swift bird passes close by
The castle-window before the sun:
So through thy glance the shadows fly...
The souls of things dead and bygone
Haunt the appearances of living things
My child, I see thine eyes upon
A shadow, as cast by the wings
When a swift bird passes close by
The castle-window before the sun:
So through thy glance the shadows fly...
The souls of things dead and bygone
Haunt the appearances of living things
1 154
Fernando Pessoa
Quando eu era pequenino
Quando eu era pequenino
Cantavam para eu dormir.
Foram-se o canto e o menino.
Sorri-me para eu sentir!
Cantavam para eu dormir.
Foram-se o canto e o menino.
Sorri-me para eu sentir!
4 607
Fernando Pessoa
Andei sozinho na praia
Andei sozinho na praia
Andei na praia a pensar
No jeito da tua saia
Quando lá estiveste a andar.
Andei na praia a pensar
No jeito da tua saia
Quando lá estiveste a andar.
2 047
Fernando Pessoa
Tenho pena até... nem sei...
Tenho pena até... nem sei...
Do próprio mal que passei
Pois passei quando passou.
Do próprio mal que passei
Pois passei quando passou.
1 369
Fernando Pessoa
Sonho feito do horror do pensamento,
Sonho feito do horror do pensamento,
Informe e hórrido, para sempre
Longe de mim vossa lembrança horrível.
Informe e hórrido, para sempre
Longe de mim vossa lembrança horrível.
1 273
Fernando Pessoa
Criança, era outro...
Criança, era outro...
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci.
Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei.
Ganhei ou perdi?
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci.
Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei.
Ganhei ou perdi?
1 922
Fernando Pessoa
Todos os dias eu penso
Todos os dias eu penso
Naquele gesto engraçado
Com que pegaste no lenço
Que estava esquecido ao lado.
Naquele gesto engraçado
Com que pegaste no lenço
Que estava esquecido ao lado.
1 349
Ibn Ammar
A Al-mu’tâmid (II)
Quantas noites passadas lá no açude
Sinuosas deslizavam as correntes do rio
Como manchadas serpentes.
As correntes murmuravam junto a nós
Ao passar, qual gente ciumenta,
A querer magoar-nos à força da calúnia.
Mas no recanto escolhido
Era o jardim que vinha visitar-nos
Enviando seus presentes
Nas perfumadas mãos da brisa.
Sinuosas deslizavam as correntes do rio
Como manchadas serpentes.
As correntes murmuravam junto a nós
Ao passar, qual gente ciumenta,
A querer magoar-nos à força da calúnia.
Mas no recanto escolhido
Era o jardim que vinha visitar-nos
Enviando seus presentes
Nas perfumadas mãos da brisa.
1 235
Florbela Espanca
O que mais me comove
O que mais me comove e me contrista
Neste pesar que se apossou de mim
E não saber (que tenebrosa egoísta!)
se te lembras de mim!
Qualquer pesar em que a memoria insista
Recorda a nossa angustia. É uma aflição.
E eu vivo a repetir. Longe da vista...
longe do coração...
Neste pesar que se apossou de mim
E não saber (que tenebrosa egoísta!)
se te lembras de mim!
Qualquer pesar em que a memoria insista
Recorda a nossa angustia. É uma aflição.
E eu vivo a repetir. Longe da vista...
longe do coração...
1 497
Joaquim Cardozo
Salinas de Santo Amaro
Salinas de Santo Amaro,
Ondas de terra salgada,
Revoltas, na escuridão,
De silêncio e de naufrágio
Cobrindo a tantos no chão.
Terra crescida, plantada
De muita recordação.
Ondas de terra salgada,
Revoltas, na escuridão,
De silêncio e de naufrágio
Cobrindo a tantos no chão.
Terra crescida, plantada
De muita recordação.
1 370
Nizâr Qabbânî
pensei ontem no meu amor por ti
pensei ontem no meu amor por ti
lembrei-me logo
das gotas de mel nos teus lábios
e então lambi o açúcar das paredes da minha memória
(tradução de André Simões)
659
Frank O'Hara
Poema
Há dias em que sinto exalar uma fina poeira
como aquela atribuída a Pilades na famosa
Chronica nera areopagitica ao ser descoberta
e é porque um arqueólogo
adentrou a câmara secreta do meu peito
e chacoalhou o papel que carrega seu nome
Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.
como aquela atribuída a Pilades na famosa
Chronica nera areopagitica ao ser descoberta
e é porque um arqueólogo
adentrou a câmara secreta do meu peito
e chacoalhou o papel que carrega seu nome
Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.
935
Kenneth Rexroth
Carta do pão com manteiga
Embora não fosse minha a casa
As primeiras frutas florescendo na
Janela tinham o mesmo cheiro.
A BREAD AND BUTTER LETTER
Although it was not my home
The first cold plum blossom by
The window smelled just the same.
As primeiras frutas florescendo na
Janela tinham o mesmo cheiro.
A BREAD AND BUTTER LETTER
Although it was not my home
The first cold plum blossom by
The window smelled just the same.
892
Paulo Colina
Plenitude
embora só
vagueio tranquilo
senhor de todas as tormentas
enquanto saboreio teu batom
vagueio tranquilo
senhor de todas as tormentas
enquanto saboreio teu batom
823
Paulo Colina
Forja
entre uma calmaria
e outra
do mar de nossas peles
me bastaria amor cantar o fogo
que somos na nascente
de suas coxas
mas há essa dor de outros tempos
e corpos
essa rosa dos ventos sem norte
na memória sitiada da noite
embora o gesto possa ser
no mais todo ternura
o poema continua um quilombo
no coração
1 274
Sebastião Alba
Epílogo
Fui
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.
O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.
Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.
O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.
Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.
1 222
Akiko Yosano
Tanka III
“Kyoto é um lugar
de dolorosas recordações...”
escrevi até aí
quando olhei para baixo
e notei a brancura do rio Kamo
777
Jaime Gil de Biedma
Voltar
Minha lembrança eram imagens,
no instante, de ti:
essa expressão e um matiz
dos olhos, um pouco suave
na inflexão de tua voz,
e teus bocejos furtivos
de lebréu que dormiu mal
toda a noite em meu quarto.
Voltar, passados os anos,
rumo à felicidade
— para ver-se e recordar
que estou também mudado.
(de Moralidades)
no instante, de ti:
essa expressão e um matiz
dos olhos, um pouco suave
na inflexão de tua voz,
e teus bocejos furtivos
de lebréu que dormiu mal
toda a noite em meu quarto.
Voltar, passados os anos,
rumo à felicidade
— para ver-se e recordar
que estou também mudado.
(de Moralidades)
786
Luís Filipe Castro Mendes
A CAMILO PESSANHA, PASSANDO EM JAIPUR
Uma imagem a passar pela retina
e nada mais: venham outros falar-nos de experiência,
de transformar o vivido em consciência,
de reter o que é fugaz!
Uma imagem a passar pela retina,
porque o sentido de tudo está na velocidade do carro
que me permitiu fotografar…
1 208
Juan Gelman
Foto
Na fotografia que teus olhos tornam doce
há teu rosto de perfil, tua boca. teus cabelos,
mas quando vibrávamos de amor
debaixo da maré da noite e do clamor da cidade
teu rosto é uma terra sempre desconhecida
e esta fotografia o esquecimento, outra coisa.
há teu rosto de perfil, tua boca. teus cabelos,
mas quando vibrávamos de amor
debaixo da maré da noite e do clamor da cidade
teu rosto é uma terra sempre desconhecida
e esta fotografia o esquecimento, outra coisa.
1 832
Luís Filipe Castro Mendes
Pessoana Pobre
Como nas ruas de Roma
ou no caos de Deli,
esta ruína que assoma
diz que não somos daqui.
Passado, terra estrangeira:
e o nosso em particular
é palavra derradeira,
não se pode articular.
Toda a memória que fui
longe de mim se escondeu.
E de muitos céus azuis
se fez noite neste céu.
1 422
Paulo Leminski
lembrem de mim
lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça
Publicado no livro Polonaises (1980).
In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 198
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça
Publicado no livro Polonaises (1980).
In: LEMINSKI, Paulo. Caprichos e relaxos. Prefácio de Haroldo de Campos. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 198
1 848
Português
English
Español