Dor e Desespero
Poemas neste tema
Flávio Villa-Lobos
Separação
Que estranho sentimento é este
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?
A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.
que nos arrebata ferozmente
- sangria aberta
em postas de sangue virtual -
vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?
A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.
736
Almeida Garrett
Rosa e Lírio
A rosaÉ formosaPor que lhe chamam — florDamorNão sei.
A florBem de amorÉ o lírioTem mel no aroma, —dorNa corO lírio.
Se o cheiroÉ fagueiroNa rosa,Se é de beleza — morPrimorA rosa,
No lírioO martírioQue é meuPintado vejo: — cor E ardor É o meu.
A rosa É formosa,Bem sei...E será de outros florDamor ..Não sei.
A florBem de amorÉ o lírioTem mel no aroma, —dorNa corO lírio.
Se o cheiroÉ fagueiroNa rosa,Se é de beleza — morPrimorA rosa,
No lírioO martírioQue é meuPintado vejo: — cor E ardor É o meu.
A rosa É formosa,Bem sei...E será de outros florDamor ..Não sei.
3 772
Fernanda Benevides
Dor
Não sei de onde vem esta dor pungente
dilacerando a alma.
Dói.
Sangra o coração.
—Será que sofro assim por querer-te
e me encontrar na solidão?...
dilacerando a alma.
Dói.
Sangra o coração.
—Será que sofro assim por querer-te
e me encontrar na solidão?...
646
Fernando Batinga de Mendonça
Poema do Homem Latino-Americano
Para Diego de Rivera,
em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.
teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.
estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.
um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.
teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.
estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.
um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
1 096
Emílio Moura
Toada dos que não Podem Amar
Os que não podem amar
estão cantando.
A luz é tão pouca, o ar é tão raro
que ninguém sabe como eles ainda vivem.
Os que não podem amar
estão cantando,
estão cantando,
e morrendo.
Ninguém ouve o canto que soluça
por detrás das grades.
estão cantando.
A luz é tão pouca, o ar é tão raro
que ninguém sabe como eles ainda vivem.
Os que não podem amar
estão cantando,
estão cantando,
e morrendo.
Ninguém ouve o canto que soluça
por detrás das grades.
1 283
Emílio Moura
Mar Alto
Que hei de fazer, se não me encontro,
se há tanto tempo estou perdido?
É o mar, meu pai: é o mar! E o mar está crescendo.
O mar é fundo, o mar é frio.
Meu pai, que silêncio,
que grave silêncio!
Por que não sorris?
Meu pai, estou perdido:
há tantos caminhos
no fundo do mar.
Como hei de votar?
se há tanto tempo estou perdido?
É o mar, meu pai: é o mar! E o mar está crescendo.
O mar é fundo, o mar é frio.
Meu pai, que silêncio,
que grave silêncio!
Por que não sorris?
Meu pai, estou perdido:
há tantos caminhos
no fundo do mar.
Como hei de votar?
1 141
Esther Moura
Piedosa Mutação
Pedi aos Deuses do fogo,
do Inferno e do Trovão,
queimassem os sonhos passados,
que estavam no coração.
Os Deuses tiveram dó,
e, vendo meu sofrimento,
queimaram os sonhos doridos,
no fogo mais violento!
As chamas subiram aos céus,
nas asas fortes do Vento!
São hoje rosas vermelhas,
brilhando no firmamento!
do Inferno e do Trovão,
queimassem os sonhos passados,
que estavam no coração.
Os Deuses tiveram dó,
e, vendo meu sofrimento,
queimaram os sonhos doridos,
no fogo mais violento!
As chamas subiram aos céus,
nas asas fortes do Vento!
São hoje rosas vermelhas,
brilhando no firmamento!
649
Eunice Arruda
Tema para a Abertura de um Novo Sentimento
Agora
a morte
da paz.
a morte
da paz.
613
Eunice Arruda
Notícias
As crianças morrem
Em piscinas
lagoas
no centro da cidade
o corte na testa
barrigas inchadas
costas afundadas
As crianças
elas também nos abandonam
Em piscinas
lagoas
no centro da cidade
o corte na testa
barrigas inchadas
costas afundadas
As crianças
elas também nos abandonam
745
Dora Ferreira da Silva
Haicai
As sombras amigas
pouco a pouco se adensaram:
agora verei.
Ó desesperados:
lamentáveis tartarugas
de pernas pro ar
pouco a pouco se adensaram:
agora verei.
Ó desesperados:
lamentáveis tartarugas
de pernas pro ar
1 531
Eunice Arruda
Hora Poética
Para esquecer esta
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
dor
— transformá-la em poesia
Para eternizar esta
dor
— transformá-la em poesia
964
Edimilson de Almeida Pereira
Magnificat
Porque não há ofício
espero desaparecer.
O vão desejado
poreja
(para aquele tempo,
talvez)
não para a secura
que implode a memória.
O céu virá limpo,
depois.
espero desaparecer.
O vão desejado
poreja
(para aquele tempo,
talvez)
não para a secura
que implode a memória.
O céu virá limpo,
depois.
1 018
Fernanda Teixeira
Nos Campos do Senhor
Nos campos do senhor,
aqui,
reflito,
penso:
vida
Nos campos do senhor,
aqui compartilho
lágrimas:
me obrigam a pedir:
Oh, tristeza!
Cadê teu fim?
aqui,
reflito,
penso:
vida
Nos campos do senhor,
aqui compartilho
lágrimas:
me obrigam a pedir:
Oh, tristeza!
Cadê teu fim?
831
Dimas Macedo
Espelho
O corpo avança
apalpo a busca
tateio o labirinto.
Em mim
a dor lacera,
dói a solidão.
Em tudo o ser
reage aos passos
pousados no silêncio:
concluo a exatidão
da minha ausência.
No espelho
a meta se assemelha,
reajo à magia, ao perfil,
afasto a sombra.
apalpo a busca
tateio o labirinto.
Em mim
a dor lacera,
dói a solidão.
Em tudo o ser
reage aos passos
pousados no silêncio:
concluo a exatidão
da minha ausência.
No espelho
a meta se assemelha,
reajo à magia, ao perfil,
afasto a sombra.
903
Donizete Galvão
Sim, One
O que sinto , a língua não fala.
Há uma dor que não tem nome.
Musgo de abismo que o sopro
da voz alcança e macera.
Dont let me be misunderstood.
I dont want to be alone.
Há uma dor que não tem nome.
Musgo de abismo que o sopro
da voz alcança e macera.
Dont let me be misunderstood.
I dont want to be alone.
872
Dimas Macedo
Subitamente
Subitamente
é preciso que os relógios parem,
porque tudo será pedra sobre pedra,
e tudo.
Não mais restarão
as tuas mãos que necessito,
as tuas palavras sem gestos
que eu procuro...
não mais restará o teu silêncio
que o meu silêncio pede,
pois as armas e os brasões
hão de florir por sobre a infância,
e tudo será rocha.
é preciso que os relógios parem,
porque tudo será pedra sobre pedra,
e tudo.
Não mais restarão
as tuas mãos que necessito,
as tuas palavras sem gestos
que eu procuro...
não mais restará o teu silêncio
que o meu silêncio pede,
pois as armas e os brasões
hão de florir por sobre a infância,
e tudo será rocha.
887
Claudia Moraes Rego
Viu só, meu anjo?
Viu só, meu anjo.
Eu não disse
que não ia doer?
Eu disse
que ia doer.
Eu: dói
Eu não disse
que não ia doer?
Eu disse
que ia doer.
Eu: dói
810
Albano Dias Martins
A Lâmina, o Punhal
Não haverá futuro — e haverá
somente esta lâmina
de quartzo lacerando
a carne amarrotada. E haverá
somente este punhal
de cinza cravado
entre almofadas inúteis
e lençóis vazios.
somente esta lâmina
de quartzo lacerando
a carne amarrotada. E haverá
somente este punhal
de cinza cravado
entre almofadas inúteis
e lençóis vazios.
1 186
Alexandre Marino
Esta Cidade
Esta cidade se debruça
sobre suas próprias feridas
e engole os homens
que por ela caminham
perdidos
nesta cidade se perdem
nascem, morrem e desesperam
os tempos felizes que não virão
ainda que todos os esperem
das janelas.
sobre suas próprias feridas
e engole os homens
que por ela caminham
perdidos
nesta cidade se perdem
nascem, morrem e desesperam
os tempos felizes que não virão
ainda que todos os esperem
das janelas.
935
Alexandre Marino
Águas
pés na enxurrada
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
883
Adriana Lustosa
Como uma Ovelha
Como uma ovelha
rondo os pastos da boa vontade
enquanto o pastor
saltando de estrela em estrela
propicia o absurdo:
o abismo que era mudo
engole meu grito.
rondo os pastos da boa vontade
enquanto o pastor
saltando de estrela em estrela
propicia o absurdo:
o abismo que era mudo
engole meu grito.
1 025
Adriana Lustosa
Compadre
eu disse as correntezas,
ao rio puro da vida: Passem
mas não passaram.
não desceram,
não foram
eu disse...
perdi todas as jangadas.
de cabeça cai nas aguas
se salvar um fio do arrepio que se fez minha vida
se salvar um fio...
volto para te contar.
ao rio puro da vida: Passem
mas não passaram.
não desceram,
não foram
eu disse...
perdi todas as jangadas.
de cabeça cai nas aguas
se salvar um fio do arrepio que se fez minha vida
se salvar um fio...
volto para te contar.
1 091
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Todo Dia
Todo dia
Pedaços de mim
Em esgotos.
Toda noite
A alma triste
E o desgosto.
No rio final
Afinal o encontro:
Esgotos, desgostos.
Pedaços de mim
Em esgotos.
Toda noite
A alma triste
E o desgosto.
No rio final
Afinal o encontro:
Esgotos, desgostos.
742
Antero Coelho Neto
Palavras a um Amigo Triste
Meu querido amigo triste,
eu nunca encontrei as palavras.
Digo, as palavras certas e verdadeiras,
porque as outras são ditas fáceis
e logo, sempre esquecidas.
Eu falo daquelas palavras amigas,
justamente significativas para o pranto
da dor maior quando sofrida.
Essas eu acho que não existem,
pois jamais puderam dizer-me.
eu nunca encontrei as palavras.
Digo, as palavras certas e verdadeiras,
porque as outras são ditas fáceis
e logo, sempre esquecidas.
Eu falo daquelas palavras amigas,
justamente significativas para o pranto
da dor maior quando sofrida.
Essas eu acho que não existem,
pois jamais puderam dizer-me.
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