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Poemas neste tema

Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

Canto III - A Peregrina

XVIII

Sua estatura é alta e majestosa,
Sem que lhe abafe a majestade a graça.
Quieta face de um lago manso e puro,
Sereno céu de bonançosa aurora,
Eis sua fronta sossegada e lisa.
Os seus cabelos longos e brilhantes.
Como da tempestade a nuvem negros,
Em bastos caracóis brincando soltos,
Quando assentada, o colo lhe anuviam:
Tão grande negridão, seio tão níveo,
Em desordem furtando a mil desejos,
É como um caos que um mistério esconde:
Olhos negros também, de amor são raios;
Tem uma luz que aos corações é dia,
Tem um fitar que à indiferença é morte.
Ao ver-lhe a breve e graciosa boca,
Suas madonas retocara Urbino;
O bico da trocaz rubor mais puro
Não tem, que os lábios seus, nem mais alvura
Que os finos dentes neve cristalina.
Ao cisne do Uruguai não cede em graça
Seu colo altivo e belo, e nem as fadas
A cintura no mimo e delgadeza,
Torneara-lhe os braços gênio amigo,
Tão formosos se mostram! mão de um anjo,
Branca e leve qual pena de uma garça,
Jasmins colhendo por jasmim se houvera;
Níveos dedos coroam rubras unhas,
Quais hastes de cristal pétalas de rosas;
E o lindo pé, que às vezes se adivinha,
Quando mergulha na rasteira grama,
Invejariam silfos, que só voam.
Oh! tão formosa, custa a crê-la humana!
Parece um anjo que baixara à terra,
Anjo exilado da mansão dos justos,
Peregrinando na mansão dos erros.


In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.93-95

NOTA: O "Canto III - A Peregrina" é composto de 41 parte
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Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

Orphée aux Enfers

Subia o pano acima. A musa da alegria
Iluminava o rosto à prazenteira claque,
E deuses e vestais da morta teogonia
Vinham dançar em cena aos cantos de Offenbach.

Ao despedir a orquestra as notas delirantes.
Borrados arlequins lascivos como Pã,
Nos braços — espirais dum grupo de bacantes
Saltavam, sem pudor, na febre do can-can.

Era a sátira viva, a sátira pungente,
Levado no delírio aos baixos entremeses.
Expondo ao riso alvar de geração doente
A crença dos fiéis dos fabulosos deuses.

Então esses heróis divinos das florestas.
Outrora adoração e crenças dos pagãos,
Tornavam-se truões que em delambidas festas
Viviam de espancar o tédio dos cristãos.

E as grandes ovações àqueles decaídos
Traziam-me à lembrança o bárbaro selvagem,
Que vinha sapatear na tumba dos vencidos
No campo onde travara o prélio da carruagem.

Podeis dormir em paz, ó legião sagrada!
Ó Júpiter, Plutão, titãs da fé pagã!...
E como tudo marcha às solidões do nada
Inda há de rir de nós o crente de amanhã.


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.24-25. Poema integrante da série Musa Livre.

NOTA: Orphée aux enfers - Orfeu nos infernos, título da opereta do compositor Offenbac
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Junqueira Freire

Junqueira Freire

O Remorso da Inocente

III

Cisma a virgem mansamente
Em pensamentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.

E cismava: — Ai! que eu não seja
Tão pura no meu amor:
Tão pura — como este raio
Da lâmpada do Senhor! —

E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha,
Que eu arranco da capela! —

E cismava: — Ai! que eu não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —

E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor... —

E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa qu'ontem cortei! —

Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão.
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.


Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.11

NOTA: Poema composto de quatro parte
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Sílvio Romero

Sílvio Romero

Jogo dos Dedos

(Sergipe e Pernambuco)

Dedo miudinho,
Seu vizinho,
Maior de todos,
Fura-bolos,
Cata piolhos.
Este diz que está com fome,
Este diz que não tem o quê;
Este diz vai furtar;
Este diz que não vá lá,
Este diz que Deus dará.


In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.292. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
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Alcides Villaça

Alcides Villaça

Serenata

Por falta de público para o Nelson Gonçalves que venho ensaiando
escrevo para mim, mais baixo e floreado.
Mas o murmúrio é ciumento de um tenor
de voz educada para as deusas da rua.
E eu teria vergonha de uma taça de dor.

Afogo noutro lirismo outra espécie de flor.
Domo a bom domador um velho dó de peito, surdino, circunspecto,
que trato por senhor.
Minha ária em bocca chiusa aspira ao violoncelo
que não pôde serestear.
Abre o peito um cabaré.

O bolero de Ravel plana a meio palmo
de uma insônia comum.
A escultura da mulher, da garrafa, do violão
dão na mesma sombra da cortina lilás.
Mas venho ensaiando Ofélias
que vão do bar para o mar.


In VILLAÇA, Alcides. Viagem de Trem. Il. Alberto A. Martins. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma). Poema integrante da série Sala de Espera
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Sérgio Milliet

Sérgio Milliet

São Paulo

Canto a cidade das neblinas
e dos viadutos
minha cidade
amante de futebol e vendedora de café
Os aventureiros bigodudos
como nas fitas da Paramount
o Friedenreich pé de anjo
e a bolsa de mercadorias
as chaminés parturientes do Brás
os quinze mil automóveis orgulhosos
no barulho ensurdecedor dos klaxons
e a cultura envernizada dos burgueses
os engraxates da Praça Antônio Prado
e o serviço telegráfico do "Estado"
a febre do dinheiro
as falências sírio-nacionais
a especulação sobre os terrenos
a politicagem e os politiqueiros
e a negra de pó de arroz
e até os bondes da Light
para o Tietê das regatas e dos bandeirantes
os homens dizem que tu és ingrata
e que devoras os teus próprios filhos...
Mas que linda madrasta tu és
toda vestida de jardins!
Minha cidade
Amo também teus plátanos nostálgicos
imigrantes infelizes
teus crepúsculos de seda japonesa
tuas ruas longas de casas baixas
e teu triângulo provinciano...


Publicado no livro Poemas Análogos (1927). Poema integrante da série Poemas Brasileiros.

In: MILLIET, Sérgio. Poesias. Porto Alegre: Livr. do Globo, 1946. p.70-71. (Autores brasileiros, 19
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Antônio Barreto

Antônio Barreto

Papo de Anjo

— São Damião era um são damiinho
ou Santo Agostinho era um santo agostão?

— São Sebastião era um são sebastinho
ou São Valentim era um são valentão?

— São Salomão era um são salaminho
ou São Balalão era um são balãozinho?

— São pelos São Paulos que os santos santinhos
ou são pelos São Pedros que os santos são sãos?


In: BARRETO, Antônio. Brincadeiras de anjo. Il. May Shuravel. São Paulo: FTD, 1987. p.32. (Falas poéticas
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Armindo Trevisan

Armindo Trevisan

Salmo das Aves do Céu

Olhai as aves do céu:
as águias
descem sobre vossos cordeiros
e os devoram
os abutres:
limpam vossas estâncias
os pardais:
dilapidam vossas hortas

Aprendei dos lírios do campo:
não trabalham nem fiam
é ali
que a hóstia mói-se
com o esperma de vosso suor
e o vinho
rebenta das pedras

Contemplai Salomão:
com todo o seu esplendor
chega (como um de vós) vestido
com o macacão de garagista

vai morrer crucificado
em vosso relógio-ponto


In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série O Livro dos Salmos
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Bernardo Guimarães

Bernardo Guimarães

Elixir do Pajé

(...)

Feliz caralho meu, exulta, exulta!
Tu que aos conos fizeste guerra viva,
e nas guerras de amor criaste calos,
eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos;
alimpa esse bolor, lava essa cara,
que a Deusa dos amores,
já pródiga em favores
hoje novos triunfos te prepara,
graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!

Vinde, ó putas e donzelas,
vinde abrir as vossas pernas
ao meu tremendo marzapo,
que a todas, feias ou belas,
com caralhadas eternas
porei as cricas em trapo...
Graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!

Sus, caralho! Este elixir
ao combate hoje te chama
e de novo ardor te inflama
para as campanhas do amor!
Não mais ficarás à-toa,
nesta indolência tamanha,
criando teias de aranha,
cobrindo-te de bolor...
Este elixir milagroso,
o maior mimo da terra,
em uma só gota encerra
quinze dias de tesão...
Do macróbio centenário
ao esquecido marzapo,
que já mole como um trapo,
nas pernas balança em vão,
dá tal força e valentia
que só com uma estocada
põe a porta escancarada
do mais rebelde cabaço,
e pode um cento de fêmeas
foder de fio a pavio,
sem nunca sentir cansaço...

Eu te adoro, água divina,
santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração,
eu te entrego a minha porra!
Faze que ela, sempre tesa,
e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo,
até que fodendo morra!

Sim, faze que este caralho,
por tua santa influência,
a todos vença em potência,
e, com gloriosos abonos,
seja logo proclamado
vencedor de cem mil conos...
E seja em todas as rodas
d'hoje em diante respeitado
como herói de cem mil fodas,
por seus heróicos trabalhos,
eleito — rei dos caralhos!


Publicado no livro Elixir do Pajé (1958).

In: GUIMARÃES, Bernardo. Elixir do pajé. A origem do mênstruo. A orgia dos duendes. Introd. Romério Rômulo. Il. Fausto Prats. Sabará: Ed. Dubolso, 198
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Stella Leonardos

Stella Leonardos

Barinel

VAGAS VAN e vagas ven.
Meu coraçon valedor:
valha-mi Deus que amo ben.

"E assi morrerei por quen
non quer meu mal,
non quer meu ben".

Vagas van e vagas ven?
Meu coraçon: val amor,
todolo mar de amar ben.

"E assi morrerei por quen
non quer meu mal,
non quer meu ben".



Poema integrante da série Códice Ancestral.

In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9).

NOTA: Barinel= antiga embarcação à vela. Val= vale. Todolo= todo
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Castro Alves

Castro Alves

O 'Adeus' de Tereza

A vez primeira que eu fitei Tereza,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala...

E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me "adeus!"

Passaram tempos... sec'los de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — "Voltarei!... descansa!..."
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

São Paulo, 28 de agosto de 1868.


Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
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Murilo Mendes

Murilo Mendes

Murilo Menino

Eu quero montar o vento em pêlo,
Força do céu, cavalo poderoso
Que viaja quando entende, noite e dia.

Quero ouvir a flauta sem fim do Isidoro da flauta,
Quero que o preto velho Isidoro
Dê um concerto com minhas primas ao piano,
Lá no salão azul da baronesa.

Quero conhecer a mãe-d'água
Que no claro do rio penteia os cabelos
Com um pente de sete cores.

Salve salve minha rainha,
Ó clemente ó piedosa ó doce Virgem Maria,
? Como pode uma rainha ser também advogada.


Publicado no livro Poesia Liberdade (1947). Poema integrante da série Livro Primeiro: Ofício Humano, 1943.

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
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Laís Corrêa de Araújo

Laís Corrêa de Araújo

Adeus

É assim que eu te digo adeus:
como uma menina que mora na beira
da estrada e abana a mão para o trem.

Apenas te vi.
E te digo adeus porque não
apanho rosas.


In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
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Gilka Machado

Gilka Machado

Incenso

A Olavo Bilac

Quando, dentro de um templo, a corola de prata
do turíbulo oscila e todo o ambiente incensa,
fica pairando no ar, intangível e densa,
uma escada espiral que aos poucos se desata.

Enquanto bamboleia essa escada e suspensa
paira, uma ânsia de céus o meu ser arrebata,
e por ela a subir numa fuga insensata,
vai minha alma ganhando o rumo azul da crença.

O turíbulo é uma ave a esvoaçar, quando em quando
arde o incenso ... Um rumor ondula, no ar se espalma,
sinto no meu olfato asas brancas roçando.

E, sempre que de um templo o largo umbral transponho,
logo o incenso me enleva e transporta minha alma
à presença de Deus na atmosfera do sonho.


Publicado no livro Cristais partidos (1915).

In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p.32
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Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

Eu me curvo ao destino de meu sexo; (Ato II, Cena I)

(...)

Eu me curvo ao destino de meu sexo;
É preciso viver no nosso mundo;
Receber como leis suas cadeias;
Ter o riso no rosto, e o pranto n'alma,
E dizer — sou feliz!... — Que sorte iníqua!
É a mulher excepcional vivente,
Que tem alma, e não querem que ela sinta!
Tem coração, e ordenam que não ame!...
A mulher sempre é vítima no mundo.
Sujeita des que nasce até que morre,
De pai passa a tutor, irmão, marido...
Sempre um senhor... (O nome é que se muda);
Sempre a seu lado um homem se levanta
Para pensar e desejar por ela;
Criança, junto a quem sempre vigiam;
Cego, que sempre pela mão se leva;
Eis a mulher!... eis o que eu sou, e todas!...
E ao muito se consegue ser amada;
É escrava, que num altar se prende,
Divindade, que em ferros se conserva.
E a quem se chama (Oh! irrisão!!!) SENHORA!
E portanto, eu serei como mil outras
Mártires nobres. Ver-me-ão passando
(Como essas tantas) Silenciosa... pálida
Sorrindo com o sorrir que esconde as mágoas:
Talvez digam ao ver-me — ela é ditosa!
Sim, que eu hei de saber (como outras fazem)
Abafar meus suspiros e gemidos,
E esconder os tormentos de minh'alma
Desse mundo egoísta, e sem piedade,
Que faz do homem "senhor" da mulher "mártir"

(...)


Publicado no livro O cego: drama em cinco atos em verso (1851).

In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.253. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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Gilka Machado

Gilka Machado

Ser Mulher

Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!


Publicado no livro Cristais partidos (1915).

In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 106
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B. Lopes

B. Lopes

Asas Úmidas

Melhor, muito melhor, anjo, te fora
Não roçares, brincando, as leves plumas
Das tuas asas, brancas como espumas,
Pela minha cabeça pecadora...

Não há em mim a seda protetora
Das rosas frescas, onde os pés perfumas,
Nem a macia flacidez das brumas
Em que poreja uma alvorada loura.

Arfa teu seio na delícia extrema,
Como o peito selvagem de Iracema
Naquele sonho olímpico da rede;

Vieste rompendo castas madrugadas,
Que ainda tens as penas salpicadas
De cristalino orvalho, e eu tenho sede!...


Publicado no livro Brasões (1895).

In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
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Luís Delfino

Luís Delfino

Primeira Missa no Brasil

A Victor Meirelles


Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, em cima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas

Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.

Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.

Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.


In: DELFINO, Luiz. Algas e musgos. Rio de Janeiro: Livr. Papelaria, Lytho-Typographia Pimenta de Melo, s.d. Poema integrante da série Gravuras
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Paulo Leminski

Paulo Leminski

parem

parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus

eu sou o seu profeta

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Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Passos

Sigo um azul perdido na distância
e um tempo a viajar pra outro lado
é tão incerto o gesto, é como a dança
de um sopro no vento, abandonado

Levo as mão vazias e a vontade
a força inteira do mundo a respirar
soltando dentro amarras à deriva
que me abrem braços noutro mar

Vou procurar rumos só meus
sem sentir mais nada
só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo

O sol arde no branco das paredes
e o calor vai ficando para trás
já morreu dentro de mem o punho negro
de garras que apertavam sem matar

Sem medo de navegar enfim a sós
sem medo do que se vê na escuridão
corro atrás das chamas leves e furtivas
sem sentir mais nada

Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo

Corro atrás de ventos incontidos
sem ver mais ninguém
sem sentir mais nada
Só os meus passos a andar
só os meus passos a correr
só os meus passos a atravessar o mundo
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Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

Canto V - A Mãe

Mas é noite; em seu manto de papoulas
A's donzelas acolhe um brando sono.
Em vasta sala que as janelas abre
Para o remanso de escolhidas flores,
Descansa a Peregrina; em doces ondas
De perfumes fagueiras vêm as auras
Brincar com as telas de virgíneo leito;
Da mãe de Deus a imagem sacrossanta
Em áureo quadro à cabeceira pende;
Dorme feliz a cândida donzela,
E das roupas finíssimas e brancas
Sob as quais lindas formas se desenham,
Um colo, que no alvor supera a neve,
E um rosto divinal surgem formosos,
Onde estão os encantos pululando
Através das madeixas atrevidas,
Que soltas vão pousar no seio e face,
Nublando graças que paixões acendem.
Um braço nu, que das cobertas foge,
Tipo de perfeição meigo se dobra,
As telas conchegando ao níveo seio,
Instinto de pudor, inda no sono.
D'uma janela aos zéfiros aberta
Vê-se no Céu a lua, e a lua afável
De luz derrama enchentes sobre o leito,
Contemplando, qual anjo adormecido,
Imersa a Peregrina em seus fulgores.


In: MACEDO, Joaquim Manuel de. A nebulosa: poema. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. p.195-196
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Terceira: D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL

Claro em pensar, e claro no sentir,
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —

Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à idéia tida.
Tudo o mais é com Deus!

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Zalina Rolim

Zalina Rolim

Croquis

Quarto de moça: abrindo-se ao levante
Uma janela emoldurada em flores,
Donde se avista o campo verdejante,
Que o sol nascente inunda de esplendores.

Completa ausência de primores d'arte,
Raros adornos, móveis de recreio;
Mas, esvoaçando aéreo, em toda a parte
O grato aroma salutar do asseio.

Ao centro o leito pequenino e leve
Sem ornamentos de maior valia;
Cortinas alvas de um candor de neve
Que a alma refresca e os olhos delicia.

Além a estante de madeira fina,
A mesinha de estudo, a pasta e as penas
Que pacífica e tépida ilumina
A claridade das manhãs serenas.

Rente à janela o toucador e ao lado
Sobre o tapete a cesta de costura;
Flocos, cetins, tesouras de bordado,
Numa engenhosa, artística mistura.

E o sol entrando alegre e satisfeito
Pela janela, fúlgido, alumia
O livro de orações junto do leito
E à cabeceira a imagem de Maria.


In: ROLIM, Zalina. O coração: poesias. São Paulo: Typ. de Hennies & Winiger, 1893. p.75-76. Poema integrante da série Segunda Parte
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VII. OCIDENTE

Com duas mãos — o Ato e o Destino —
DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu
Uma ergue o fecho trêmulo e divino
E a outra afasta o véu.

Fosse a hora que haver ou a que havia
A mão que ao Ocidente o véu rasgou,
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia
Da mão que desvendou.

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal
A mão que ergueu o facho que luziu,
Foi Deus a alma e o corpo Portugal
Da mão que o conduziu.

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