Angústia
Poemas neste tema
Adélia Prado
Consanguíneos
Não há culpados para a dor que eu sinto.
É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor
como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse.
Se me ajudar um remédio a respirar melhor,
obteremos clemência, Ele e eu.
Jungidos como estamos em formidável parelha,
enquanto Ele não dorme eu não descanso.
É Ele, Deus, quem me dói pedindo amor
como se fora eu Sua mãe e O rejeitasse.
Se me ajudar um remédio a respirar melhor,
obteremos clemência, Ele e eu.
Jungidos como estamos em formidável parelha,
enquanto Ele não dorme eu não descanso.
1 222
Adélia Prado
Ícaro
Caminho sobre o planeta
como os equilibristas em suas bolas gigantes,
não se sai do lugar,
de si mesmo não se pode sair.
Aviões, dirigíveis, saltos de alta montanha
confrangem o coração.
O voo aborta sempre.
Ainda que em chão de lua,
todo destino é o chão.
como os equilibristas em suas bolas gigantes,
não se sai do lugar,
de si mesmo não se pode sair.
Aviões, dirigíveis, saltos de alta montanha
confrangem o coração.
O voo aborta sempre.
Ainda que em chão de lua,
todo destino é o chão.
1 620
Adélia Prado
Anjo Mau
O que desejo é o corpo
e não beijo.
O que desejo é o corpo
e não toco.
Quando vem a dádiva
já tenho o lábio torto de irrisão.
Vai morrer, digo à boca.
Vai secar, digo à mão.
Bela como um arcanjo,
uma força de danação
quer me perder.
e não beijo.
O que desejo é o corpo
e não toco.
Quando vem a dádiva
já tenho o lábio torto de irrisão.
Vai morrer, digo à boca.
Vai secar, digo à mão.
Bela como um arcanjo,
uma força de danação
quer me perder.
1 179
Adélia Prado
No Jardim
Sob sol quente, no jardim flamejante
a varejeira rebrilha, joia viva.
O poder de Deus me aterra em sua inércia.
Não vai impedir a mosca de botar seus ovos
sobre a língua defunta que Lhe cantou as obras.
Tremo, obrigada que sou
a ver Seu rosto sob vermes.
a varejeira rebrilha, joia viva.
O poder de Deus me aterra em sua inércia.
Não vai impedir a mosca de botar seus ovos
sobre a língua defunta que Lhe cantou as obras.
Tremo, obrigada que sou
a ver Seu rosto sob vermes.
1 284
Adélia Prado
Ofício Parvo
Quero limpar a boca e as entranhas
do sonho que me sujou
mais que se em vigília
as mesmas podres coisas me sujassem.
O tentador me cobra sem descanso
uma prova de fé.
Virgem, Porta do Céu, em meu favor,
pisa com teu pé de menina
a cabeça de cobra que ele tem,
me livra da tentação
de sofrer mais do que Deus.
do sonho que me sujou
mais que se em vigília
as mesmas podres coisas me sujassem.
O tentador me cobra sem descanso
uma prova de fé.
Virgem, Porta do Céu, em meu favor,
pisa com teu pé de menina
a cabeça de cobra que ele tem,
me livra da tentação
de sofrer mais do que Deus.
1 189
Adélia Prado
Deve Ser Amor
É preciso fé para cortar as unhas,
cuidar dos dentes como bens de empréstimo.
O cobrador invisível bate à porta.
Não durmo, ele também não.
Deve ser amor o que nos deixa unidos
neste avesso de mística.
Por orgulho de pobre
dou por bastante a pouca claridade
e prefiro a vigília
antes que ter repouso.
cuidar dos dentes como bens de empréstimo.
O cobrador invisível bate à porta.
Não durmo, ele também não.
Deve ser amor o que nos deixa unidos
neste avesso de mística.
Por orgulho de pobre
dou por bastante a pouca claridade
e prefiro a vigília
antes que ter repouso.
1 161
Adélia Prado
Paixão de Cristo
Apesar do vaso
que é branco,
de sua louça
que é fina,
lá estão no fundo,
majestáticas,
as que no plural
se convocam:
fezes.
Para que me insultem
basta um grama
de felicidade:
‘baixe o tom de sua voz,
não acredite tanto
em seu poder’.
O martírio é incruento
mas a dor é a mesma.
que é branco,
de sua louça
que é fina,
lá estão no fundo,
majestáticas,
as que no plural
se convocam:
fezes.
Para que me insultem
basta um grama
de felicidade:
‘baixe o tom de sua voz,
não acredite tanto
em seu poder’.
O martírio é incruento
mas a dor é a mesma.
1 233
Adélia Prado
A Carne Simples
Na cama larga e fresca
um apetite de desespero no meu corpo.
Uivo entre duas mós.
Uivo o quê?
A mão de Deus que me mói e me larga na treva.
Na boca de barro, barro.
Quando era jovem
pedia cruz e ladrões pra guarnecer meus flancos.
Deus era fora de mim.
Hoje peço ao homem deitado do meu lado:
me deixa encostar em você
pra ver se eu durmo.
um apetite de desespero no meu corpo.
Uivo entre duas mós.
Uivo o quê?
A mão de Deus que me mói e me larga na treva.
Na boca de barro, barro.
Quando era jovem
pedia cruz e ladrões pra guarnecer meus flancos.
Deus era fora de mim.
Hoje peço ao homem deitado do meu lado:
me deixa encostar em você
pra ver se eu durmo.
1 319
Adélia Prado
Mulher Querendo Ser Boa
Me toldam horas de cinza
rachadas de imprecação.
Ó Deus, não me humilhe mais
com esta coceira no púbis.
Responde-me sobre os mortos,
se mamam,
nesta lua visível em pleno dia,
do seu leite de sonho.
rachadas de imprecação.
Ó Deus, não me humilhe mais
com esta coceira no púbis.
Responde-me sobre os mortos,
se mamam,
nesta lua visível em pleno dia,
do seu leite de sonho.
1 013
Adélia Prado
A Filha da Antiga Lei
Deus não me dá sossego. É meu aguilhão.
Morde meu calcanhar como serpente,
faz-se verbo, carne, caco de vidro,
pedra contra a qual sangra minha cabeça.
Eu não tenho descanso neste amor.
Eu não posso dormir sob a luz do seu olho que me fixa.
Quero de novo o ventre de minha mãe,
sua mão espalmada contra o umbigo estufado,
me escondendo de Deus.
Morde meu calcanhar como serpente,
faz-se verbo, carne, caco de vidro,
pedra contra a qual sangra minha cabeça.
Eu não tenho descanso neste amor.
Eu não posso dormir sob a luz do seu olho que me fixa.
Quero de novo o ventre de minha mãe,
sua mão espalmada contra o umbigo estufado,
me escondendo de Deus.
1 656
Adélia Prado
Estreito
Agosto, agosto,
os torrões estão leves,
ao menor toque se desmancham em pó.
Estrela de agosto,
baça.
Céu que se adensa,
vento.
Papéis no redemoinho levantados,
esta sede excessiva
e ciscos.
Um homem cava um fosso no quintal,
uma ideia má estremece as paredes.
os torrões estão leves,
ao menor toque se desmancham em pó.
Estrela de agosto,
baça.
Céu que se adensa,
vento.
Papéis no redemoinho levantados,
esta sede excessiva
e ciscos.
Um homem cava um fosso no quintal,
uma ideia má estremece as paredes.
1 262
Adélia Prado
Fragmento
Bem-aventurado o que pressentiu
quando a manhã começou:
não vai ser diferente da noite.
Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita
e mesmo assim anunciou paciente ao meio-dia:
algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,
um vento bom entra nessa janela.
quando a manhã começou:
não vai ser diferente da noite.
Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita
e mesmo assim anunciou paciente ao meio-dia:
algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,
um vento bom entra nessa janela.
847
Adélia Prado
Anunciação Ao Poeta
Ave, ávido.
Ave, fome incansável e boca enorme,
come.
Da parte do Altíssimo te concedo
que não descansarás e tudo te ferirá de morte:
o lixo, a catedral e a forma das mãos.
Ave, cheio de dor.
Ave, fome incansável e boca enorme,
come.
Da parte do Altíssimo te concedo
que não descansarás e tudo te ferirá de morte:
o lixo, a catedral e a forma das mãos.
Ave, cheio de dor.
1 782
Adélia Prado
Para Tambor E Voz
Viola violeta violenta violada,
óbvia vertigem caos tão claro,
claustro.
Lápides quentes sobre restos podres,
um resto de café na xícara e mosca.
óbvia vertigem caos tão claro,
claustro.
Lápides quentes sobre restos podres,
um resto de café na xícara e mosca.
1 140
Carlos Drummond de Andrade
A Carne É Triste Depois da Felação
A carne é triste depois da felação.
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
após esse tremor? Só esperar
outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já se dilui o orgasmo na lembrança
e gosma
escorre lentamente de tua vida.
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
após esse tremor? Só esperar
outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já se dilui o orgasmo na lembrança
e gosma
escorre lentamente de tua vida.
1 163
Carlos Drummond de Andrade
No Exemplar de Um Velho Livro
Neste brejo das almas
o que havia de inquieto
por sob as águas calmas!
Era um susto secreto,
eram furtivas palmas
batendo, louco inseto,
era um desejo obscuro
de modelar o vento,
eram setas no muro
e um grave sentimento
que hoje, varão maduro,
não punge, e me atormento.
o que havia de inquieto
por sob as águas calmas!
Era um susto secreto,
eram furtivas palmas
batendo, louco inseto,
era um desejo obscuro
de modelar o vento,
eram setas no muro
e um grave sentimento
que hoje, varão maduro,
não punge, e me atormento.
1 957
Carlos Drummond de Andrade
Noite de Outubro
Lua no apogeu.
Gama do Tucano brilha exageradamente.
O Zodíaco pesa-me sobre a cabeça,
rastro de pecado, crime que não perpetrei.
Que fiz para cercar-me de tantas, tamanhas constelações
atentas ao nascimento e à morte deste corpo,
como se ele fosse o Arquiduque do Mundo
e não esta lenta vírgula rastejante
no chão noturno da existência?
Gama do Tucano brilha exageradamente.
O Zodíaco pesa-me sobre a cabeça,
rastro de pecado, crime que não perpetrei.
Que fiz para cercar-me de tantas, tamanhas constelações
atentas ao nascimento e à morte deste corpo,
como se ele fosse o Arquiduque do Mundo
e não esta lenta vírgula rastejante
no chão noturno da existência?
1 062
Carlos Drummond de Andrade
Mortos Que Andam
Meu Deus, os mortos que andam!
Que nos seguem os passos
e não falam.
Aparecem no bar, no teatro, na biblioteca.
Não nos fitam,
não nos interrogam,
não nos cobram nada.
Acompanham, fiscalizam
nosso caminho e jeito de caminhar,
nossa incômoda sensação de estar vivos
e sentir que nos seguem, nos cercam,
imprescritíveis. E não falam.
Que nos seguem os passos
e não falam.
Aparecem no bar, no teatro, na biblioteca.
Não nos fitam,
não nos interrogam,
não nos cobram nada.
Acompanham, fiscalizam
nosso caminho e jeito de caminhar,
nossa incômoda sensação de estar vivos
e sentir que nos seguem, nos cercam,
imprescritíveis. E não falam.
1 405
Carlos Drummond de Andrade
Por Quê?
Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?
1 698
Carlos Drummond de Andrade
Deus E Suas Criaturas
Quem morre vai descansar na paz de Deus.
Quem vive é arrastado pela guerra de Deus.
Deus é assim: cruel, misericordioso, duplo.
Seus prêmios chegam tarde, em forma imperceptível.
Deus, como entendê-lo?
Ele também não entende suas criaturas,
condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte.
Quem vive é arrastado pela guerra de Deus.
Deus é assim: cruel, misericordioso, duplo.
Seus prêmios chegam tarde, em forma imperceptível.
Deus, como entendê-lo?
Ele também não entende suas criaturas,
condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte.
1 470
Carlos Drummond de Andrade
Perguntas Em Forma de Cavalo-Marinho
Que metro serve
para medir-nos?
Que forma é nossa
e que conteúdo?
Contemos algo?
Somos contidos?
Dão-nos um nome?
Estamos vivos?
A que aspiramos?
Que possuímos?
Que relembramos?
Onde jazemos?
(Nunca se finda
nem se criara.
Mistério é o tempo,
inigualável.)
para medir-nos?
Que forma é nossa
e que conteúdo?
Contemos algo?
Somos contidos?
Dão-nos um nome?
Estamos vivos?
A que aspiramos?
Que possuímos?
Que relembramos?
Onde jazemos?
(Nunca se finda
nem se criara.
Mistério é o tempo,
inigualável.)
2 164
Carlos Drummond de Andrade
Sonetilho do Falso Fernando Pessoa
Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.
Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.
Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,
eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.
Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.
Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,
eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
1 450
Carlos Drummond de Andrade
Resultado
No emblema do amor
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.
Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
o fogo
no bloco da vida
a fenda
na blindagem do medo
o fato.
Íntimos badalos balem
vergonha tristeza asco
blen blen blen
orragia.
1 001
Carlos Drummond de Andrade
Campeonato de Pião
Bota parafuso no bico do pião.
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
1 177
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